
«[…] Há uns anos, no Algarve, em tempo que havia mais árvores em redor da minha casa, alfarrobeiras, oliveiras, amendoeiras, figueiras, mato e flores silvestres, num espraiar que se alongava para além do visível, ao final da tarde começou a chuviscar, a tal chuvinha miúda. Vinha uma neblina, a subir do mar, que se juntava à chuva e a ela se abraçava como dois corpos unidos, cúmplices, amantes. O silêncio era total. O sortilégio, também. Os tons de verde matizados da paisagem tomaram cores irreais. Aliás, tudo se tornou irreal naquele panorama singular onde a mão da natureza é única e é mestra. Fui colocar-me na ponta do patamar, lá ao fundo, onde o olhar vai mais longe, a admirar, a deslumbrar-me, a extasiar-me com aquele momento. Sozinha, num silêncio que nada nem ninguém quebrou. Sem querer, chorei. De mansinho. De emoção. Segura de que passava por qualquer coisa única na minha vida. E acertei. Senti Deus diante de mim com paleta e pincel. Foi sublime, inesquecível. Naquele instante, soube que a magia não iria repetir-se. E nunca mais se repetiu. Continua no meu olhar esse momento divino. Para sempre. Não tive dúvidas: tinha perante os meus olhos uma pintura de Deus.»
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Edições Vela Branca