
Festividade mais pagã do que litúrgica, apesar do nome, a Festa do Menino Jesus em Vila Chã de Braciosa, «ninguém sabe explicar como começou». Os idosos lembram-se dela «desde sempre», como se lembravam os seus pais e os seus avós. De geração em geração, ei-la que chega, pontualmente, no dia 1 de Janeiro à pequena aldeia de Miranda do Douro, Bragança (Trás-os-Montes e Alto-Douro).
A primeira fase do festejo, a cargo dos «mordomos», por preceito um rapaz e duas raparigas, todos solteiros, tem início no dia de Natal, quando convidam outros jovens para irem cortar a lenha destinada à grande fogueira que será acesa no dia 1 de Janeiro ao início da tarde. Para trazer a carrada de lenha até à aldeia levam um carro de bois, sem os animais, que depois de carregado é puxado à força de braços pelo grupo, a cumprir a praxe, utilizando para isso cordas grossas com pedaços de madeira nas pontas, para facilitar a tarefa.
Durante os dias que se seguem procede-se ao ensaio dos figurantes, três rapazes: a Velha, o Bailador e a Bailadeira, que vão representar, no dia de Ano Novo, as personagens principais da festa.
Pelas seis horas da manhã, tem lugar a alvorada, com foguetes e gaiteiros a darem a volta à aldeia. Pelas nove horas forma-se o grupo: gaiteiros, «mordomos», Velha, Bailador e Bailadeira. É chegada a hora de começar o peditório. As três personagens dançam, então, à porta da igreja e de cada casa a «moda da bicha». Segundo os naturais de Vila Chã, a dança «vem do tempo antes dos celtas quando esses povos faziam sacrifícios em altares de pedra, havendo ainda altares desses por aqui perto».
Há quem ofereça dinheiro, chouriças, partes do porco e vinho. Para o recolher o «mordomo» transporta consigo o «cântaro», que comporta de quinze a vinte litros. As «mordomas» levam sacas ou cestos destinados a recolher outras dádivas. O grupo aceita tudo o que lhe dão, embora a Velha tenha por costume «pedir a chouriça».
Esta personagem veste saia e casaco de pardo com rendas feitas à mão, leva uma «caiata» (bordão de madeira encurvado no cimo), onde estão presas algumas bexigas de porco cheias de ar (que pressiona para que as pessoas façam a oferta), uma cruz de cortiça queimada pendurada ao peito, enfiada num colar de bogalhos (para enfarruscar aqueles que não contribuem com a «chouriça») e um chapéu enfeitado com uma espécie de palmitos. Às costas transporta a «bota» com vinho, feita de cabedal, a lembrar um fole, com um buraco fino por onde esguicha o vinho sob pressão dos dedos, que dá a beber a quem oferece a «esmola» ou a quem lho pede: «dá-me lá uma pinga da tua “bota”!»
Pardo é o nome do tecido, praticamente em desuso, mas utilizado nos trajos dos ranchos folclóricos, feito de lã de ovelha e «batido constantemente nos moinhos de água», dos quais «existe apenas um, numa aldeia próxima, que faz ainda esse trabalho».
O Bailador vai vestido tradicionalmente de pauliteiro: saia feita de lenços dobrados, de várias cores (os «lenços chineses», como lhes chamam), blusa, xaile e chapéu com fita e palmitos. A Bailadeira veste saia preta de pardo, blusa (antigamente muito bordada à mão) e na cabeça um lenço «chinês» e um chapéu também com fita e palmitos. Travestido de mulher, enche os seios com farinha ou farelos.
Sendo uso em Vila Chã de Braciosa, durante a celebração das missas, as mulheres assistirem ao culto ocupando metade do templo a partir da porta, enquanto a parte da frente é reservada aos homens, no dia de missa de festa, a Bailadeira, de acordo com o preceito, vai juntar-se ao grupo das mulheres.
O peditório dura até à hora da missa (treze horas), celebrada na igreja matriz, onde o padre dá então a beijar aos fiéis a imagem do Menino, como acontece na missa dos dias de Natal e de Reis. No final da celebração litúrgica realiza-se o «leilão das chouriças».
Segue-se o almoço feito pelas «mordomas e destinado apenas ao grupo, idêntico ao de todos os habitantes de Vila Chã: o tradicional prato de «feijão com cascas», a ementa cerimonial festiva deste dia. Trata-se de uma sopa confeccionada com feijão seco com casca, isto é, metido nas vagens (semeado principalmente para esta data), cortado em bocados, batatas, cenouras, carnes e orelha de porco e «bocha» ou «bocheira», uma variedade de chouriço onde entram as miudezas do porco: bofe, coração, fígado e algumas gorduras. Depois de pronta junta-se à sopa o «butelo», chamado ainda «bulho», «butilho» ou «butelho», o afamado «chouriço de ossos», cortado aos pedaços, feito com o espinhaço, pontas das costelas e, por vezes, com o rabo do porco «tudo cortado miudinho».
Segue-se o arraial, com o acender da grande fogueira no largo da igreja, que chega a arder dois ou três dias, conforme a lenha, e o bailarico pela noite dentro, enquanto os figurantes continuam a pedir a «esmola» a quem aparece na Festa do Menino.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. I
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros (do livro: a «Velha», a «Bailadeira» e o «Bailador»)
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