Segunda-feira, 17 de Junho de 2024

NOSTALGIA

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Ajuda-me, mãe

Não conheço estes caminhos

Estas ruas

Estas casas

Estas pessoas

Que se cruzam comigo

Estas vozes

Que chegam aos meus ouvidos.

 

Onde estou eu, mãe?

Ajuda-me a reencontrar

O local onde sempre vivi

A casa que envelheceu comigo

As paredes que ouviram

Há tanto tempo, mãe

O meu primeiro choro

No dia em que nasci.

 

Mas agora, mãe

Rodeada desta inquietação

Que me tolhe os passos

Agasalhada neste medo

Nem eu sei de quê

Prisioneira nos meus próprios braços

Que faço eu mãe

Que faço eu aqui?

 

Aceitar o que não quero

Perdida neste deserto

Respirar o veneno

Que me invade o corpo

Não me reconhecer

Ao ver-me ao espelho

Obrigada a dizer sim

Quando quero dizer não

Deitar ao vento os sonhos que sonhei?

 

Estou cansada, mãe

Cansada deste meu cansaço

Desta luta desigual

Deste acordar em vão.

 

Onde estão as minhas bonecas, mãe

Os meus livros de histórias

A minha carteira da escola

A caixa dos meus bichos-da-seda

Os meus lápis de cor

Como foi que os perdi

Que tudo se perdeu de mim

Ajuda-me a procurar as minhas coisas, mãe.

 

Está escuro, tudo está tão escuro

E eu sei que o Sol brilha lá fora

Porquê, mãe

Porquê esta escuridão

Porquê esta distância

Entre aquilo que fui e aquilo que sou

Entre o quente do meu sangue

E o frio nas minhas veias?

 

Ensina-me outra vez

As primeiras palavras, mãe

Ajuda-me a dar de novo

Os primeiros passos

Veste-me o vestido de veludo

Penteia os meus cabelos

Com o pente de prata

Põe-me o laço de seda branco

Preso nos meus caracóis

Tu sabes, tu podes

Já o fizeste tantas vezes, mãe.

 

Ajuda-me, dá-me a tua mão

Ensina-me o caminho a seguir

A que sombras me hei-de acolher, mãe?

Diz-me qual o mar de que me devo afastar

Para não molhar os meus pés de tempestade

Que sementes devo deitar à terra

Para que nasçam flores dentro do meu coração.

 

Ajuda-me a aceitar o que não quero

A ter por companhia quem não conheço

A beber a água salgada que me provoca sede

A comer o pão ázimo que não mata a minha fome

Ajuda-me a descansar, a dormir no teu colo

A olhar os teus olhos que não vejo onde.

 

Ajuda-me a suportar a vida, mãe

Esta melancolia que fez morada no meu peito

Ajuda-me a suportar esta mágoa que me dói

Como fazias quando eu estava doente

E vinhas junto do meu leito

Depor um beijo sobre a minha fronte.

 

Preciso de um beijo teu, mãe

Para aceitar a solidão destes meus dias

E esta teima das saudades que rejeito.

 

Mas é tão tarde para ambas, mãe

Tão tarde, que a tua ajuda

Mesmo que ma pudesses dar chegava tarde

Tarde demais

Tão tarde, mãe, que não merecia a pena.

 

Na devida altura estarei a teu lado

Livre, leve, intemporal

A minha mão na tua, mãe

As duas como a sombra do voo de uma ave.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Um Piano ao Fim da Tarde

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 17:31
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2024

CENTENAS DE AVIÕES CONTINUAM A SOBREVOAR ALVERCA DO RIBATEJO, PARA BENEFÍCIO DA NAV PORTUGAL, MAS SEM RESPEITAR OS PREJUÍZOS DA SAÚDE PÚBLICA!!!

tap_portugal_aviacao_avioes_aeroporto_4.jpgDesde o passado dia 16 de Maio, e a perfazer um mês sobre «o novo sistema implantado pela NAV Portugal (Point Merge), com vista a reduzir o atraso dos voos no Aeroporto de Lisboa», continuam a passar sobre Alverca do Ribatejo, centenas de aviões, em voo baixo, a causar o maior incómodo à população, quer do ponto de vista da poluição sonora, quer ambiental, em prejuízo da tranquilidade e da saúde de quem aqui mora.

O tráfego de aviões em voos demasiado baixos, passou a ser contínuo. De três em três minutos, afirma-se, passa um avião sobre as nossas casas. O flagelo começa de madrugada, prolonga-se por todo o dia, pela noite dentro e volta a verificar-se de madrugada. Não é possível ter descanso físico nem mental.

O acordo terá sido formalizado após negociações com o presidente do Conselho da Administração da NAV Portugal, Pedro Ângelo e o director de Procedimentos Aeronáuticos, Rui Marçal. Tal permissão, como é público, terá tido o apoio político de António Costa, ainda em funções.

Perante esta deliberação, perguntei, pessoalmente, ao presidente da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo, Cláudio Lotra, que decisão havia tomado, juntamente com o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, em defesa da cidade e dos seus habitantes. Por desconhecimento do veredicto da Edilidade, Cláudio Lotra pouco ou nada adiantou.

Ouvi, online, a penúltima reunião pública da Câmara, que teve lugar no passado dia 29 de Maio. Nuno Libório, vereador da CDU, residente em Alverca, afirmou, então, «terem as alterações decididas pela NAV resultado num forte impacto sonoro em Alverca do Ribatejo», pretendendo saber em que medida a Câmara teve conhecimento da situação e se já tinha tentado intervir junto da NAV. Frisou ainda que “Este impacto sonoro, que não existia, tem a ver com a altitude e os trajectos aéreos agora adoptados». Terminou a sua intervenção sustentando que «a Câmara tem que estar em cima do acontecimento, que faz com que Alverca esteja a ser confrontada com impactos sonoros gravíssimos». A mediação do autarca não chegou a ter resposta do presidente da edilidade, Fernando Paulo Ferreira (PS).

Algo está mal, muito mal.

A poluição sonora e ambiental é terrivelmente prejudicial ao ser humano, em relação ao aumento inaceitável dos níveis de ruído, e às partículas ultra finas expelidas pelos aviões. Partículas essas «... bastante prejudiciais para os pulmões, mas não só, porque passam para a corrente sanguínea e daí chegam a qualquer parte do corpo (…) 700 vezes mais finas do que um fio de cabelo, têm sido associadas a doenças neurológicas e a problemas no desenvolvimento fetal e cognitivo das crianças.».

Palavras de alerta proferidas por Margarida Lopes do Departamento De Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade,

E aqui, surge, inevitavelmente, uma pergunta: o que se torna mais importante: encurtar o trajecto para o Aeroporto de Lisboa, entre outros pormenores de pouca relevância, em proveito da NAV, ou a preservação da saúde dos habitantes de Alverca do Ribatejo?

Principalmente, das crianças (incluindo as que esperam por nascer), dos jovens que frequentam as nossas três grandes escolas, duas delas do Ensino Secundário, em prejuízo da sua concentração durante as aulas, sem esquecer os idosos, em residência permanente, nos cinco Lares existentes em Alverca, três deles situados no centro da cidade e os doentes, sobre tudo os oncológicos, em tratamento hospitalar, mas a residirem nas suas casas.

Entretanto, ouvi online a última reunião pública da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, que se realizou no passado dia 12 de Junho. Mais uma vez, voltou a ser questionado o seu presidente, no que respeita ao «caso dos aviões» pelo vereador Nuno Libório, a que se juntou a autarca da União de Freguesias da Póvoa de Santa Íria e Forte da Casa, Ana Cristina Pereira, localidades igualmente afectadas por idêntico problema.

A resposta (dada anteriormente ao jornal O Mirante), foi: «…que se trata de um assunto que será apresentado ao ministro das Infraestruturas, numa reunião que já está pedida, mas ainda não está agendada», rematando Fernando Paulo Ferreira, «esperar que a NAV possa introduzir algumas alterações na presente situação.»

É pouco. É muito pouco. Os Alverquenses não podem continuar calados e à espera de um agendamento, enquanto no espaço de uma hora Alverca do Ribatejo é sobrevoada por duas dezenas de aviões, a deixarem «o seu nefasto cartão de visita» sobre a cidade.

Senhor presidente, os residentes em Alverca do Ribatejo não pretendem que a NAV «possa introduzir», o que eles pretendem, sim, é «que a NAV introduza»!

Trata-se de um verdadeiro cataclismo que se abate diariamente sobre Alverca, a pôr em causa a saúde dos seus habitantes, em particular quando o seu repouso nocturno (absolutamente fundamental) é gravemente afectado!

Por sua vez, uma fonte oficial da NAV (também questionada pelo jornal O Mirante), defende o indefensável ao garantir «que a nova rota de saída dos aviões implica impactos mínimos para a população». A mesma fonte lembrou ainda que «as descolagens dependem das razões meteorológicas ligadas aos ventos». Ventos?! Sempre os houve, e nem por isso a passagem dos aviões afectou a nossa cidade.

Quanto às queixas dos moradores e dos autarcas, refere que «em caso algum as alterações do novo sistema produziriam tamanhos impactos.» E assim, desta simples maneira, se descartam responsabilidades

Enquanto escrevo (2 da manhã), acaba de passar um avião

perfeitamente impune e indiferente à insónia de cada um!

A NAV de Portugal não pode ficar a ganhar num acordo feito «entre gabinetes». A saúde das pessoas está acima de toda e qualquer convenção.

É urgente fazer alguma coisa, repito: nesta altura, e já lá vai um mês, não podemos ficar calados à espera (indefinidamente, talvez) de «um agendamento»! É preciso teimar, é preciso insistir, é preciso agir com determinação, coerência e rapidamente. É preciso exigir. Com essa finalidade, aqueles que nos representam, foram eleitos para o cargo que desempenham.

Portugal não é apenas céu e espaço aéreo à disposição de cada um. Por baixo dele está a Terra e os seus habitantes. Está, por exemplo, Alverca do Ribatejo!

Toda esta conjuntura, que transformou a vida dos moradores em Alverca do Ribatejo num verdadeiro pesadelo, apenas porque a NAV decidiu activar os seus novos sistemas, entre os quais o mais fútil, ridículo e descabido de todos eles – o de os aviões (e respectivos passageiros) chegarem um pouco mais cedo ao Aeroporto de Lisboa.


Soledade Martinho Costa

(Escritora, residente em Alverca do Ribatejo)

 

publicado por sarrabal às 21:51
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Quarta-feira, 12 de Junho de 2024

SANTO ANTÓNIO - A TRADIÇÃO DA FESTA

MUSEU DE SANTO ANTÓNIO EM LISBOA.jpg

Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”.

Ali decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.

Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.

No século XIX a tourada passou a ter lugar na Praça de Touros do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892 (que veio substituir a Arena do Campo de Santana, demolida em 1889), enquanto os espectáculos de teatro, também eles a constituir um ponto alto das celebrações, eram efectuados no adro da Sé de Lisboa.

Por essa época as festas realizavam-se duas vezes no ano: em Abril – data da trasladação do corpo de Santo António para a Catedral de Pádua, que se foram resumindo aos actos litúrgicos – e a 12 e 13 de Junho, a comportar cerimónias religiosas em todas as igrejas, capelas ou ermidas sob a sua invocação ou onde existisse um altar dedicado ao santo, se bem que as grandes homenagens oficiais fossem as que se efectuavam na igreja e Casa de Santo António, à Sé, com a presença da realeza e da edilidade.

As cerimónias tinham início treze dias antes, com a trezena a Santo António, realizadas à tarde na Sé de Lisboa, e a distribuição de um bodo aos pobres, que se repetia no dia 12, constituído por oferendas: «fogaças, caracoladas, condessas e doces». Nesse dia era tradição contemplar a família real, que recebia ainda um ramo de cravos: o “ramalhete de Santo António”.

Reconhecido como o protector das raparigas solteiras, muitas eram, segundo a crença do povo, as fórmulas usadas para granjear os favores do santo: deitar a imagem de Santo António a um poço, mergulhar a imagem de cabeça para baixo nas águas do mar, amarrar a imagem à perna de uma mesa, deixá-la ao relento ou com o rosto voltado para a parede.

Faziam-se, mesmo, petições por escrito, copiadas de vários opúsculos populares, que continham os pedidos já redigidos, conforme os casos e a preferência de cada um. Havia, até, quem fizesse dessa prática um verdadeiro ofício, copiando para o respectivo papel os pedidos dos crentes, que passavam do ”escrivão” directamente para o santo – sendo em maior número aqueles que provinham das mulheres solteiras…

O povo, além de se associar aos actos religiosos, rendia a sua homenagem ao santo nas ruas, largos, pátios e mercados, com bailaricos improvisados e demais folguedos, que se foram alargando a outras zonas da capital e enriquecendo em termos de animação popular, até a efeméride ser aproveitada, em 1922, para a realização das Festas da Cidade.

Por esses anos, organizavam-se pequenos arraiais por toda a cidade de Lisboa, onde se tocava e dançava, comia e bebia pela noite dentro, com o lume sempre ateado das fogueiras, o estrelejar de foguetes e morteiros, as iluminações de rua, os ranchos, as tômbolas, as quermesses e bazares com os respectivos sorteios (a que se juntava a Lotaria de Santo António, até hoje mantida), e os vendedores de alcachofras e manjericos a dar à cidade um aspecto diferente e festivo, embora tipicamente urbano na forma de fazer a sua festa.

Além dos mercados de São Bento e 24 de Julho, o local mais concorrido, característico e barulhento era o antigo Mercado da Praça da Figueira (demolido em finais da década de quarenta), ponto de reunião dos ranchos e das marchas dos bairros populares e também lugar dos bailaricos, dos petiscos rituais e da venda dos frutos da época e das plantas aromáticas propiciatórias.

Os chafarizes públicos espalhados pela cidade eram igualmente procurados por quem se concentrava ali em arraial, a tornar as fontes num elemento ao mesmo tempo mágico, profiláctico e simbólico-sagrado.

Em 1934 Santo António é proclamado pelo papa Pio XI patrono da cidade de Lisboa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VI

Ed. Círculo de Leitores.

 

publicado por sarrabal às 17:24
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Sexta-feira, 7 de Junho de 2024

...VOLTAVAS A MORRER, LUÍZ VAZ DE CAMÕES!

LUÍS VAZ DE CAMÕES.jpg

Nomes que nos vêm do passado

Pelo teor da escrita consagrados

A dar o nome a ruas e jardins

Juntai a nós o vosso espanto

Lá dos confins imaginados

A unir à nossa voz o vosso pranto.

 

Palavras como herança recebida

Identidade, Povo, Pátria, talvez destino

E a vontade de escrevê-las

Uma a uma, linha a linha

Sobre a folha de papel em branco

Na esperança de travar o desatino.

 

A Língua Portuguesa

Em resistência

Em corpo inteiro

Escrita no seu todo inicial

Sem que lhe roubem

Beleza, Coerência, Dignidade

Brio, Sensatez

Todo o acato que nos merece

O nosso querido Idioma Português

 

Palavras nossas, amigas e amadas

Aprendidas, repetidas, depuradas

Na rejeição que gera a coerência

Na consciência que se impõe e que resiste

Defendidas da supressão organizada

Protegidas no direito que lhe assiste

E no respeito que nos dita a Liberdade.

 

Soledade Martinho Costa

 

(Inédito, 10/6/2024)

 

publicado por sarrabal às 17:56
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10 DE JUNHO - DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DA LÍNGUA PORTUGUESA

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Tão mágica clareza

Tão misterioso encanto

Só aos Grandes

Aos Imortais Poetas

O dom de assim escreverem

Lhes concede

O segredo que faz cantar as fontes.

 

Por isso

Tão-somente

O copiar o jeito do teu punho

Ao segurar a caneta com que escrevo

Embora o faça

Na minha muito amada Língua Portuguesa

Me tolhe o gesto

Me ruboriza a face

Ao atentar na grandeza do teu Canto

E na pobreza dos versos que te faço.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «A Palavra Nua»

 

publicado por sarrabal às 17:45
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Segunda-feira, 3 de Junho de 2024

PORQUE CHOREI AO VER-TE CHORAR

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(Escrito em 2022, quando Portugal foi eliminado nas quartas de final da Copa do Catar. Reescrito agora, em Junho de 2024.)
 
Duas perguntas duas respostas, da entrevista concedida em 2022 por Cristiano Ronaldo:
 
«P - Se Portugal vencer a Copa?
R - Aposentar-me-ei 100%. Se vencer eu paro.
P - Caso não vença…
R - Quero jogar mais dois anos, mais três anos. Dois ou três anos no máximo. Quero terminar com 40. Acho que 40, vai ser uma boa idade... mas eu não sei, não sei o futuro.»
 
Querido Ronaldo, essa aposentação, que não se verificou, caso Portugal tivesse vencido a Copa, teria o mesmo simbolismo da tua carreira, com toda a magia que advém de algo por explicar: a tua história, a tua vida desde criança, a tua adolescência, a tua juventude, o teu dom, o teu sucesso, a tua conduta como pessoa fraterna com um enorme coração. Tudo o que é estranho e nos faz reflectir para nos dizer que existem mistérios de que não possuímos a chave para os desvendar.
Pessoas com um percurso, uma vivência e um comportamento como o teu, parecem não pertencer a este mundo. São uma espécie de contrapartida que a mão de Deus envia á Terra para nos compensar da parte negativa que carregamos sobre os ombros.
A tua aposentação nessa altura, decidida por ti, teria sido a grande glória, a mais perfeita e ajustada. A lenda consumada e gravada com letras de oiro, em vez de ser, posteriormente, numa outra qualquer ocasião, apenas um ponto final na tua luminosa carreira.
Mas se continuasses até aos 40 (o que acabou por verificar-se), provavelmente, a tua retirada, após mais dois anos nos relvados, não teria o mesmo impacto por esse mundo, o mesmo brilho das estrelas.
A tua aposentação, caso Portugal não tivesse perdido, cumprir-se-ia como um remate perfeito para finalizar a tua ímpar e extraordinária carreira. Seria um acontecimento digno de uma pessoa que veio cumprir e mostrar a sua missão, singular e única, aos olhos do mundo inteiro.
Farias emudecer as bocas que te hostilizam e invejam. As atitudes que te afrontam e te humilham. Sairias ainda mais dignificado e consagrado e envergonhar-se-iam as mentalidades daqueles que não souberam nem agradecer-te nem respeitar-te. Perante a tua atitude, ao tomar a decisão de parar por tua única vontade, ninguém mais teria coragem de magoar-te.
Se continuasses a jogar, como aconteceu, mesmo que contribuísses com o mesmo fulgor como até aqui (ou que te deixassem dar esse contributo), terias pela frente mais dois anos de luta com o teu próprio corpo.
E não só essa, mas ainda uma outra: a psicológica, que interfere com a tua tranquilidade física e mental. Teria sido bom que Portugal tivesse saído vencedor. Por ti e por nós. Terias dado cumprimento à tua palavra.
Os anos trazem, como é natural, o desgaste da idade, queiramos ou não. Ao optar por permanecer no teu posto, terias pela frente dois anos de trabalho exaustivo, de impaciência, de inquietação, de ansiedade. A juntar ao pêso enorme de não desiludires os teus fãs espalhados pelos quatro cantos do mundo. A pressão contínua de trabalhar o corpo e a mente. O exercício diário e rígido, os pequenos (ou grandes sacrifícios) de modo a poderes obter os teus objectivos: continuar em excelente forma física.
Nestes dois últimos anos emagreceste. Se reparares, a tua massa corporal, deixou de existir para dar lugar à muscular. Foram dois anos de muito trabalho, de muita luta, de muita obstinação, de muito respeito e de muito amor ao futebol, à tua carreira, à ideia, quase inatingível, de conseguires carregar sobre os ombros o desejo dos teus fãs e admiradores em todo o Universo de continuares a ser o Cristiano Ronaldo de sempre. Mas ninguém tem esse poder, meu querido.
E talvez o tenhas conseguido. Talvez os imprevistos menos favoráveis, tenham ocultado a luz que continua a teu lado como a tua sombra.
Após mais dois anos de combatividade e de luminoso talento por esses relvados, não é justo que exijas mais de ti, do teu corpo e da tua capacidade mental. Nunca defraudarás os milhões de seres humanos que te amam incondicionalmente e agradecem terem tido o privilégio de acompanhar a tua carreira, de verem a tua actuação ao vivo nos relvados, de viver nesta época: a era de Cristiano Ronaldo.
Os vindouros não terão essa sorte. Mas terão a possibilidade, graças às novas tecnologias, de ver-te em fotos, em vídeos, em filmes, e terão pena de não terem vivido nestes anos. Serás eterno. Foste e és um autêntico milagre.
Pessoas como tu, a quem chamam pessoas de luz, que deixam o seu nome ser soletrado com admiração e respeito, por todas as Línguas do Universo, são, decerto, tão raras que só de séculos em séculos devem aparecer no mundo. Nesse aspecto, Deus não costuma ser «mãos largas». Ele, melhor do que ninguém, sabe como a Humanidade é imperfeita e pouco merecedora destes Seus rasgos de bondade.
Só a aposentação não será igual ao que poderia ter sido. Não terá o mesmo significado, a mesma unicidade, o mesmo brilho. E daí...
Esperemos. Outras alegrias poderão vir compensar-te das lágrimas choradas. Perder o final da Taça do Rei para o Al-Hilal, não é o fim, mas uma desilusão. Ainda tens muito caminho pela frente.
Agora, quanto às lágrimas, às tuas lágrimas, um homem só não chora quando não tem coração a bater dentro do peito. E tu, querido Ronaldo tens um coração do tamanho do mundo!
Como sabes (apesar de não parecer), sou pouco do futebol e mais das literaturas… Da tua amiga virtual, Sol.
 
Soledade Martinho Costa
 
(Escolhi esta foto porque gosto mais de ver-te a sorrir!)
publicado por sarrabal às 10:00
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Domingo, 2 de Junho de 2024

CALENDÁRIO - JUNHO

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Foge do sono

A lebre

Sem fomes

Nem amarras.

 

É Junho

Nas fogueiras

A arder

Em claridade.

 

Na boca

Das infusas

Há falas de ceifeiras.

Desenha-se o restolho

No timbre das cigarras.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 02:46
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Sábado, 1 de Junho de 2024

1 DE JUNHO - DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

cafarnaum-filmes-sobre-criancas-na-guerra.jpgChorar não chega

É preciso abrir os braços e gritar:

Quem foi que enlouqueceu?!

Quem detém um tal poder nas mãos?!

Quem manda mais no mundo do que Deus?!

 

SMC

Foto: Ucrânia

publicado por sarrabal às 19:20
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