Por haver ainda primaveras
A florir nos campos e jardins
Os poetas
Hão-de apanhar braçados de papoilas
Hão-de correr por entre os girassóis
E escrever o verbo amar em cada verso.
Por haver ainda um grão de sonho
A germinar no rumo dos sentidos
Os poetas
Hão-de sorrir à brisa nos pinhais
Hão-de encher os olhos de rios e de mar
E unir as mãos de todo o universo.
Hão-de abraçar o Sol do alto dos rochedos
Hão-de cantar a cor das violetas
E colher o pão de mil trigais.
Por haver ainda um grão de esperança
No avesso de cada pensamento
Os poetas
Hão-de fazer ouvir a vigília dos poemas
Hão-de voltar a colocar na fronte
Coroas feitas de louro e folhas de hera.
Por haver ainda madrugadas
Atrás de cada noite à sua espera
Os poetas
Hão-de tocar o brilho das estrelas
Hão-de moldar o barro das palavras
E deixar que a sua voz chegue mais longe
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Tela: Christian Schloe

Era uma vez um ganso que tinha uma guitarra. E que bem que ele tocava! Até os pássaros, pousados nos ramos do pessegueiro que fazia sombra à capoeira, se esqueciam do seu trinado ao ouvi-lo tocar.
Certo dia, maravilhado com tamanha habilidade, um velho peru lembrou-se de propor a um pato seu amigo:
― E se organizássemos um espectáculo aqui na capoeira, amigo Pato Patareco?
Não foi preciso mais nada para que o pato concordasse com a ideia.
Nessa mesma tarde, depois de conversarem com o ganso, foram os dois convidar um galo, com fama de grande cantor, que morava numa capoeira próxima.
O galo, lisonjeado com o convite, aceitou logo participar no espectáculo.
De volta à capoeira, o peru e o pato começaram a tratar dos preparativos para a festa.
Em primeiro lugar, chamaram o pombo-correio, a quem confiaram a missão de levar a notícia a todas as aves de capoeira que morassem por aqueles lados.
A seguir, chamaram a galinha pedrês e a galinha castanha e encarregaram-nas de preparar a ceia.
Em conjunto, patas e franguinhas varreram muito bem a capoeira, limparam os poleiros, sacudiram e ajeitaram a palha das cestas dos ovos, enquanto os galos e os patos improvisaram um palco, com alguns caixotes.
Todos andavam numa roda-viva: frangos, franguinhas, patos, rolas, codornizes, pombos, galos e galinhas.
Os pintainhos, esses, era vê-los num rebuliço, a meterem o bico em todos os cantos, para não perderem bicada, quero dizer, pitada, do que se passava.
Até a Dona Cegonha, que morava na torre da igreja, afirmou ter intenção de deitar os filhos mais cedo, nessa noite, para chegar a horas à festa.
Entretanto, na véspera do grande dia, deu-se um acontecimento que deixou todos de bico aberto.
Pela tardinha, apareceu um pombo-correio, com pronúncia do norte, portador de um telegrama com a seguinte mensagem: «Chego dia da festa. Cinco da tarde. Não quero perder espectáculo. Abraços – Galo de Barcelos»
Foi um espanto, uma surpresa geral. O Galo de Barcelos! Quem havia de dizer?! O galo mais conhecido de Portugal, viajadíssimo, com grande nome no estrangeiro, vir, assim, à festa na capoeira?!
Não se falava de outra coisa.
No dia da festa, as galinhas poedeiras puseram o ovo logo de manhãzinha, para ficarem com o resto do dia livre de obrigações. E, claro, à hora combinada lá foram todos, de plumagem bem sacudida e acamada, ocupar os seus lugares nos poleiros, com a maior ordem e educação.
À porta da capoeira encontravam-se o Peru Gluglu e o Pato Patareco, muito aperaltados, a receberem os convidados.
O Galo de Barcelos, que viajou de comboio, causou uma grande admiração. Nenhum dos presentes tinha visto ainda um galo da ilustre família dos galináceos, assim, tão pintado, tão espalhafatoso. Mas receberam-no gentilmente, com todas as honras devidas à sua categoria de galo de posição, conhecido em todo o mundo.
Quanto ao espectáculo, foi um verdadeiro sucesso. Principalmente, quando o galo, numa voz muito afinada, cantou uma canção intitulada «Penas, Quem as Não Tem». As galinhas, a cacarejar, muito comovidas, foram as que mais aplaudiram, batendo as asas com entusiasmo.
No final, tanto o galo-cantor como o ganso-tocador de guitarra, receberam um monte de convites para actuarem em diversas capoeiras das redondezas.
O Galo de Barcelos, maravilhado com a actuação dos parentes, prometeu mesmo recomendá-los a um pavão-real, seu amigo, empresário de um grande teatro no estrangeiro.
Terminado o espectáculo, e num convívio animado e amigável entre todos, foi servido aos presentes, pela galinha pedrês e pela galinha castanha, um beberete: água fresquinha e milho do mais amarelinho, grado e painço, conforme o gosto e o indicado para cada um.
Pode dizer-se que foi uma noite memorável.
O Peru Gluglu é que não se cansava de repetir:
— Que êxito, amigo Pato Patareco! Que êxito!
Ao que o pato respondia:
— Graças a nós, amigo Peru Gluglu, graças a nós!
E tinha razão. De facto, foram eles, o Peru Gluglu e o Pato Patareco, que tiveram a feliz ideia de organizar aquela festa sensacional, que ficou para sempre na História da Capoeira.
Soledade Martinho Costa
Do livro «O Bico-de-Lacre)
Ed. Fundação Calouste Gulbenkian (fora do mercado)
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