
Tradição que se perde no tempo, realiza-se no dia 13 de Dezembro de cada ano, a popular Feira dos Capões de Freamunde, em Paços de Ferreira (a cerca de trinta quilómetros do Porto), data também dedicada a Santa Luzia, que se venera nesse mesmo dia, como só a fé do povo o sabe fazer, na sua Capelinha de Santo António, situada no terreiro da feira.
Tanto quanto se sabe, a capela, um primitivo oratório de ermitão, a partir da constituição da Confraria, em 1629, adquiriu notável importância, com o papa Urbano VIII a conceder diversas indulgências e privilégios aos seus membros. Em 1936 é transferida para outro lugar, embora a manter-se no terreiro, sem que a traça original tenha sido alterada, com a imagem de Santa Luzia, no seu altar, a atrair desde sempre a veneração dos fiéis
Romaria rural antiquíssima, ligada pelo nome à advogada dos olhos, outrora com promessas de «olhos vivos» (animais vivos), encontra o seu ponto alto na sugestiva Feira dos Capões, cuja instituição oficial remonta a 1719, por provisão do rei D. João V, datada de 3 de Outubro, realizando-se a feira pela primeira vez no dia 13 de Outubro desse mesmo ano.
Este decreto terá tido, tão-só, a intenção de acautelar os interesses da Confraria de Santo António, à qual pertencia, antigamente, o terreiro onde se realizava a feira dos famosos capões – frangos capados por meados de Março, com pouco mais de três meses e dois quilos de peso, amputados dos seus órgãos reprodutores, de modo a que a sua carne atinja um refinado e inigualável sabor. O seu peso varia entre os três e os sete quilos, sendo os de maior valia os de penas avermelhadas, enquanto os de plumagem negra ou pedrês possuem um valor menor.
O costume medieval de capar os frangos, de que há registos em documentos datados do século XV, era, segundo parece, já prática corrente em Freamunde séculos antes da sua legalização. É de supor que por essa época a prática de capar os frangos não se limitasse somente a Freamunde, onde, supostamente, se procedia, nesses tempos, sobretudo à sua comercialização. Hoje já assim não é. Segundo informação, há quem se entregue à tarefa de capar à roda de quatrocentos frangos por ano…
Da «operação cirúrgica», dir-se-à arriscada e complicada, e que só as mãos experientes serão capazes de um verdadeiro milagre. Se a «operação» for um êxito, tudo bem. Mas se assim não for, os capões passam a ser apelidados de «rinchões», o que não é de todo agradável nem para os bichos, nem para as outras aves que com eles convivem, uma vez que se tornam agressivos, e muito menos para quem os compra – por engano ou enganados.
Se a «cirurgia» resultar imperfeita, o animal, como não é um galo, mas também não é um capão, vá de insurgir-se contra tudo e contra todos, tornando-se numa espécie de galinha, a cantar como um galo, infeliz e desadaptado. Outras vezes, os animais tornam-se nuns seres tristonhos, embora bonitos e vistosos, passivos, incapazes de defender-se, se bem que engordem sem necessitar de rações especiais, copiando a postura das galinhas, em cacarejos e assustadiços, chegando ao ponto de se deixar bicar por elas. Quando assim é, o seu valor comercial baixa bastante. A sua carne tem as características de outro galináceo qualquer, a deixar enganar facilmente o comprador, pois, na aparência, ninguém dirá que não se trata de um verdadeiro capão. A única maneira de descobrir se o bicho é ou não um «impostor», consiste em apertá-lo por cima do bico: a certeza vem com uma valente bicada na mão de quem fez a experiência, não restando, então, qualquer dúvida sobre a sua «verdadeira identidade».
Para compensar estes deslizes e para orgulho e honra dos Freamundenses, além de diversos historiadores e de cronistas famosos, nomes como D. Francisco Manuel de Melo e o próprio Gil Vicente cantaram e elogiaram o capão como uma iguaria requintada e rara, muito frequente nos repastos e banquetes reais, a pedir meças às outras aves que se apresentavam à mesa do rei: o faisão, o pavão, a perdiz ou a galinhola.
Manifestação das mais típicas, populares e concorridas na região de Entre Douro e Minho, à Romaria de Santa Luzia ou Feira dos Capões, ciclicamente mantida nesta data, acorrem em apreciável número os «galinheiros», que não se limitam a apresentar aos compradores somente os famosos capões, mas toda uma variedade de aves destinadas à capoeira – sobretudo à panela, que o Natal está à porta: perus, em barulhentos e enormes bandos, também eles muito requisitados, galinhas, patos, pombos, codornizes – e, de vez em quando, com um pouco de sorte, até faisões.
Os forasteiros, a pensarem na Consoada, são aos milhares, vindos de todos os pontos do país e mesmo de Espanha, particularmente da Galiza. A feira começa pela madrugada, aquecida por fogueiras, para afastar o frio de Dezembro, ali aparecendo também um pouco de tudo: gado cavalar, suíno e bovino, calçado, roupas, brinquedos, artigos de ourivesaria, alfaias agrícolas, frutos secos, loiças, bugigangas, sem que faltem as diversões e as barracas de comes e bebes. Em simultâneo, decorre uma semana de gastronomia, a terminar com um jantar onde é eleito o melhor capão confeccionado por restaurantes locais.
Resta acrescentar que a gente do Norte, em número significativo, prefere apresentar ao almoço do dia de Natal o galo recheado e assado, em vez do tradicional peru – principalmente se o galo for o afamado capão de Freamunde.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, vol. VIII
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