Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

SÃO MARTINHO - CASTANHAS E A OUTRA FACE DO MOSTO

 

 
Chamado o Apóstolo das Gálias, São Martinho ficou conhecido pela sua extrema caridade. A ele pertence o episódio de Amiens que relata ter-se apeado certa manhã do seu cavalo, no rigor do Inverno, para rasgar com a espada e repartir com um mendigo a sua capa, que trazia sobre os ombros. Mais tarde o mendigo ter-lhe-à aparecido em sonhos como sendo Jesus Cristo.
 
Morre em Candes (França) a 11 de Novembro de 397, com oitenta anos, tendo o seu corpo sido levado para Tours e sepultado no cemitério à entrada da cidade – onde foi ordenado e sagrado bispo por Santo Hilário em 371.
 
Ao longo dos séculos foi considerado o santo mais popular da Europa Ocidental. Durante a Idade Média eram constantes as peregrinações ao seu túmulo, só comparáveis às que eram feitas aos sepulcros dos apóstolos em Roma, tal a fama dos seus milagres. Não se lhe conhece, todavia, qualquer ligação ao vinho. A sua celebração resultará, supostamente, da apropriação ou réplica cristã das festividades greco-romanas dedicadas a Baco, deus romano e grego do vinho, que tinham lugar em Roma e na Grécia por altura da abertura nas adegas do vinho novo (9 de Outubro).
 
 
 
 
CASTANHAS
 
No dia 11 de Novembro, se o tempo o permite, continua a ser costume em certas localidades as pessoas deslocarem-se ao campo ou a um lugar convencionado para aí assarem as castanhas, comidas neste dia, acompanhadas pelo vinho, a água-pé e a geropiga, nos tradicionais magustos comunitários de São Martinho.
 
Magusto, Marmelete, Monchique, Algarve.
 
De acordo com o preceito, espalham as castanhas em terreno limpo cobrindo-as com mato e gravetos, a que lançam fogo.
 
 Vila Cova, Barcelos, Braga.
 
Quando supõem que as castanhas estão assadas voltam a tapá-las, agora com ramos verdes de pinheiros, de modo a evitar que fiquem encruadas («carneiras») ou que arrefeçam.
 
 Marmelete, Monchique, Algarve.
 
Este processo de assamento continua a ser praticado comunitariamente, escolhendo-se, de preferência, um terreno plano, sendo inevitável que as cascas das castanhas se apresentem, praticamente, reduzidas a carvão. Daí, que a tradição e a diversão assente nas costumadas enfarruscadelas entre os convivas, feitas com as mãos enegrecidas, a dar motivo aos risos de quem toma parte na brincadeira ou apenas de quem assiste.
 
Marmelete, Monchique, Algarve.
 
Nas grandes cidades, a opção é o assador de castanhas caseiro.
 
 
Ou as castanhas compradas ao vendedor, «sempre quentinhas e boas».
 
 
  
A OUTRA FACE DO MOSTO
 
 
Mosto

 

Para a composição da apreciada água-pé, depois de retirado o vinho do tanque, espalham-se sobre o engaço (parte verde e lenhosa dos cachos, que ficou no fundo) alguns quilos de açúcar, de preferência mascavado (amarelo) e uma determinada quantidade de água, na proporção de vinte litros para cerca de cinco quilos de açúcar.
 
 
Após o engaço calcado, deixa-se «ferver» durante uma noite e retira-se a água-pé para os respectivos pipos, devendo ficar em repouso entre um mês e meio a dos meses, após o que está pronta a ser consumida.
 
Adega, Águas Frias, Chaves.
 
Há quem utilize menor quantidade de açúcar e mesmo quem o dispense na composição da água-pé. Também nem sempre se respeita o mesmo espaço de tempo para a sua produção.
 

 

O engaço que ficou no tanque é levado a uma prensa para ser espremido, dizendo-se, quando está seco, que «está enxuto». Mete-se em sacos, para se conservar em boas condições, servindo depois para o fabrico da aguardente, que resulta da sua destilação, obtida por evaporização e condensação até à saída do álcool – operação efectuada no alambique, quando se trata de pequenas porções, ou na destiladeira, no caso de grandes quantidades. A borra que restou no tanque – chamada «a mãe do vinho» – é igualmente utilizada, sempre em pouca quantidade, para o fabrico da aguardente, isolada ou juntamente com o engaço.
 
 
Para a jeropiga, bebida aguardentada a que se dá na Beira Baixa o nome de «ingelica», é retirada no início da pisa (quando o engaço se encontra bastante doce, antes de começar a «ferver») uma determinada quantidade de vinho mosto, que se limpa de impurezas, à qual se adiciona aguardente na proporção de metade. Deita-se de seguida a jeropiga em vasilhas bem tapadas, para «cozer» (embora não «ferva») durante não menos de dois meses – também aqui, por vezes, não sendo o prazo rigorosamente cumprido.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 00:55
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