
Não sei se eram os corpos das mulheres
Engolidos pelas grades dos portões
Se das fábricas a estridência dos apitos
Ou as sirenes dos barcos junto ao cais.
Ou talvez fossem os gatos nos telhados
Cegos de fome, de brigas e de cio
Ou os passos incertos, arrastados
Dos bêbedos a roçar pelos portais.
Não sei se era o sossego dos domingos
A repousar nas ruas sonolentas
Se a volúpia que vinha ao fim da tarde
No cesto dos tremoços e pevides.
Ou talvez fossem os pombos dos quintais
Aconchegados ao Sol de Novembro
Arrulhando, amorosos, desenhados
Nos olhos que assomavam dos postigos.
Não sei se eram as vozes se os aromas
A ferrugem, a cortiça e a tabaco
Vindos do tempo como testamento
Agarrados à ganga dos operários.
Ou talvez fosse a mulher a vender fruta
Parada no largo da farmácia
Ou as carroças de machos corpulentos
A escorregarem nas pedras da calçada.
Não sei se era o louco a pedir lume
Por entre as frinchas das tábuas da barraca
Se o chamamento, em gritos, das janelas
Pelos petizes, nas vozes das vizinhas.
Ou talvez fosse o perfume da maresia
A despertar no quintal a velha acácia
Ou o silvo do comboio sobre a ponte
A deixar pelo céu corcéis de fumo.
Não sei se era a noite a pôr de luto
As cores das casas, dos muros e dos vultos
Se era o cansaço, a fome, a impotência
O silêncio das palavras gastas
A insónia do medo em nome oculto.
Sei apenas
Que o triciclo corria
Sobre a face puída do passeio
E na candura da palavra infância
As tardes eram brancas e azuis.
Soledade Martinho Costa.
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Uma coisa que me é imprescindível são as casas e todo o enorme peso que elas descarregam nos nossos ombros. Que elas depositam neles, certas de que as entendemos, de que partilhamos com elas a sua vida, dentro de paredes, tectos, escadas, janelas, portas, objectos de toda a ordem com que as alindamos sem lhes pedir licença nem opinião. E as casas a consentirem, a gostarem de nós, a aceitarem o nosso gosto e jeito para a decoração (ou a falta deles). Tenho uma casa numa aldeia da Beira Litoral há perto de vinte anos. Reconstruída dos escombros em que se encontrava. Liberta por mim das ruínas que lhe vestiam o corpo. Não deixar morrer as casas das nossas aldeias devia ser uma obrigação de todos nós (pese embora, mais do que nunca, os custos dessa possível ressurreição). Passo lá meses seguidos, numa aldeia onde habitam somente dezasseis pessoas. Assim como estou tempos infinitos sem lá ir. Quando chego, antes de fazer seja o que for, subo ao primeiro andar para percorrer as divisões, uma por uma. O «itinerário» tem a finalidade de cumprimentar a casa, de a saudar, de lhe dizer: – Estou aqui de novo, voltei! Porque penso que a casa, a cada uma das minhas ausências, no silêncio das pedras, das madeiras, de cada um dos objectos que a preenchem, fica à espera de ser de novo habitada. De ouvir de novo as vozes, os risos, os passos, os ruídos habituais que lhe dão vida. Que a fazem respirar como se fosse gente. Com a nossa presença, as casas acordam do torpor que de tempos a tempos as faz adormecer, exaustas de saudades, devido ao nosso afastamento. Quando regressamos, tornam a ter vida própria, a partilhar: uma luz que se acende, a música que se ouve, o bater da porta, sempre que alguém entra ou alguém sai. Tudo isso volta a acontecer quando me preparo para passar ali um, dois meses ou mais. Para mim, rever um quadro do meu saudoso amigo António Pimentel, uma peça de cerâmica de Rosa Ramalho ou de António Bronze, uma escultura de pedra de Gondramás (na serra da Lousã) do mestre Carlos Rodrigues, uma foto sobre a pedra cimeira do fogão de sala, a cadeira de baloiço ao lado da chaminé antiga de carvalho, um candeeiro (adoro candeeiros, quadros e cadeiras), o passar da mão, num afago, sobre as costas de uma cadeira ou o tampo de uma mesa, o ajeitar de uma almofada no canapé ou no cadeirão. Olhar os livros na estante, dar uma espreitadela ao jardim, mesmo à noite, tudo isso é revisitar aquilo que amo. Pode parecer um absurdo, mas eu sinto que amo as paredes da casa, as grossas e velhas traves de carvalho, as madeiras dos tectos, as pedras, os azulejos antigos e todos os objectos que foram preenchendo os espaços e os lugares que lhes destinei, com alegria, entusiasmo, amor. Na minha opinião, as casas e os objectos também podem (e devem) ser amados. Porque fazem parte de nós, porque abrigam nelas os nossos projectos, as nossas alegrias, as nossas tristezas. E também a nossa vida, os dias que são os nossos e que gastamos a cada hora que passa. Conhecem-nos, protegem-nos, guardam a nossa privacidade e os nossos segredos. Velhas de pedras de muitos anos, algumas repousam na paisagem verde. Que verdes são a paisagem e o aroma. A lembrar histórias que guardam dentro de si, como os livros. Histórias construídas de muitas vidas e de muitas histórias. Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas. Nada mais pedem. A não ser que um dia a saudade venha morar no coração dos homens. Por tudo isto, a minha casa na aldeia merece todo o meu carinho e a minha atenção, depois de uma ausência mais ou menos prolongada. Revisitar as minhas coisas, de que sou ciosa, confesso, não por ambição ou vaidade, é a minha prioridade, mal ponho o pé na sala de entrada. Mas será que esta casa aos poucos também se irá esvaziando, como aconteceu com a casa da minha avó Maria Estrela, agora isolada e decadente, embora conservando alguma dignidade nas cortinas desfiadas que vestem ainda as muitas janelas? A morar numa rua adormecida, sem ânimo, sem vida, porque deixou de ser habitada como casa, amada como sempre foi por uma grande família? Que esta minha casa tenha um outro destino. Que abrigue novas gerações, a prolongar os nomes que a habitaram, diluídos na poeira do tempo - mas os que vierem que o façam sempre com a mesma gratidão e amor por ela. A casa saberá retribuir.»
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração» (Memórias e Crónicas)
Edições Vela Branca
Foto: Fernando DC Ribeiro (Morgade, Montalegre)
O Sol começou agora mesmo a levantar-se. Primeiro, a bocejar por entre os lençóis de neblina com que se tapa. No Inverno, levanta-se mais tarde. Ou recusa-se, mesmo, a levantar-se. A debruçar-se, por pouco tempo que seja, lá em cima, à janela da sua casa. E a terra fica mais fria sem o calor dos seus raios. E menos alegre sem a claridade do seu esplendor. Mas o Sol, talvez para se fazer mais desejado, esconde-se atrás do reposteiro cor de cinza que veste a abóbada do céu. E não se mostra, o maroto. Não dá sinal de si. Não se vê rasto dele. Às vezes, entretém-se a pregar destas partidas dias e dias a fio. Ainda que saiba muito bem a falta que faz.

Poema incompleto
É a palavra
Que à falta do cristal que se procura
Se fecha por dizer
Dentro da alma
E morde, esbraceja, amordaçada.
É a pedrada
Que se acobarda na mão de quem a sente
A fingir que a dor recusa o pranto
E adormece na carne estranhamente.
Poema incompleto
É a fogueira
Que espalha o fumo e a cinza pelo espaço
A desenhar promessas proibidas
Em tempo que se atrasa e que nos foge
Sem que nos roube o sonho e a teimosia.
É a muralha
A separar-nos da voz da consciência
Fúria de mar de limos e maresia
Bala perdida no meio da contenda
Que por temor de si nos traz cativos.
Poema incompleto
É a coragem
De morrer mil vezes
Estando vivos.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Como não há sinal de perigo, o coelho e a coelha do mato resolvem aproveitar a tarde para desfrutar o prazer do ar livre.
— Hum… Vem aqui provar estas folhas de serralha! — chama dona Coelha, orelhas a mexer num treme-treme. Em dois saltos o coelho, seu marido, aproxima-se e responde:
— Depois dos rábanos silvestres que roí, não estou com grande apetite. Mas faço-te a vontade! — e põe-se a roer as folhas verde-claras da planta. Outro coelho surge por detrás de uma moita:
— Pois eu, se me permitem vou também provar o petisco. Ou não estejamos nós, os coelhos, sempre com vontade de roer alguma coisa!
Quem assim se apresenta é um coelho bravo, amigo do casal, que vive numa lura perto da sua.
— Ah! É o vizinho… Venha, venha, pois então! Há que chegue para todos! — convida dona Coelha, numa prontidão. — Quanto à vontade de roer, como o vizinho diz, bem sabe que é por causa dos nossos dentes: não param de crescer… — suspira, meio conformada.
O vizinho lembra a certa altura:
— E se fôssemos os três logo à noite até à horta? Lá, sim, é que se come do bom. Ainda ontem provei umas folhas de couve e umas cenouras, que não vos digo nada…
Medrosa como todos os coelhos, a coelha do mato argumenta, orelhas arrebitadas:
— E se o dono da horta dá por nós? Ou alguma Raposa? Ou o Furão?
— Longe vá o azar! — responde o companheiro. — Mas podemos combinar o seguinte: — propõe. — Vou eu à frente. Se houver perigo, tamborilo logo com as patas no solo para vos avisar…
— Assim, está bem. Sempre vou mais descansada. — diz a senhora Coelha, narizinho a tremer.
— E eu também! — confessa o marido, que acrescenta: — O que fazia jeito era cair umas gotinhas de orvalho. Só assim bebemos água e tínhamos a refeição completa…
— Melhor seria que não fizesse vento. — contraria dona Coelha, pata levantada. — Que o frio e a chuva no Inverno não nos incomodam. Agora o vento…
— Ora, não tenha receio. A tarde vai adiantada e o vento ainda não soprou. Verá que a noite há-de estar amena para o nosso passeio. — garante-lhe o vizinho.
— Oxalá! — responde dona Coelha. — Sim, que daqui por uns tempos tenho menos vagar para passeatas… — confessa, modos abrandados.
— Quando nascerem os seus pequenos Láparos… — arrisca o outro.
— Sim, sim! Lá para o fim do Inverno vou ser mãe outra vez. E trabalho não me vai faltar! A primeira coisa a fazer — explica. — é escavar uma nova lura, mais ampla na parte do fundo. Valem-me para isso as minhas unhas, fortes e direitas. Depois, terei de forrar o ninho com palha, erva seca, feno e pêlo do meu próprio corpo. Mais exactamente, com pêlo que arranco da barriga. Para que o ninho fique confortável e quente.
— E o seu marido, ajuda em alguma coisa? — pergunta o companheiro
— Oh! Não! Nessas ocasiões nem o quero por perto. Com os meus Láparozinhos todo o cuidado é pouco! Por isso, depois de os amamentar, fecho sempre muito bem a porta da minha toca quando tenho de me ausentar de casa… — informa. E adianta, a dar mostras dos cuidados que tem: — E olhe que sair da lura, só permito aos meus pequenotes que o façam com três semanas feitas!
O senhor Coelho do mato, seu marido e mamífero roedor como os companheiros, não interrompe a conversa. Ele sabe que as coisas são mesmo assim na família dos coelhos a que pertence. O vizinho é que entende pouco desses assuntos, por ser ainda demasiado novo.
E o coelho bravo, nariz franze-que-franze, dá uns bons saltos por entre a seda verde da luzerna. De momento, o que lhe importa, é o combinado: à noite, na horta, a ceia vai ser uma festa!
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que o Inverno me Contou
Ed. Publicações Europa-América

A menina
abandonou a flor
na beira do lago
e as aves deixaram de cantar.
Parou
sentou-se no chão
e uma nuvem
escondeu um pedaço de Sol.
Brincou
com longos silêncios
e fez com pedrinhas
jogos de faz-de-conta.
Guiou
para longe o seu pensamento
e uma gota de chuva
beijou-lhe os cabelos.
Pousou
os olhos no azul do céu
onde mora quem
já não a acarinha.
O corpinho ergueu
chorou
e chamou baixinho
mãezinha.
E por dom de Deus
nesse mesmo instante
a neblina marejou
o olhar do firmamento.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua

SÃO VALENTIM – A HISTÓRIA E O MITO
O que se sabe de São Valentim, é que viveu no tempo de Cláudio II, tendo este imperador romano, durante o seu reinado, proibido que se realizassem casamentos no seu império. Essa medida, tinha por objectivo formar um exército maior e mais poderoso.
O imperador acreditava que os jovens que não constituíssem família, ou tivessem esposa, iriam alistar-se mais facilmente, visto estarem livres de obrigações familiares.
Apesar desta proibição, Valentim, bispo romano, continuou a celebrar casamentos contra as ordens imperiais, sendo as cerimónias realizadas no maior segredo. A sua desobediência foi descoberta, o bispo foi preso e condenado à morte.
Durante o tempo em que o mantiveram prisioneiro, começou a ser hábito os jovens atirarem flores e bilhetes dirigidos ao bispo, dizendo que acreditavam no amor.
Conta a lenda, que entre aqueles que lhe atiraram mensagens se encontrava uma jovem cega, de nome Artérias, filha do carcereiro, que terá pedido a seu pai autorização para visitar Valentim. Acrescenta o mito, que ambos acabaram por apaixonar-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo terá mesmo escrito uma carta de amor dirigida à jovem com a sua assinatura: «de seu Valentim.» (expressão ainda hoje utilizada).
Valentim foi decapitado no dia 14 de Fevereiro de 270.
Embora assim, consta do Martirológio Romano, a existência de mais dois Valentins: um bispo, que curou um jovem com um problema de nascença, e um cristão confesso, que se terá apaixonado por uma jovem de nome Artéria, filha de um nobre romano (e não de um carcereiro, como conta o mito)
Soledade Martinho Costa
Andar comigo passos
Sem fadigas
Inesperados de rumos ou cautelas
Que nunca neles meu temor gastei.
Caminhar sobre os anos percorridos
Ruas, nomes, portas e janelas
Trazidos de tempos esquecidos
Em chão onde lancei sementes
Onde criei raízes e sonhei.
Regressados são agora
Sem aviso
Na memória de fulgores antigos
Gravados no brilho dos cristais
Numa teima em lembrar comigo
As horas de outras horas que guardei.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal.
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