À semelhança de outras festividades cíclicas do calendário, o Carnaval terá origem nas festas imperiais da Antiguidade, mais concretamente nas Saturnais, realizadas em Roma em louvor de Saturno (primitivo soberano dos deuses e depois importante divindade agrária), que decorriam entre o dia 17 e o dia 23 de Dezembro (no reinado de Júlio César), marcando o final do ano dos Romanos e o princípio de um novo ano agrícola.
Estas celebrações teriam o propósito de lembrar o tempo em que Saturno (expulso do Olimpo por seu filho Júpiter) veio habitar o Lácio – antiga região da Itália Central, hoje Roma –, onde fez florescer a paz, a abundância e a igualdade entre os homens.
" Jupiter e Juno ", Annibale Carraci.
Durante as Saturnais, os escravos tomavam o lugar dos senhores, vestiam como eles, satirizavam o seu comportamento ou as suas singularidades, e chegavam a ser servidos à mesa pelos próprios amos. Abolida, temporariamente, a diferença entre escravos e homens livres, uns e outros, nesta espécie de Carnaval pagão, jogavam, comiam e bebiam juntos, em alegre convívio.
Os combates em tempo de guerra eram suspensos, os presos amnistiados, as penas capitais adiadas, os tribunais fechavam e cessavam todas as hostilidades nas cercanias das fronteiras.
" Saturnais "
Festividades semelhantes tinham lugar na Grécia com o nome de Kronia, onde os escravos, tal como em Roma, usufruíam de um curto tempo de liberdade durante as celebrações. Posteriormente, os próprios reis e faraós eram substituídos por pessoas de classes muito humildes, ou de aparência grotesca, que tomavam, no espaço de alguns dias, o seu lugar, correspondendo este tempo ao rompimento com as regras estipuladas e vigentes.
" Baco ", Caravaggio (Michelangelo Merisi), Galeria dos Uffizi, Florença, Itália.
Vamos encontrar também o Carnaval associado às Bacanais ou Grandes Dionisíacas (festa da terra, do vinho e das florestas), efectuadas em Roma e na Grécia em louvor de Baco ou Dioniso (com a prova do vinho novo), que decorriam nos três meses de Inverno, celebradas, principalmente, pelos camponeses, que se apresentavam mascarados durante as festividades.
" Bacanais ", Velasquez.
As Dionisíacas rurais contavam ainda com a exibição de danças, a cargo das bacantes (adoradoras do deus grego e romano do vinho), restando hoje, supostamente, dessas remotas festividades, os actuais cortejos (incluindo as procissões), acompanhados por música.
Rio de Janeiro.
Daí, o Carnaval, conforme se supõe, ter sido, no seu início, tão-só uma manifestação de carácter processional ligada a vários rituais do final do Inverno e princípio da Primavera. Não se exclui ainda a hipótese de representar uma reminiscência das festividades consagradas a Ísis, a mais ilustre das deusas do Antigo Egipto, comemoradas no Outono e nos primeiros dias de Março, em Roma.
" Ísis "
Adorada pelos Gregos e pelos Romanos, Ísis era considerada a deusa universal e suprema, a iniciadora, aquela que detinha o segredo da fecundidade, da vida, da morte e da ressurreição. Das cerimónias com as quais a celebravam, destacava-se a de lançar ao mar uma barcaça – o carrus navalis (carro naval) – repleta de oferendas, após ter sido abençoada por um sacerdote, tendo o ritual por objectivo a purificação e a fecundidade das terras.
A multidão assistia mascarada à partida da barca, prosseguindo depois em procissão pelas ruas, crente nos favores de Ísis, isto é, na generosidade da terra com o germinar das novas sementeiras e o provir de colheitas abundantes. O carrus navalis fazia-se representar nas procissões e nas mais diversas manifestações festivas, ficando o seu nome, com o passar do tempo, associado, com ou sem razão, ao do Carnaval.
Outra versão sobre a origem longínqua e pagã desta quadra é a de que remonta a outra das festas imperiais da antiga Roma: as Lupercais, consideradas das mais importantes do calendário romano, realizadas a 15 de Fevereiro, em louvor de Luperco ou Fauno, deus dos pastores e protector dos rebanhos contra os lobos, ao qual se associavam sua mulher, Fauna – indigitada pelos Romanos como «Boa Deusa», numa festa interdita aos homens –, e Ops, antiquíssima divindade sabina, perfilhada por Roma.
" Rómulo e Remo". Rubens, Museu Capitolini, Roma
As Lupercais organizadas com o propósito de captar a simpatia dos lobos (lupercales), iniciavam-se com o sacrifício de cabras e bodes brancos, cuja carne era oferecida, simbolicamente, à loba que amamentou Rómulo e Remo (fundadores de Roma), e aos lobos para assegurar a sua inocuidade face aos rebanhos.
Na era cristã, a explicação etimológica para o termo «Carnaval» aponta para a palavra carnisvalerium (carnis de carne, valerium, de adeus), o que designaria o «adeus à carne» ou à «suspensão do seu consumo», em função da quadra seguinte: a Quaresma, em que a carne é abolida da alimentação na religião cristã.
A própria designação «Entrudo» – ainda muito utilizada entre nós, principalmente no meio rural –, do latim introitus (intróito), apresenta igual significado: o de introduzir, dar entrada, começo ou anunciar a aproximação da quadra quaresmal. Em Portugal, uma das primeiras referências ao Entrudo, encontra-se num documento datado de 1252, no reinado de D. Afonso III, embora não propriamente relacionado com as festividades carnavalescas, mas com o calendário religioso.
Na época de D. Sebastião, são várias as menções que salientam as brincadeiras do Entrudo, entre elas a do «lançamento de farelos», que nem sempre acabavam bem. «Entrudos» (ou «entruidos») é também o nome atribuído em diversos lugares aos próprios mascarados, consoante as regiões do nosso País.
Soledade Martinho Costa
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.II
Ed. Círculo de leitores.