
Ajuda-me, mãe
Não conheço estes caminhos
Estas ruas
Estas casas
Estas pessoas
Que se cruzam comigo
Estas vozes
Que chegam aos meus ouvidos.
Onde estou eu, mãe?
Ajuda-me a reencontrar
O local onde sempre vivi
A casa que envelheceu comigo
As paredes que ouviram
Há tanto tempo, mãe
O meu primeiro choro
No dia em que nasci.
Mas agora, mãe
Rodeada desta inquietação
Que me tolhe os passos
Agasalhada neste medo
Nem eu sei de quê
Prisioneira nos meus próprios braços
Que faço eu mãe
Que faço eu aqui?
Aceitar o que não quero
Perdida neste deserto
Respirar o veneno
Que me invade o corpo
Não me reconhecer
Ao ver-me ao espelho
Obrigada a dizer sim
Quando quero dizer não
Deitar ao vento os sonhos que sonhei?
Estou cansada, mãe
Cansada deste meu cansaço
Desta luta desigual
Deste acordar em vão.
Onde estão as minhas bonecas, mãe
Os meus livros de histórias
A minha carteira da escola
A caixa dos meus bichos-da-seda
Os meus lápis de cor
Como foi que os perdi
Que tudo se perdeu de mim
Ajuda-me a procurar as minhas coisas, mãe.
Está escuro, tudo está tão escuro
E eu sei que o Sol brilha lá fora
Porquê, mãe
Porquê esta escuridão
Porquê esta distância
Entre aquilo que fui e aquilo que sou
Entre o quente do meu sangue
E o frio nas minhas veias?
Ensina-me outra vez
As primeiras palavras, mãe
Ajuda-me a dar de novo
Os primeiros passos
Veste-me o vestido de veludo
Penteia os meus cabelos
Com o pente de prata
Põe-me o laço de seda branco
Preso nos meus caracóis
Tu sabes, tu podes
Já o fizeste tantas vezes, mãe.
Ajuda-me, dá-me a tua mão
Ensina-me o caminho a seguir
A que sombras me hei-de acolher, mãe?
Diz-me qual o mar de que me devo afastar
Para não molhar os meus pés de tempestade
Que sementes devo deitar à terra
Para que nasçam flores dentro do meu coração.
Ajuda-me a aceitar o que não quero
A ter por companhia quem não conheço
A beber a água salgada que me provoca sede
A comer o pão ázimo que não mata a minha fome
Ajuda-me a descansar, a dormir no teu colo
A olhar os teus olhos que não vejo onde.
Ajuda-me a suportar a vida, mãe
Esta melancolia que fez morada no meu peito
Ajuda-me a suportar esta mágoa que me dói
Como fazias quando eu estava doente
E vinhas junto do meu leito
Depor um beijo sobre a minha fronte.
Preciso de um beijo teu, mãe
Para aceitar a solidão destes meus dias
E esta teima das saudades que rejeito.
Mas é tão tarde para ambas, mãe
Tão tarde, que a tua ajuda
Mesmo que ma pudesses dar chegava tarde
Tarde demais
Tão tarde, mãe, que não merecia a pena.
Na devida altura estarei a teu lado
Livre, leve, intemporal
A minha mão na tua, mãe
As duas como a sombra do voo de uma ave.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Desde o passado dia 16 de Maio, e a perfazer um mês sobre «o novo sistema implantado pela NAV Portugal (Point Merge), com vista a reduzir o atraso dos voos no Aeroporto de Lisboa», continuam a passar sobre Alverca do Ribatejo, centenas de aviões, em voo baixo, a causar o maior incómodo à população, quer do ponto de vista da poluição sonora, quer ambiental, em prejuízo da tranquilidade e da saúde de quem aqui mora.
O tráfego de aviões em voos demasiado baixos, passou a ser contínuo. De três em três minutos, afirma-se, passa um avião sobre as nossas casas. O flagelo começa de madrugada, prolonga-se por todo o dia, pela noite dentro e volta a verificar-se de madrugada. Não é possível ter descanso físico nem mental.
O acordo terá sido formalizado após negociações com o presidente do Conselho da Administração da NAV Portugal, Pedro Ângelo e o director de Procedimentos Aeronáuticos, Rui Marçal. Tal permissão, como é público, terá tido o apoio político de António Costa, ainda em funções.
Perante esta deliberação, perguntei, pessoalmente, ao presidente da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo, Cláudio Lotra, que decisão havia tomado, juntamente com o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, em defesa da cidade e dos seus habitantes. Por desconhecimento do veredicto da Edilidade, Cláudio Lotra pouco ou nada adiantou.
Ouvi, online, a penúltima reunião pública da Câmara, que teve lugar no passado dia 29 de Maio. Nuno Libório, vereador da CDU, residente em Alverca, afirmou, então, «terem as alterações decididas pela NAV resultado num forte impacto sonoro em Alverca do Ribatejo», pretendendo saber em que medida a Câmara teve conhecimento da situação e se já tinha tentado intervir junto da NAV. Frisou ainda que “Este impacto sonoro, que não existia, tem a ver com a altitude e os trajectos aéreos agora adoptados». Terminou a sua intervenção sustentando que «a Câmara tem que estar em cima do acontecimento, que faz com que Alverca esteja a ser confrontada com impactos sonoros gravíssimos». A mediação do autarca não chegou a ter resposta do presidente da edilidade, Fernando Paulo Ferreira (PS).
Algo está mal, muito mal.
A poluição sonora e ambiental é terrivelmente prejudicial ao ser humano, em relação ao aumento inaceitável dos níveis de ruído, e às partículas ultra finas expelidas pelos aviões. Partículas essas «... bastante prejudiciais para os pulmões, mas não só, porque passam para a corrente sanguínea e daí chegam a qualquer parte do corpo (…) 700 vezes mais finas do que um fio de cabelo, têm sido associadas a doenças neurológicas e a problemas no desenvolvimento fetal e cognitivo das crianças.».
Palavras de alerta proferidas por Margarida Lopes do Departamento De Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade,
E aqui, surge, inevitavelmente, uma pergunta: o que se torna mais importante: encurtar o trajecto para o Aeroporto de Lisboa, entre outros pormenores de pouca relevância, em proveito da NAV, ou a preservação da saúde dos habitantes de Alverca do Ribatejo?
Principalmente, das crianças (incluindo as que esperam por nascer), dos jovens que frequentam as nossas três grandes escolas, duas delas do Ensino Secundário, em prejuízo da sua concentração durante as aulas, sem esquecer os idosos, em residência permanente, nos cinco Lares existentes em Alverca, três deles situados no centro da cidade e os doentes, sobre tudo os oncológicos, em tratamento hospitalar, mas a residirem nas suas casas.
Entretanto, ouvi online a última reunião pública da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, que se realizou no passado dia 12 de Junho. Mais uma vez, voltou a ser questionado o seu presidente, no que respeita ao «caso dos aviões» pelo vereador Nuno Libório, a que se juntou a autarca da União de Freguesias da Póvoa de Santa Íria e Forte da Casa, Ana Cristina Pereira, localidades igualmente afectadas por idêntico problema.
A resposta (dada anteriormente ao jornal O Mirante), foi: «…que se trata de um assunto que será apresentado ao ministro das Infraestruturas, numa reunião que já está pedida, mas ainda não está agendada», rematando Fernando Paulo Ferreira, «esperar que a NAV possa introduzir algumas alterações na presente situação.»
É pouco. É muito pouco. Os Alverquenses não podem continuar calados e à espera de um agendamento, enquanto no espaço de uma hora Alverca do Ribatejo é sobrevoada por duas dezenas de aviões, a deixarem «o seu nefasto cartão de visita» sobre a cidade.
Senhor presidente, os residentes em Alverca do Ribatejo não pretendem que a NAV «possa introduzir», o que eles pretendem, sim, é «que a NAV introduza»!
Trata-se de um verdadeiro cataclismo que se abate diariamente sobre Alverca, a pôr em causa a saúde dos seus habitantes, em particular quando o seu repouso nocturno (absolutamente fundamental) é gravemente afectado!
Por sua vez, uma fonte oficial da NAV (também questionada pelo jornal O Mirante), defende o indefensável ao garantir «que a nova rota de saída dos aviões implica impactos mínimos para a população». A mesma fonte lembrou ainda que «as descolagens dependem das razões meteorológicas ligadas aos ventos». Ventos?! Sempre os houve, e nem por isso a passagem dos aviões afectou a nossa cidade.
Quanto às queixas dos moradores e dos autarcas, refere que «em caso algum as alterações do novo sistema produziriam tamanhos impactos.» E assim, desta simples maneira, se descartam responsabilidades
Enquanto escrevo (2 da manhã), acaba de passar um avião
perfeitamente impune e indiferente à insónia de cada um!
A NAV de Portugal não pode ficar a ganhar num acordo feito «entre gabinetes». A saúde das pessoas está acima de toda e qualquer convenção.
É urgente fazer alguma coisa, repito: nesta altura, e já lá vai um mês, não podemos ficar calados à espera (indefinidamente, talvez) de «um agendamento»! É preciso teimar, é preciso insistir, é preciso agir com determinação, coerência e rapidamente. É preciso exigir. Com essa finalidade, aqueles que nos representam, foram eleitos para o cargo que desempenham.
Portugal não é apenas céu e espaço aéreo à disposição de cada um. Por baixo dele está a Terra e os seus habitantes. Está, por exemplo, Alverca do Ribatejo!
Toda esta conjuntura, que transformou a vida dos moradores em Alverca do Ribatejo num verdadeiro pesadelo, apenas porque a NAV decidiu activar os seus novos sistemas, entre os quais o mais fútil, ridículo e descabido de todos eles – o de os aviões (e respectivos passageiros) chegarem um pouco mais cedo ao Aeroporto de Lisboa.
Soledade Martinho Costa
(Escritora, residente em Alverca do Ribatejo)

Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”.
Ali decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.
Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.
No século XIX a tourada passou a ter lugar na Praça de Touros do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892 (que veio substituir a Arena do Campo de Santana, demolida em 1889), enquanto os espectáculos de teatro, também eles a constituir um ponto alto das celebrações, eram efectuados no adro da Sé de Lisboa.
Por essa época as festas realizavam-se duas vezes no ano: em Abril – data da trasladação do corpo de Santo António para a Catedral de Pádua, que se foram resumindo aos actos litúrgicos – e a 12 e 13 de Junho, a comportar cerimónias religiosas em todas as igrejas, capelas ou ermidas sob a sua invocação ou onde existisse um altar dedicado ao santo, se bem que as grandes homenagens oficiais fossem as que se efectuavam na igreja e Casa de Santo António, à Sé, com a presença da realeza e da edilidade.
As cerimónias tinham início treze dias antes, com a trezena a Santo António, realizadas à tarde na Sé de Lisboa, e a distribuição de um bodo aos pobres, que se repetia no dia 12, constituído por oferendas: «fogaças, caracoladas, condessas e doces». Nesse dia era tradição contemplar a família real, que recebia ainda um ramo de cravos: o “ramalhete de Santo António”.
Reconhecido como o protector das raparigas solteiras, muitas eram, segundo a crença do povo, as fórmulas usadas para granjear os favores do santo: deitar a imagem de Santo António a um poço, mergulhar a imagem de cabeça para baixo nas águas do mar, amarrar a imagem à perna de uma mesa, deixá-la ao relento ou com o rosto voltado para a parede.
Faziam-se, mesmo, petições por escrito, copiadas de vários opúsculos populares, que continham os pedidos já redigidos, conforme os casos e a preferência de cada um. Havia, até, quem fizesse dessa prática um verdadeiro ofício, copiando para o respectivo papel os pedidos dos crentes, que passavam do ”escrivão” directamente para o santo – sendo em maior número aqueles que provinham das mulheres solteiras…
O povo, além de se associar aos actos religiosos, rendia a sua homenagem ao santo nas ruas, largos, pátios e mercados, com bailaricos improvisados e demais folguedos, que se foram alargando a outras zonas da capital e enriquecendo em termos de animação popular, até a efeméride ser aproveitada, em 1922, para a realização das Festas da Cidade.
Por esses anos, organizavam-se pequenos arraiais por toda a cidade de Lisboa, onde se tocava e dançava, comia e bebia pela noite dentro, com o lume sempre ateado das fogueiras, o estrelejar de foguetes e morteiros, as iluminações de rua, os ranchos, as tômbolas, as quermesses e bazares com os respectivos sorteios (a que se juntava a Lotaria de Santo António, até hoje mantida), e os vendedores de alcachofras e manjericos a dar à cidade um aspecto diferente e festivo, embora tipicamente urbano na forma de fazer a sua festa.
Além dos mercados de São Bento e 24 de Julho, o local mais concorrido, característico e barulhento era o antigo Mercado da Praça da Figueira (demolido em finais da década de quarenta), ponto de reunião dos ranchos e das marchas dos bairros populares e também lugar dos bailaricos, dos petiscos rituais e da venda dos frutos da época e das plantas aromáticas propiciatórias.
Os chafarizes públicos espalhados pela cidade eram igualmente procurados por quem se concentrava ali em arraial, a tornar as fontes num elemento ao mesmo tempo mágico, profiláctico e simbólico-sagrado.
Em 1934 Santo António é proclamado pelo papa Pio XI patrono da cidade de Lisboa.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores.

Nomes que nos vêm do passado
Pelo teor da escrita consagrados
A dar o nome a ruas e jardins
Juntai a nós o vosso espanto
Lá dos confins imaginados
A unir à nossa voz o vosso pranto.
Palavras como herança recebida
Identidade, Povo, Pátria, talvez destino
E a vontade de escrevê-las
Uma a uma, linha a linha
Sobre a folha de papel em branco
Na esperança de travar o desatino.
A Língua Portuguesa
Em resistência
Em corpo inteiro
Escrita no seu todo inicial
Sem que lhe roubem
Beleza, Coerência, Dignidade
Brio, Sensatez
Todo o acato que nos merece
O nosso querido Idioma Português
Palavras nossas, amigas e amadas
Aprendidas, repetidas, depuradas
Na rejeição que gera a coerência
Na consciência que se impõe e que resiste
Defendidas da supressão organizada
Protegidas no direito que lhe assiste
E no respeito que nos dita a Liberdade.
Soledade Martinho Costa
(Inédito, 10/6/2024)

Tão mágica clareza
Tão misterioso encanto
Só aos Grandes
Aos Imortais Poetas
O dom de assim escreverem
Lhes concede
O segredo que faz cantar as fontes.
Por isso
Tão-somente
O copiar o jeito do teu punho
Ao segurar a caneta com que escrevo
Embora o faça
Na minha muito amada Língua Portuguesa
Me tolhe o gesto
Me ruboriza a face
Ao atentar na grandeza do teu Canto
E na pobreza dos versos que te faço.
Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»


Foge do sono
A lebre
Sem fomes
Nem amarras.
É Junho
Nas fogueiras
A arder
Em claridade.
Na boca
Das infusas
Há falas de ceifeiras.
Desenha-se o restolho
No timbre das cigarras.
Soledade Martinho Costa
Chorar não chega
É preciso abrir os braços e gritar:
Quem foi que enlouqueceu?!
Quem detém um tal poder nas mãos?!
Quem manda mais no mundo do que Deus?!
SMC
Foto: Ucrânia
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