Terça-feira, 30 de Setembro de 2025

E CONTINUAMOS NO ALENTEJO - QUE NÃO SE REPITAM AS PALAVRAS DO POEMA

alentejo.jpgInundam-se os olhos

não de rios

não de águas límpidas

serenas

a lavar o vulto morno das manhãs

mas desta terra seca

atormentada

mourejada a lâminas e punhos

e a sonhos desmentidos

mutilados

à luz de esperas

e de esperanças vãs.

 

Inundam-se os olhos

não de ritos

não de cânticos dolentes

ancestrais

mas deste peso antigo

destes ais

destas paredes caiadas de silêncio

destes passos acros

gastos

lentos

desta calma fingida

coagida

adormecida no torpor dos tempos

ao colo soalheiro dos mendigos.

 

Inundam-se os olhos

não de risos

não de sombras que bailam pelo chão

mas desta terra ardente

constrangida

anavalhada de choro e de suor

deste espaço

deste reino

desta lida

sofrida

aparada

infligida

rendida ante a imagem

de uma dor maior

e a palavra que tarda e se detém

mais longe

mais calada

mais perdida.

 

Inundam-se os olhos

desta gente

à espera de um milagre que não vem.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Poemas do Sol e da Cal

Editorial Presença

publicado por sarrabal às 02:15
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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2025

«IR À «PIDA»

514377743_23880441004950474_2025282764150804637_n.

Foi o meu saudoso amigo, o escritor Manuel da Fonseca, natural e a residir em Santiago do Cacém ( Alentejo e sub-região do Alentejo Litoral) ao ler este meu poema, que me explicou o nome certo para ele, e que eu desconhecia: «ir à «pida».Termo usado no Alentejo, quando os homens se ausentavam para pedir esmola, sempre que a falta de trabalho e a fome os obrigava a percorrer vilas e cidades afastadas das suas terras, por lá andando, por vezes semanas, regressando a casa quase sempre de mãos vazias.

Por essa altura, reli toda a obra de Manuel da Fonseca, grande nome da nossa literatura, que nos faz um relato fiel dessa época. Época de que muitos ainda estão bem lembrados, enquanto outros, que não viveram esses tempos, parece quererem agora, de maneira leviana e imprudente, que voltem ao Alentejo.

«IR À «PIDA»

Lembro-me

De os ver passar na minha rua

Em grupo, grupo pequeno

Três a quatro homens

A capa alentejana pelos ombros.

 

Vinham do “alto” da vila

Hoje cidade

Dividida como dantes

Em parte nova e parte antiga.

 

Na memória dos olhos

Guardo as suas capas

Castanhas, cor da terra

As cabeças cobertas

Com o lustro dos chapéus

A bota grossa

São imagens

Que ficaram na distância do olhar.

 

Quem seriam esses homens

A deambular pelas ruas?

E tinha medo

Um medo

Que me subia até aos ombros

E se sentava neles.

 

Espreitava-os

Pela cortina da janela

Falava-se de assaltos

De crimes e outras histórias

Tão falsas

Como a mentira do meu País de então.

 

Quando surgiam de uma esquina

Era o silêncio que lhes fazia escolta

Ninguém os conhecia

Quais seriam os seus nomes

Teriam mulher

Filhos, pais, família?

 

Circulavam de porta em porta

A subir, a descer escadas

De mão estendida, num acanhamento

Onde eu não percebia a mágoa e a revolta.

 

E nunca vi um gesto, ouvi uma palavra

Dei por alguém que se tivesse aproximado

Daquele grupo de homens

Sem alternativa, sem outra condição

A não ser a de pedir, estender a mão

A quem por vezes nada tinha.

 

Caminheiros do desamparo, da solidão

Oh! donos de tão grande pobreza

Passaram tantos anos…

Tempo que me pesa demais no coração

E só hoje acordei neste poema.

Porque hoje sei que a desventura

A falta de trabalho, a fome, a miséria

Os fazia surgir como a formiga

Em tempo (in)certo.

 

Com que abandono, meu Deus

Com que tristeza

Aqueles passos

Soam de novo aos meus ouvidos.

 

Nesta hora eu os ouvisse, pressentisse

Pedir-vos-ia perdão

Pela fartura do pão

De tão sobejo para a minha fome

Demasiado para a minha mesa.

 

Pela bênção de não ter, como vós

De depender da caridade alheia

De não sentir, como vós

O infortúnio de regressar um dia a casa

Ao ponto de partida

À mesma fonte de dor e de destino

Sem nada levar na algibeira

Além do pó da estrada

Do cansaço dos dias

Das horas de lonjura

Das saudades a pulsar nas veias.

 

Da longa

Da inútil caminhada

Com o fracasso

O receio e a mesma fome

A roer os ossos e as ideias.

 

Oh! Alentejo

Que não voltes mais

A meter medo

Às crianças das vilas

Das cidades

Ao deixares partir os teus homens

Dos lugares que amam.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

 

Tela: Jaime Martins Barata (pintor alentejano)

 

(«Ir à «Pida», publicado no meu blogue Sarrabal, recebeu em 2008 o Prémio Dardos, prémio virtual atribuído entre blogueiros, como reconhecimento por transmitir valores culturais, éticos, literários e pessoais,)

publicado por sarrabal às 00:30
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Domingo, 7 de Setembro de 2025

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - AS ÁRVORES, AS AVES

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM AS ÁRVORES, AS AVES 202

Cá estamos, já chegámos. Voltámos para casa! – chilreiam os pássaros, saudando as árvores do pomar que vão mantendo ainda as suas folhas. E num carinho feito de alvoroço, pousam nos seus ramos em busca do descanso que trará o sono.

Nessa altura, as árvores de folha caduca, dão por si a invejar as árvores de folha perene. Mas não o fazem por mal. Fazem-no por amor. Porque sabem que serão estas a abrigar os pássaros durante o Outono e na Estação seguinte. Os seus troncos vão começar a ficar despidos de folhas. Por isso, as carriças, os picanços, as lavandiscas e os estorninhos só voltarão a adormecer-lhes nos braços alguns meses depois. E enchem-se de saudades. De longe, conhecem elas que no segredo das folhas e à sombra das ramadas é que as aves fazem os ninhos e ensinam aos filhos a liberdade das asas no primeiro voo.

Vestidas, vão permanecer as laranjeiras, as nespereiras, os limoeiros, as tangerineiras… E, lá em baixo, ao rés da praia, os pinheiros de agulhas finas. Daqui em diante, serão esses os ramos escolhidos pelos pássaros para se protegerem do frio e da chuva. Mas os lugres, os pardais e os piscos, também irão procurar os telhados das casas e dos celeiros, para se abrigarem sob as telhas que o Sol aquece para eles, por ser seu amigo.

O mesmo Sol que perpassa por entre os troncos das árvores, que em breve vão ficar desnudas, para fertilizar a terra que viveu demasiado tempo à sombra da folhagem que cobriu os seus ramos - porque a terra precisa de ser alimentada.

Como todas as mães, a Natureza é uma mãe acautelada e atenta!

 

Soledade Martinho Costa

Do livro “Histórias que o Outono me Contou”

 

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 19:16
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2025

A TODAS AS MULHERES AFEGÃS E IRANIANAS

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POR DETRÁS DOS VIDROS DAS JANELAS

De que servem os versos

Perante a força bruta

De que servem os poemas

Quando o Inferno

Decidiu abrir as suas portas

 

Voltou para trás o calendário

E o Futuro fugiu para parte incerta.

 

Não passou de um sonho cúmplice

O tempo percorrido.

 

Entre sombras e leis enlouquecidas

Os corações deixaram de bater

Mas continuam vivos

À flor da sorte.

 

O pesadelo

Apenas se encontrava adormecido.

 

Extinguiu-se a luz que abraça os corpos

Somente as orações resistem

Murmuradas sob os mantos

A rejeitar a religião do mal

Os dogmas do Senhor das Trevas

A violação dos direitos humanos

O luto, a dor e a morte.

 

Há mães a esconder

O corpo e o rosto do olhar dos filhos

E filhos com saudade do olhar das mães.

 

Há mães que por temor ao inimigo

Entregam os filhos noutras mãos

Perante a esperança que advém do perigo.

 

Os céus adensam a penumbra

E cada vez é maior a escuridão

A impotência de impedir a dor

Neste reino governado pelo terror

Onde é negado à mulher o acto de existir.

 

O mundo

Não tem armas contra o medo.

 

Em busca da liberdade proibida

Como o canto de pássaros aflitos

Enquanto o resto do mundo

Parece não escutar o pranto

Correm sem destino os gritos

Da dignidade perdida e ofendida

Pelas praças, ruas e vielas.

 

Que vem

Da silhueta feminina

Refém

Atrás dos vidros das janelas.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Canções Contadas (parte III, poesia)

Edições Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 21:28
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