Enquanto escrevo estas linhas (em vez de estar a ouvir a Maria João Pires ao piano, como é meu costume), estou sim, a ouvir a «música» contínua do impacto dos aviões (de dois em dois minutos, ou ainda menos), numa invasão abusiva sobre o território da zona sul do Ribatejo, facto que se verifica desde o dia 16 de Maio do ano passado (há NOVE MESES), e que afecta, no pior sentido, a população desta zona, de maneira inadmissível e indescritível, por indesejável e nefasta para o seu dia a dia, a sua tranquilidade e a sua saúde.
Hoje, vou fazê-lo em modo pessoal, isto é, totalmente individualista, porque assim o decidi. Muito se tem divulgado sobre esta intolerável situação, nos jornais, na Rádio, na Televisão, na Net, nas redes sociais. Milhares de vozes se ergueram na petição assinada. Foram feitos contactos directos a nível da NAV, do gabinete do Ministro das Infraestruturas Miguel Pinto Luz, e da Provedora da Justiça do Ambiente Maria Luísa Amaral. Até agora, nada se alterou.
Uma resposta que recebi (não automática) da Provedora, prometendo a sua intervenção. O pedido do meu telemóvel, por uma secretária de Miguel Pinto Luz, com a promessa de passá-lo a um dos assessores do Ministro, que devolveria a chamada. Até agora, de ambas as partes, como resposta, o silêncio.
Primeiro está o lucro, e o aumento considerável de voos. Quanto a nós, continuamos à mercê do poder instalado. Ainda assim, penso que não devemos esquecer que o povo, por vezes, também decide (embora não as vezes suficientes), como tem ficado provado ao longo da nossa História (inclusivamente, recente).
Sinto-me, pois, no direito de escrever, abordando este mesmo tema, agora em favor da minha própria pessoa, uma vez que adoptei Alverca do Ribatejo, como minha terra desde criança, onde resido, e agora sou seriamente importunada em termos pessoais, em relação ao ambiente desinquietante, barulhento e poluidor que me cerca, largamente ampliado em termos ambientais, sem esquecer as mais que faladas e nefastas partículas dos aviões que respiramos a todas as horas.
Esta calamidade que nos é imposta, abona, totalmente, em desrespeito pelos direitos do cidadão, incluindo a sua saúde. Há sintomas, de que tenho tido conhecimento, de pessoas que se queixam de cansaço, sonolência, irritação, desinteresse e depressão – que não sentiam anteriormente.
Estamos a dia 29 de Janeiro de 2025. São, exactamente, vinte e uma horas e trinta minutos e acaba de passar sobre Alverca do Ribatejo mais um avião (das muitas dezenas que por aqui passaram hoje, muito principalmente, ontem, dia 28, desde as cinco e pouco da madrugada, ininterruptamemente, por cima dos nossos telhados até cerca das vinte horas). Um tormento.
Mas estas linhas têm ainda um outro propósito (o que ficou escrito, já foi mais do que abordado em textos assinados por mim). Interessa-me salientar o facto de se ter realizado hoje a costumada reunião da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Assisti ao vídeo em directo. Sabia que o tema dos aviões iria ser debatido. E foi. Pelo vereador Nuno Libório (o único que abordou o assunto, que parece não importunar, por aí além, os presidentes de Junta presentes, cujas localidades são afectadas pela mesma causa).
Em relação às questões e afirmações do vereador, (que salientou parecer que a doença já espreita por aí) recebeu do presidente Fernando Paulo Ferreira, uma resposta que em nada adiantou. Isto: «que as alterações estão quase finalizadas». Uma afirmação sempre vaga, (quando se quer fugir à verdadeira situação). Isto é, uma maneira de empatar, de deixar passar o tempo. Uma vez que aquele «quase», tanto pode significar um dia como um ano! Uma afirmação ou informação vazia no contexto, creio que sem bases de fonte, que me faz lembrar a sua reunião há uns bons meses (no Verão) com o Ministro das Infraestruturas, quando nos veio dizer exactamente o mesmo após a reunião: «O Senhor Ministro irá colocar o assunto à NAV para estudarem o problema e resolvê-lo da melhor maneira, o que leva o seu tempo».
Nesta altura, já se notava a subtil «compreensão» do nosso autarca face às palavras do Ministro. Será que ao fim de nove meses ainda não tiveram tempo de resolver o malfadado assunto?!
Por outro lado, convém lembrar, que o cansaço e a prolongada espera, não irão resultar em desistência.
O pedido feito desde o início deste flagelo, de serem retomados os antigos voos sobre o Tejo, as lezírias de Loures e o Mouchão da Póvoa, locais onde não há população, que não caia em saco-roto! Nem todas as soluções apresentadas serão aceites. Por mais alto que os aviões circulem, não deixam de sobrevoar Alverca do Ribatejo, com todo o incómodo (mesmo menor) por si provocados, incluindo o perigo das partículas, que não têm por hábito subir, mas descer sobre as populações.
Soledade Martinho Costa
(Escritora e jornalista residente em Alverca do Ribatejo)
Há sintomas de doenças por aí, tenho conhecimento: cansaço, sonolência, irritação, desmotivação, depressão. A nossa saúde corre perigo! Há sintomas de doenças por aí, tenho conhecimento: cansaço, sonolência, irritação, desmotivação, depressão. A nossa saúde corre perigo!
Típicos do Minho e das Beiras, embora possam ser encontrados no Douro Litoral e noutras regiões, os espigueiros (chamados na zona de Chaves canastros), considerados verdadeiros monumentos de arte popular ligados à cultura do milho, situam-se, quase sempre, junto das eiras, com a sua edificação sobre colinas e montes, onde o vento se faz sentir com maior intensidade, ao entrar pelas suas aberturas laterais, fazendo mais rapidamente a secagem do milho.
Construídos em madeira, ou em pedra e madeira, assentes sobre pés de granito, com umas pequenas rodas de pedra no cimo (a servir de mais um obstáculo à entrada dos ratos), apresentam um tamanho comprido e estreito, com uma porta num dos topos, e cobertos com duas águas de telha, sendo o acesso feito por uma escada de mão.
Espigueiros colectivos (alguns ainda hoje a serem usados), vamos encontrá-los no Soajo, com vinte e quatro espigueiros e no Lindoso (Minho) com cerca de cinquenta espigueiros, situados ao redor do castelo. Nesta última localidade, e na sua maioria, são construídos inteiramente em pedra, incluindo os próprios telhados, destacando-se, apenas, a porta em madeira.
Constituindo um valioso património da nossa arquitectura popular rural, a sua origem, segundo os entendidos, remonta ao período neolítico – entre 10 000 e 5 000 a.C.
Parte deles abandonados, degradados ou vazios, começam a ser, ultimamente, muito pretendidos por particulares, para serem montados depois em terrenos de casas de campo de veraneio. Longe vai o tempo das desfolhadas, realizadas nas próprias eiras, quase sempre de sábado para domingo, prolongando-se pela madrugada, em serões onde imperavam a alegria, os cantares e as histórias contadas com graça. No final, servia-se uma merenda e surgia o bailarico, por vezes até ao nascer do sol, no domingo. Com o levar do milho para os espigueiros, dava-se por terminada a tarefa comunitária da ceifa.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VII
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Fernando DC Ribeiro - Aldeia de Currais, Barroso
Sou feito de seivas
De geadas e matos
De aves e manhãs
Pedras e regatos.
Sou acha ao borralho
Seara de espigas
Sou pão amassado
Lágrimas, cantigas.
Sou mel e orvalho
Sou sede e calor
Sou do milho o malho
Sou a hora do amor.
Sou o povo que reza
Sou o Sol a nascer
Sou enxada que pesa
Sou o trigo a crescer.
Sou o pisar da uva
Sou o corpo cansado
Sou o canto da chuva
Sou o estrume e o arado.
Sou fruto das flores
Safões dos pastores
Água dos cantis.
Sou barco parado
Sobre ondas de pranto
Sou o sangue que corre
Nas veias do vento.
Sou feito de estrelas
De sal e marés
De limos e algas
Tormenta e convés.
Sou sopro de brisa
Saudade, cadência
Vulto de um País.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Reduto”
Foto: Armando Jorge
«Quem será o primeiro? O mais afoito? Qual dos meus vizinhos e companheiros se atreve a pôr a cabeça fora do ninho ou do buraco onde se recolhe? Quem terá coragem de convidar-se para um passeio nesta manhã tão fria? – interroga-se o pardal, ainda sonolento, a espreitar, pousado sobre o beirado onde faz a sua casa.»
Os campos alargam-se até onde o olhar alcança. Lindos! Lindos sempre, mesmo no Inverno. Mesmo que a maior parte das árvores e dos arbustos se encontre despida de folhas. Sim, que para acolher as aves e outros bichos que precisam de guarida durante a estação mais fria do ano, lá estão as plantas e as árvores de folha perene, prontas a serem a casa, o agasalho daqueles que procuram abrigo. Enquanto isso, a terra dorme um sono descansado. E sonha. Sonho após sonho, sonha que os meses frios vão passar depressa e ela há-de voltar a vestir-se de verde. A florir. A ser fecunda. E prepara-se. Aconchega a si as sementes que hão-de despontar e ser, por sua vez, planta, flor e fruto. Aconchega-as bem. De encontro a si. Com o jeito de quem sabe e a ternura de quem ama. Como se as sementes à sua guarda e protecção fossem meninos a dormir um sono no regaço de sua mãe. Carinhosa, a terra. E mãos-largas. Pronta a dar tudo quanto tem.
«Se não fosse a Geada – chilra o pardal um pouco mais desperto –, era eu o primeiro a tomar o pequeno-almoço. Mas, assim…Brrrrrr! Com este frio! – e acomoda-se de novo no casaco de penas que lhe veste o corpo.»
«Ora, não querem lá ver, o mal-agradecido! – resmunga a geada ao ouvir o chilreio do pardal. – A queixar-se do frio…E eu, que culpa tenho disso? Acaso não cheguei na altura própria? Não estamos no Inverno? Então, o que quer que lhe faça? Se calhar do Vento, da Chuva e do Pedraço não se queixa ele! E olha que são sempre pontuais nesta época do ano. Além de serem muito mais fortes do que eu. Só não vê, o ingrato do Pardal, como me afadigo a enfeitar com teias de cristal estes campos sem fim… – amua a geada, suspiro branco na manhã mal desperta.»
O que a geada não disse, por se ter esquecido ou por acanhamento, é que o seu corpo, feito de renda, que congela quando a temperatura desce, embora belo, não é benéfico. Porquê? Porque também ela é forte, apesar da sua leveza. Tão forte, que se cair tardia, fora de tempo, a formação dos seus cristais de gelo, tem a força do fogo. Por isso, queima o cetim das flores e as plantas que lhe servem de pouso.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
Segundo se supõe, os Magos, certamente gentios, adoravam o verdadeiro Deus, conhecendo também algo da religião do Antigo Testamento. Viviam, tudo o indica, no plano elevado do espírito, preparados no amor a Deus e à verdade que buscavam, os fortalecia e alentava, pois só assim se compreende que tenham iniciado uma tão longa viagem a terra estranha, onde o perigo constantemente os ameaçava.
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