
A apanha da azeitona, por lugarejos, aldeias e vilas, sobretudo se a safra é pequena, continua, como já foi referido, a processar-se por varejo manual, como antigamente, embora hoje simplificada por acção mecânica. Mas, se do presente pouco há a dizer, do passado não. Por isso se lembra aqui algumas das tradições de outros tempos das quais restam ainda alguns rituais que teimam em sobreviver.
Na Beira Baixa os «azeitoneiros» eram chamados diariamente para a colheita da azeitona pelo toque de búzios. Ao chamamento reuniam-se homens e mulheres munidos dos respectivos apetrechos indispensáveis à safra: escadas; cambos ou cambãos (pau com gancho para apanhar os frutos); joeiras ou cirandas (espécie de peneiras para separar o fruto das folhas); sacos; panais (panos que se estendem junto às oliveiras onde caem as azeitonas) e o varejão (vara grande para varejar as oliveiras), assim se dirigindo para os olivais, levando também os cestos da merenda. A hora do almoço e do jantar tal como o cessar da actividade diária eram, igualmente, anunciados pelo toque do búzio.
Terminada a safra o proprietário do olival ou olivais obsequiava então – como se faz na Beira-Baixa ainda hoje – os ranchos com uma refeição, geralmente uma ceia composta por «uma sopa de feijão grande com hortaliça» (uso que permanece), «caldeirada de bacalhau» (hoje substituída por um guisado de borrego ou de cabrito) e «papas de carolo», nunca faltando «as filhoses e o vinho» – tudo isso mantido actualmente de um modo mais restrito e familiar.
Acabada a refeição, organizava-se uma pequena festa com bailarico, que, por vezes, continua a efectuar-se. Por essa época, finais dos anos sessenta, sempre que aparecia uma visita no olival levada pelo patrão, principalmente quando se tratava de pessoa de certa posição social, uma das raparigas do grupo, escolhida entre as menos tímidas, munia-se de um raminho de oliveira com algumas azeitonas, misturado com flores silvestres e oferecia-o ao recém-chegado, quase sempre acompanhado com uma quadra que lhe dissesse respeito. No caso de a visita aparecer no lagar, acontecia outro preceito: com um pano dirigia-se à pessoa e, simbolicamente, limpava-lhe os sapatos. Usos que já lá vão.
Quer na ida para o olival, quer no regresso, e durante a apanha da azeitona, não faltavam também os descantes – cantigas lembradas e recuperadas hoje pelos ranchos folclóricos. Aqui fica uma delas: «Varejai, varejadores/Apanhai, apanhadeiras/Apanhai bolinhas d’oiro/Que caem das oliveiras». E ainda esta: «A oliveira do adro/Tem a folha revirada/Que lha revirou o vento/Numa manhã de geada» (ambas do Teixoso, Beira Baixa).
Em Ançã (Beira Litoral), onde chamavam «cabras» às azeitonas que caíam fora dos panais de serapilheira, hoje substituídos pelos «panões», feitos de outros materiais – que cobrem a área total ao redor das oliveiras, sendo por isso menor o trabalho das mulheres –, os apanhadores cumpriam o uso de «penhorar» quem passava pelo olival. Uma das raparigas dirigia-se à pessoa levando um raminho de oliveira com algumas azeitonas agarradas e dizia-lhe uma quadra. Esta, no caso de ser um homem: «Aqui vai esta «penhora» /Que da minha mão se oferece/Ela não é como eu quero/Porque o senhor mais merece».
A pessoa respondia por vezes também em verso, não deixando de oferecer algum dinheiro que os apanhadores iam juntando, para no final da safra oferecerem um presente ao patrão. Nesta altura, formava-se um cortejo com música, a rapariga mais bonita do rancho à frente, seguindo até à casa do lavrador. À chegada estalavam os foguetes e oferecia-se o tradicional presente que consistia num cartucho com café, outro com chá, um outro com açúcar, biscoitos, amêndoas e azeitonas, levado num tabuleiro forrado com uma toalha de renda enfeitada com raminhos de oliveira.
Chamava-se ao ritual «penhorar o patrão». Em troca, depois dos abraços, o grupo entrava na casa, sendo-lhe servida uma refeição de sopa, bacalhau com batatas e vinho branco e tinto. Os trabalhadores sentavam-se à mesa, enquanto eram servidos pelos patrões, mulher e marido – a lembrar as Saturnais romanas, quando os escravos eram servidos à mesa pelos seus amos. A festa terminava com um bailarico que durava até altas horas, aberto pelo lavrador que escolhia para seu par uma das raparigas do rancho. Este cerimonial festivo repetia-se noutras localidades.
Uma outra tradição que se mantém, pelo menos na Beira Baixa e na Estremadura, diz respeito às «tibornas», manjar particularmente apreciado na época da safra da azeitona, sobretudo quando os lagares começam a «andar» (trabalhar), recordando a importância cultural e económica que lhes coube por tempos passados, quando grandes lagares de azeite funcionavam em pleno pelas quintas, hoje na sua maioria arruinados, companheiros de desdita de velhos e abandonados moinhos.
As «tibornas» mais não são do que fatias de pão aquecido na própria caldeira do lagar, colocadas num prato, polvilhadas com açúcar e regadas depois com azeite novo. O nome «tiborna» aparece também ligado à doçaria («tibornas» de Vila-Viçosa) ou feitas em casa, quando se coze pão, com este bem quentinho, mal sai do forno, molhado num prato com azeite novo, alhos e sal. Quem gosta junta-lhe um pouco de açúcar.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”,Vol.VIII
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