Domingo, 31 de Agosto de 2025

A ABELHA E O LÍRIO BRAVO (para os mais pequenos)

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Uf! Que calor! – zune a abelha, pousada num lírio bravo, junto do riacho. – Melhor se deve estar na colmeia!

Mas só aqui tens a água e o néctar de que precisas! – atalha o lírio, a meter conversa.

Enquanto dura, amigo Lírio, enquanto dura… Lá para o fim do Verão, o riacho estará seco e eu terei de matar a sede noutro lado.

Mas haverá ainda flores com abundância, é só escolheres… – comenta o lírio, vestido de lilás.

Tens razão, flores não vão faltar: campainhas, madressilvas, rosas-bravas, boninas, lírios como tu…

Por isso trabalhas tanto!

Sim, sim, não descanso. Eu e as minhas irmãs, as abelhas obreiras…

E a tua rainha, o que faz ela?

Toma conta da colmeia. Dita e ensina as leis que nos regem. Põe os ovos para que nasçam outras abelhas-obreiras e outras rainhas...

O lírio bravo confessa:

Sabes que, por vezes, vos confundo?

É natural. Somos parecidos: as obreiras, os zângãos e as rainhas. Mas temos tarefas muito diferentes.

Deve ser engraçada a vida no cortiço. Vocês, as obreiras, trabalham. A rainha dita as leis e põe os ovos. E os zângãos, que fazem eles?

A abelha explica:

Os zângãos vivem na colmeia e alimentam-se nos nossos favos até chegar a altura de fertilizar a rainha.

E logo o lírio, cheio de vaidade:

Mas nós, as flores, é que vos damos o néctar!

Ah, sim! Sem ele não poderíamos fabricar o mel!

A abelha faz um voo circular sobre as pétalas do lírio. Depois volta a sugar o suco doce da flor. Por fim, despede-se:

Adeus, amigo Lírio Bravo, vou até à colmeia dizer às minhas irmãs obreiras que venham ter contigo.

E tu, quando voltas?

Mais logo, prometo. Estamos no final do Verão, mas os dias ainda são compridos…

Só tenho pena de não poder visitar o teu cortiço! – queixa-se o lírio.

Deixa lá, não fiques triste. Venho eu trazer-te novidades e fazer-te companhia!

E, num zumbido, a abelha lá vai, dar o recado. Indicar às irmãs obreiras a morada da flor de quem ficou amiga.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Histórias que o Verão me Contou

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 18:48
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Sábado, 30 de Agosto de 2025

SEGREDOS

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Dobaram-se nos anos das marés

Sem outra condição

Outro provir

Que das areias

Das conchas

E dos limos

Serem a hora exacta

O sal onde se afogam

As palavras

Que a voz

Deu aos sentidos.

 

Os nomes e os sinos

Que se escutam

A percutir de frio

Nos ouvidos

São a tormenta

O poema que se afunda

Nos dias que se arrastam

Pelas sombras

A dar ao coração

Maior vazio.

 

São mistérios

São ritos

São cristais

São lágrimas

São esperas

Emoções

Ou espadas

No recato de seus gumes.

 

Temporais

Onde o mar

Busca nas ondas

Bruxedos

Que os corais

Escondem na espuma

Roubados dos abismos

E das brumas

Que o Sol não atravessa

Com seus lumes.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Um Piano ao Fim da Tarde

Edições Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 17:45
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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2025

PORTUGAL DESCONHECIDO - O SÃO JOÃO DA DEGOLA

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No dia 29 de Agosto celebra a Igreja Católica a degolação de São João Baptista, o Precursor (assim designado por ter preparado e anunciado a vinda de Jesus Cristo, que mais tarde baptizou nas águas do rio Jordão, na Palestina).

Filho de Isabel, prima afastada da Virgem Maria, e de Zacarias, sacerdote judaico, São João Baptista foi decapitado no ano 31 a rogo de Salomé, princesa judia, que pediu a seu tio Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, a cabeça do santo.

Esta data não conta apenas com as cerimónias litúrgicas celebradas pela Igreja, mas ainda com os tradicionais banhos purificadores no mar, ritual que continua a verificar-se a 29 de Agosto.

Embora os banhos santos ocorram também a 24 de Junho (celebração do nascimento de São João), é neste dia que se verifica com maior relevo a tradição dos banhos profilácticos em terras algarvias, chamado ali «o banho da degola» ou «banho do 29», conquanto haja notícias da mesma praxe em certas localidades da Beira-Baixa e mesmo no Minho.

Prática precessora de outras mais remotas, tendo como origem provável os rituais pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas, crê-se ter relação com o culto a Diana, deusa romana das montanhas, das florestas e dos animais selvagens (na Grécia, Ártemis), que costumava banhar-se nas águas das nascentes e dos rios, e cujos templos eram erguidos junto dos lagos, riachos e lameiros.

Hoje com uma vertente mais urbana e até turística, os banhos purificadores de homens, mulheres e crianças, sempre se estenderam aos animais, principalmente às cabras e ovelhas, levadas pelos seus pastores até à beira-mar e obrigadas depois a escalar um rochedo e a lançarem-se à água – naturalmente, com o susto e os berros das ovelhas e das cabras.

A tradição dos banhos santos perduram em várias praias do Algarve, entre outras a de Manta Rota (Vila Real de Santo António), da Bordeira, mais conhecida por Carrapateira, do Amado, de Odeceixe e da Amoreira (Aljezur).

De salientar o feriado municipal em Aljezur no dia 29 de Agosto, que inclui o respectivo banho santo, actividades de índole desportiva e recreativa, a tradicional sardinhada no final da tarde e a animação musical à noite, para assinalar «o São João da Degola».

Em Lagos, onde a tradição foi recuperada, grupos de pessoas acorrem neste dia à praia, providas de merendas, cumprindo o ritual do «banho sagrado».

Diz o povo que «o banho vale por 29», ou então que «devem ser tomados 29 banhos, cada um deles com a cabeça debaixo de cada onda, pois só assim o banho é virtuoso», ou ainda que «o diabo anda à solta nesse dia e só à noite é possível tomar o banho santo para purificar e excomungar o mal».

Passada de pais a filhos, a tradição dos «banhos santos» conta, agora, com grupos de banhistas vindos de fora, que se juntam à população local. Na praia acendem-se fogueiras, assa-se chouriço, come-se a merenda, canta-se e dança-se ao som de música, e convive-se animadamente pela noite dentro.

Em tempos passados, o «banho do São João da Degola» ou «banho do 29» era tomado antes de nascer o Sol, sempre em jejum. O costume, segundo parece, terá sido herdado dos Árabes, que tomavam o banho de mar profiláctico e purificador nesta mesma data.

 

Soledade Martinho Costa

 

«Salomé com a cabeça de São João Baptista», Caravaggio, Palácio Real de Madrid.

 

Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. VI

Ed. Círculo de Leitores

publicado por sarrabal às 17:08
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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2025

E VOLTAMOS AOS AVIÕES - O SILÊNCIO COMO RESPOSTA

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Em vez de estar a ouvir a Maria João Pires ao piano (como é meu costume a maior parte das vezes enquanto escrevo), estou sim a ouvir, desde as cinco da madrugada, a «música» contínua do impacto dos aviões (de dois em dois minutos ou ainda menos), numa invasão abusiva sobre o território da zona sul do Ribatejo, facto que se verifica desde o dia 16 de Maio de 2024 (UM ANO E TRÊS MESES!).

Hoje, dia 28 de Agosto de 2025, tem sido verdadeiramente insuportável, infernal e alucinante, a passagem quase ininterrupta dos aviões, a afectar, no pior dos sentido, a população desta zona, de maneira inadmissível, indescritível e nefasta, para o seu dia a dia, a sua tranquilidade e a sua saúde.

Muito se divulgou na altura (quase há um ano e meio) sobre esta intolerável situação, nos jornais, na Rádio, na Televisão, na Net, nas redes sociais. Milhares de vozes se ergueram na petição assinada. Fiz, pessoalmente, contactos directos, enviando os meus artigos, escritos nesta rede social e nos jornais «O Mirante» e «Voz Ribatejana», a Pedro Ângelo e Rui Marçal, presidente e director da NAV, respectivamente; ao ministro das Infraestruturas e Habitação Miguel Pinto Luz; à ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho; à Associação Ambientalista Zero; à Agência Portuguesa do Ambiente e à Provedora da Justiça do Ambiente Maria Luísa Amaral. Falei com secretárias e assessores. Recebi promessas de posteriores contactos Até agora, nada se alterou.

Recebi, sim, uma resposta (não automática) da Provedora da Justiça, «prometendo a sua intervenção, e solicitando, caso o assunto ficasse entretanto resolvido, que desse informação». Uma secretária do ministro Miguel Pinto Luz pediu-me o número do meu telemóvel, com a promessa de me telefonar, ou o assessor do ministro. Até hoje, de ambas as partes, como resposta, o silêncio.

Primeiro está o lucro com o aumento considerável dos voos. Quanto a nós, continuamos à mercê do poder instalado. Ainda assim, penso que não devemos esquecer que o povo, por vezes, também decide (embora não as vezes suficientes), como tem ficado provado ao longo da nossa História (inclusivamente, recente).

Alverca do Ribatejo vê agora a sua população seriamente importunada quer em termos pessoais, quer em relação ao ambiente desinquietante e barulhento, largamente ampliado em termos ambientais, sem esquecer as mais que faladas e nefastas partículas dos aviões que respiramos a todas as horas.

Esta calamidade que nos foi imposta, após as alterações da NAV, abona, totalmente, em desrespeito pelos direitos do cidadão, incluindo a sua saúde. Tenho conhecimento, de pessoas que se queixam de cansaço, sonolência, irritação, desinteresse e depressão – que não sentiam anteriormente. Talvez sejam os primeiros sintomas. O desgaste é evidente.

Estamos a dia 28 de Agosto de 2025. São, exactamente, dezassete horas e trinta minutos e acaba de sobrevoar Alverca do Ribatejo mais um avião (das muitas dezenas que por aqui passaram hoje, ininterruptamemente, por cima dos nossos telhados). Um tormento que irá continuar até anoitecer. Aliás, continuamos a ter a passagem de aviões pelas duas ou três horas da madrugada.

Mas estas linhas têm ainda um outro propósito (o que ficou escrito, já foi mais do que abordado em textos assinados por mim). Interessa-me salientar o facto do desinteresse demonstrado até agora pelo presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Fernando Paulo Ferreira. Que me lembre, a última resposta que nos deu sobre este assunto (ainda no final do ano passado!), foi «que as alterações estão quase finalizadas». Uma afirmação sempre vaga, Uma maneira de empatar, de deixar passar o tempo. Afirmação ou informação vazia no contexto, sem bases de fonte, que me faz lembrar a sua reunião, também no Verão de 2024, com o ministro das Infraestruturas, quando nos veio dizer exactamente o mesmo após a reunião: «O Senhor Ministro irá colocar o assunto à NAV para estudarem o problema e resolvê-lo da melhor maneira, o que leva o seu tempo».

Já se notava aqui a subtil «compreensão» do nosso autarca face às palavras do ministro. Será que ao fim de quase um ano e meio ainda não tiveram tempo de «estudar e resolver» o malfadado problema?!

Por outro lado, convém lembrar, que o cansaço e a prolongada espera, não irão resultar em desistência.

O pedido feito pelas populações de Alverca do Ribatejo e localidades vizinhas, desde o início deste flagelo, para que fossem retomados os antigos voos sobre o Tejo, as lezírias de Loures e o Mouchão da Póvoa, locais onde não há população, parece ter caído em saco-roto! Embora assim, nem todas as soluções apresentadas serão aceites, apesar deste longo compasso de espera. Termino, ao som da passagem de mais um avião, a tornar insustentável viver numa cidade que deixou de ter direito ao descanso, ao bem estar, à tranquilidade, ao ar saudável que se respirava ainda recentemente, invadida pela poluição sonora e ambiental a pôr em rico a saúde pública. Sem esquecer o perigo, por demais propalado, das partículas expelidas pelos aviões, que não têm por hábito subir, mas descer sobre as populações.

Soledade Martinho Costa

Escritora e jornalista residente em Alverca do Ribatejo

(Sem IA. Com IN)

Há sintomas de doenças por aí, tenho conhecimento: cansaço, sonolência, irritação cansaço, Ssonolência, irritação, desmotivação, depressão. A nossa saúde corre perigo!

publicado por sarrabal às 19:43
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2025

VERSOS DIVERSOS - O BURRINHO

(Porque tenho andado um pouco esquecida dos meus pequenos leitores.)

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Anda, meu burrinho

Anda lá mais leve

Vamos ao moinho

Buscar a farinha

Mais branca que a neve.

 

Anda, meu burrinho

Vamos sem demora

Vou regar a horta

Quero a tua ajuda

A puxar a nora.

 

Anda, meu burrinho

Atravessa a ponte

Vamos à fazenda

Aquela que fica

Para lá do monte.

 

Anda, meu burrinho

Não vás devagar

Vamos às amêndoas

Que as amendoeiras

As vou varejar.

 

Anda, meu burrinho

Como de costume

Vamos ao pinhal

Apanhar gravetos

P’ra acender o lume.

 

Anda, meu burrinho

Vence essa canseira

Porque hoje na vila

Vou fazer negócio

Que é dia de feira.

 

Anda, meu burrinho

Que eu dou-te a ração

Vamos lá depressa

Tenho o forno à espera

Para cozer o pão.

 

Anda, meu burrinho

Vai mais devagar

Meu bom burriquinho

É chegada a hora

Vamos descansar.

 

Soledade Martinho Costa

 

(Não está editado em livro)

publicado por sarrabal às 19:38
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UMA PINTURA DE DEUS (excerto

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«[…] Há uns anos, no Algarve, em tempo que havia mais árvores em redor da minha casa, alfarrobeiras, oliveiras, amendoeiras, figueiras, mato e flores silvestres, num espraiar que se alongava para além do visível, ao final da tarde começou a chuviscar, a tal chuvinha miúda. Vinha uma neblina, a subir do mar, que se juntava à chuva e a ela se abraçava como dois corpos unidos, cúmplices, amantes. O silêncio era total. O sortilégio, também. Os tons de verde matizados da paisagem tomaram cores irreais. Aliás, tudo se tornou irreal naquele panorama singular onde a mão da natureza é única e é mestra. Fui colocar-me na ponta do patamar, lá ao fundo, onde o olhar vai mais longe, a admirar, a deslumbrar-me, a extasiar-me com aquele momento. Sozinha, num silêncio que nada nem ninguém quebrou. Sem querer, chorei. De mansinho. De emoção. Segura de que passava por qualquer coisa única na minha vida. E acertei. Senti Deus diante de mim com paleta e pincel. Foi sublime, inesquecível. Naquele instante, soube que a magia não iria repetir-se. E nunca mais se repetiu. Continua no meu olhar esse momento divino. Para sempre. Não tive dúvidas: tinha perante os meus olhos uma pintura de Deus.»

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Uma Estátua no Meu Coração

Ed. Vela Branca

 

publicado por sarrabal às 00:39
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Sábado, 23 de Agosto de 2025

MÊS DE AGOSTO ROMARIAS E ROMEIROS

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Publiquei este texto em Agosto de 2013 e 2023. Lido agora, em 2025, parece-me que me refiro a outro país, que não o nosso. Fogo? Oh! Sim, houve – mas não o fogo-de-artifício!

 
MÊS DE AGOSTO - ROMARIAS E ROMEIROS
 
Terminada a grande celebração litúrgica, o povo dá então largas ao seu contentamento, ao seu entusiasmo, à esperança de que as suas preces tenham sido ouvidas. Porque as consciências repousam agora na paz das penitências cumpridas.
Esquecem-se os joelhos sangrados e o peso dos círios. Os risos trepam aos olhos onde a comoção, pouco antes, tinha feito poiso. As almas soltam-se. As conversas são outras. Só é preciso ter fé, e essa tem-na o povo.
Por isso faz as suas procissões. Recama, por sua mão, com pétalas de flores, os caminhos que pisam os seus santos. Faz e cumpre promessas. Invoca Cristo.
Mas sem alegria a devoção não é perfeita. Daí, a necessidade do deslumbramento feérico das luzes a iluminar cansaços de imensa escuridão. Do aconchego das vozes nos ouvidos que poucas falas escutam. Da presença de quem não se conhece e se aceita por companhia e por amigo. Da blusa nova conquistada ao mealheiro. Dos aromas, peregrinos de paisagens, nomes e distâncias. Do pão, a lembrar das mãos os gestos que percorrem as searas. Dos foguetes, sem asas para tocar os céus. Dos abraços, da música, da magia, a envolverem o corpo e o espírito num tule de segredos que ninguém descobre.
No mar de gente, como se fora tão-só o mesmo corpo, um único desejo. Quase ingénuo, por tão simples. E tão pouco exigente por tão puro: ver, ouvir, participar – estar presente.
Faz-se a reconciliação com o dia-a-dia. Com as horas que o tempo esgota sem compromisso de regresso. Tréguas tão breves, essas. Contudo, as que são permitidas e possíveis. O mundo não é assim. Muito menos a vida.
Para esquecer rotinas que obrigam ao retorno, há que viver a festa. Respirá-la. Bebê-la. Como se fora um campo de lilases. Uma fonte que socorre a nossa sede. Ainda que a ilusão dure tão pouco. Que a evasão seja tão breve. Irremediavelmente, por um ou poucos dias.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. VIII
Ed. Círculo dos Leitores
 
Foto: Américo Belo/Lusa. Romaria de Nossa Senhora da Agonia, Viana do Castelo,
publicado por sarrabal às 20:02
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Quarta-feira, 20 de Agosto de 2025

E SE FIZÉSSEMOS UMA «LADAINHA DE ROGAÇÃO»?

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(Nesse tempo, pedia-se chuva para alimentar as terras, não para apagar incêndios provocados por mãos criminosas.)

 

Outrora, era frequente o povo reunir-se e percorrer em cortejo um trajecto determinado, saindo de uma capela ou igreja em direcção a outro lugar de culto, percorrendo por vezes vários quilómetros, caminhando o padre na frente, seguido pela população. Noutras ocasiões o cortejo dirigia-se a uma capela ou ermida erguida em louvor do orago dessa localidade ou, simplesmente, efectuava-se a ladainha em campo aberto, apelando ao Sol ou à chuva, consoante as situações.

«Ir ver passar a ladainha» era a frase proferida por aqueles que nela não participavam, constituindo o facto de vê-la uma obrigação de fé solidária e propiciatória. No Furadoro (freguesia de Condeixa-a-Nova, Beira Litoral) conta-se que certa vez o pároco, em penitência, foi descalço à frente do cortejo, subindo a íngreme ladeira, de difícil acesso, até à ermida da Senhora do Círculo, orago desse lugar.

Ainda hoje, embora raramente, quando a seca se faz sentir, o povo dirige-se para a Senhora do Círculo, subindo em procissão até ao cume a entoar ladainhas de rogação, para implorar à Senhora a chuva que tarda. Nessas ocasiões, não raras vezes, como dizem, «a chuva bendita acaba por vir brindar a penitência, a devoção e o pedido, antes mesmo do cortejo iniciar a descida da serra».  

Outrora, em Alverca do Ribatejo, quando a chuva não vinha, certo lavrador, acompanhado por outros lavradores amigos, tinham por costume ir até à Igreja de São Pedro para fazer oscilar a imagem do senhor dos Passos – crentes de que o seu gesto resolvia a situação. Após isto, o grupo, com a sagrada imagem sobre os ombros, dava algumas voltas no interior do templo, solicitando, nas suas preces, a bênção das chuvas tão necessária ao cultivo das terras e às pastagens. Segundo dizem, mal os lavradores saíam a porta da igreja, apareciam as primeiras nuvens no céu, sinal de que a chuva não tardava a chegar. O lavrador ajoelhava então sobre a terra que beijava e agradecia a Deus a graça concedida.

 

(Pudesse um tal milagre acontecer, nestes dias em que parte de Portugal se vestiu de luto.)

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Festas e Tradições Portuguesas Vol. V

Ed. Círculo de Leitores

 

 

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Sábado, 9 de Agosto de 2025

SOLEDAD

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Que sonhos levará

Essa flor no teu cabelo

Essa flor no teu cabelo

Soledad, Soledad

Ai, que sonhos levará.

 

Sonhos

A nascerem nos teus olhos

A queimarem os teus dedos

Na fogueira do destino

Soledad, Soledad

Entre danças e bruxedos.

 

Depois

Que o dia se esconde

E a noite governa a Terra

Todos os versos são teus

Soledad.

 

Ai, cigana

Ai, cigana a tua fome

É pisar o pó do tempo

Quando o teu corpo se cobre

Soledad, Soledad

Com o Sol que há no teu nome.

 

Se eu pudesse

Dava-te um rio sem fundo

Sem ter começo nem fim

Rio em que tu soubesses

Soledad, Soledad

Lavar o pranto do mundo.

 

Mas

Que eu antes te dissesse

Onde ir buscar a magia

A semente de uma esperança

Ai, cigana, tanto queria.

 

Ai, que sonhos levará

Soledad, Soledad

Essa flor no teu cabelo

Soledad.

 

Soledade Martinho Costa

 

(Poema que escrevi a pedido de Amália, para substituir o poema de Cecília Meireles, que Amália, devido a direitos de autor, estava impedida de cantar. A música é de Alain Oulman. Mais tarde, foi musicado e cantado por José Cid.)

 

publicado por sarrabal às 21:02
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2025

CAMPOS DE EXTERMÍNIO HUMANO: AUSCHWTZ; BERGEN-BELSEN (27 DE Abril de 1940 - 27 de Janeiro de 1945) E GAZA (7 DE OUTUBRO DE 2023).

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As sombras que adejam

Sobre as pedras

Não são o sopro da brisa sobre o fogo

Não são um preito humano

São a culpa

Que cabe a cada um de nós

Por maldição.

 

E nem sequer é ultraje

O lume do facho

O milagre da flor

A lágrima tardia

Cada toque na pedra

Cada passo que soa

Cada sulco na laje.

 

Sob a terra

É grande ainda

O espanto dos seus mortos.

 

E as sombras

Que adejam sobre as pedras

A chorarem crimes sem castigo

Denunciam as culpas multiformes

Da vergonha que cabe a quem está vivo.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “A Palavra Nua”

Ed. Vela Branca

Imagem: Mausoléu em Auschwtz.

 

 

 

publicado por sarrabal às 17:31
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