
Festividade mais pagã do que litúrgica, apesar do nome, a Festa do Menino Jesus em Vila Chã de Braciosa, «ninguém sabe explicar como começou». Os idosos lembram-se dela «desde sempre», como se lembravam os seus pais e os seus avós. De geração em geração, ei-la que chega, pontualmente, no dia 1 de Janeiro à pequena aldeia de Miranda do Douro, Bragança (Trás-os-Montes e Alto-Douro).
A primeira fase do festejo, a cargo dos «mordomos», por preceito um rapaz e duas raparigas, todos solteiros, tem início no dia de Natal, quando convidam outros jovens para irem cortar a lenha destinada à grande fogueira que será acesa no dia 1 de Janeiro ao início da tarde. Para trazer a carrada de lenha até à aldeia levam um carro de bois, sem os animais, que depois de carregado é puxado à força de braços pelo grupo, a cumprir a praxe, utilizando para isso cordas grossas com pedaços de madeira nas pontas, para facilitar a tarefa.
Durante os dias que se seguem procede-se ao ensaio dos figurantes, três rapazes: a Velha, o Bailador e a Bailadeira, que vão representar, no dia de Ano Novo, as personagens principais da festa.
Pelas seis horas da manhã, tem lugar a alvorada, com foguetes e gaiteiros a darem a volta à aldeia. Pelas nove horas forma-se o grupo: gaiteiros, «mordomos», Velha, Bailador e Bailadeira. É chegada a hora de começar o peditório. As três personagens dançam, então, à porta da igreja e de cada casa a «moda da bicha». Segundo os naturais de Vila Chã, a dança «vem do tempo antes dos celtas quando esses povos faziam sacrifícios em altares de pedra, havendo ainda altares desses por aqui perto».
Há quem ofereça dinheiro, chouriças, partes do porco e vinho. Para o recolher o «mordomo» transporta consigo o «cântaro», que comporta de quinze a vinte litros. As «mordomas» levam sacas ou cestos destinados a recolher outras dádivas. O grupo aceita tudo o que lhe dão, embora a Velha tenha por costume «pedir a chouriça».
Esta personagem veste saia e casaco de pardo com rendas feitas à mão, leva uma «caiata» (bordão de madeira encurvado no cimo), onde estão presas algumas bexigas de porco cheias de ar (que pressiona para que as pessoas façam a oferta), uma cruz de cortiça queimada pendurada ao peito, enfiada num colar de bogalhos (para enfarruscar aqueles que não contribuem com a «chouriça») e um chapéu enfeitado com uma espécie de palmitos. Às costas transporta a «bota» com vinho, feita de cabedal, a lembrar um fole, com um buraco fino por onde esguicha o vinho sob pressão dos dedos, que dá a beber a quem oferece a «esmola» ou a quem lho pede: «dá-me lá uma pinga da tua “bota”!»
Pardo é o nome do tecido, praticamente em desuso, mas utilizado nos trajos dos ranchos folclóricos, feito de lã de ovelha e «batido constantemente nos moinhos de água», dos quais «existe apenas um, numa aldeia próxima, que faz ainda esse trabalho».
O Bailador vai vestido tradicionalmente de pauliteiro: saia feita de lenços dobrados, de várias cores (os «lenços chineses», como lhes chamam), blusa, xaile e chapéu com fita e palmitos. A Bailadeira veste saia preta de pardo, blusa (antigamente muito bordada à mão) e na cabeça um lenço «chinês» e um chapéu também com fita e palmitos. Travestido de mulher, enche os seios com farinha ou farelos.
Sendo uso em Vila Chã de Braciosa, durante a celebração das missas, as mulheres assistirem ao culto ocupando metade do templo a partir da porta, enquanto a parte da frente é reservada aos homens, no dia de missa de festa, a Bailadeira, de acordo com o preceito, vai juntar-se ao grupo das mulheres.
O peditório dura até à hora da missa (treze horas), celebrada na igreja matriz, onde o padre dá então a beijar aos fiéis a imagem do Menino, como acontece na missa dos dias de Natal e de Reis. No final da celebração litúrgica realiza-se o «leilão das chouriças».
Segue-se o almoço feito pelas «mordomas e destinado apenas ao grupo, idêntico ao de todos os habitantes de Vila Chã: o tradicional prato de «feijão com cascas», a ementa cerimonial festiva deste dia. Trata-se de uma sopa confeccionada com feijão seco com casca, isto é, metido nas vagens (semeado principalmente para esta data), cortado em bocados, batatas, cenouras, carnes e orelha de porco e «bocha» ou «bocheira», uma variedade de chouriço onde entram as miudezas do porco: bofe, coração, fígado e algumas gorduras. Depois de pronta junta-se à sopa o «butelo», chamado ainda «bulho», «butilho» ou «butelho», o afamado «chouriço de ossos», cortado aos pedaços, feito com o espinhaço, pontas das costelas e, por vezes, com o rabo do porco «tudo cortado miudinho».
Segue-se o arraial, com o acender da grande fogueira no largo da igreja, que chega a arder dois ou três dias, conforme a lenha, e o bailarico pela noite dentro, enquanto os figurantes continuam a pedir a «esmola» a quem aparece na Festa do Menino.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. I
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros (do livro: a «Velha», a «Bailadeira» e o «Bailador»)

Associados à quadra natalícia, mais propriamente ao chamado «Ciclo dos Doze dias» (que medeia o Natal e o Dia de Reis), vamos encontrar as «janeiras» e os «reis», que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis.
Herança provável das próprias strenas romanas, a entoação dos cânticos tem por finalidade receber dádivas que se revestem de um carácter alusivo e propiciatório, a remeter-nos, como noutras celebrações, para tempos remotos, em que se celebravam deuses e divindades pagãs ou eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano comum, símbolo de bom augúrio, quer para quem as pedia, quer para quem as doava.
Entre nós, as dádivas consistem em castanhas, nozes, maçãs, morcelas, chouriços, etc. (embora já surja, a quebrar a tradição, a oferta de chocolates e dinheiro). No final da volta ao lugar, é da praxe os «reiseiros» dividirem entre si as ofertas, ou utilizarem-nas num pequeno repasto conjunto.
O costume, espalhado por toda a Europa em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, entre outros, continua a efectuar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva.
Formados por grupos de homens e mulheres, os “janeireiros” e “reiseiros”, acompanhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir oferendas em troca da entoação das «loas» ao Menino, às Janeiras e aos Reis. «Cantar os Reis», «Esperar os Reis», «Correr os Reis» ou «Tirar os Reis», são as denominações decorrentes destas praxes.
Também as «reisadas» e as «chocalhadas» se articulam no mesmo contexto, não deixando, ainda hoje, de fazer a sua aparição pelas nossas vilas, aldeias e lugarejos. As primeiras, constituídas por grupos (mais aproximadas às «janeiras»), apresentam maior incidência na Beira Baixa, Estremadura e Ribatejo, embora façam a sua aparição noutras zonas do país. As segundas, efectuadas igualmente por grupos, têm por finalidade a barulheira e a gritaria festivas, com o bater de latas e outros objectos barulhentos e o soar de campainhas, chocas e chocalhos, enquanto procedem ao tradicional peditório «para os Reis». Noutros casos, o mesmo género de grupo limita-se à infernal barulheira, omitindo as dádivas.
Com esta função, pretende-se, uma vez mais, pelo barulho, afugentar o mal e obter benefícios propiciatórios e profilácticos (à semelhança do ritual da noite da passagem de ano, com o bater de latas, de panelas, etc.).As «chocalhadas» levam-nos às Sigilárias ou Festas Sigilares de Roma (sigilar de «fechar», em alusão ao «fechar do Ano Velho»), realizadas no primeiro dia de Janeiro, em que se fazia enorme barulho à porta de casa de cada um.
Igualmente provável é a celebração dos Reis resultar de antigos rituais ligados ao culto dos politeístas solares e da sua festa de consagração da luz do Sol no solstício de Dezembro, efectuada no Egipto sob o título Festum Osirid nati, ou Inventio Osirid, em data correpondente ao nosso 6 de Janeiro, designada pelos Judeus como Festa das Luzes ou Khanu Ka.
Há ainda quem sustente ter a comemoração do «Dia de Reis» origem nas festas romanas em honra de Jano (de onde provém o nome de Janeiro), o deus das duas faces: uma voltada para o passado, a outra para o futuro.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol.I
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Alcáçovas, Viana do Alentejo
Festa da família, da comunhão e da congregação familiar, tempo de reflexão, de concórdia e de amor, o Natal representa também a ausência e a recordação dos familiares que já não se encontram entre nós. Daí, a alegria própria desta quadra ser atenuada por um sentimento de nostalgia, de saudade e tristeza, reconhecido em diversas práticas que têm lugar nesta data, algumas vindas da Antiguidade, a lembrar rituais pagãos efectuados no solstício do Inverno, relacionados com o culto dos mortos, posteriormente perfilhados e integrados no conjunto das celebrações da Igreja Católica em louvor do nascimento de Cristo.
Dessas práticas e costumes, que relacionam a própria ceia da família com anteriores ritos associados ao culto dos defuntos em épocas remotas, ressalta a crença popular de que «os mortos da família regressam na noite de Natal à casa que habitaram em vida para participar na reunião familiar e tomarem parte na Consoada».
Em certas localidades do Alto Minho, continua a manter-se o hábito de colocar-se um talher na mesa «destinado à pessoa da família falecida em data mais recente». No Norte, dispunha-se numa outra divisão da casa uma pequena mesa «com a duplicação da ceia, consagrada aos familiares desaparecidos». Outras vezes, deixava-se «do lado de fora da porta da casa, à meia-noite da noite de Natal, um prato com um pouco de tudo de que se compunha a Consoada, levando-se uma luz para que as almas, vindas na figuração de borboletas brancas ou negras – conforme fosse bom ou mau o seu lugar – pudessem ver o que a família lhes destinara».
Ainda há pouco tempo, na região do Barroso (Vila Real), era hábito evocar o nome dos familiares falecidos antes de se dar início à ceia de Natal. Noutras localidades do nosso País – incluindo Lisboa – a mesa da Consoada fica posta, por vezes, desde o Natal até ao Ano Novo. Costume baseado na crença de que «os mortos da família estão presentes durante a quadra natalícia», crença que persiste em Ousilhão, Vinhais (Bragança). A mesma intenção faz com que em certas regiões «não se levante a mesa da Consoada até à manhã do dia de Natal», ou, no caso de levantar-se, «voltar a colocar-se sobre ela algumas iguarias, para que as almas que apareçam mais tarde encontrem de comer» (numa outra versão «para os Apóstolos virem comer»).
Em diversos países da Europa (Espanha, França, Inglaterra), deixava-se o fogo aceso na noite de Natal e reservava-se um lugar à mesa da Consoada destinado «ao Menino Jesus». Com intenção piedosa colocava-se ainda sobre a mesa leite ou cera destinados às almas e acreditava-se que «nessa noite os fantasmas não deixavam de aparecer».
A convicção de que em certas datas festivas, como o Natal, se deve comer filhoses ou outras espécies alimentares fritas, leva, ainda, a que entre nós, em diversas localidades, associada a essa crença, se conserve a praxe de fritar nesses dias em azeite «algumas folhas de oliveira, para que as oliveiras fortaleçam», representando esta prática «um ritual mágico de excomunhão dos elementos maléficos ou nocivos que infestam por esta altura as árvores e a natureza». Esta praxe observa-se também no Dia de Nossa Senhora das Candeias (2 de Fevereiro)
Estes princípios poderão, eventualmente, estar relacionados com o facto de a abóbora (com a qual se fazem as filhoses) se encontrar associada aos ritos propiciatórios do culto dos mortos (geralmente como máscara usada nas figurações humanas). Daí, provavelmente, a razão da sua utilização em praxes rituais ligadas aos manjares cerimoniais do Natal e de outras quadras festivas, empregue nas suas diversas variedades: abóbora-botelha (cabaça); abóbora-moganga (menina); abóbora-jerimu (amarela) e abóbora-chila (anã) – quer em doces, papas ou filhoses.
Outra praxe referente ao culto dos mortos (caída em desuso) observava-se no costume de se espalhar palha no chão da sala, principalmente na cozinha, enquanto a lenha ardia na lareira, cobrindo-a depois com mantas sobre as quais se deitavam e dormiam os membros da família até de manhã, deixando, assim, desocupadas as suas camas «para nelas poderem repousar os seus familiares defuntos que tinham vindo de visita a casa».
O ritual da palha – colocada ainda hoje depois da ceia, junto da lareira, em muitas casas das nossas aldeias – resultará da explicação de «Jesus ter nascido sobre as palhas na manjedoura de Jerusalém» – palha que só deve ser retirada do chão na noite do dia 25. Esta praxe verificava-se noutros países da Europa, como a Suécia e a Dinamarca. Em Portugal, alguns destes rituais continuam ainda a cumprir-se em diversas localidades do Minho, Trás-os-Montes e Beiras.
O azevinho, planta alusiva ao Natal, encontra-se, igualmente, ligado ao culto dos mortos, por ser com ele que noutros tempos se enfeitavam as campas na quadra natalícia. Localidades há, onde ainda se visitam as campas dos familiares na véspera de Natal, para nelas deixar um ramo de azevinho. À noite, quando colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e a «celebração da união da família».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

A todos os seguidores do Sarrabal, desejo um Feliz e Santo Natal.
Que os Homens, com armas de esperança, comecem a saber aniquilar o Mal espalhado pelo Mundo: as guerras, a fome, a destruição do Planeta, a preservação da Natureza, a extinção do Ódio racial, a falta de Solidariedade para com o próximo. Que o Amor possa, finalmente, unir as mãos de todos nós, trazendo-nos a certeza de que merece a pena viver o nosso dia-a-dia com tranquilidade e sem temer o Futuro. Que nesta Terra que habitamos, hoje com os olhos marejados de lágrimas, amanhã os possamos abrir e olhar à nossa volta com um sorriso tão luminoso, que faça inveja, lá em cima, ao resplendor do Sol.
Soledade Martinho Costa
OUTROS NATAIS
Onde a magia dos Natais de outrora
O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas
Quase gente
A mostrar-se ao espanto
Dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.
Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.
Onde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.
Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.
Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Mas que nessa noite por magia
Transformava em cristal os vidros baços.
Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.
Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.
Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:
O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal

Um dos rituais que perdura até aos nossos dias, principalmente em Trás-os-Montes, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, mas também no Nordeste Transmontano, sendo menor ou mesmo nula a sua tradição a Sul, diz respeito às «Fogueiras do Menino», «Fogueiras da Consoada» ou «Fogueiras do Galo».
Sob a influência da Igreja, a fogueira profana de adoração solar dos Romanos, passou a ser cristianizada e a servir de ritual cristão ao culto divino, testemunhado na quadra natalícia a Jesus Cristo – considerado o «verdadeiro símbolo do Sol que vai nascer, para iluminar todo o homem que vem ao Mundo».
Costume que se processa quase sempre durante a noite, cabe ainda hoje às raparigas enfeitar as igrejas para a Missa do Galo, enquanto aos rapazes corresponde a tarefa do roubo ritual do «madeiro», do «cepo» ou do «canhoto» – noutros tempos com os interessados em colaborar a serem chamados por essas aldeias com o auxílio de um búzio e a envolverem as rodas dos carros de bois com «baraços» de palha de modo a evitar o barulho, para que tudo se processasse no maior silêncio. O transporte, conforme a tradição, continua a ser feito, por vezes, em carro roubado ou utilizado sem autorização dos respectivos donos, puxado por animais, ou empurrado pelos próprios rapazes, num específico rito sagrado, embora, actualmente, seja mais vulgar a utilização dos tractores com o respectivo reboque. Noutros casos, a lenha é roubada dias antes do Natal, ou ao longo do ano, leiloada ou oferecida em promessa. Há mesmo quem a deposite à porta de casa, na intenção de que seja «roubada» pelo grupo que chama a si essa tarefa.
Nas fogueiras acesas em casa durante estes dias, verifica-se, na maioria dos casos, idêntico preceito: o de utilizar-se apenas lenha roubada, segundo a crença «para que a lenha assim ardida proteja o lar e a família».
Ateadas ao entardecer da véspera de Natal, as fogueiras ardem, geralmente, até ao dia de Reis, no adro das igrejas, segundo o povo «para aquecer o Menino», ficando todos os habitantes do lugar encarregues de manter o lume sempre aceso.
Em muitas aldeias e lugares do nosso País, as populações continuam a juntar-se ao redor das «Fogueiras do Menino» para cantar, dançar e comer filhoses, aproveitando o lume do braseiro para assar as febras do porco e saborear as batatas tostadas (cozidas primeiro em potes de barro), como ainda se faz no Sabugal (Beira Alta), mantendo a tradição centenária.
O rito das fogueiras de Natal encontra-se espalhado em muitos países da Europa, casos da França, da Itália e da Inglaterra, entre outros. Na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas, tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respectiva diminuição gradual do sistema diurno, até culminar no dia menor do ano – o dia de Natal.
Resquícios de festas solsticiais gentílicas, muitas delas acabaram por conservar-se na tradição dos povos, a par das celebrações da liturgia cristã, ocupando um espaço importante que nos foi legado pelas religiões e civilizações antigas, cabendo-nos defendê-lo e preservá-lo, não apenas no que respeita às fogueiras de Natal, mas ainda a outros ritos e festas de carácter etnográfico cíclico, onde se misturam e confundem rituais cristãos e práticas de raiz politeísta e pagã.
Por outro lado, segundo alguns autores, sendo o galo considerado um animal solar, é natural que se dê o nome de «Fogueiras do Galo» às fogueiras do Natal e a designação de Missa do Galo à primeira missa da noite de 24 para 25 de Dezembro. Ainda assim, e numa forma mais simplicista, se diz também que muitas pessoas se deslocavam de lugares distantes para assistirem à Missa do Galo. De modo a evitar que voltassem a fazer a caminhada de regresso sem grande repouso e porque não tivessem onde pernoitar, acendia-se para elas o «madeiro». Aconchegadas ao seu calor passavam então o resto da noite, quase sempre muito fria, petiscavam, bebiam, cantavam ao Menino Deus e, mal a manhã rompia, voltavam a suas casas.
Simbolicamente, o «madeiro» poderá representar ainda o próprio Inverno, na intenção de aquecer o Menino Jesus; o «madeiro da Cruz de Cristo» ou «o fogo que desceu dos Céus», referente à iluminação dos Apóstolos pelo Espírito Santo, sob a forma de línguas de fogo, depois da elevação de Jesus Cristo aos Céus.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Pomares, Arganil

O Advento, do latim Adventus (chegada), representa, para os fiéis, o período de preparação e de reflexão, na antecipação da alegria pelo Nascimento de Jesus Cristo. Significa ainda, tempo de fraternidade e de paz.
A simbologia da Coroa do Advento:
A forma circular, sem princípio nem fim, lembra o amor de Deus e a união e a aliança entre Deus e os crentes.
Os ramos verdes indicam a cor da esperança. A crença de que Deus nos conceda a sua graça, o seu perdão e a glória da vida eterna no final das nossas vidas.
As quatro velas traduzem, cada uma delas, uma das quatro semanas do Advento. A primeira vela deve ser acesa na primeira semana, e, assim, uma a uma, simbolizando, com o acender da ultima, a chegada de Jesus, Luz do Mundo, que dissipa toda a escuridão.
Em casa, a Coroa deverá ficar exposta num lugar destacado e visível, se possível abençoada pelo pároco.
A Liturgia da Coroa do Advento deverá ser feita em família, com os membros colocados ao seu redor, cabendo a cada um deles uma função: a de acender a vela que corresponde à semana; a leitura de uma passagem da Bíblia, própria do tempo do Advento; algumas orações em conjunto e meditação.
A Liturgia deve ser efectuada nos domingos de Advento. Em 2025 é celebrada no próximo domingo, dia 21 de Dezembro.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. VIII
Ed. Círculo dos Leitores

Tradição que se perde no tempo, realiza-se no dia 13 de Dezembro de cada ano, a popular Feira dos Capões de Freamunde, em Paços de Ferreira (a cerca de trinta quilómetros do Porto), data também dedicada a Santa Luzia, que se venera nesse mesmo dia, como só a fé do povo o sabe fazer, na sua Capelinha de Santo António, situada no terreiro da feira.
Tanto quanto se sabe, a capela, um primitivo oratório de ermitão, a partir da constituição da Confraria, em 1629, adquiriu notável importância, com o papa Urbano VIII a conceder diversas indulgências e privilégios aos seus membros. Em 1936 é transferida para outro lugar, embora a manter-se no terreiro, sem que a traça original tenha sido alterada, com a imagem de Santa Luzia, no seu altar, a atrair desde sempre a veneração dos fiéis
Romaria rural antiquíssima, ligada pelo nome à advogada dos olhos, outrora com promessas de «olhos vivos» (animais vivos), encontra o seu ponto alto na sugestiva Feira dos Capões, cuja instituição oficial remonta a 1719, por provisão do rei D. João V, datada de 3 de Outubro, realizando-se a feira pela primeira vez no dia 13 de Outubro desse mesmo ano.
Este decreto terá tido, tão-só, a intenção de acautelar os interesses da Confraria de Santo António, à qual pertencia, antigamente, o terreiro onde se realizava a feira dos famosos capões – frangos capados por meados de Março, com pouco mais de três meses e dois quilos de peso, amputados dos seus órgãos reprodutores, de modo a que a sua carne atinja um refinado e inigualável sabor. O seu peso varia entre os três e os sete quilos, sendo os de maior valia os de penas avermelhadas, enquanto os de plumagem negra ou pedrês possuem um valor menor.
O costume medieval de capar os frangos, de que há registos em documentos datados do século XV, era, segundo parece, já prática corrente em Freamunde séculos antes da sua legalização. É de supor que por essa época a prática de capar os frangos não se limitasse somente a Freamunde, onde, supostamente, se procedia, nesses tempos, sobretudo à sua comercialização. Hoje já assim não é. Segundo informação, há quem se entregue à tarefa de capar à roda de quatrocentos frangos por ano…
Da «operação cirúrgica», dir-se-à arriscada e complicada, e que só as mãos experientes serão capazes de um verdadeiro milagre. Se a «operação» for um êxito, tudo bem. Mas se assim não for, os capões passam a ser apelidados de «rinchões», o que não é de todo agradável nem para os bichos, nem para as outras aves que com eles convivem, uma vez que se tornam agressivos, e muito menos para quem os compra – por engano ou enganados.
Se a «cirurgia» resultar imperfeita, o animal, como não é um galo, mas também não é um capão, vá de insurgir-se contra tudo e contra todos, tornando-se numa espécie de galinha, a cantar como um galo, infeliz e desadaptado. Outras vezes, os animais tornam-se nuns seres tristonhos, embora bonitos e vistosos, passivos, incapazes de defender-se, se bem que engordem sem necessitar de rações especiais, copiando a postura das galinhas, em cacarejos e assustadiços, chegando ao ponto de se deixar bicar por elas. Quando assim é, o seu valor comercial baixa bastante. A sua carne tem as características de outro galináceo qualquer, a deixar enganar facilmente o comprador, pois, na aparência, ninguém dirá que não se trata de um verdadeiro capão. A única maneira de descobrir se o bicho é ou não um «impostor», consiste em apertá-lo por cima do bico: a certeza vem com uma valente bicada na mão de quem fez a experiência, não restando, então, qualquer dúvida sobre a sua «verdadeira identidade».
Para compensar estes deslizes e para orgulho e honra dos Freamundenses, além de diversos historiadores e de cronistas famosos, nomes como D. Francisco Manuel de Melo e o próprio Gil Vicente cantaram e elogiaram o capão como uma iguaria requintada e rara, muito frequente nos repastos e banquetes reais, a pedir meças às outras aves que se apresentavam à mesa do rei: o faisão, o pavão, a perdiz ou a galinhola.
Manifestação das mais típicas, populares e concorridas na região de Entre Douro e Minho, à Romaria de Santa Luzia ou Feira dos Capões, ciclicamente mantida nesta data, acorrem em apreciável número os «galinheiros», que não se limitam a apresentar aos compradores somente os famosos capões, mas toda uma variedade de aves destinadas à capoeira – sobretudo à panela, que o Natal está à porta: perus, em barulhentos e enormes bandos, também eles muito requisitados, galinhas, patos, pombos, codornizes – e, de vez em quando, com um pouco de sorte, até faisões.
Os forasteiros, a pensarem na Consoada, são aos milhares, vindos de todos os pontos do país e mesmo de Espanha, particularmente da Galiza. A feira começa pela madrugada, aquecida por fogueiras, para afastar o frio de Dezembro, ali aparecendo também um pouco de tudo: gado cavalar, suíno e bovino, calçado, roupas, brinquedos, artigos de ourivesaria, alfaias agrícolas, frutos secos, loiças, bugigangas, sem que faltem as diversões e as barracas de comes e bebes. Em simultâneo, decorre uma semana de gastronomia, a terminar com um jantar onde é eleito o melhor capão confeccionado por restaurantes locais.
Resta acrescentar que a gente do Norte, em número significativo, prefere apresentar ao almoço do dia de Natal o galo recheado e assado, em vez do tradicional peru – principalmente se o galo for o afamado capão de Freamunde.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

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