Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2025

AVIÕES - O SILÊNCIO COMO RESPOSTA

AVIÕES SOBRE ALVERCA DO RIBATEJO.jpgEnquanto escrevo estas linhas (em vez de estar a ouvir a Maria João Pires ao piano, como é meu costume), estou sim, a ouvir a «música» contínua do impacto dos aviões (de dois em dois minutos, ou ainda menos), numa invasão abusiva sobre o território da zona sul do Ribatejo, facto que se verifica desde o dia 16 de Maio do ano passado (NOVE MESES), e que afecta, no pior sentido, a população desta zona, de maneira inadmissível e indescritível, por indesejável e nefasta para o seu dia a dia, a sua tranquilidade e a sua saúde.

Hoje, vou fazê-lo em modo pessoal, isto é, totalmente individualista, porque assim o decidi. Muito se tem divulgado sobre esta intolerável situação, nos jornais, na Rádio, na Televisão, na Net, nas redes sociais. Milhares de vozes se ergueram na petição assinada. Foram feitos contactos directos a nível da NAV, do gabinete do Ministro das Infraestruturas Miguel Pinto Luz, e da Provedora da Justiça do Ambiente Maria Luísa Amaral. Até agora, nada se alterou.

Uma resposta que recebi (não automática) da Provedora, prometendo a sua intervenção. O pedido do meu telemóvel, por uma secretária de Miguel Pinto Luz, com a promessa de passá-lo a um dos assessores do Ministro, que devolveria a chamada. Até agora, de ambas as partes, como resposta, o silêncio.

Primeiro está o lucro, e o aumento considerável de voos. Quanto a nós, continuamos à mercê do poder instalado. Ainda assim, penso que não devemos esquecer que o povo, por vezes, também decide (embora não as vezes suficientes), como tem ficado provado ao longo da nossa História (inclusivamente, recente).

Sinto-me, pois, no direito de escrever, abordando este mesmo tema, agora em favor da minha própria pessoa, uma vez que adoptei Alverca do Ribatejo, como minha terra desde criança, onde resido, e agora sou seriamente importunada em termos pessoais, em relação ao ambiente desinquietante, barulhento e poluidor que me cerca, largamente ampliado em termos ambientais, sem esquecer as mais que faladas e nefastas partículas dos aviões que respiramos a todas as horas.

Esta calamidade que nos é imposta, abona, totalmente, em desrespeito pelos direitos do cidadão, incluindo a sua saúde. Há sintomas, de que tenho tido conhecimento, de pessoas que se queixam de cansaço, sonolência, irritação, desinteresse e depressão – que não sentiam anteriormente.

Estamos a dia 29 de Janeiro de 2025. São, exactamente, vinte e uma horas e trinta minutos e acaba de passar sobre Alverca do Ribatejo mais um avião (das muitas dezenas que por aqui passaram hoje, muito principalmente, ontem, dia 28, desde as cinco e pouco da madrugada, ininterruptamemente, por cima dos nossos telhados até cerca das vinte horas). Um tormento.

Mas estas linhas têm ainda um outro propósito (o que ficou escrito, já foi mais do que abordado em textos assinados por mim). Interessa-me salientar o facto de se ter realizado hoje a costumada reunião da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Assisti ao vídeo em directo. Sabia que o tema dos aviões iria ser debatido. E foi. Pelo vereador Nuno Libório (o único que abordou o assunto, que parece não importunar, por aí além, os presidentes de Junta presentes, cujas localidades são afectadas pela mesma causa).

Em relação às questões e afirmações do vereador, (que salientou parecer que a doença já espreita por aí) recebeu do presidente Fernando Paulo Ferreira, uma resposta que em nada adiantou. Isto: «que as alterações estão quase finalizadas». Uma afirmação sempre vaga, (quando se quer fugir à verdadeira situação). Isto é, uma maneira de empatar, de deixar passar o tempo. Uma vez que aquele «quase», tanto pode significar um dia como um ano! Uma afirmação ou informação vazia no contexto, creio que sem bases de fonte, que me faz lembrar a sua reunião há uns bons meses (no Verão) com o Ministro das Infraestruturas, quando nos veio dizer exactamente o mesmo após a reunião: «O Senhor Ministro irá colocar o assunto à NAV para estudarem o problema e resolvê-lo da melhor maneira, o que leva o seu tempo».

Nesta altura, já se notava a subtil «compreensão» do nosso autarca face às palavras do Ministro. Será que ao fim de nove meses ainda não tiveram tempo de resolver o malfadado assunto?!

Por outro lado, convém lembrar, que o cansaço e a prolongada espera, não irão resultar em desistência.

O pedido feito desde o início deste flagelo, de serem retomados os antigos voos sobre o Tejo, as lezírias de Loures e o Mouchão da Póvoa, locais onde não há população, que não caia em saco-roto! Nem todas as soluções apresentadas serão aceites. Por mais alto que os aviões circulem, não deixam de sobrevoar Alverca do Ribatejo, com todo o incómodo (mesmo menor) por si provocados, incluindo o perigo das partículas, que não têm por hábito subir, mas descer sobre as populações.

 

Soledade Martinho Costa

 

(Escritora e jornalista residente em Alverca do Ribatejo)

Há sintomas de doenças por aí, tenho conhecimento: cansaço, sonolência, irritação, desmotivação, depressão. A nossa saúde corre perigo! Há sintomas de doenças por aí, tenho conhecimento: cansaço, sonolência, irritação, desmotivação, depressão. A nossa saúde corre perigo!

publicado por sarrabal às 11:25
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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2025

PORTUGAL DESCONHECIDO - ESPIGUEIROS

36667476_1766887680065790_7269707730208686080_n (1Típicos do Minho e das Beiras, embora possam ser encontrados no Douro Litoral e noutras regiões, os espigueiros (chamados na zona de Chaves canastros), considerados verdadeiros monumentos de arte popular ligados à cultura do milho, situam-se, quase sempre, junto das eiras, com a sua edificação sobre colinas e montes, onde o vento se faz sentir com maior intensidade, ao entrar pelas suas aberturas laterais, fazendo mais rapidamente a secagem do milho.
Construídos em madeira, ou em pedra e madeira, assentes sobre pés de granito, com umas pequenas rodas de pedra no cimo (a servir de mais um obstáculo à entrada dos ratos), apresentam um tamanho comprido e estreito, com uma porta num dos topos, e cobertos com duas águas de telha, sendo o acesso feito por uma escada de mão.
Espigueiros colectivos (alguns ainda hoje a serem usados), vamos encontrá-los no Soajo, com vinte e quatro espigueiros e no Lindoso (Minho) com cerca de cinquenta espigueiros, situados ao redor do castelo. Nesta última localidade, e na sua maioria, são construídos inteiramente em pedra, incluindo os próprios telhados, destacando-se, apenas, a porta em madeira.
Constituindo um valioso património da nossa arquitectura popular rural, a sua origem, segundo os entendidos, remonta ao período neolítico – entre 10 000 e 5 000 a.C.
Parte deles abandonados, degradados ou vazios, começam a ser, ultimamente, muito pretendidos por particulares, para serem montados depois em terrenos de casas de campo de veraneio. Longe vai o tempo das desfolhadas, realizadas nas próprias eiras, quase sempre de sábado para domingo, prolongando-se pela madrugada, em serões onde imperavam a alegria, os cantares e as histórias contadas com graça. No final, servia-se uma merenda e surgia o bailarico, por vezes até ao nascer do sol, no domingo. Com o levar do milho para os espigueiros, dava-se por terminada a tarefa comunitária da ceifa.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VII
Ed. Círculo de Leitores
Foto:
Fernando DC Ribeiro - Aldeia de Currais, Barroso 

 

publicado por sarrabal às 16:14
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Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025

ORIGENS

11817211_874652602622640_2237135557343959516_n.jpgSou feito de seivas
De geadas e matos
De aves e manhãs
Pedras e regatos.

Sou acha ao borralho
Seara de espigas
Sou pão amassado
Lágrimas, cantigas.

Sou mel e orvalho
Sou sede e calor
Sou do milho o malho
Sou a hora do amor.

Sou o povo que reza
Sou o Sol a nascer
Sou enxada que pesa
Sou o trigo a crescer.

Sou o pisar da uva
Sou o corpo cansado
Sou o canto da chuva
Sou o estrume e o arado.

Sou fruto das flores
Safões dos pastores
Água dos cantis.

Sou barco parado
Sobre ondas de pranto
Sou o sangue que corre
Nas veias do vento.

Sou feito de estrelas
De sal e marés
De limos e algas
Tormenta e convés.

Sou sopro de brisa
Saudade, cadência
Vulto de um País.

Soledade Martinho Costa

Do livro “Reduto”

Foto: Armando Jorge

 

publicado por sarrabal às 01:21
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2025

HISTORINHA - O PARDAL E A GEADA (Para os mais pequenos)

O PARDAL E A GEADA  2021.jpg«Quem será o primeiro? O mais afoito? Qual dos meus vizinhos e companheiros se atreve a pôr a cabeça fora do ninho ou do buraco onde se recolhe? Quem terá coragem de convidar-se para um passeio nesta manhã tão fria? – interroga-se o pardal, ainda sonolento, a espreitar, pousado sobre o beirado onde faz a sua casa.»

Os campos alargam-se até onde o olhar alcança. Lindos! Lindos sempre, mesmo no Inverno. Mesmo que a maior parte das árvores e dos arbustos se encontre despida de folhas. Sim, que para acolher as aves e outros bichos que precisam de guarida durante a estação mais fria do ano, lá estão as plantas e as árvores de folha perene, prontas a serem a casa, o agasalho daqueles que procuram abrigo. Enquanto isso, a terra dorme um sono descansado. E sonha. Sonho após sonho, sonha que os meses frios vão passar depressa e ela há-de voltar a vestir-se de verde. A florir. A ser fecunda. E prepara-se. Aconchega a si as sementes que hão-de despontar e ser, por sua vez, planta, flor e fruto. Aconchega-as bem. De encontro a si. Com o jeito de quem sabe e a ternura de quem ama. Como se as sementes à sua guarda e protecção fossem meninos a dormir um sono no regaço de sua mãe. Carinhosa, a terra. E mãos-largas. Pronta a dar tudo quanto tem.

«Se não fosse a Geada – chilra o pardal um pouco mais desperto –, era eu o primeiro a tomar o pequeno-almoço. Mas, assim…Brrrrrr! Com este frio! – e acomoda-se de novo no casaco de penas que lhe veste o corpo.»

«Ora, não querem lá ver, o mal-agradecido! – resmunga a geada ao ouvir o chilreio do pardal. – A queixar-se do frio…E eu, que culpa tenho disso? Acaso não cheguei na altura própria? Não estamos no Inverno? Então, o que quer que lhe faça? Se calhar do Vento, da Chuva e do Pedraço não se queixa ele! E olha que são sempre pontuais nesta época do ano. Além de serem muito mais fortes do que eu. Só não vê, o ingrato do Pardal, como me afadigo a enfeitar com teias de cristal estes campos sem fim… – amua a geada, suspiro branco na manhã mal desperta.»

O que a geada não disse, por se ter esquecido ou por acanhamento, é que o seu corpo, feito de renda, que congela quando a temperatura desce, embora belo, não é benéfico. Porquê? Porque também ela é forte, apesar da sua leveza. Tão forte, que se cair tardia, fora de tempo, a formação dos seus cristais de gelo, tem a força do fogo. Por isso, queima o cetim das flores e as plantas que lhe servem de pouso.

Soledade Martinho Costa

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 03:16
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2025

OS TRÊS REIS MAGOS - TRADIÇÃO E LENDA

 

Andrea Mantegna 1495-1505.jpgSegundo se supõe, os Magos, certamente gentios, adoravam o verdadeiro Deus, conhecendo também algo da religião do Antigo Testamento. Viviam, tudo o indica, no plano elevado do espírito, preparados no amor a Deus e à verdade que buscavam, os fortalecia e alentava, pois só assim se compreende que tenham iniciado uma tão longa viagem a terra estranha, onde o perigo constantemente os ameaçava.

Da sua verdadeira proveniência, com rigor e exactidão, pouco se sabe, nem os documentos antigos nos garantem coisa alguma. Uma das hipóteses para a sua pátria provável, será a Arábia, célebre pelo incenso e pela mirra. Numa outra versão, por certo mais lendária, os Três Reis Magos seriam três irmãos vindos não apenas do Médio Oriente, mas também do Egipto e da Índia.
Em várias catacumbas romanas é frequente a representação dos Magos em pintura, embora sem identificação de nacionalidade ou de carácter pessoal. Na catacumba romana de Priscila, numa pintura do século II, aparecem de cabeça descoberta, transportando os seus presentes, junto a Nossa Senhora. Umas vezes figuram com longas capas ou mantos e outras de túnicas curtas, e na cabeça, gorros frígios (da antiga região do Centro da Ásia Menor), sempre em grupo de três.
Mito ou veracidade, terá existido um livro, pertença de um povo radicado no Oriente, no qual se falava numa estrela e nos presentes que deveriam ser oferecidos a um Menino que viria a nascer.
Foram então escolhidos doze dos mais sábios homens desse povo, ligados à observação dos astros e ao estudo dos mistérios celestes, da adivinhação e da interpretação dos sonhos, que se constituíam numa respeitada classe sacerdotal da Média (antiga região da Ásia) e da Pérsia, para que se encarregassem de vigiar e aguardar a estrela anunciada.
Este facto vem confirmar as palavras de São Mateus: «Os Magos são homens sábios, zelosos, executores da justiça e da virtude, investigadores curiosos dos fenómenos celestes e praticantes sinceros da religião e do culto verdadeiro de Deus».
Apelidados de Magos, a sua vida a partir daí foi passada a orar e a esperar. Se um deles falecia, logo era substituído por um dos seus filhos, assim acontecendo até ao dia em que, finalmente, uma estrela surgiu no céu diferente das outras em tamanho e luz. Por sua indicação seguiram os Magos até Belém, na Judeia, onde adoraram a Cristo recém-nascido, num tosco estábulo, deitado sobre palhas, entre pastores e mansos animais.
O número de Magos foi entretanto reduzido de doze para três, por São Leão, o Grande – papa que salvou Roma da invasão de Átila, rei dos Hunos, povo bárbaro das margens do mar Cáspio. Por seu lado, Tertuliano, doutor da Igreja, acrescentava, no século III, à sua designação de Magos o título de Reis.
Lenda ou realidade, a história dos Três Reis Magos permanece viva no imaginário, na fé e na alegria dos povos, ante a repetição cíclica da sua tradicional imagem, anualmente festejada, adorando o Menino-Deus, entre rebanhos e pastores.
 
Soledade Martinho Costa
 
Pintura: Andrea Mantegna
publicado por sarrabal às 20:21
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