Vagueiam sombras pelo cais
Vai adiantada a hora
Sem lhes dizeres onde vais
Não lhes perguntes quem são.
Guarda tu o teu segredo
Segue o teu caminho, irmão
Corre atrás da madrugada.
À noite
As sombras são almas
A cumprirem um degredo
E a muitas não se pergunta
Porque morreram tão cedo.
Soledade Martinho Costa
Do livro Reduto

O livro é a chave
Da caixa das surpresas
A magia feita do som
Ou do silêncio das palavras
O espelho onde se lê o Futuro
A estrada onde o Passado
Deixou a marca dos seus passos.
O livro é um amigo
Um companheiro, o melhor professor
As mil e uma histórias do saber
O herói aventureiro que se oferece
Para contigo viajar sonhar e aprender.
O livro é um poeta e um poema
É um operário na construção de um verso
É um músico no ritmo da rima.
O livro é o tempo que foi
O tempo que passa, o tempo que vem
É um segredo, um retrato
É brincadeira e riso
E talvez uma lágrima também.
O livro é um pintor
Que te mostra a paisagem
A cor do mar, do céu, das aves
É a saudade, a coragem, a emoção
A verdade ou a imaginação.
O livro é a distância
Que separa a escuridão da luz
É a sede que se transforma em fonte
A seiva que percorre a alma
O Sol que amadurece os frutos.
É a terra de semeio
Onde floresce o Amor, o Conhecimento
A Fé, a Esperança, o Entendimento.
O livro
É a mais bela flor nas mãos de uma criança.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
Há um silêncio de ave à nossa volta
A marcar a cadência aos nossos passos.
Faz-nos falta uma flor
Que os troncos mortos
São vontades ausentes
E a força
Que nos faz chorar de pena
Verdes copas.
Junto de nós
Nos olhos do menino sem jardim
Uma tristeza azul
Que nos importa.
E o peso de uma culpa
Que não temos
Carrega os nossos ombros
Mesmo assim.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua
Ed. Vela Branca

Tem lugar na Sexta-Feira Santa (à tarde ou à noite) e representa as diversas «estações», ou «etapas» que Jesus percorreu, de acordo com as situações por Ele vividas, desde que foi condenado até ao momento da Sua Crucificação no monte Calvário – também designado por «lugar do Gólgata» ou «da Caveira», em Jerusalém.
A devoção da Via-Sacra pode ser presidida por outra pessoa que não o pároco (acompanhada pelo sacristão, que transporta uma pequena cruz), e o relato das «estações» feito dentro ou fora do espaço litúrgico. Em diversas localidades é realizada no exterior, ao redor dos templos, ou mesmo ao longo das ruas. Por vezes os quadros (ou imagens) em que se relata o caminho de Cristo até à Cruz (existentes nas paredes das igrejas) são dispostos, a espaços, ao longo do percurso onde se efectua a devoção. Outras vezes verifica-se a existência de nichos ou altares de pedra (as «capelinhas dos passos») erigidos, propositadamente, para esta cerimónia litúrgica em locais determinados de aldeias, vilas ou cidades.
As catorze «estações», revistas pelo papa João Paulo II, de modo a corresponderem, com a maior exactidão, à descrição bíblica, foram também acrescidas de uma décima quinta: a da Ressurreição. Durante a Via-sacra, o padre, ou quem o substitui, dirige-se a cada um dos quadros, parando junto dele, referindo-se-lhe e fazendo no final uma reflexão, seguida de um pai-nosso e de uma ave-maria.
Registe-se a devoção da Via-Sacra, realizada à noite, na aldeia de Eira Pedrinha (Condeixa-a-Nova), onde um grupo de rapazes e raparigas sai da capela de São Jorge para dispor os seculares quadros ao longo de um determinado percurso, dentro do lugar. Junto de cada quadro acendem uma vela e colocam uma cruz feita de cana. Após isto, regressam à capela, saindo então o povo em cortejo de velas. Terminado o relato da última «estação», as velas são apagadas e retirados os quadros e as canas em cruz, que voltam a ser guardados para tornarem a sair na Via-Sacra do ano seguinte.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III
Ed. Círculo dos Leitores
Foto: Jorge Barros
O beijo do mar sobre os nossos pés
Umas vezes brando, outras agitado
A esconder de nós búzios e corais
E a comandar a voz das marés.
O beijo da rosa ainda em botão
O beijo do pão a cozer no forno
O beijo que traz consigo o perdão.
O beijo do lume que oferece a braseira
O beijo da brisa que vem do pinhal
Feito de resina a escorrer do tronco
Que o homem sulcou com lâmina fina.
O beijo da aragem feito das essências
Do verde dos campos por onde passou.
O beijo do Sol quando abre as cortinas
O beijo das estrelas a espreitar à janela
O beijo da sombra a seguir-nos os passos
O beijo dos santos na chama da vela.
O beijo da chuva que nos molha a face
Que nos sabe bem nos dias de Agosto
O beijo soprado na ponta dos dedos
Dirigido a quem se afasta de nós
O beijo trocado entre dois amantes
No local secreto quando estão a sós.
O beijo esperado de quem regressou
O beijo na testa distraído ou reverente
O beijo em desuso nas costas da mão
De costumes idos nem sempre inocente.
O beijo das margens que ladeiam o rio
Na sua viagem por pedras e matos
O beijo do cego que tacteia o rosto
Daqueles que ama e que nunca viu.
O beijo do jovem que pede a moeda
Destinada à droga, á dose, ao veneno
Que o há-de matar em sono sereno.
O beijo do insano que não sabe o que diz
Que à vida não pede nem sequer um pouco
Pois só a loucura o torna feliz.
O beijo proscrito entre sexo igual
Que o mundo condena, agride, critíca
E classifica de anti-natural.
O beijo do frio, da neve e do vento
O beijo do crime, da culpa e do medo
O beijo do choro, da fome e da guerra
Enquanto se mente e rouba em segredo
Sem haver receio das grades da cela.
O beijo dos vultos em qualquer viela
Feito da ruína de um sonho adiado.
O beijo do fogo que apavora e mata
Ateado por loucos ou por mão-barata.
O beijo da infância que mora em asilo
À espera de quem lhe acenda o futuro
E de noite chora com medo do escuro.
O beijo que chega vindo da Amazónia
No grito das árvores que são degoladas
O beijo que agride a pele e a raça
Quando toda a Terra tem cores variadas.
O beijo da infâmia, das seitas, das regras
Que trazem o povo de pulsos algemados.
O beijo do campo de refugiados
Onde a Primavera não deixa o perfil.
O beijo de quem já esqueceu o nome
E dorme na rua em País de Abril.
Soledade Martinho Costa
Do livro Canções Contadas
Edições Sarrabal
Estava um homem sentado à sombra de uma tamareira, quando ouviu o trinado de uma ave. Levantou-se para saber de onde provinha aquele canto, que lhe pareceu divino, e logo se lhe deparou, bem perto de si, pousado num pequeno arbusto, um pássaro de extraordinária beleza. Cautelosamente, o homem aproximou-se na ânsia de capturá-lo. Se tivesse sorte, levá-lo-ia para casa e metê-lo-ia numa gaiola. Poderia, assim, deliciar os seus ouvidos com o seu canto, e os seus olhos com o colorido da sua plumagem. A sorte estava do seu lado e o homem conseguiu apanhar a ave.
— Por que me roubas a liberdade? – perguntou o pássaro, aflito, ao sentir-se preso nas suas mãos.
— Porque os meus ouvidos desejam o teu canto e os meus olhos o colorido da tua plumagem! – respondeu o homem.
— Nesse caso, cometes um erro! – advertiu o pássaro. – Apesar da doçura do meu canto e das cores das minhas penas, não passo de uma velha ave de corpo debilitado. As minhas cordas vocais estão demasiado fracas e a minha voz não irá durar por muito mais tempo…
— Lamento, mas nada me fará mudar de ideias. Vou levar-te comigo para minha casa. – disse o homem.
Então, a ave fez-lhe uma proposta:
— Se me concederes a liberdade, revelar-te-ei, em troca, três verdades que te serão preciosas para o resto da vida!
O homem, com a ave bem segura nas mãos, foi colocar-se de novo debaixo da tamareira.
— Revelar-te-ei a primeira verdade – continuou o pássaro – ainda cativo nas tuas mãos. A segunda, mal me encontre pousado nos ramos desta tamareira, que nos protege com a sua sombra. E a terceira, quando levantar voo, rumo ao horizonte!
O homem pensou, tornou a pensar, mirou a ave que lhe falava assim e declarou:
— Não sei se faço bem ou mal, mas aceito a tua proposta. Diz-me, pois, a primeira verdade!
Ainda segura entre as mãos do homem, a ave respondeu:
— Não chores nunca a perda de uma coisa, por muito valiosa que ela seja. Nada de mais precioso existe do que a vida, e só a perda dela é merecedora das nossas lágrimas.
Nesta altura, o homem abriu as mãos e deixou que a ave voasse em liberdade.
Pousada em segurança num dos ramos da tamareira, a ave disse desta vez:
— Não acredites nunca numa coisa absurda que te digam, sem procurares saber primeiro se o que te dizem corresponde à verdade!
E o pássaro acrescentou, enquanto voava para outro ramo um pouco mais alto:
— Antes de partir, vou dizer-te um segredo. Debaixo das minhas asas, transporto dois diamantes. Foi quanto perdeste ao devolveres-me à liberdade!
Espantado com esta revelação, o homem, choroso e arrependido, gritou:
— Já que não posso aprisionar-te novamente, cumpre, ao menos, a tua promessa: diz-me a terceira verdade!
A ave, então, declarou:
— Como te atreves a pedir-me que te diga a terceira verdade, se de nada te serviram a primeira e a segunda que te revelei?!
— Como assim?! – espantou-se o homem.
— Pois não te disse – continuou o pássaro – para não chorares uma coisa que tivesses perdido? E que averiguasses primeiro se era verdade algo de absurdo que te contassem? E que fizeste tu? Choraste por me haver perdido. Acreditaste que transportava sob as minhas asas dois diamantes, sem teres a certeza de que a minha afirmação era verdadeira. Como te atreves, agora, depois de te mostrares tão insensato, a pedir-me que te revele a terceira verdade?!
E a ave, sem esperar resposta, abriu as asas e voou na direcção do horizonte.
Quanto ao homem, parado à sombra da tamareira, ficou a meditar na sabedoria das suas palavras.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Os mais Belos Contos de Todo o Mundo», Vol. II
Ed. Publicações Europa-América
Menino
Que mostra o luto
No rosto enxuto
Por sua mão
E pensa
Em seu juízo
No paraíso
Que não lhe dão.
Menino
Que esconde o medo
Atrás das estrelas
Do seu olhar
Dizer-te
Ai, quem pudera
Que hás-de ter tempo
Para sonhar.
Menino
Que se alimenta
No Sol das horas
Que o dia tem
Menino
De chocolate
Sem ter o colo
De sua mãe.
Menino
Que nos indica
Que a esperança fica
Para lá do fundo
E pensa
Em seu juízo
Que era preciso
Mudar o Mundo.
Menino
Que conta ao vento:
«O sofrimento
É meu irmão»
Menino
Tecto de lata
Que a guerra mata
Sem ter razão.
Menino
Que esconde o medo
Atrás das estrelas
Do seu olhar
Dizer-te
Ai, quem pudera
Que hás-de ter tempo
Para sonhar.
Soledade Martinho Costa
Do livro Canções Contadas
Edições Sarrabal

Meu filho
Minha ternura
Meu coração
Dado inteiro
És a fome
Da fartura
Que guardo
No meu celeiro.
Meu filho
Minha alegria
Meu cansaço
Meu deleite
És o brilho
Do meu dia
Candeia
Do meu azeite.
Meu filho
Minha coragem
Minha luta
Minha chama
Eras fruto
Na folhagem
Se os meus braços
Fossem rama.
Soledade Martinho Costa
Do livro Reduto
Tela: Adolphe Bouguereau
Porque se esvaneceu o perfume da trepadeira
enamorado
da brancura da cal que vestia o muro.
Onde se perdeu essa vontade
de afirmar
que a paz é a semente onde se gera a estrada do futuro.
Talvez
porque o céu que cobre o Mundo
mal rompe a madrugada
apesar do esplendor do Sol
acorda em cada novo dia sempre escuro.
Soledade Martinho Costa
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