
Acontecia de vez em quando. Acontecia quanto menos se esperava. Até que começou a esperar-se que acontecesse.
Inesperadamente, do lado de fora da sala de aula, o rosto do garoto aparecia emoldurado pelo aro da janela. Os alunos ficavam desassossegados, desatentos às palavras da professora. Olhos fitos na janela aguardavam o início das momices, dos esgares, das caretas, das «palhaçadas» que costumavam presenciar, quais espectadores sentados numa plateia diante de um palco onde um único actor, por mímica, era o ponto central de toda uma encenação que os fascinava pela ousadia. Pelo desafio. Pela «arte» de os fazer rir.
Ora escondia o rosto, baixando-se, para logo reaparecer em «cena». Ora entortava os olhos ou fazia súplicas com as mãos olhando o céu. Sempre sem uma palavra. Conforme aparecia, assim desaparecia do recorte da janela.
Mais de uma vez a professora saiu, interrompendo a aula, dirigindo-se ao recreio para onde davam as janelas da sala. Mas nem por uma vez conseguiu apanhar o garoto. Vê-lo, sequer. Ao aperceber-se de que a professora ia no seu encalço, ei-lo a desaparecer como o fumo.
Quem era? Conheciam-no? Era colega? Viam-no no recreio? Pertenceria a outra escola? Que não, que não sabiam. Não o conheciam. No recreio também não o viam. Talvez fosse de outra escola, sim.
Num desses dias de «espectáculo», um dos alunos, sentado mais perto da janela, gritou-lhe: «Macaco!» O outro riu. Fez mais umas momices e, tal como apareceu, desapareceu, lesto na manha, na perspicácia e no atrevimento, como se o chão o tivesse engolido.
A professora fez algumas diligências no sentido de saber quem era o garoto. De nada resultou.
Habituados já à presença do «actor», os alunos, para arrelia da professora, começaram por olhar, de vez em quando, a janela à espera de verem o rosto conhecido. Pouco atentos. Na expectativa. Na esperança de se divertirem. De terem o ansiado momento de pausa sempre apetecida. Mas nem sempre acontecia. Quem sabe se o «actor» não teria agendadas outras actuações?
Aconteceu certa manhã. A janela estava aberta quando o rosto do garoto assomou, repentinamente, por ela. Instalou-se o silêncio entre os alunos. O rosto que viam não era o mesmo. Onde a liberdade do riso? Das momices? Da traquinice?
Desta vez, do lado de fora da janela, o garoto olhou as outras crianças e falou. Pela primeira vez falou. Voz soluçada, molhada de lágrimas na alma e no rosto: «Que querem vocês, hein?! Acabou-se o amendoim, ouviram? Acabou-se o amendoim!»
A turma não riu. Surpresos, olhavam o garoto com fama de engraçado. As coisas tinham mudado. Havia infelicidade naquele rosto e naquelas palavras. A professora levantou-se. Correu para a porta. Tentou chamar a criança. Mas aqueles olhos, brilhantes de lágrimas mal contidas, rápidos, tal como haviam surgido, assim desapareceram do recorte da janela. A professora não conseguiu localizá-los.
Desde esse dia, o «actor» desconhecido não voltou a interromper a aula. Anos volvidos, alguns dos ex-alunos continuam a guardar na memória dos olhos as suas momices e as lágrimas com que se despediu.
Soledade Martinho Costa
Do livro Crónicas de Porcelana
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