
Olhar no semblante dos espelhos
outro rosto
que juramos não ser o nosso
enquanto a vida corre
nas horas, nos dias
nos meses e nos anos.
Com a pergunta
sem resposta
que a mim própria faço
Porque se perdeu a promessa
de não salpicar de medos o caminho
que avisto do casulo onde definho
e a saudade me fere em cada passo.
Onde o pão e a alegria
sobre a mesa
e as palavras ditas sem segredos
no apertar das mãos em nó de laço.
Porque se perderam
os risos juvenis
e se deixou de ouvir o som da chave
a rodar no abrir da porta
o aguardado anseio de um abraço.
Por um só dia, uma só hora
voltasse a esperança que em mim
permaneceu
a devolver-me com pressa
ou com demora
o que o tempo roubou e que era meu.
Soledade Martinho Costa
Imagem: Bruno Steinbach
(inédito em livro)
Como o Inverno vai mal
Lá vem a cheia a subir
E há sombras que vão vincando
O rosto do maioral.
Cada ruga
Cada Inverno
Nem há tempo para dormir
Que o sono
É mau companheiro
Nas noites de temporal.
A jaqueta pendurada
No prego perto da porta
A sela arrumada ao canto
Gente firme
Que suporta
Uma tristeza sem espanto.
Como o Inverno vai mal
Como se alargou o Tejo.
De manhã
Olhando os campos
A lezíria é um lençol
Não há cavalos nem toiros
Só mar escondido do Sol.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua

Na cor do teu corpo vejo
milenária
a estrada violada
negada
palmo a palmo
interdita,
No brilho dos teus olhos
reflectida, a imagem
que amordaça as veias
na fronteira dos dias.
Na força das tuas mãos
o amor por desvendar
acolhido.
Embora ressalte
urgente
na escuridão
que se projecta
para além da tua pele
latente
o milagre sitiado.
A ameaça
constante, permanece
e o absurdo perpassa
a razão se repete
se repele
se rejeita
ausente.
Eu vejo.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua
Nasceu na Arménia por volta do século III. Médico de profissão, a sua fama de santo espalhou-se, rapidamente, entre a comunidade cristã de Sebaste, da qual foi pastor por morte do antigo bispo. Por sua decisão, não aceitou o palácio episcopal, continuando a habitar a gruta que lhe servia de casa, no monte Argeu. Num trabalho constante em favor dos pobres e dos enfermos, apenas descia à cidade quando as obrigações humanas e o zelo pastoral o reclamavam.
Na altura da perseguição aos cristãos em 323, São Brás, conhecido pela sua extrema bondade, santidade e milagres, é preso pelo anticristão Agrícola, que governava a Capadócia e a Arménia, e obrigado a adorar os deuses pagãos. Negou-se São Brás. Foi açoitado, posto no acúleo (cavalete de tortura), submetido aos «garfos» com puas de ferro e lançado a um lago de água gelada, sendo, por fim, degolado.
O corpo, recolhido pelos cristãos, terá sido colocado numa pequena igreja em Sebaste. Mais tarde, as suas relíquias foram trasladadas para a actual basílica, cuja localização recebeu o nome de Monte São Brás. É considerado o protector contra as doenças de garganta porque, segundo as actas da sua vida, salvou da morte um menino em cuja garganta se alojara uma espinha.
Até ao século XI São Brás não entra no calendário litúrgico romano. A partir daí, começa a ter lugar nele pela grande devoção que passou a ser-lhe dedicada em Roma, onde lhe erigiram trinta e cinco igrejas. As actas da sua vida e martírio datam do século IX. Por muitos se contam também os milagres que operou nos animais. Os cardadores invocam-no como seu patrono, devido a ter sido martirizado com os «pentes» de ferro, objectos que utilizam na sua profissão. Figura entre os catorze santos auxiliadores.
As práticas associadas ao dia de São Brás, além das cerimónias litúrgicas e dos festejos, assentam, principalmente, no cumprimento de promessas e na bênção dos animais, levados às muitas igrejas e capelas erigidas ao santo, um pouco por todo o lado, em cidades, vilas e aldeias portuguesas. Assim acontece, entre outras localidades, em Gomide, Santa Cruz do Bispo, São Jorge de Selho, Montes de São Brás, Serpins, Évora, Arco da Calheta e Campanário (Madeira).
À semelhança do dia de S. Sebastião (20 de Janeiro) e dia de São Vicente (22 de Janeiro ), o dia de São Brás representa, ainda, em certos locais, a proximidade da quadra carnavalesca. Casos de Lousada (Porto ), com o «atirar dos brilhantes» (papelinhos de Carnaval) e da Nazaré, com a tradicional romaria anual à capela do santo, no monte de São Brás, em ranchos de «ensaiados» (designação que se dá ali aos mascarados). De referir ainda a subida ao monte de São Brás, em Resende (Viseu), onde se fazem as tradicionais «falachas» em louvor do santo, bolos feitos com castanhas.
Já na aldeia de Mourilhe (Montalegre), a manter a antiga praxe, o pároco procede à bênção do pão e da água, o primeiro levado pelos devotos, a segunda oferecida na igreja, mas a ser transportada depois pelos fiéis para casa, juntamente com o pão, para servirem a fins profilácticos.
Manda o preceito que após a bênção os devotos comam um pedacinho de pão e bebam um pouco de água, terminando o ritual com o pároco a colocar duas velas bentas apagadas, postas em cruz sobre as gargantas dos devotos, enquanto é feita uma oração de invocação ao santo.
Cada crente leva também no regresso a casa, uma vela benta para ser acesa quando há tempestades ou alguém está doente. Neste caso, toca-se a pessoa apenas com a vela, costume que se aplica, igualmente, aos animais. Esta prática, assenta na tradição popular de que «a mãe da criança a quem o santo salvou a vida, lhe terá levado velas, quando São Brás esteve encarcerado».
Regista-se ainda em Mourilhe o uso de «beijar as relíquias de São Brás» – uma antiga cruz de prata com pequeninos relicários embutidos na base.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores

Representa a cerimónia litúrgica celebrada no dia 2 de Fevereiro (também chamada Festa de Nossa Senhora das Candeias, de Nossa Senhora da Piedade, de Nossa Senhora da Luz ou Festa da Fevereirinha), em que a Igreja comemora a Purificação de Nossa Senhora, quarenta dias após o nascimento de seu Divino Filho, quando se apresentou no templo do Senhor, cumprindo uma das duas leis – em obediência à lei moisaica (de Moisés) – que Deus impôs no Antigo Testamento.
A primeira lei obrigava a mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino a ficar privada de entrar no Templo durante quarenta dias a seguir ao parto. No caso de se tratar de uma menina, seriam oitenta os dias necessários à purificação da mãe.
Passado esse tempo, em que esteve recolhida e impura, deveria a mulher apresentar-se no Templo e oferecer, simbolicamente, um cordeiro e duas rolas (ou dois pombinhos) ao sacerdote, pedindo-lhe para rezar em seu favor. Após este ritual, a mulher voltava a ser aceite na comunhão dos fiéis, da qual havia sido excluída devido ao parto.
A segunda lei impunha que todos os pais da tribo de Levi dedicassem o filho primogénito ao serviço de Deus, enquanto os pais das crianças que não pertenciam a essa tribo ficavam obrigados ao pagamento de um tributo. (Levi foi o terceiro filho do patriarca hebreu Jacob e de Lia, cujos doze filhos fundaram as doze tribos de Israel).
A Virgem sujeitou-se com humildade à lei, conquanto a sua maternidade fosse, sob todos os aspectos, diferente da maternidade das outras mulheres, facto que, legalmente, não a obrigava ao seu cumprimento. Todavia, ela apresenta-se no Templo, sendo ainda de origem nobre, como directa descendente de David, rei de todo o povo Judeu, que fundou Jerusalém no século X a. C. (sagrado por Samuel, juiz de Israel, sucedendo a seu sogro Saul, primeiro rei dos Israelitas, deposto por ter desobedecido às leis de Jeová – nome de Deus na língua hebraica).
A Virgem apresenta-se no Templo de Jerusalém levando consigo dois pombinhos e seu filho (transportado pelo velho Simeão, judeu que, segundo São Lucas, entoou no Templo, em louvor do Messias, o cântico Nunc dimittis), e sujeita-O à lei da circuncisão
Em memória e veneração deste acto da Mãe de Deus, em obediência às leis do seu povo, reservava a Igreja católica, outrora, uma bênção especial às parturientes que se apresentavam neste dia nos templos acompanhadas dos filhos.
Era também na Festa da Candelária que, antigamente, nas igrejas, antes da celebração da missa, se procedia à «bênção das candeias», levadas depois em procissão.
Em comemoração do sagrado acontecimento, continuam a ser organizadas nesta data, um pouco por todo o mundo cristão, procissões solenes em que são levadas velas acesas, simbolizando Jesus Cristo «como a Verdadeira Luz, que veio para iluminar os povos» – conforme as palavras de Simeão.
A Candelarum (Festa das Candeias) terá começado no Oriente, primeiramente celebrada em Constantinopla e depois em Jerusalém e Antioquia, embora este género de procissão de velas fosse comum às restantes festividades litúrgicas (vigílias e procissões nocturnas em honra de Nossa Senhora).
Posteriormente adoptada em Roma, instituída pelo papa Gelásio I no ano 492, a Candelária, em louvor da Purificação da Virgem, impõe aos Romanos, para que pudessem beneficiar das importantes indulgências pontifícias, que se constituíssem numa longa procissão, levando candeias, mais tarde substituídas por velas.
No final da cerimónia, as extremidades das velas não consumidas eram preciosamente guardadas pelos devotos, visto, de acordo com a crença popular, possuírem poderes para «preservar a casa do infortúnio e proporcionar boa saúde e prosperidade material até ao ano imediato».
Supostamente, Gelásio I terá instituído esta festa da Igreja para substituir as Lupercais, efectuadas pelos pagãos nos primeiros dias de Fevereiro, dedicadas a Luperco, deus protector dos rebanhos contra os lobos, festas suprimidas por completo no século V pelo mesmo papa.
Já na antiga Roma tinham lugar, nos primeiros doze dias de Fevereiro, várias cerimónias fúnebres, em que os Romanos, em memória dos familiares falecidos, acendiam fogos e velas ao redor das sepulturas.
Durante esses dias o dia 1 de Fevereiro era particularmente comemorado pelos Romanos com a Festa da Purificação, associada ao final do Inverno, embora de igual modo, dedicada aos mortos.
Também os Celtas, nas Festas do Imbloc (realizadas na chamada «estação fria») celebravam no dia 1 de Fevereiro a Festa da Purificação do Inverno, que relacionavam com o nascimento e lactação do gado lanígero, cerimonial substituído depois (já na era cristã) pela Festa de Santa Brígida, à qual se seguiu, entretanto, a Festa da Senhora das Candeias.
Os Celtas constituíam um povo de raça indo-germânica, espalhado em grandes migrações nos tempos pré-históricos, particularmente na Europa-Central, depois na Gália, na Península Ibérica e nas ilhas Britânicas. Anexados pelos Romanos, conservam-se deles, ainda hoje, os costumes e a velha linguagem (na Bretanha, País de Gales e Irlanda), sendo muitos os sinais célticos que nos indicam a presença das suas reminiscências culturais em Portugal.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores
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