Terça-feira, 29 de Abril de 2025

SOMBRAS

462239559_8397199963701162_3803834554257773235_n.jVagueiam sombras pelo cais

Vai adiantada a hora

Sem lhes dizeres onde vais

Não lhes perguntes quem são.

 

Guarda tu o teu segredo

Segue o teu caminho, irmão

Corre atrás da madrugada.

 

À noite

As sombras são almas

A cumprirem um degredo

E a muitas não se pergunta

Porque morreram tão cedo.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Reduto

 

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Abril de 2025

23 DE ABRIL - DIA DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR - O LIVRO

176773741_3899601846794352_2760121155267494025_n.j

O livro é a chave

Da caixa das surpresas

A magia feita do som

Ou do silêncio das palavras

O espelho onde se lê o Futuro

A estrada onde o Passado

Deixou a marca dos seus passos.

 

O livro é um amigo

Um companheiro, o melhor professor

As mil e uma histórias do saber

O herói aventureiro que se oferece

Para contigo viajar sonhar e aprender.

 

O livro é um poeta e um poema

É um operário na construção de um verso

É um músico no ritmo da rima.

 

O livro é o tempo que foi

O tempo que passa, o tempo que vem

É um segredo, um retrato

É brincadeira e riso

E talvez uma lágrima também.

 

O livro é um pintor

Que te mostra a paisagem

A cor do mar, do céu, das aves

É a saudade, a coragem, a emoção

A verdade ou a imaginação.

 

O livro é a distância

Que separa a escuridão da luz

É a sede que se transforma em fonte

A seiva que percorre a alma

O Sol que amadurece os frutos.

 

É a terra de semeio

Onde floresce o Amor, o Conhecimento

A Fé, a Esperança, o Entendimento.

 

O livro

É a mais bela flor nas mãos de uma criança.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

 

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Terça-feira, 22 de Abril de 2025

22 DE ABRIL - DIA DA TERRA - ARRANHA-CÈUS

483995310_9356511191103363_1285313967507816632_n.jHá um silêncio de ave à nossa volta

A marcar a cadência aos nossos passos.

 

Faz-nos falta uma flor

Que os troncos mortos

São vontades ausentes

E a força

Que nos faz chorar de pena

Verdes copas.

 

Junto de nós

Nos olhos do menino sem jardim

Uma tristeza azul

Que nos importa.

 

E o peso de uma culpa

Que não temos

Carrega os nossos ombros

Mesmo assim.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro A Palavra Nua

Ed. Vela Branca

 

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Sexta-feira, 18 de Abril de 2025

VIA-SACRA

462924830_8467198983367926_3823676518472160359_n.j

Tem lugar na Sexta-Feira Santa (à tarde ou à noite) e representa as diversas «estações», ou «etapas» que Jesus percorreu, de acordo com as situações por Ele vividas, desde que foi condenado até ao momento da Sua Crucificação no monte Calvário – também designado por «lugar do Gólgata» ou «da Caveira», em Jerusalém.

A devoção da Via-Sacra pode ser presidida por outra pessoa que não o pároco (acompanhada pelo sacristão, que transporta uma pequena cruz), e o relato das «estações» feito dentro ou fora do espaço litúrgico. Em diversas localidades é realizada no exterior, ao redor dos templos, ou mesmo ao longo das ruas. Por vezes os quadros (ou imagens) em que se relata o caminho de Cristo até à Cruz (existentes nas paredes das igrejas) são dispostos, a espaços, ao longo do percurso onde se efectua a devoção. Outras vezes verifica-se a existência de nichos ou altares de pedra (as «capelinhas dos passos») erigidos, propositadamente, para esta cerimónia litúrgica em locais determinados de aldeias, vilas ou cidades.

As catorze «estações», revistas pelo papa João Paulo II, de modo a corresponderem, com a maior exactidão, à descrição bíblica, foram também acrescidas de uma décima quinta: a da Ressurreição. Durante a Via-sacra, o padre, ou quem o substitui, dirige-se a cada um dos quadros, parando junto dele, referindo-se-lhe e fazendo no final uma reflexão, seguida de um pai-nosso e de uma ave-maria.

 

Registe-se a devoção da Via-Sacra, realizada à noite, na aldeia de Eira Pedrinha (Condeixa-a-Nova), onde um grupo de rapazes e raparigas sai da capela de São Jorge para dispor os seculares quadros ao longo de um determinado percurso, dentro do lugar. Junto de cada quadro acendem uma vela e colocam uma cruz feita de cana. Após isto, regressam à capela, saindo então o povo em cortejo de velas. Terminado o relato da última «estação», as velas são apagadas e retirados os quadros e as canas em cruz, que voltam a ser guardados para tornarem a sair na Via-Sacra do ano seguinte.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III

Ed. Círculo dos Leitores

Foto: Jorge Barros

 

publicado por sarrabal às 08:42
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Quinta-feira, 17 de Abril de 2025

O BEIJO DOS DIAS

458206269_8135646549856506_2338813118774426776_n.jO beijo do mar sobre os nossos pés

Umas vezes brando, outras agitado

A esconder de nós búzios e corais

E a comandar a voz das marés.

O beijo da rosa ainda em botão

O beijo do pão a cozer no forno

O beijo que traz consigo o perdão.

O beijo do lume que oferece a braseira

O beijo da brisa que vem do pinhal

Feito de resina a escorrer do tronco

Que o homem sulcou com lâmina fina.

O beijo da aragem feito das essências

Do verde dos campos por onde passou.

O beijo do Sol quando abre as cortinas

O beijo das estrelas a espreitar à janela

O beijo da sombra a seguir-nos os passos

O beijo dos santos na chama da vela.

O beijo da chuva que nos molha a face

Que nos sabe bem nos dias de Agosto

O beijo soprado na ponta dos dedos

Dirigido a quem se afasta de nós

O beijo trocado entre dois amantes

No local secreto quando estão a sós.

O beijo esperado de quem regressou

O beijo na testa distraído ou reverente

O beijo em desuso nas costas da mão

De costumes idos nem sempre inocente.

O beijo das margens que ladeiam o rio

Na sua viagem por pedras e matos

O beijo do cego que tacteia o rosto

Daqueles que ama e que nunca viu.

O beijo do jovem que pede a moeda

Destinada à droga, á dose, ao veneno

Que o há-de matar em sono sereno.

O beijo do insano que não sabe o que diz

Que à vida não pede nem sequer um pouco

Pois só a loucura o torna feliz.

O beijo proscrito entre sexo igual

Que o mundo condena, agride, critíca

E classifica de anti-natural.

O beijo do frio, da neve e do vento

O beijo do crime, da culpa e do medo

O beijo do choro, da fome e da guerra

Enquanto se mente e rouba em segredo

Sem haver receio das grades da cela.

O beijo dos vultos em qualquer viela

Feito da ruína de um sonho adiado.

O beijo do fogo que apavora e mata

Ateado por loucos ou por mão-barata.

O beijo da infância que mora em asilo

À espera de quem lhe acenda o futuro

E de noite chora com medo do escuro.

O beijo que chega vindo da Amazónia

No grito das árvores que são degoladas

O beijo que agride a pele e a raça

Quando toda a Terra tem cores variadas.

O beijo da infâmia, das seitas, das regras

Que trazem o povo de pulsos algemados.

O beijo do campo de refugiados

Onde a Primavera não deixa o perfil.

O beijo de quem já esqueceu o nome

E dorme na rua em País de Abril.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Canções Contadas

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 16:50
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Terça-feira, 8 de Abril de 2025

O PÁSSARO SÁBIO ( Conto tradicional da Jordânia - adaptação)

um-passaro-colorido-com-asas-azuis-e-amarelas-estaEstava um homem sentado à sombra de uma tamareira, quando ouviu o trinado de uma ave. Levantou-se para saber de onde provinha aquele canto, que lhe pareceu divino, e logo se lhe deparou, bem perto de si, pousado num pequeno arbusto, um pássaro de extraordinária beleza. Cautelosamente, o homem aproximou-se na ânsia de capturá-lo. Se tivesse sorte, levá-lo-ia para casa e metê-lo-ia numa gaiola. Poderia, assim, deliciar os seus ouvidos com o seu canto, e os seus olhos com o colorido da sua plumagem. A sorte estava do seu lado e o homem conseguiu apanhar a ave.

Por que me roubas a liberdade? – perguntou o pássaro, aflito, ao sentir-se preso nas suas mãos.

Porque os meus ouvidos desejam o teu canto e os meus olhos o colorido da tua plumagem! – respondeu o homem.

Nesse caso, cometes um erro! – advertiu o pássaro. – Apesar da doçura do meu canto e das cores das minhas penas, não passo de uma velha ave de corpo debilitado. As minhas cordas vocais estão demasiado fracas e a minha voz não irá durar por muito mais tempo…

Lamento, mas nada me fará mudar de ideias. Vou levar-te comigo para minha casa. – disse o homem.

Então, a ave fez-lhe uma proposta:

Se me concederes a liberdade, revelar-te-ei, em troca, três verdades que te serão preciosas para o resto da vida!

O homem, com a ave bem segura nas mãos, foi colocar-se de novo debaixo da tamareira.

Revelar-te-ei a primeira verdade – continuou o pássaro – ainda cativo nas tuas mãos. A segunda, mal me encontre pousado nos ramos desta tamareira, que nos protege com a sua sombra. E a terceira, quando levantar voo, rumo ao horizonte!

O homem pensou, tornou a pensar, mirou a ave que lhe falava assim e declarou:

Não sei se faço bem ou mal, mas aceito a tua proposta. Diz-me, pois, a primeira verdade!

Ainda segura entre as mãos do homem, a ave respondeu:

Não chores nunca a perda de uma coisa, por muito valiosa que ela seja. Nada de mais precioso existe do que a vida, e só a perda dela é merecedora das nossas lágrimas.

Nesta altura, o homem abriu as mãos e deixou que a ave voasse em liberdade.

Pousada em segurança num dos ramos da tamareira, a ave disse desta vez:

Não acredites nunca numa coisa absurda que te digam, sem procurares saber primeiro se o que te dizem corresponde à verdade!

E o pássaro acrescentou, enquanto voava para outro ramo um pouco mais alto:

Antes de partir, vou dizer-te um segredo. Debaixo das minhas asas, transporto dois diamantes. Foi quanto perdeste ao devolveres-me à liberdade!

Espantado com esta revelação, o homem, choroso e arrependido, gritou:

Já que não posso aprisionar-te novamente, cumpre, ao menos, a tua promessa: diz-me a terceira verdade!

A ave, então, declarou:

Como te atreves a pedir-me que te diga a terceira verdade, se de nada te serviram a primeira e a segunda que te revelei?!

Como assim?! – espantou-se o homem.

Pois não te disse – continuou o pássaro – para não chorares uma coisa que tivesses perdido? E que averiguasses primeiro se era verdade algo de absurdo que te contassem? E que fizeste tu? Choraste por me haver perdido. Acreditaste que transportava sob as minhas asas dois diamantes, sem teres a certeza de que a minha afirmação era verdadeira. Como te atreves, agora, depois de te mostrares tão insensato, a pedir-me que te revele a terceira verdade?!

E a ave, sem esperar resposta, abriu as asas e voou na direcção do horizonte.

Quanto ao homem, parado à sombra da tamareira, ficou a meditar na sabedoria das suas palavras.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Os mais Belos Contos de Todo o Mundo», Vol. II

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 18:37
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Domingo, 6 de Abril de 2025

PARA LÁ DO FUNDO

DSCN0060.JPGMenino 

Que mostra o luto

No rosto enxuto

Por sua mão

E pensa

Em seu juízo

No paraíso

Que não lhe dão.

 

Menino

Que esconde o medo

Atrás das estrelas

Do seu olhar

Dizer-te

Ai, quem pudera

Que hás-de ter tempo

Para sonhar.

 

Menino

Que se alimenta

No Sol das horas

Que o dia tem

Menino

De chocolate

Sem ter o colo

De sua mãe.

 

Menino

Que nos indica

Que a esperança fica

Para lá do fundo

E pensa

Em seu juízo

Que era preciso

Mudar o Mundo.

 

Menino

Que conta ao vento:

«O sofrimento

É meu irmão»

Menino

Tecto de lata

Que a guerra mata

Sem ter razão.

 

Menino

Que esconde o medo

Atrás das estrelas

Do seu olhar

Dizer-te

Ai, quem pudera

Que hás-de ter tempo

Para sonhar.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Canções Contadas

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 02:51
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2025

MEU FILHO

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Meu filho

Minha ternura

Meu coração

Dado inteiro

És a fome

Da fartura

Que guardo

No meu celeiro.

 

Meu filho

Minha alegria

Meu cansaço

Meu deleite

És o brilho

Do meu dia

Candeia

Do meu azeite.

 

Meu filho

Minha coragem

Minha luta

Minha chama

Eras fruto

Na folhagem

Se os meus braços

Fossem rama.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Reduto

 

Tela: Adolphe Bouguereau

publicado por sarrabal às 03:13
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Terça-feira, 1 de Abril de 2025

VISÃO

PLUMBAGO-2.jpgPorque se esvaneceu o perfume da trepadeira

enamorado

da brancura da cal que vestia o muro.

 

Onde se perdeu essa vontade

de afirmar

que a paz é a semente onde se gera a estrada do futuro.

 

Talvez

porque o céu que cobre o Mundo

mal rompe a madrugada

apesar do esplendor do Sol

acorda em cada novo dia sempre escuro.

 

Soledade Martinho Costa

 

 

 

publicado por sarrabal às 01:04
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