
Caminhando apressado, o dia percorre a manhã. E como são largos os seus passos! Quem o diz é o Sol, quase no pino do meio-dia, a deixar cair centelhas de oiro sobre o povoado.
«Não há dúvida de que prefiro o Verão ao Outono. No Verão acordo mais cedo e estou muito mais tempo junto das coisas de que gosto. Mas deixá-lo! As horas passam e os dias correm. Depressa hão-de voltar as tardes longas, longas, que me agradam tanto. Nessa altura, os dias não serão pequeninos como agora, e não serei obrigado a deitar-me tão cedo» E, mais conformado, o Sol, estende os raios num abraço até onde o seu calor alcança.
«Daqui em diante - torna ele – terei mais vezes a chuva para me acompanhar nas minhas brincadeiras. Ainda ontem adormeci cansado, estafadíssimo, por causa daquelas loucas corridas pelo céu fora, atrás das suas gotas, que mais parecem lágrimas a cair das nuvens. E logo, ao fim da tarde, cá a espero, à mesma hora, como ficou combinado. Que venha! Que venha! Aborreço-me tanto aqui sozinho!»
Ouve-se, de repente, o pingar da chuva, numa cantilena sobre o povoado:
— Não foste pontual! - resmunga o Sol, a fazer-se rogado à brincadeira – Ontem chegaste mais cedo. Hoje já quase não tenho tempo para brincar…
— Anda, vamos, que tens tempo, sim. Para quê ficares zangado? Não vês, ainda é dia!
O Sol decide-se. Vontade não lhe falta. E lá vão os dois: a chuva à frente, o Sol atrás. A persegui-la por entre as gotas que correm em fio.
Numa casa do povoado ouve-se uma voz:
— «A chover e a fazer sol, estão as bruxas a comer pão mole!»
— Há bruxas, avó?
— Não minha filha. Só nos livros de histórias…
— E fadas? - torna a menina.
— Fadas? - fica-se um silêncio pela casa – Talvez, minha neta…
— Adeus! Adeus! Vou-me embora, são horas de partir! - grita o Sol para a chuva, a tombar, em gotinhas de vidro sobre o povoado – Amanhã estarei de volta. Volta tu também, se puderes. Mas volta mais cedo!
— Se puder. Se puder, eu volto. Brincaremos juntos outra vez. Adeus! Adeus! Eu ainda fico. É só o tempo de alagar a terra um pouco mais!
O caracol desce pelo tronco da macieira onde mora. Vai fechar-se na casca para adormecer. Gosta de se acomodar junto da raiz da árvore quando vai dormir. Talvez para voltar a sentir o prazer de subir pelo seu tronco quando nasce a manhã. É ali a sua verdadeira casa e o seu mundo. Mas, antes, o pequeno molusco, que também é herbívoro, irá dar a sua voltinha pelas redondezas da macieira – por ser, principalmente, durante a noite, que procura alimento.
— Dorme bem! - deseja ele à macieira do lado, um pouco ciumenta por ele não escolher o seu tronco para morada – Sabes que também gosto de ti... – diz, meigo, numa reprovação.
A árvore abana os ramos. As maçãs oscilam, vestidas de chuva. Responde por fim:
— Está bem, está bem! Eu sei que gostas de mim. Mas é aí a tua casa, não é? Por isso preferes a macieira minha irmã...
Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que o Outono Me Contou»
Ed. Publicações Europa-América
Maria era a sua graça
e a graça do seu sorriso
a coisa mais valiosa
que possuía de seu.
Maria usava uma trança
e uns brincos de cordel.
Maria não soletrara
nome de pai nem de mãe
e curtira os verdes anos
entre rebanhos
nos montes.
Nunca pudera ir à escola
Nunca calçara sapato
nunca sonhara agasalho
nem à vila sequer fora.
Que a vida negou-se farta
para si e outros mais.
Na tarimba onde dormia
junto dos molhos de feno
Maria olhava as estrelas
para além das frestas da porta
e perdia-se a pensar.
A pensar em coisas justas
a pensar em coisas certas.
Depois, mal adormecia
cansada de solidão
benta do cheiro do fumo
farta de naco de pão
sobre o rosto de Maria
descia o véu de uma sombra
como um dobre de finados
como dor que se descobre.
E a graça do seu sorriso
a coisa mais valiosa
que possuía de seu
foi sumindo, foi fugindo
foi morrendo em sua boca
deixou Maria mais pobre.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua
Se o dia vier ao Mundo
Em que o gelo nos aqueça
E o Sol no céu arrefeça
O calor das nossas veias
Esse será o sinal
Decerto que a nosso lado
Alguma coisa acontece.
E se o riso
Que ontem vinha
Alegrar a nossa face
Morre aos poucos
Esmorece.
Nesse dia pedirei
A quem tiver
Por dentro de cada dia
Nada ter
A força que tem o vento
Que atravessa o pensamento
E liberta a nossa voz.
Nesse dia pedirei
À pressa que tem a vida
Que transforme essa corrida
Da nascente até à foz.
E se ao longe há um veleiro
Que se perde atrás do mar
Que se afunda em nosso olhar
Onde a água é nevoeiro.
Chamarei
Companheiro desta dor
E da raiva cada vez maior
Aperta na minha mão
O que a tristeza juntou.
Na estrada que percorremos
A desdita é coisa pouca
Comparada ao que sobrou.
Nesse dia pedirei
A quem tiver
Por dentro de cada dia
Nada ter
O perdão.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Aos que evitaram e evitam o risco
Aos que tentam não voltar a arriscar
Aos que já não podem tentar
Quem vier
Que venha em bem
E por bem.
Traçado
Traz
Um risco.
Que dele se afaste
Se aparte
Que se não belisque.
A trama
Que há-de ser tecida
A certifique
Para que não erre
Não se enrede
Nem arrisque.
Que de pontos sem nó
A vida é feita
E desfeita também
Mesmo com nó.
O dó
É saber-se de alguém
Que se esqueceu do risco
E arriscou.
O medo
Esse, vem.
Tarde ou cedo
Vem
E não vem só.
Dar à luz
É um pouco isto:
Ofertar ao destino
Alguém
Que não se sabe
Se com risco
Trama e nó
Sairá vencido
Ou vencedor
Por envolvido no risco
Que o cercou.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
É só um sonho este canto da cigarra
que escuto em cega-regra em meus ouvidos
a igualar no meu olhar quase adormecido
o denodo afadigado da formiga
na sua correria costumada
em defesa da fartura do celeiro
temente pelo final do Outono
que traz consigo
o granizo o frio e a geada
e a teia urdida no tear do nevoeiro.
Enquanto no semblante dos espelhos
o calendário vai desenhando outras feições
que juramos não serem nossas
a vida passa a somar as horas
os dias, os meses e os anos.
Os céus acordam sempre iguais
mesmo com Sol
continuam escuros
Onde se escondeu o passado
sem pedras no caminho
e o perfume das rosinhas de toucar
enamorado da cal que vestia os muros.
É então que soa um grito
que recorda ao coração
num sobressalto de espanto
os nomes que já não chamo.
nesta fria solidão.
E a tristeza que há em mim
porque desígnios não sei
vem juntar-se num abraço
à saudade e ao amor
na lembrança que não morre
dos nomes por quem chamei.
Soledade Martinho Costa
(Inédito)

ATÉ AO FIM DE MIM
De corpo e alma
Estou na tua frente
De corpo e alma e tua
Eis-me aqui
Mas sem trazer comigo
Das palavras
As que te conte
As vezes que morri.
Que foi pela tua mão
Eu sei que foi
Que a vida me escolheu
E me mostrou
Na solidão do meu nome
E de quem sou
Uma estrada onde o fado
A mim prendi
Com franjas de mistério
E de destino
No xaile todo negro
Que vesti.
De corpo e alma
Estou na tua frente
À espera de te ouvir
Dizer porquê
A razão desta mágoa
Deste canto
Desta voz que me deste
E reparti.
Soledade Martinho Costa
Na tenda
Feita de uns metros de plástico
Roto e transparente
Uma mulher
Um homem e o vento
Sob a noite de Inverno
Inclemente
Devassada pelas luzes dos faróis.
Como espectros
Sobre o terreno alagadiço e mole
Agitam-se num espanto
As velhas oliveiras.
Enquanto a noite rola
E o temporal
É para os dois a dobra do lençol.
Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»
Acho um pouco estranho o facto dos Lisboetas terem começado as suas queixas sobre os aviões há relativamente pouco tempo, só depois de termos alertado para o que se passava aqui, nesta zona do Ribatejo. Será que os Lisboetas só se sentiram incomodados com o impacto dos aviões agora, e não a partir do dia 16 de Maio passado, como nós, que vivemos no Ribatejo?
Comecei a escrever os meus artigos e a enviá-los para as entidades respectivas a partir dessa data e não dei por outras reclamações. Os meus artigos encheram a Net, jornais online e páginas de jornais impressos. Alguns dos nossos jornais limitaram-se a publicar pequenas notas. Como referi, não dei por reclamações em artigos ou por outra qualquer forma.
Só muito recentemente me apercebi desses movimentos. Os nossos problemas continuam iguais, mas já ninguém fala neles. Foram ultrapassados pelas pessoas de Lisboa. Pelo que tenho lido, parece que nos últimos dias alguns moradores e jornalistas «repararam», finalmente, no assunto e dele começaram a fazer notícia com evidente destaque para os Lisboetas.
Espero que não se esqueçam de nós e das promessas feitas pelo Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz ao presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira.
Sem dúvida que fomos nós, os moradores da zona sul do concelho de Vila Franca de Xira, nomeadamente de Alverca do Ribatejo, Póvoa de Santa Iría, Forte da Casa, Vialonga e arredores, que abrimos o caminho. As queixas dos Lisboetas são iguais às nossas, com a diferença de que nós já nos andamos a queixar vai fazer 5 meses. Ou seja, a viver um inferno na Terra. Mas os Lisboetas (embora já estejam habituados) parece que só agora deram por isso.
Existe ainda outra diferença. Esta: enquanto as pessoas de Lisboa sempre ouviram os impactos dos aviões, nós aqui, nesta zona do Ribatejo, até ao dia 16 de Maio, NÃO OS OUVÍAMOS! Essa é a grande diferença entre as queixas dos Lisboetas e as nossas.
Eles queixam-se de mais ruído (embora sempre o tivessem tido, mas não tanto como agora). O nosso problema é mais complicado e mais grave: queixamo-nos de NUNCA O TERMOS OUVIDO!
A nossa vida sofreu uma mudança brutal, sem que alguém tivesse tido contemplações ou respeito pelos nossos direitos. Factos que se tornam ainda mais ilegais e calamitosos para o nosso dia-a-dia. Passando por cima das nossas vidas, do nosso quotidiano, sem o mínimo de respeito pela nossa tranquilidade, diurna e nocturna, pelo nosso repouso físico e mental (muitas das vezes com 1 minuto apenas de intervalo entre a passagem de cada avião), pela enorme poluição ambiental, e pela nossa saúde – uma vez que se trata já de um caso de saúde pública.
Para as cidades de Alverca do Ribatejo e Póvoa de Santa Íria e das vilas de Forte da Casa, Vialonga e as localidades que lhes ficam perto, só aguardamos que reponham com a maior urgência as anteriores e antigas rotas dos aviões, que permaneceram durante dezenas de anos e cujos voos não eram sentidos nestas localidades.
Basta que os aviões façam a mudança de rota, como sempre fizeram, retomando o antecedente virar à direita, sobre o estuário do Tejo, ou à esquerda, para a lezíria de Loures (evitando os núcleos habitacionais), enquanto outros reassumam, como antes, os seus voos sobre o Mouchão da Póvoa.
Lembro as palavras de Fernando Paulo Ferreira, numa entrevista ao jornal «O Mirante», onde afirma pretender, na altura em que foi recebido pelo Ministro das Infraestruturas, «que as rotas dos aviões sejam desviadas como anteriormente para localizações fora dos centros de aglomerados».
Os moradores nestas zonas do Ribatejo alcançaram o ponto crítico de saturação, de incómodo total, de dia e de noite, com os aviões no seu contínuo voo rasante às horas mais impróprias, quando calha, depois da meia noite, às 2,3,4 horas da manhã, e por volta das 5 horas da madrugada, muito antes das 6 horas estipuladas como horário (que também me parece demasiado cedo).
Confesso que estou um pouco saturada de repetir muitas das mesmas frases nestes meus artigos, mas, infelizmente, sou obrigada a fazê-lo, como agora.
O assunto não pode morrer, não pode abrandar, é preciso continuar esta luta pelos nossos legítimos direitos. Esta situação (pelo menos no Ribatejo) tem de ter um fim. Exigimos saúde, tranquilidade, poder abrir uma janela, sair à rua sem receio do perigo das partículas, exigimos que as nossas crianças e jovens possam ter aulas normais, sem que a sua atenção seja desviada ou interrompida pelos professores impedidos pelo ruído de continuarem a licção, devido à passagem contínua dos aviões.
Estou cansada de apelar e alertar para estas situações – e elas são tantas! Pessoalmente, tenho toda a casa, desde sempre, com vidros duplos, mas de pouco me serve. Hoje dia 30 de Setembro, durante o dia inteiro, os voos têm sido contínuos. E promete continuação. Neste momento é 1 hora e 45 minutos da madrugada e acaba de passar mais um avião, como se presumia.
Mais uma noite de desassossego? É o que se adivinha. E a nossa saúde, como vai ela reagir? É impossível, a caminho de 5 meses deste tormento, que sejamos suficientemente fortes para resistir.
Soledade Martinho Costa
(Escritora e jornalista residente em Alverca do Ribatejo)
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