Inundam-se os olhos
não de rios
não de águas límpidas
serenas
a lavar o vulto morno das manhãs
mas desta terra seca
atormentada
mourejada a lâminas e punhos
e a sonhos desmentidos
mutilados
à luz de esperas
e de esperanças vãs.
Inundam-se os olhos
não de ritos
não de cânticos dolentes
ancestrais
mas deste peso antigo
destes ais
destas paredes caiadas de silêncio
destes passos acros
gastos
lentos
desta calma fingida
coagida
adormecida no torpor dos tempos
ao colo soalheiro dos mendigos.
Inundam-se os olhos
não de risos
não de sombras que bailam pelo chão
mas desta terra ardente
constrangida
anavalhada de choro e de suor
deste espaço
deste reino
desta lida
sofrida
aparada
infligida
rendida ante a imagem
de uma dor maior
e a palavra que tarda e se detém
mais longe
mais calada
mais perdida.
Inundam-se os olhos
desta gente
à espera de um milagre que não vem.
Soledade Martinho Costa
Do livro Poemas do Sol e da Cal
Editorial Presença

Foi o meu saudoso amigo, o escritor Manuel da Fonseca, natural e a residir em Santiago do Cacém ( Alentejo e sub-região do Alentejo Litoral) ao ler este meu poema, que me explicou o nome certo para ele, e que eu desconhecia: «ir à «pida».Termo usado no Alentejo, quando os homens se ausentavam para pedir esmola, sempre que a falta de trabalho e a fome os obrigava a percorrer vilas e cidades afastadas das suas terras, por lá andando, por vezes semanas, regressando a casa quase sempre de mãos vazias.
Por essa altura, reli toda a obra de Manuel da Fonseca, grande nome da nossa literatura, que nos faz um relato fiel dessa época. Época de que muitos ainda estão bem lembrados, enquanto outros, que não viveram esses tempos, parece quererem agora, de maneira leviana e imprudente, que voltem ao Alentejo.
«IR À «PIDA»
Lembro-me
De os ver passar na minha rua
Em grupo, grupo pequeno
Três a quatro homens
A capa alentejana pelos ombros.
Vinham do “alto” da vila
Hoje cidade
Dividida como dantes
Em parte nova e parte antiga.
Na memória dos olhos
Guardo as suas capas
Castanhas, cor da terra
As cabeças cobertas
Com o lustro dos chapéus
A bota grossa
São imagens
Que ficaram na distância do olhar.
Quem seriam esses homens
A deambular pelas ruas?
E tinha medo
Um medo
Que me subia até aos ombros
E se sentava neles.
Espreitava-os
Pela cortina da janela
Falava-se de assaltos
De crimes e outras histórias
Tão falsas
Como a mentira do meu País de então.
Quando surgiam de uma esquina
Era o silêncio que lhes fazia escolta
Ninguém os conhecia
Quais seriam os seus nomes
Teriam mulher
Filhos, pais, família?
Circulavam de porta em porta
A subir, a descer escadas
De mão estendida, num acanhamento
Onde eu não percebia a mágoa e a revolta.
E nunca vi um gesto, ouvi uma palavra
Dei por alguém que se tivesse aproximado
Daquele grupo de homens
Sem alternativa, sem outra condição
A não ser a de pedir, estender a mão
A quem por vezes nada tinha.
Caminheiros do desamparo, da solidão
Oh! donos de tão grande pobreza
Passaram tantos anos…
Tempo que me pesa demais no coração
E só hoje acordei neste poema.
Porque hoje sei que a desventura
A falta de trabalho, a fome, a miséria
Os fazia surgir como a formiga
Em tempo (in)certo.
Com que abandono, meu Deus
Com que tristeza
Aqueles passos
Soam de novo aos meus ouvidos.
Nesta hora eu os ouvisse, pressentisse
Pedir-vos-ia perdão
Pela fartura do pão
De tão sobejo para a minha fome
Demasiado para a minha mesa.
Pela bênção de não ter, como vós
De depender da caridade alheia
De não sentir, como vós
O infortúnio de regressar um dia a casa
Ao ponto de partida
À mesma fonte de dor e de destino
Sem nada levar na algibeira
Além do pó da estrada
Do cansaço dos dias
Das horas de lonjura
Das saudades a pulsar nas veias.
Da longa
Da inútil caminhada
Com o fracasso
O receio e a mesma fome
A roer os ossos e as ideias.
Oh! Alentejo
Que não voltes mais
A meter medo
Às crianças das vilas
Das cidades
Ao deixares partir os teus homens
Dos lugares que amam.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
Tela: Jaime Martins Barata (pintor alentejano)
(«Ir à «Pida», publicado no meu blogue Sarrabal, recebeu em 2008 o Prémio Dardos, prémio virtual atribuído entre blogueiros, como reconhecimento por transmitir valores culturais, éticos, literários e pessoais,)

Cá estamos, já chegámos. Voltámos para casa! – chilreiam os pássaros, saudando as árvores do pomar que vão mantendo ainda as suas folhas. E num carinho feito de alvoroço, pousam nos seus ramos em busca do descanso que trará o sono.
Nessa altura, as árvores de folha caduca, dão por si a invejar as árvores de folha perene. Mas não o fazem por mal. Fazem-no por amor. Porque sabem que serão estas a abrigar os pássaros durante o Outono e na Estação seguinte. Os seus troncos vão começar a ficar despidos de folhas. Por isso, as carriças, os picanços, as lavandiscas e os estorninhos só voltarão a adormecer-lhes nos braços alguns meses depois. E enchem-se de saudades. De longe, conhecem elas que no segredo das folhas e à sombra das ramadas é que as aves fazem os ninhos e ensinam aos filhos a liberdade das asas no primeiro voo.
Vestidas, vão permanecer as laranjeiras, as nespereiras, os limoeiros, as tangerineiras… E, lá em baixo, ao rés da praia, os pinheiros de agulhas finas. Daqui em diante, serão esses os ramos escolhidos pelos pássaros para se protegerem do frio e da chuva. Mas os lugres, os pardais e os piscos, também irão procurar os telhados das casas e dos celeiros, para se abrigarem sob as telhas que o Sol aquece para eles, por ser seu amigo.
O mesmo Sol que perpassa por entre os troncos das árvores, que em breve vão ficar desnudas, para fertilizar a terra que viveu demasiado tempo à sombra da folhagem que cobriu os seus ramos - porque a terra precisa de ser alimentada.
Como todas as mães, a Natureza é uma mãe acautelada e atenta!
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Outono me Contou”
Ed. Publicações Europa-América

POR DETRÁS DOS VIDROS DAS JANELAS
De que servem os versos
Perante a força bruta
De que servem os poemas
Quando o Inferno
Decidiu abrir as suas portas
Voltou para trás o calendário
E o Futuro fugiu para parte incerta.
Não passou de um sonho cúmplice
O tempo percorrido.
Entre sombras e leis enlouquecidas
Os corações deixaram de bater
Mas continuam vivos
À flor da sorte.
O pesadelo
Apenas se encontrava adormecido.
Extinguiu-se a luz que abraça os corpos
Somente as orações resistem
Murmuradas sob os mantos
A rejeitar a religião do mal
Os dogmas do Senhor das Trevas
A violação dos direitos humanos
O luto, a dor e a morte.
Há mães a esconder
O corpo e o rosto do olhar dos filhos
E filhos com saudade do olhar das mães.
Há mães que por temor ao inimigo
Entregam os filhos noutras mãos
Perante a esperança que advém do perigo.
Os céus adensam a penumbra
E cada vez é maior a escuridão
A impotência de impedir a dor
Neste reino governado pelo terror
Onde é negado à mulher o acto de existir.
O mundo
Não tem armas contra o medo.
Em busca da liberdade proibida
Como o canto de pássaros aflitos
Enquanto o resto do mundo
Parece não escutar o pranto
Correm sem destino os gritos
Da dignidade perdida e ofendida
Pelas praças, ruas e vielas.
Que vem
Da silhueta feminina
Refém
Atrás dos vidros das janelas.
Soledade Martinho Costa
Do livro Canções Contadas (parte III, poesia)
Edições Sarrabal
. SEGREDOS
. HOJE
. LEZÍRIA
. RÁCICO
. 3 DE FEVEREIRO - SÃO BRÁS...
. 2 DE FEVEREIRO - FESTA DA...
. 20 DE JANEIRO - SÃO SEBAS...
. 6 DE JANEIRO - DIA DE REI...
. FESTA DO MENINO - 1 DE JA...
. TRADIÇÕES - AS «JANEIRAS»...
. PORTUGAL DESCONHECIDO - A...
. TRADIÇÕES DO NATAL - AS F...
. A QUARTA SEMANA DO ADVENT...
. PORTUGAL DESCONHECIDO - T...
. TALVEZ
. BLOGUES A VISITAR