O menino dava voltas e mais voltas dentro da cama, sem conseguir dormir. Ora cerrava os olhos com muita força e tapava o rosto com a dobra do lençol, ora atirava o lençol para trás, num gesto repentino, e se punha de olhos muito abertos a investigar a escuridão do quarto.
- Era tão bom nunca ser preciso dormir. Se pudesse, ficava a noite inteira com a luz acesa! – dizia ele a conversar com os botõezinhos do pijama. – Não gosto nada do escuro. Não gosto nada da noite!
A noite, que estava dentro do quarto do menino, ficou triste ao ouvir as suas palavras: «Se ele soubesse como sou sua amiga!» – pensou ela muito desgostosa. E aproveitando o momento em que a Lua se escondeu atrás de uma nuvem que passava, a noite aproximou-se mais da cama do menino.
- É verdade que não gostas de mim? – perguntou ela numa voz tão mansa como o sopro da brisa sobre as pétalas das flores.
Ao ouvir aquela voz, o menino abriu ainda mais os grandes olhos negros e olhou ainda com mais atenção o escuro do quarto.- Quem está a falar comigo? – interrogou ele.
- Sou eu, a Noite.
- A noite?! – exclamou o menino sentando-se muito depressa na cama. – Mas a noite não fala. A noite é quando está escuro e eu tenho de dormir!
- Enganas-te. Eu falo. Não estás a ouvir a minha voz?
- Estou. – respondeu o menino cheio de espanto. – Mas…mas eu não gosto de ti, pronto! – replicou ele.
- É pena, porque eu sou muito tua amiga. – disse a noite. – Quando o dia termina, venho zelar pelo teu descanso. Sou eu quem faz repousar o teu corpo e o teu espírito depois de um dia de brincadeira. O sono nocturno é muito necessário ao equilíbrio das pessoas. – acrescentou ela.
- Mas eu não sou uma pessoa crescida! – protestou o menino.
- Por isso mesmo precisas de mais horas de sono para te poderes desenvolver e crescer com saúde. – explicou a noite.
- Mas eu não gosto de ti. Tens uma cor preta e o meu quarto fica escuro! – teimou o menino sem se deixar convencer.
Perante a sua obstinação, a noite achou que o melhor seria tentar uma espécie de jogo. Talvez assim o menino mudasse de opinião. Então, com ternura e paciência, murmurou, na sua voz mansa como o sopro da brisa:
- Lembra-te que as andorinhas são negras e são as aves do céu. Que os teus olhos são negros e, para a tua mãe, são os olhos mais lindos do mundo…
- Isso são coisas boas. – concordou o menino.
- Pois são. – disse a noite. – Mas há muitas outras coisas importantes e boas e que são negras.
- Diz mais coisas.
- Digo que as amoras negras são as mais doces. Que o fumo é negro, quando o forno está a cozer o pão…
- Tens razão. – concordou o menino.
- Que é negra a tinta que imprime nos livros as histórias que lês e de que tanto gostas. Que é negro o carvão que alimenta a fornalha onde os homens o transformam em fonte de calor…
- Pois é. – disse outra vez o menino.
- Que é negro o quadro da escola onde aprendes a escrever e a fazer contas. Que são negros os grilos cujo canto embala o sono das searas nas noites de verão…
- Que é negro o meu cão Farrusco! – riu o menino, por fim, entrando no jogo.
- Ora aí está! – riu a noite com ele, num riso mavioso como o marulhar das ondas na orla da praia quando o mar adormece.
- Afinal, já gosto de ti! – disse o menino.
- Ainda bem. Fico muito contente. – respondeu a noite, cheia de satisfação. – Um dia, quando fores mais crescido, saberás outras coisas a meu respeito.
- Quando estudar naqueles livros grandes, com muitas folhas?
- Sim, quando estudares nesses livros, ficarás a conhecer-me ainda melhor.
- Tenho tanto sono! – murmurou o menino, deitando-se e puxando a roupa para si.
- Então, dorme, que o dia não tarda a chegar.
- Agora já sou teu amigo! – disse ainda o menino antes de adormecer.
De mansinho, pé ante pé, a noite afastou-se da cama do menino. Em seguida, muito lentamente, levantou as asas negras cheias de estrelas e voou pela janela do quarto. Cá fora, suspirou e sorriu: «Pronto, já posso partir descansada. A Madrugada não tarda a chegar e eu acabo de ganhar um novo amigo!»
E a noite voltou a suspirar, e lá foi, no voo silencioso das suas asas negras e brilhantes, porque eram horas de abalar para o outro lado do mundo onde ela já conhecia outros meninos de quem era amiga.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Seis Histórias numa História de Todas as Cores”
Ed. CEBI (Fundação José Álvaro Vidal)
Ilustração: António Pimentel
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