Em 2024, conforme informação da TV e demais órgãos de informação, foram presos 70 incendiários. Isto é, 70 criminosos por fogo-pôsto!
Perante a tristeza, a indignação, o luto e as lágrimas desses dias, que se contaram por muitos, senti-me ligeiramente mais tranquila.
Informavam também que, finalmente, este assunto tinha chegado ao Governo, na pessoa do nosso Primeiro Ministro Luís Montenegro. E foi com esperança que desejei vê-lo tomar, como prometeu na altura, numa entrevista, as decisões que tanto têm tardado.
O castigo que se espera, exemplar e dissuasor, a aplicar àqueles a quem se deve a destruição pelo fogo de grande parte da mancha florestal do nosso país. Os culpados das mortes e das vidas destroçadas de quem vê os seus haveres devorados pelas chamas, criminosamente ateadas por suas mãos.
Aqueles que são os culpados do medo que alimenta quem teme por si e pelos pelos seus, pelas suas casas, pelos seus pertences, pelas suas terras, pelos seus animais, num desfiar de destruição que não termina nestas palavras.
Com a chegada do Outono/Inverno de 2024, fez-se silêncio. Estamos em Junho de 2025, com temperaturas altas, e a vaga de incêndios recomeçou. E recomeçou também a nossa espera para que Luís Montenegro tome, como prometeu, as rédeas desta calamidade que se abate anualmente sobre nós. Que faça o que outros não fizeram até aqui. Que nos livre do receio, que vai sendo antigo, quando se aproxima o Verão. Que seja coerente e duro, que seja implacável no destino a dar aos criminosos, como afirmou, de viva voz, que faria, na entrevista dada em 2024.
Quando digo «destino» a dar e não digo «penas» a aplicar, é porque Montenegro não é um juiz. Porque só na decisão dos juízes, ao longo dos anos, têm estado as penas aplicadas aos incendiários por fogo-pôsto. E essa decisão dos juízes não tem agradado aos portugueses, não tem agradado ao povo. Os crimes são demasiado grandes para tão pequenos castigos.
Quantos anos de prisão foram dados aos 70 incendiários presos em Setembro de 2024? Ninguém sabe. Mas é preciso e urgente que se saiba. Para tomarmos conhecimento de que se fez justiça. Regra geral, muitos são soltos, outros ficam em prisão domiciliária ou com pulseira electrónica, e voltam à sua vida – muitas vezes para atearem novos incêndios. Nestes casos, com o maior desplante, chamam-lhes reincidentes. Se o são, foi porque alguém, inacreditavelmente, consentiu na sua reincidência. Repare-se, até hoje, houve sempre o cuidado de, acauteladamente, acrescentar à designação incendiário, a palavra «presumível». Algumas vezes, com os incendiários «presumíveis» apanhados em flagrante delito.
O povo português está habituado a que o Supremo Tribunal de Justiça seja benevolente nas sentenças ditadas pelos seus juízes. Esperemos que, neste ano de 2025, tal situação mude de vez, com a intervenção do Primeiro Ministro, conforme prometeu.
É urgente mudar as leis. É preciso PRENDER as mãos criminosas. Há severas críticas às sentenças aplicadas pelos juízes, por demais ridículas, inexistentes e perigosas, a dar azo à aderência de novos incendiários, de modo a que a tragédia dos incêndios, anualmente, nos faça a sua fatídica visita.
É preciso parar. Não se pode deixar criminosos em liberdade!
Senhor Primeiro Ministro, apelamos para Vossa Excelência.
Li, na altura, as palavras que pronunciou na entrevista e admirei a sua coragem ao pronunciá-las. Disse às claras o que se diz às escondidas. Que toda a gente sabe, mas cala. Por tudo o que declarou, fez-me acreditar que há ainda políticos «que merece a pena».
Não se perturbe com o clima que se gerar à sua volta. Será de esperar. Confiamos na sua intervenção. As leis têm de ser mudadas neste País. Comece por aí, pelas penas (que se desejam pesadas) a aplicar aos criminosos incendiários. Não podemos deixar que Portugal continue a arder!
Soledade Martinho Costa
( Escritora e jornalista)
(30 de Junho de 2025)

São Pedro, o primeiro dos apóstolos, é celebrado na Ribeira Brava e noutras localidades da Madeira com grandes festejos, a levar até ali milhares de pessoas de toda a ilha.
Da parte religiosa salienta-se a novena, a missa solene de vigília de 28 para 29 e a missa em honra de São Pedro, no dia 29, seguida de procissão. As festividades incluem ainda a actuação de grupos de folclore e musicais, a banda filarmónica, fogo-de-artifício, marchas populares e a tradicional e monumental «charola de São Pedro» levada em romagem à Fajã da Ribeira.
Trata-se de uma armação em arame ou vime, que pode ser revestida («arrumada», no dizer local) com cachos de banana, cerejas, maçãs, laranjas, peras, peros, abacates, mangas, limões, abóboras, tomate, pimentos, nabos, cenouras, maçarocas, batatas, cebolas, etc., numa mostra da fertilidade e riqueza da terra.
Os produtos, que se oferecem às igrejas em altura de festas ou peregrinações, doados pelo povo, fazem parte da tradição rural da ilha, sendo leiloados depois, com os lucros a reverter para a igreja e causas sociais. Devido ao seu peso, uma «charola» pode chegar a atingir os setecentos quilos, ou mais, facto que obriga a ser transportada por alguns homens.
A tradicional e belíssima «charola» madeirense apresenta, por vezes, uma armação com a forma de esfera ou de pinha, feita de varas verdes amarradas entre si. De vários tamanhos, contêm no bojo palha e na base uma grande abóbora a dar pelo nome de «tenerifa» (espécie introduzida na ilha vinda de Tenerife), de modo a equilibrar a carga, constituída, como foi referido, por frutos e legumes habilmente dispostos a cobrirem a armação, numa artística profusão de elementos, de perfumes e de cores.
Primitivamente, levavam ovos, feijão seco, sacos de pano com cereais (milho e trigo) e carne de porco salgada. Em meados do século XX, o costume de enfeitar a «charola» com flores, foi proibido pelas autoridades religiosas, uma vez que, desse modo, acabava por conter menor quantidade de produtos alimentares, tornando-se o leilão menos lucrativo.
O termo «charola», devido ao seu formato arredondado, terá origem na dança de roda mais popular da Europa entre o século XII e o século XVII, no seu início uma dança religiosa, à qual era dado o mesmo nome: «charola».
Muito tradicionais na Madeira são também as «barcas», mais recuadamente chamadas «vapores», vistosamente enfeitadas e levando ofertas para leiloar. Era uso, durante as festividades a São Pedro, realizar-se «o enfeite da barquinha», que entrava no mar, carregada de géneros (ovos, pão de açúcar, frutos, vinho, doces, e outras ofertas que depois eram leiloados.)
As celebrações litúrgicas incluíam outrora na procissão, os «cavaleiros vestidos à turca» (quatro homens a cavalo, cada qual com uma bandeira hasteada); a «dança das espadas» ou «dança das carapuças» (executada por dez ou doze homens com trajos estranhos e uma carapuça com fitas coloridas que lhes caíam pelas costas) e a «rede» (levada por doze pescadores vestidos como os apóstolos).
Destas tradições mantém-se a da «barquinha» e «a dança das espadas», ambas a fazerem parte da procissão no dia 29. A primeira, anteriormente enfeitada apenas com flores e transportando crianças, hoje conduzida por um rapaz vestido de São Pedro. «A dança das espadas», tida como um ritual guerreiro, realizado pelos pescadores da Ribeira Brava é agora executada por sete elementos acompanhados por três músicos, e tem lugar no átrio da Igreja Matriz da Ribeira Brava.
Os homens que dançam a dança das espadas, usam um traje tradicional, com calças e camisa brancas, colete vermelho e um chapéu de feltro preto com fitas coloridas. Usam meias brancas e sapatos pretos, e levam as espadas na mão, prontas para a dança.
No dia 30, a manter a tradição, os pescadores de Câmara de Lobos deslocam-se à Ribeira Brava nas tradicionais procissões nocturnas, pelo mar, com os barcos festivamente ornamentados, para pagarem as suas promessas a São Pedro, padroeiro dos pescadores.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol.V
Edição Círculo de Leitores
Se eu soubesse esculpir a pedra bruta
retalhava nela a tua imagem.
Os vincos do teu rosto
cada sombra.
O teu cismar de monge magoado
o contorno subtil da tua boca
as tuas mãos nodosas e profundas
onde sonhos e lutas enrugaste.
Pudesse a tua imagem ser a arte
que se venera
se sente
se admira
e que embora de pedra a tua fronte
ao tocá-la a voz se nos soltasse
a chamar brandamente pelo teu nome.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua

Filho de Zacarias, sacerdote judeu, e de Isabel, prima de Maria, Mãe de Jesus, São João Baptista, o Precursor, é considerado o primeiro apóstolo e o último dos profetas.
Conforme narração de S. Lucas, quando Zacarias entrou no Santuário para queimar o incenso, procedendo ao exercício das suas funções sacerdotais, apareceu-lhe o Anjo do Senhor que lhe disse: «Nada receies, Zacarias, o teu pedido foi atendido. Isabel, tua mulher, vai dar-te um filho e chamar-se-á João. Será para ti motivo de regozijo e de júbilo e muitos se regozijarão com o seu nascimento.»
Zacarias disse ao Anjo: «Como hei-de verificar isso se estou velho e a minha mulher avançada na idade?» Zacarias duvidou e o sinal por ele obtido foi o castigo. O Anjo respondeu: «Sou Gabriel, aquele que está diante de Deus, e fui enviado para te falar e dar-te estas boas novas. Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria.»
Chegou o dia em que Isabel deu à luz e nasceu um menino. Quiseram dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. Mas tomando a palavra a mãe disse: «Não, há-de chamar-se João.» Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Este, pedindo uma placa, escreveu: «O seu nome é João.» Imediatamente «abriu-se-lhe a boca, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, abençoando Deus».
Enviado por Deus, João é aquele a quem coube a importantíssima missão de preparar e anunciar a chegada de Cristo para O apresentar como o ansiado Messias ao mundo cristão.
Com vinte e quatro anos parte para o deserto, em retiro espiritual, entre a oração e a penitência, alimentando-se apenas de raízes, ervas, frutos, mel e gafanhotos. Citado pelos quatro evangelistas, a data do seu nascimento é celebrada a 24 de Junho, sendo o único santo, além da Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra a data do nascimento. Profeta e pregador da moral e do arrependimento, foi grande o seu prestígio e popularidade. Contam-se por muitos os baptismos que realizou nas margens do rio Jordão, na Palestina, incluindo o de Jesus Cristo.
São João Baptista é decapitado no ano 31 a pedido de Salomé, princesa judia, que solicitou a cabeça do santo a seu tio Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, que julgou Jesus Cristo. Este pedido, segundo a tradição, terá sido feito por exigência de Herodíade, mãe de Salomé e cunhada de Herodes, com o qual mantinha uma relação de adultério. A degolação de São João é celebrada a 29 de Agosto. Terão sido os seus discípulos a enterrar o corpo do santo.
São João aparece representado sob duas formas: um menino a brincar com um cordeiro, ou um adulto cingido por uma pele de carneiro – trajo dos profetas extáticos (com períodos de êxtase) e emblema dos Essénios (sectários judeus cuja doutrina se assemelhava à dos primeiros cristãos).
Conta ainda a tradição que na altura em que Isabel e sua prima Maria se encontravam ambas grávidas, combinaram entre si, que Isabel, mal o filho nascesse, acenderia uma fogueira à porta de sua casa. São João Baptista nasce numa cidade de Judá, seis meses antes de Cristo, e a promessa cumpre-se. Daí resultando, na versão religiosa e popular, as fogueiras que se acendem ainda hoje para celebrar a data do seu nascimento.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V
Ed. Círculo de Leitores
Tela: Caravaggio, «São João alimentando um cordeiro»

Em tempos idos, tal como hoje, os moradores dos bairros populares do Porto organizavam-se em comissões, para angariarem donativos, que revertiam para as despesas destinadas a enfeitar as ruas do seu bairro em homenagem ao Santo Precursor.
Festejou-se, entretanto, o São João da Corujeira, de Cedofeita, da Lapa (inicialmente o mais burguês), do Bonfim e do Palácio de Cristal (o eleito dos namorados) – supostamente, sendo em Cedofeita que o povo, primitivamente, se reunia para festejar o santo, com actos religiosos e pagãos (bailaricos, descantes, bombos e violas).Já referenciados no século XIV, os festejos mudaram-se depois para a Lapa e o Bonfim, locais onde o São João, por volta de 1834, era festejado com a maior animação popular. Nas Fontainhas, por esses anos, começou por se fazer uma «cascata», que criou fama, dando origem a que se deslocassem ali diversos grupos – as rusgas – com roupas festivas, cantos e balões dependurados em ramos, numa afluência de gente ida de todos os cantos do Porto para se divertir e comemorar o santo.
Havia também o hábito de servir café quente, aguardente e aletria. Tanto bastou para que o povo (ainda por isso) acorresse às Fontainhas, aproveitando para lavar o rosto numa fonte existente no local.Sempre antes de nascer o Sol no dia 24, a manter o ritual da água benta, propiciatória e purificadora.
Nos mercados do Anjo (hoje Praça de Lisboa) e do Bolhão era grande a procura das plantas e ervas sagradas e profilácticas (procura que se mantém), principalmente do indispensável «alho-porro» ou «alho de São João». É com ele que se bate na cabeça de quem passa, a manter a tradição do desejo ritual de boa sorte e de fortuna.
Desde os anos sessenta com o martelinho de plástico colorido a substituir a tradição da planta sagrada, que muitos, felizmente, teimam em levar à festa, no desejo de conservar a antiga praxe (atitude que o santo não deixará, por certo, de ter em conta). Actualmente (recuperado que foi o São João em 1924, após vários anos em que não se realizou), diz-se que “tudo começa e acaba na Ribeira”, estendendo-se às praias da Foz e à Boavista.
Todavia, parece ser no Bonfim que se concentra a maior parte do povo e se faz a grande festa são-joanina portuense, embora os pequenos arraiais dos bairros se espalhem por toda a cidade: Massarelos, Vilar, Miragaia, Entre-Quintas, São Pedro de Azevedo, Cantareira, Terreiro da Catedral, São Nicolau, Bairro da Sé, Cais da Estiva, entre outros.
Arraiais todos eles com ornamentações e iluminações festivas, tasquinhas de comes e bebes, fogueiras e bailaricos, num São João popular, folião, de convívio e alegria.
Por épocas mais antigas o São João no Porto contava já com iluminações e ornamentações nas ruas, música, descantes e danças, barracas de petiscos, diversões de todo o género, marchas dos bairros populares, colchas nas janelas, grandes ramos de carvalho encostados às casas ao longo das ruas, o chão coberto de juncos, espadanas, alecrim, rosmaninho e outras plantas aromáticas, que perfumavam a cidade, como acontece actualmente, ao juntarem-se às fogueira
O grande momento da noite é ainda o fogo-de-artifício, ou «fogo-de-São João», lançado da serra do Pilar (Cova da Onça), agora visto da Ribeira, lançado à meia-noite de 23 para 24 nas margens do rio Douro, junto da Ponte D. Luís.
Dos costumes antigos, nenhum se perdeu. Ganhou-se, isso sim, em 1911 o feriado municipal do Porto, instituído no dia de São João.
Os altares ao Santo Precursor, continuam também a armar-se dentro das igrejas, constituindo as imagens de São João Baptista, espalhadas em número considerável pelas igrejas do Porto (algumas de grande qualidade artística), assim como as preciosas pinturas onde ressalta a figura do santo, um património de valor inestimável.
As pequenas «cascatas» são-joaneiras, que povoam a cidade (com origem provável nos presépios), são erguidas num qualquer recanto, junto de uma parede, no passeio público ou nas soleiras das portas, geralmente pelas crianças. Embora surjam as «cascatas» mecânicas ou de grandes dimensões.
Mas a mais importante, conhecida e tradicional é, sem dúvida, a da Alameda das Fontainhas, erguida, anualmente, há perto de oitenta anos na fonte ali existente.
Outra alegoria a merecer a atenção dos Portuenses e de quem visita o Porto no São João, é a que se ergue ao cimo da Avenida dos Aliados, por deliberação da Câmara Municipal, frente aos Paços do Concelho, concebida sempre de forma diferente em cada ano.
As tradicionais «cascatas» – sinónimo de água, alusiva ao rio Jordão – com a figura do santo em lugar de destaque, incluem uma imensidade de enfeites e de figurinhas de barro, fabricadas outrora, como hoje, principalmente, em Avintes e Barcelos, pelos artistas oleiros dessas localidades.
Os manjares cerimoniais desta data continuam a ser o caldo-verde com broa e o carneiro ou anho assado. Se bem que a sardinha assada acompanhada com broa e salada de pimentos constitua o prato mais popular da noite da festa. Depois disso, manda a tradição que se beba o café com leite (a lembrar o antigo café servido nas Fontainhas) e saboreie o pão com manteiga – sem esquecer as «orvalhadas», que obrigam a que ninguém se deite antes de apanhar o orvalho bento «para ser feliz e ter saúde o resto do ano».
Devoção popular feita de alegria contagiante, a Festa de São João no Porto há quem a considere única no Mundo.
Este ano o Porto conta com mais de doze artistas convidados, espalhados por toda a cidade, para alegrar esta noite «são-joanina».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas» Vol. V
Ed. Círculo de Leitores.
Pintura: Andrea del Sarto


A raposa põe o nariz fora da toca. Fareja o ar. Arrebita as orelhas. Cautelosa, avança. Coloca uma das patas dianteiras sobre as folhas secas que ocultam a entrada da sua casa. Logo a seguir, a outra. Já com o corpo fora do buraco, olha à sua roda, focinho levantado.
– Que rico tempo! – exclama, a bocejar, saindo para a mornez da tarde.
Espreguiça-se. Dá meia volta. Não. Não há sinal de perigo. Volta a meter a cabeça na toca e chama:
– Vamos, meus raposinhos, são horas. O dia está no fim. Vamos, toca a levantar!
Entra de novo no covil. Com o focinho põe-se a empurrar o corpo felpudo dos raposinhos, ainda enroscados no torpor do sono. E logo torna:
– Vamos, vamos, preguiçosos, não ouviram chamar? São horas, raposinhos. Não há tempo a perder!
Uma raposinha e dois raposinhos levantam-se de um salto.
– Preparem-se para viajar. – Anuncia a dona raposa.
– Viajar?! – repetem, num espanto, a raposinha e os raposinhos.
– Sim, vamos mudar de casa. – explica a mãe. – Estamos no Verão, vamos passar algum tempo mais perto das searas.
Quando os filhos nasceram, na Primavera, a mãe raposa teve um trabalhão para os alimentar. E também para os ensinar a serem prudentes. Agora, com três meses feitos, espigadotes, estão capazes de enfrentar a vida e os seus perigos. Pois se até já aprenderam a caçar! Mas a raposa sabe que os raposinhos só irão abandoná-la lá pela chegada do Outono. Nessa altura, voltará a casa o seu marido, o senhor raposão.
Mãe e filhos saem de casa numa restolhada. Ao porco-espinho não escapam os preparativos da partida.
– Outra vez de abalada, comadre Raposa? – pergunta, curioso, à entrada da toca.
– É verdade, senhor Porco-Espinho. Chegou a hora de descansar um pouco, que a minha vida, nos últimos meses, não tem sido um regalo!
– Diz bem, comadre diz bem! - responde o outro numa aprovação. – Alimentar e cuidar desses diabretes não é tarefa fácil, não senhor. E para onde é a ida? Para o sítio do costume, não?
– Claro! Nesta altura do ano, com o trigo, o milho, a cevada e o centeio que há por aí, não vai faltar passarada nem roedores. Isto, sem falar nos cordeiros… Os meus raposinhos vão encher a barriguinha à vontade, e eu vou poder descansar desta lufa-lufa que me traz derreada!
Só então o porco-espinho repara na magreza da comadre raposa. Coitada, está a pele e o osso. Por isso, recomenda:
– E veja se engorda um pouco lá por essas bandas, que bem precisa.
A raposa lança sobre si um olhar atento.
– Estou magrita, estou. – e acrescenta, os olhos agora embevecidos pousados nos filhotes: - Também, não admira. Além de os amamentar, fartei-me de andar por aí, esfalfada, em busca do melhor para matar a fome aos meus raposecos!
E logo, bisbilhoteiro, o senhor porco-espinho:
– Muitas visitas às capoeiras, naturalmente…
E a raposa, atrevida, num desafio feito de queixas:
– Pois, então. E que havia eu de fazer? Deixá-los morrer de fome, aos meus raposinhos?!
O porco-espinho, bicho nocturno como ela, concorda, num aceno.
E de novo a raposa, toda espevitada:
– Bem faz o compadre, que se empanturra antes de chegar o Inverno.
– Ora, comadre, bem sabe que sou obrigado a hibernar! – atalha, a justificar-se, o porco-espinho. – Por isso alimento-me o mais que posso de raízes, de tubérculos e de cascas macias de ramos.
– Tem sorte, é o que é. Come daquilo que gosta. Enquanto eu, no Inverno, ando sempre de olho em tudo que me encha a barriga. Não posso ser esquisita no que respeita ao alimento.
Quanta verdade nas palavras da raposa. Com efeito, no Inverno e no início da Primavera, a pobre vê-se aflita para arranjar sustento. A caça é pouca, muitos animais hibernam ou fogem ao frio, agasalhados nos seus esconderijos. E a raposa, ou se afoita a assaltar alguma capoeira, ou, então, não tem outro remédio senão alimentar-se do que encontra: ovos, frutos, répteis, insectos…Ainda que, no Verão, não rejeite uma saltada à vinha para comer um bom cacho de uva moscatel. Ou ao meloal, em busca de melão ou de alguma abóbora madura.
E logo, cheia de pressa, a raposa prepara-se para a partida.
– E agora, adeus, senhor Porco-Espinho. Até à vista. Passe bem. Vou aproveitar o Verão enquanto dura! – regouga ela.
– Boa viajem, comadre Raposa. Saudinha é o que eu lhe desejo! – responde o porco-espinho, a pensar que são horas de ir em busca da ceia.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que o Verão me Contou»
Ed. Publicações Europa-América
Quisera poder dizer-vos
Estou convosco, irmãos
Tenho força nas mãos
E posso destruir
O mal do mundo
E não mentir.
Quisera poder dizer-vos
Vou derrubar os muros
Enterrar no lodo
As pedras atiradas
Estancar com mel
O sangue
Das chagas escondidas.
Quisera poder dizer-vos
Tomai o pão
Matai a vossa fome
Tomai a fonte
Matai a vossa sede.
Trago-vos a paz
O fim da caminhada
Trago-vos o tempo
Construi o futuro.
Mas o poder
Não me pertence, irmãos.
E aqui me rendo
De mãos acorrentadas
Mas a gritar por vós
Mesmo calada.
Soledade Martinho Costa
Do livro "Reduto"

Celebra a presença de Jesus Cristo na Hóstia de Deus, ao mesmo tempo que significa uma homenagem de fé e amor à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Sacramento, com o Seu Corpo e Sangue, Alma e Divindade sob as espécies consagradas – o pão e o vinho.
Feriado nacional, é solenizado na primeira quinta-feira após a comemoração da Santíssima Trindade, que significa o ponto central da doutrina cristã, composta por entidades que formam um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo – um Deus em Três Pessoas.
Instituída no século XIII em Liège, por inspiração de Santa Juliana de Cornillon, nascida em 1192, perto de Liège, na Bélgica, a Festa do Corpo de Deus recebe a bula Transiturus do papa Urbano IV em 18 de Setembro de 1264, estendendo a festa à Igreja Universal. A decisão encontra alguma resistência entre a Cristandade, só ultrapassada nos inícios do século XIV (1312), quando por insistência do papa Clemente V a questão volta a ser levantada durante o Concílio de Viena (1311 e 1312). Pouco depois (1314 ou 1316), a bula Transiturus é confirmada sob a vigência do papa João XXII.
Em Portugal a manifestação religiosa é aceite, tendo D. Dinis ordenado em 21 de Julho de 1318, à Colegiada de Santa Maria de Guimarães que promovesse anualmente – considerados alguns rendimentos estipulados pelo rei –, a celebração do Corpo de Deus, embora se sustente a hipótese de que a festa tenha sido desde logo comemorada no nosso País com uma procissão (Évora) a partir de 1265, isto é, no ano seguinte à bula de Urbano V.
Considerada entre nós a mais majestosa e solene de todas as procissões instituídas pela Igreja Católica, aponta-se a cidade de Lisboa como a primeira e a principal localidade onde o brilho e a pompa desta procissão mais se faziam notar, com o próprio rei e toda a corte a incorporar o préstito religioso. Seguiam-se Guimarães, Porto, Coimbra, Portalegre e logo outras terras importantes, em que a celebração oferecia grande solenidade e aparato – e também alguns privilégios municipais…
Em Lisboa, a procissão do Corpo de Deus, continua a cumprir anualmente a tradição. Com saída da Sé de Lisboa, percorre as ruas da Baixa, para culminar com uma bênção solene no Largo da Sé.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V.
Ed. Círculo de Leitores
Imagem: Resplendor (a Luz e a Glória Divina)
Hoje
não vou escrever
poemas eruditos
rejeito tudo
que me proponha
regras vigentes e usadas
na construção de versos
líricos e bonitos
métrica, versos perfeitos
depurados
a exaltarem o consenso das elites.
Hoje
mesmo que pareça mal
aos literatos
vou usar
das palavras que conheço
apenas as mais simples
triviais
como lágrima
raiva, morte, drama
e vou gritá-las
aos ouvidos surdos
dos humanos.
Para dizer bem alto
que respiro
que estou ainda viva
e amo a vida
a vida que me arrasta
e me fascina
embora disso me acuse
e me arrependa.
Para dizer bem alto
plena de experiência
e de juízo
que repudio os homens
e o mundo
este mundo ignóbil
fútil, agressivo
este mundo impudente
empedernido
coberto de luxúria e de preguiça
onde transito por hora
a tempo todo.
Que odeio a guerra
a fome, a injustiça
a constância das horas condenadas
o respirar dos dias sem começo
as noites dos segredos violados
a mentira, a opressão, o medo
o desencanto na voz dos rios tristes
o holocausto dos actos desmedidos
os crimes cometidos sem castigo.
Para dizer bem alto
que rejeito
da alma e dos sentidos
este mundo de tretas
e de letras
onde o peso
das palavras dos poetas
se perde
nos poemas que não mudam
um milímetro sequer
a face ao planeta.
Para dizer bem alto
a vontade que tenho
e que me assiste
de arrostar comigo
sem esguardo
pelos deuses
e pelo seu castigo
esta raiva sem freio
que defendo
de dizer num grito
quanto odeio
a barbárie dos homens
e do mundo
até ao infinito.
Porque hoje vi
três jovens condenados
três corpos ainda de criança
agredidos, famintos, destroçados
três infantes sem nome
torturados, sem direitos
sem voz e sem justiça
e um deles não era
por milagre
o meu filho ou o teu
no rosto, na idade
no recorte da boca
nos cabelos.
Porque hoje vi
três jovens condenados
por defenderem
a razão e a liberdade
de pulsos algemados
mas de olhos postos em nós
em mim, em ti
à espera de um sinal
de um recado.
É por isso
que escrevo estas palavras
estas palavras simples
e banair
comuns da nossa fala
e as remeto
sem esperança
sem data, sem endereço.
Porque afinal de contas
o que faço
após este débil arremesso
é ficar aqui, silenciada
alimentada de raiva
e de impotência
a rabiscar as letras de um poema
que não pode ser mais que um desabafo.
Soledade Martinho Costa
(Publicado em plaquette)
Proclamado pelo papa Pio XI, em 1934, patrono da cidade de Lisboa, Santo António, celebrado a 13 de Junho, é considerado um santo padroeiro contra todos os males.
Nascido em Lisboa, junto da Sé, ou Igreja de Santa Maria Maior, no seio de uma família de pequena nobreza, no ano de 1189, 1191, 1192 ou 1195, supostamente no dia 15 de Agosto, de seu nome Fernando de Bulhões, Santo António de Lisboa, ou Santo António de Pádua, por ter vivido e pregado nesta cidade de Itália, terá iniciado a sua instrução na escola capitular que funcionava nas dependências da catedral.
Aos quinze anos entra para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos Frades Agostinhos, transitando depois para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde se entregou, fervorosamente, ao estudo e à mística. Ordenado padre aos vinte e cinco anos, troca o hábito branco dos Agostinhos pelo castanho dos Franciscanos e entra no Convento de Santo Antão, nos Olivais, altura em que muda de nome, passando a chamar-se António.
Adquiridos em Portugal os conhecimentos intelectuais possíveis para a época, parte para Marrocos com a intenção de poder levar a cabo a missão que mais ambicionava desenvolver – a de evangelizar. Pouco tempo depois, devido ao clima, adoece gravemente e embarca de regresso a Portugal. O navio, porém, apanhado por uma tempestade, aporta na Sicília, onde se encontra, então, São Francisco de Assis, pelo qual nutria devotada admiração e de quem se torna amigo.
Corria o ano de 1221 e António radica-se no Convento de Arcella, em Pádua, cidade que pouco a pouco se rende aos seus dotes de grande pregador, extasiando-se perante a simplicidade, a força e a fé dos seus sermões – por vezes a denunciarem lúcida e corajosamente os males sociais do seu tempo. A fama da sua santidade, caridade para com os pobres, sabedoria e eloquência, depressa se espalhou pelo Mundo, não havendo templo que albergasse as multidões que acorriam a ouvi-lo, facto que levava a que as suas pregações fossem feitas ao ar livre.
Célebre ficou o seu sermão aos peixes, que proferiu, de acordo com a tradição, na costa do Adriático, região onde imperavam os hereges cátaros e patarinos: «Ouvi a palavra de Deus, vós, peixes do mar e do rio, já que não a querem escutar os infiéis hereges», logo acudindo à tona milhares de peixes, mostrando a cabeça fora da água.
Vários foram também os templos que se construíram em seu louvor por todo o país, entre eles o sumptuoso Convento de Mafra, que lhe foi consagrado na altura do nascimento de D. José I, em cumprimento da promessa de D. João V, que desejava um herdeiro.
Denominado pelo povo cristão como «o Santo de Todo o Mundo» (conforme a famosa frase de Leão XIII), Santo António, consumido pelo esforço e pela doença, morre a 13 de Junho de 1231, no Convento de Arcella, em Camposampiero. É canonizado a 30 de Maio do ano seguinte, constituindo a sua canonização a mais rápida da história da Igreja, por bula do papa Gregório IX, que, segundo dizia, se orgulhava de o ter conhecido e escutado e a quem chamou «Arca das Escrituras».
Santo António deixou os Sermões, que lhe valeram a inclusão do seu nome entre o reduzido número dos Doutores da Igreja, distinção que lhe foi atribuída pelo papa Pio XII, a 16 de Janeiro de 1946. Devido aos seus inúmeros milagres, fizeram-se peregrinações ao seu sepulcro, em Pádua, à semelhança das que foram feitas a Jerusalém, a Roma e a outros importantes santuários. Teve ainda a honra, reservada a poucos santos, de possuir uma liturgia particular, privilégio que na sua Ordem só compartilhou com São Francisco.
Iconograficamente, Santo António apresenta-se como um jovem vestido de franciscano, mas também de cónego regrante de Santo Agostinho ou de Menino de Coro, segurando um livro na mão esquerda, sobre o qual se senta o Menino Jesus (a partir do século XVI elemento inseparável da imagem do santo), e com a direita uma cruz e um lírio, símbolo da pureza, que aparece como seu atributo em meados do século XV.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V
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