Hoje que a tempestade
Parece ter passado
E deixado o firmamento
Com o azul de outrora
Que as nuvens de um cinzento
Mais carregado
Abandonaram o céu desta incerteza
Talvez o tempo me permita agora
Respirar outros aromas
Colher uma flor na aridez dos montes
Deixar que ao meu encontro venha a paz
Que faz sonhar caminhos, metas, horizontes.
Dizer que se é feliz
É utopia
Pior. Dizer que se é feliz
É um pecado.
Não o direi jamais
Jamais repetirei essa loucura.
Em silêncio de monja
Em clausura
Impõe-se guardar recato
Do que de bom o destino nos traçou.
A vida não aceita
Que se confesse
De forma aberta e pura
O que nos vai na alma
O que alcançámos e veio ao nosso encontro
Para nos dar um pouco de ventura.
Soledade Martinho Costa
Esperar
Esperar sempre
Mesmo
Quando já nada se espera
E desespera.
Mesmo
Quando o desespero
Nos condena
Ao cumprimento de uma pena
Sem metas e sem rumo
Igual ao peregrino
Caminhar sem rota de um romeiro.
Sem grades
Sem muros
Sem a chave
Na mão do carcereiro.
Ainda assim
Cativo
O meu olhar
Refém do que procuro
Busca o farol
A luz
A chama
Que teima
Em decifrar
A razão do destino
Onde ainda me aventuro.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal

Nas celebrações do Dia dos Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, no dia 2 de Novembro, são evidentes os vestígios dos antigos rituais dos mortos efectuados pelas associações funerárias de Roma – as Columbaria – (de entre as quais, mais tarde, se formou a Igreja), que tinham a seu cargo os «columbários», locais subterrâneos guarnecidos de nichos, onde os romanos colocavam as urnas funerárias que continham as cinzas das pessoas incineradas, uma vez que na Antiguidade, Gregos e Romanos, queimavam os corpos dos falecidos, somente deles conservando as cinzas. Ao contrário, os primeiros cristãos, começaram por enterrar os seus mortos, segundo os princípios da nova fé, continuando uma tradição antiga vinda do Oriente e seguida pelos Etruscos.
Com as constantes execuções dos cristãos (que se recusavam adorar os deuses da religião pagã grega e romana), e não possuindo estes condições para adquirir terrenos destinados aos cemitérios, foram-lhes cedidos campos por ricos proprietários também eles cristãos. Mas nem assim foram suficientes esses vastos cemitérios. Daí, começarem a ser utilizadas as catacumbas (de início pedreiras abandonadas), que depressa se transformaram em cemitérios subterrâneos, mantidos até à vigência do imperador Constantino. Ali se escondiam os primeiros cristãos, junto dos seus mártires, tornando-se esses lugares, principalmente a partir do século II, locais onde se efectuavam os ritos religiosos e fúnebres e enterravam os mortos. Era também nas catacumbas (do grego katá – para baixo – e tumbos – tumba, túmulo) que os primeiros diáconos procediam ao baptismo, difundiam a nova religião, entoavam os seus cânticos e relembravam a Ceia de Jesus Cristo e dos Apóstolos.
Escavados na rocha, com nichos nas paredes (os loculi) a diferentes alturas, ali eram deitados os corpos, com a entrada de cada nicho fechada hermeticamente com uma pedra. Nela se inscrevia o nome do morto, a idade e uma breve alusão. Um «M» na pedra queria dizer que a pessoa tinha sido martirizada, enquanto os grandes mártires apresentavam a palavra por extenso.
Perseguidos, mortos e presos, com os próprios papas a serem decapitados, os cristãos continuaram a ser vítimas dos povos bárbaros que invadiram Roma. Nessa altura, as sepulturas das catacumbas foram violadas, circunstância que deu motivo aos papas para mandarem distribuir as relíquias dos corpos santos por toda a Cristandade. Sem os seus mortos e mártires, as catacumbas foram abandonadas no século V, tendo caído, entretanto, no esquecimento – se bem que redescobertas no século XVI, segundo parece sem grande relevo para tão significativo achado. Apesar dos estragos do tempo, podem ainda observar-se nelas as primeiras pinturas de arte cristã, com as inscrições que as acompanham feitas em grego. As mais antigas (século I) apresentam, principalmente, símbolos: o pão, a pomba, a cruz, a âncora (símbolo da vida eterna) e o peixe, que representa Cristo.
O culto dos mortos no dia que lhes é dedicado, traduzido em ritos diversos, com a romagem aos cemitérios, a oferta de flores e a colocação de velas sobre as campas, é comum a todas as épocas e povos, sendo prática corrente e actual tais celebrações, costumes e crenças em todos os países da Europa, onde se acredita, embora com variantes locais, que «no dia consagrado aos mortos as suas almas, isoladas ou em grupo, visitam na terra os lugares que habitaram em vida».
O chamado «altar das almas», é representado nas igrejas pelo altar de São Miguel Arcanjo (ou apenas com a sua imagem), tendo como símbolo a «balança das almas», que o Príncipe da Milícia Celeste segura na mão. Também as flores foram apenas introduzidas nos funerais provavelmente a partir do século XVIII. Até aí, somente eram permitidas nos esquifes das crianças com idade não superior a sete anos.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
Imagem: São Miguel Arcanjo, Guido Renni
O céu
Retém ainda
O voo das cegonhas.
Acendem-se braseiras
De histórias
E de mosto
Regressam as castanhas
No bico do capuz.
Há bruxas
Que povoam
As noites de Novembro
No oiro das laranjas
Pousa o luar em cruz.
Soledade Martinho Costa
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