
A LÁGRIMA
Passou na rua há pouco a procissão
E mais que as velas
Mais que as flores a atapetar o chão
Mais que as colchas coloridas nas janelas
A Fé
A Fé da multidão
Que seguia atrás da Virgem no andor.
Eram irmãos
Irmãos no fervor da oração
No amor a Deus
Nas suas dores.
E por ser tão grande a devoção
Que no ar pairava e se sentia
Pareceu-me até
Que pelas faces da Senhora lhe descia
Uma lágrima de terna gratidão.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
Sob um céu sem cor onde o anil
se perde a procurar-se entre o assombro
e a terra chora o pão que aborta em sangue
na boca onde resistem orações
as crianças adormecem de mãos dadas.
Sem o sono sereno dos infantes
mas sim o dos horrores que as acalentam
pelas noites de gritos e destroços
das cidades fantasmas e dementes.
As crianças que juntas desconhecem
os brinquedos e as histórias encantadas
mas que trocam entre si a descoberta
do fel que veste os corpos combatentes.
As crianças proibidas de sonhar
o longínquo retiro das estrelas
não o das balas que os corpos arrefecem
e colocam nos seus olhos as respostas
às perguntas que não sabem soletrar.
As crianças que respiram os segundos
no choro sufocado do seu medo
como se a dor infligida resgatasse
das horas o pavor do fumo espesso.
As crianças que juntas aguardam
não a dança do vento nos trigais
nem o perfume que oferecem os lilases
mas apenas a certeza de acordarem
a madrugada que não sabem se amanhece.
As crianças que nascem e decoram
as partículas do lume e a silhueta
das aves de aço que silvam nos espaços
sobre os seus ninhos de mortos e de escombros.
As crianças condenadas que contestam
braços pendentes e lágrimas no rosto
que se fale de paz e que no mundo
sob o peso deposto nos seus ombros
o Homem se recuse a ser poeta
quando todas as crianças são poemas.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
(Escrito em 2006)
Na canoa volta
Retoma a senda da viagem
O rumo do degredo.
Por igual trilho
Regressa
À rendição dos dias saqueados
Ao mesmo reduto
Do país real.
A lágrima, essa
Rolou por dentro da alma
Envolta em ancestral segredo
Sepultada na distância
Que vai de um a outro homem.
Nem o silêncio a soube
Só o rio a sentiu em labareda
Na algidez das ondas.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Foto: Vinícius Benites Alves
CAMÕES
Tão mágica clareza
Tão misterioso encanto
Só aos Grandes
Aos Imortais Poetas
O dom de assim escreverem
Lhes concede
O segredo que faz cantar as fontes.
Por isso
Tão-somente
O copiar o jeito do teu punho
Ao segurar a caneta com que escrevo
Me tolhe o gesto
Me ruboriza a face
Ao atentar na grandeza do teu canto
E na pobreza dos versos que te faço.
Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»
Não são apenas as festividades rurais ligadas ao primeiro de Maio a merecer reparo pela sua expressividade popular, cumpridas, ciclicamente, em rituais e crenças. Também os dias 2 e 3 de Maio são celebrados entre nós com idênticas manifestações de carácter festivo, comportando todas elas praxes cerimoniais específicas.
Enquanto algumas têm origem em ritos pagãos campestres perfilhados pela Igreja, outras têm por intenção invocar, tão-só, factos ou mitos considerados dignos de relevância. Umas e outras a misturar na sua componente o histórico, o religioso e o profano, particularmente entre a comunidade rural, onde crenças e práticas rituais continuam a verificar-se em datas festivas, como herança perpetuada até aos nossos dias. Já na antiga Roma tinham lugar nos dias 1, 2 e 3 de Maio, as Florais ou Florálias, festas celebradas em louvor de Flora, deusa das flores e mãe da Primavera.
Amada por Zéfiro, vento do oeste, e venerada pelos Sabinos – antes da submissão deste povo aos Romanos, em 220 a.C., e da própria fundação de Roma – , Flora apresentava-se no seu templo, no Quirinal, uma das sete colinas onde foi construída Roma, permanentemente adornada com grinaldas de flores. As celebrações tiveram, de início, um carácter campestre e popular, com jogos e danças, mas acabaram por tornar-se extremamente licenciosas.
Daí, ser provável, a eventual relação entre as celebrações a Flora e as comemorações rituais campestres que se efectuam no nosso e noutros países nos três primeiros dias de Maio, principalmente no dia 3 – dia da Santa Cruz, ou dia das Cruzes, dia da Bela Cruz, ou dia da Vera Cruz – , data em que se regista uma das mais antigas solenidades litúrgicas da Igreja, já celebrada em Jerusalém no tempo do imperador romano Constantino, baseada na exaltação do triunfo de Cristo sobre a morte. Constantino Magno foi o legislador da paz para a Igreja, ajudando a consolidar o Cristianismo como religião nova no Império Romano.
Várias são as tradições que apontam este dia como um dia santificado, ao qual estão ligadas diversas lendas, como a que se refere ao milagre do achamento da verdadeira Cruz de Cristo, por Helena, mãe de Constantino, quando da sua viagem à Palestina, na intenção de procurar o madeiro da Cruz em que o Senhor foi crucificado.
Segundo alguns investigadores, existem registos desse achado no século XIII, dando-o como ocorrido no século III. Assim terá acontecido, tendo Helena dado a seu filho parte do Santo Lenho como preciosa relíquia. A restante foi repartida pelo mundo cristão, representando a Relíquia Sagrada, que acompanha em relicário e sob o pálio a imagem do Senhor nas procissões, conquanto nem todas as dioceses a possuam.
A Festa do Achamento da Cruz passou, entretanto, de Jerusalém para todo o Oriente e logo depois para o Ocidente. Roma realizou estas festividades pela primeira vez no século VII.
Segundo a lenda, o Santo Lenho, roubado séculos mais tarde pelos Persas, terá sido recuperado pelo imperador Heráclio, que o levou às suas próprias costas, desde Tiberíades até Jerusalém, onde a Cruz foi entregue ao patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630 - data que recebeu a designação do Dia da Santa Cruz ou Invenção da Santa Cruz. A Basílica de Santa Cruz, em Jerusalém, foi depois mandada construir por Santa Helena para receber as Relíquias do Santo Lenho, ali abrigadas há mais de 15 séculos.
Sob a mesma designação, o acontecimento do Achamento da Cruz é celebrado, oficialmente, no calendário católico a 14 de Setembro.
Das inúmeras festas e romarias que têm lugar nestes dias de norte a sul do nosso País, uma praxe é comum a todas elas: a de enfeitar com flores variadas, verdura, rosmaninho e «cordões de maias» (giestas) as fontes, as cruzes, os cruzeiros e, até, as campas dos cemitérios e as encruzilhadas – neste último caso, para «proteger as pessoas e os animais dos malefícios das bruxas, quando à noite por ali passarem.» Assim acontece nas localidades de Fronteira (Cabeço de Vide, Alto Alentejo); no Ribatejo, em aldeias do concelho de Alenquer (Tojal, Casais de Maçaricos, Mossorovia); na serra da Freita (Aveiro, Beira Litoral); no Vimieiro (Beira Alta) e em Alpalhão (Alto Alentejo), entre outras.
Designado em Alpalhão pelo «dia em que vão esperar a Dona Rosa», a denominação poderá representar, também ela, uma reminiscência dos rituais praticados na Grécia Antiga, no dia 3 de Maio, em honra de Cíbele, deusa da terra e dos animais, que tinham por finalidade «receber a Primavera», simbolizada por uma jovem vestida com flores e verdura, transportada pelos campos num andor.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV
Ed. Círculo de Leitores
A Primavera vem lembrar aos homens e às mulheres que as tarefas agrárias esperam por si, para serem cumpridas. Que a terra não cessa de pedir o seu amanho e os animais a atenção de que necessitam. Agora, que o Sol começou a subir no horizonte e os dias têm o tamanho das noites, é preciso prosseguir o trabalho nos campos. Porque os homens e as mulheres amam e respeitam a terra que cultivam. Conhecem-lhe os segredos. Satisfazem-lhe os pedidos. Deslumbram-se a cada nova sementeira.
Assim, lá os temos, a fazer a monda dos cereais de Inverno. A sachar e a recolher as favas, as ervilhas, as cebolas e as batatas temporãs. A semear nas hortas os rábanos, os pimentos, as cenouras e o feijão. E ainda a salsa, os coentros e o tomilho.
A plantar nos canteiros os gladíolos, as begónias, as gipsófilas, os goivos e os malmequeres. E a enxertar o azevinho, os lilases e as roseiras.
Num trabalho constante, homens e mulheres recolhem o mel das colmeias. Mudam os enxames e substituem as abelhas-rainhas. Retiram os abrigos às cerejeiras, já sem receio das geadas. Engarrafam os vinhos nas adegas. Fazem cavas junto ao tronco das árvores para lhes dar a frescura apetecida.
Quanto aos animais, também estes aguardam os seus cuidados. Vigiam a postura das galinhas na capoeira. Dão alimento verde às vacas nos currais. Engordam os bois e os leitões. Tratam dos coelhos, dos perus, dos patos e dos pombos. Levam ao pasto as cabras e as ovelhas. Começam a tosquia do gado, porque o calor já se faz anunciar.
Numa tarefa infinda, que começa com os alvores da madrugada e só termina à tardinha, quando o Sol se põe e o céu anuncia que a noite não tarda a chegar.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que a Primavera me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
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