E a chuva cantou
Na face das águas
E os rios cresceram
Galgaram as margens
E as aves soltaram
As asas e o canto
E as crianças todas
Sob um céu de anil
Atentas
Caladas
Escutaram palavras
Vestidas de novo
Um conto de fadas:
Estava-se em Abril!
E anões e gigantes
Bruxas e duendes
As fadas do mal
As fadas do bem
Príncipes
Pastores
Mendigos e reis
Trocaram de fato
Ideias e leis.
E os ventos sopraram
Varreram
Uivaram
As nuvens toldaram
O azul dos céus
E os homens todos
Atentos
Ousados
Cujos nomes lembro
Sentiram-se irmãos
Teimaram palavras
Vestidas de novo
Chegaram os corpos
E deram as mãos:
Estava-se em Novembro!
E riu-se
Chorou-se
Mas uma paz doce
Ficou
Instalou-se
Ganhou direcção.
Hoje
A claridade
Permanece viva
Constante
Total
No fim
Conquistou-se
O que era vital.
As crianças todas
Dos anos de então
Cresceram
Mudaram
São homens
mulheres
Com filhos e netos
Atentas
Caladas
E vejo com espanto
Aquelas que choram
Por não terem tecto
Por não terem pão.
Como foi não sei
Ou sei
E não digo
Por isso, a pergunta
Que vos hoje faço:
Que crime
O do povo
Para um tal castigo.
Uma revolução
De ideais e cravos
Não vinga
Não vence
Quando pára a meio
Não se faz veleiro
No fim da viagem
A atracar na margem
Seguro e inteiro.
Se o homem esquecer
Deveres e promessas
Feitos à Nação
Ao mudar-lhe o rumo
Noutra direcção
Tem pouca valia
Pôr um cravo ao peito
A esperança arredia
E o desencanto
Os dois se recusam
Dar-lhe esse direito.
Nas dificuldades
Que o País suporta
Tudo é atentado
À senha / canção
Ao sonho adiado
Resta-nos a fé
Do que foi promessa
Do que foi sonhado
Grito que se acende
Sempre renovado.
Escutá-lo é lembrar
Que urge não parar
Uma revolução
Tem de se cumprir
Plena, total
Ser Futuro a abrir
Procurar o Bem
Recusar o Mal
Não deve, não pode
Pós cinquenta anos
Pôr-lhe um ponto final.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
(Reescrito)


Rejeito em mim
O peso das palavras descontentes
Aquele que nos tira o sono e o engenho
De ultrapassar esta cortina
Urdida em nevoeiro
Que se abateu aos poucos
E hoje cobre por inteiro
O meu País
Meu campo por lavrar
Desprovido de espigas e sementes.
O homem
Não soube semeá-las
Não houve Primavera
Só Inverno
A governar sozinho o calendário.
Mas é no tempo
Nesta raiz de espera
E de tormento
Que celebramos
O sol da Liberdade.
Dela não retiramos o pão
Não distribuímos a riqueza
Mas respiramos
A vontade e a certeza
De repetir a esperança
De repetir os cravos
Os versos da canção.
Sonhar é atributo necessário
Sonho nem sempre é ilusão.
Os dias hão-de vingar
Celebrá-los-emos, então
Comparável à árvore
Onde se oferece o fruto
Ao alcance tão só da nossa mão.
Hão-de vingar
Vestidos de futuro
Justo, fraterno, solidário
Hão-de chegar
Num outro aniversário.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

Se Abril voltasse
A percorrer as ruas
E com ele na mão
Um cravo rubro
Os anseios que nascessem
Nesse dia
Trariam a certeza
De que os homens
Nem sempre procuram
A magia
Que faz dormir em paz
As consciências.
Se o outro Abril
Não passou de um sonho
Se respiramos hoje
Esta amargura
E os cravos se tornaram
Cor de bruma
A seara continua
A oferecer ao vento
O dourado do manto
E a formosura.
A murmurar, talvez
Que o Norte anda à deriva
Sem rota, sem leme ou timoneiro
Mas que resiste em nós.
A segredar ao coração
A tempo inteiro
É urgente ir em busca da bonança
E deixar que o Sol rompa o nevoeiro.
A fé não está perdida
É urgente ir em busca do poema
Que se fez canção
E fez bandeira
Em nossa voz
Agora adormecida
À espera de a ouvirmos
Renascida
Cantada noutro tom
Em vez primeira.
Soledade Martinho Costa
Do livo Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal.


Neste dia
Onde se dissipou
O legado dessa névoa
Que desde o ventre materno
Nos calou
Onde se abriu caminho à descoberta
De um novo Portugal com outra voz
É onde o desengano
Sem grades se transporta
É onde o desencanto
De novo nos desperta
Ao som de um outro canto
Que bate à nossa porta.
É onde o vento
Ateia o lume deste fogo
É onde o povo enxuga o pranto
De outra luta
É onde a esperança aguarda
Sem guarida
O pedaço de Sol
A que tem direito.
Aqui
Onde respiro
A força do meu gesto
Na desilusão
Que se fez poema
É onde prendo ao peito
Um cravo rubro
Que me dá este alento que persiste
À espera das palavras que eu aceite
Na teima que me embala e que resiste.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal


Ontem
Eram de musgo negro os muros
De vidro
As paredes das casas
De penhora
Os olhares na penumbra dos passos.
Mas a voz fez ouvir a palavra
A mão teceu um terminal de luz
Em plenitude
O Homem resgatou o sonho.
Hoje
Veste-nos de novo
A música ressurgida nos ouvidos
O retrato
Respirado na memória dos olhos.
De novo
A consciência do bafo Interminável da demora
Dorme a nosso lado
Segue os nossos passos hora a hora.
Mas amanhã
A lágrima virá
Em alegria de pétalas da sombra.
O mar e a terra
Coniventes
Tragarão a tempestade e a dúvida.
E este pulsar
De forças insuspeitas renascido
Este bater de um coração
Renovado de seiva na raiz
Será, então
Uníssono
Inteiro
Articulado
O coração refeito
De um País.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Ed. Sarrabal


Quanto deserto e só este caminho
Quanta lágrima caída sobre a terra
Quanta alegria fingida
Quanto medo
Quanto filho distante
Quanta guerra.
O que se aproveita do tempo que passou
Quem nos devolve tudo o que não teve
Nem sequer direito de ter voz.
Mas heis que rompe
Em madrugada diferente
Um novo dia.
Feito da esperança aguardada em vão
Dos dias adiados
Do Sol da Liberdade a conquistar
Que a mais não ascendia
Nem povo nem Nação.
Um novo dia
Gerado no hábito ousado desta luta
Que se colou à flor da nossa pele
Num desbravar de sonhos que não somem.
Bastou
Uma canção
Um cravo
Uma bandeira
E a vontade de querer e haver maneira
De renascer para a vida cada homem.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
(Reescrito)

Luís Vaz de Camões, o Príncipe dos Poetas Portugueses, nasceu, presumivelmente, à volta de 1525.
Da sua infância e da sua adolescência, pouco se conhece. A não ser que seu pai se chamou Simão Vaz de Camões, e que sua mãe teria pertencido à linhagem dos Macedos de Santarém, isto é (tal como a do pai), família de ascendência nobre.
Fala-se ainda de Ana de Sá (que uns dizem ter sido sua mãe, e outros sua madrasta), personagem cujo nome figura num documento datado de 1585, assinado por Filipe I, em que lhe é transmitida, como herdeira, «por muito velha e pobre», a tença de 15 000 reais, de que o Poeta beneficiava à data da sua morte.
De concreto, sabe-se apenas que Luís Vaz de Camões foi levado para Coimbra em criança, e a sua educação confiada a seu tio, Dom Bento de Camões, prior-mor do Convento de Santa Cruz e cancelário da Universidade.
Já adulto, graças à nobreza de seus pais, passa pela corte de D. João III, onde faz brilhar os seus dotes de Poeta épico e lírico, ante os reis e a grande nobreza do Reino, o que lhe granjeia a inveja e a inimizade de outros poetas da época.
Ainda na corte, toma-se de amores pela infanta D. Maria, irmã de D. João III, filha de D. Leonor e de D. Manuel I, e torna-se grande amigo de D. António de Noronha, filho dos condes de Linhares.
Graças ao seu espírito aventureiro, embarca para Ceuta, onde perde um olho. Regressa em 1553, e parte no mesmo ano para a Índia, na armada de Fernão Álvares Cabral. No Oriente faz parte da expedição comandada por D. Afonso de Noronha, luta na Armada do Norte (que parte de Goa em 1554 para o estreito de Meca), é ferido em 1556 nas Molucas, e acaba por incorpora-se na Armada do Sul, comandada pelo capitão de Malaca, D. João Pereira.
Mais tarde, (1569), D. Antão de Noronha , após abandonar o cargo de vice-rei da Índia, de regresso à Metrópole, ao passar por Moçambique, toma conhecimento através de Diogo do Couto, da penosa situação em que ali se encontra Luís Vaz de Camões. Organiza de imediato uma subscrição a favor do Poeta, que chega, finalmente, a Lisboa em Abril de 1570 (vestindo roupas emprestadas por alguns amigos, condoídos da sua situação.)
Camões regressa, precisamente, na altura em que uma terrível epidemia assola Lisboa. Pobre e doente, durante mais de dois anos leva vida de penosa indigência, sobrevivendo graças ao seu fiel escravo, amigo e companheiro Jau, que para fazer face à vida de miséria do seu amo, pede esmola pelas ruas da capital, recitando os versos do Poeta.
A sua fé em dias melhores, consiste na esperança de ver editada a sua obra «Os Lusíadas», poema épico, que havia salvo a nado, em 1559 das águas do rio Mecom, em Macau, quando, sob prisão, seguia para Goa.
No entanto, só em 1572 Luís Vaz de Camões vê o seu trabalho publicado. Um ano antes, por empenhamento da Infanta D. Maria, D. Sebastião, atendendo à precária situação do Poeta, concede-lhe uma tença de 15 000 reais. Esta dádiva (muito pequena em relação a outras atribuídas naquela época) assegura-lhe a sobrevivência durante os oito anos que antecederam a sua morte, ocorrida em 1580 (exactamente dois anos após a derrota de Alcácer-Quibir e no ano em que Filipe II de Espanha se torna rei de Portugal.).
Durante os dezassete anos que permanece pelo Oriente, Camões revê toda a sua obra literária. Por essa altura, compõe diversas canções, sonetos, odes, églogas, elegias, sextilhas, oitavas e redondilhas.
Em 1880, embora sem confirmação segura de identificação, os restos mortais de Luís Vaz de Camões são trasladados da ermida do Covento de Sant´Ana (demolido em 1897/ 98, local onde funciona hoje o Instituto Bacteorológico de Câmara Pestana) para um túmulo de mármore na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Soledade Martinho Costa
Do livro de literatura juvenil Vamos Adivinhar Figuras Célebres
Ed. Publicações Europa América
Capa: José Cosme
ADIVINHA
Hoje é querido e é louvado
por justa consagração
mas sofreu, foi desprezado
e aos outros estendeu a mão.
Soldado e aventureiro
nasceu nobre e foi mendigo
teve Jau por companheiro
e por seu melhor amigo.
«Lusíadas», o poema
mais genial que alguém fez
é dele herança suprema
dada a cada português.
SMC

Agora, com a foto mais ampliada, pode ver-se um pormenor que não era visível na anterior publicação: julgo eu que seja uma «amora negra» sobre o olho de Camões.
O ridículo na procura de um motivo chocante, absurdo, rebuscado e insólito, que surpreenda e cause impacto em favor da publicidade que se pretende criar à volta do «autor» da «obra», aí está, absoluta e propositadamente representado na inclusão do pequenino fruto. Enfim, poderia José Aurélio lembrar-se de algo pior...
A desconsideração e o destrato ao mais Insigne Poeta Português de todos os tempos, nome intocável da nossa História, da nossa Cultura e da Língua Portuguesa, aí ficam, como prova de que tudo vale neste país, desde que a publicidade (que claramente se pretendeu) e uns bons euros entrem na algibeira de cada um.
Quanto aos grupos de intelectuais elitistas e vanguardistas (que também os há com fartura), que abonam em favor da «obra», faço minhas as palavras de um nome grande, por demais conceituado da nossa Cultura, que costuma dizer: «Esses, não passam de autores castrados!»
Termino com dois significados que encontrei para a inclusão do pequeno fruto na moeda. Este, na gíria popular: «Olhos negros como as amoras!» ( em alusão à hipotética cor dos olhos de Luís de Camões) ou este (talvez o mais acertado): «É provável que Luís de Camões, algumas vezes, tenha colhido amoras para matar a fome!»
Soledade Martinho Costa
Foto: Blogue do Minho

Fiquei positivamente horrorizada quando hoje vi a moeda comemorativa dos 500 anos de Camões! Horrorizada, escandalizada, impotente, perante o descalabro, mas suficientemente lúcida para contestar, protestar, manifestar nestas linhas o meu repúdio, mas também a minha vergonha por esta verdadeira provocação e atentado a Alguém cuja memória nos merece o respeito, a veneração e orgulho, que nos leva a este gostar de ser Português.
Mas a pergunta impõe-se: que se passa com Portugal?! Que pessoas são estas que, impunemente, fazem o que lhes apetece sem darem contas a ninguém?! Loucos?! É bem possível. A meu ver, um internamento imediato seria o mais aconselhável!!
Soledade Martinho Costa
Aproveito para transcrever as palavras da jornalista Isabel A. Ferreira, retiradas do seu Blog «O Lugar da Língua Portuguesa». Merece a pena ler:
«A Imprensa Nacional assinala os 500 anos de Camões com uma moeda que INSULTA o Poeta maior da Língua Portuguesa? Isto fará parte da manigância que anda por aí a destruir a Cultura, a História e a Língua Portuguesas? É que por mais modernaços que os designers queiram ser nas suas concepções de arte, há uma coisa comum às Artes de todos os tempos: o bom gosto e a beleza.
A moeda que pretende assinalar os 500 anos do Nascimento de Luís de Camões, o nosso maior Poeta, é simplesmente FEIA, coisa de muito, muito, muito, mas muito MAU gosto.
Camões NÃO merece ser assim deformado.
Deve haver limites para a expressão artística, quando se trata de retratar pessoas. É que isto nem para caricatura serve. E a Arte da Caricatura é uma Arte.
A carantonha, que consta na moeda, mais parece uma CARETA CARNAVALESCA, tipo Caretos de Podence, sendo que estes últimos são muito mais artísticos e belos do que a careta da moeda.
E não me venham dizer que gostos não se discutem, porque isto nada tem a ver com gostos mas com Arte e respeito pela memória das pessoas.
Isto só prova que anda por aí uma seita destruidora dos símbolos da nossa História, da nossa Cultura, da nossa Língua com uma intenção obscurantista.
E não querem que se diga que Portugal sofreu um golpe retrocessionista.»
Isabel A. Ferreira
(Foto: Blogue A Voz do Minho)

(Escrito a pensar naqueles que estiveram anos longe do nosso Pais e regressaram em cima do 25 de Abril de 74.)
Era uma vez
Um português
Ausente
Uma saudade
A Liberdade
Presente.
Era uma vez
Um português
Contente
Uma verdade
Uma cidade
Diferente.
Era um país
Que a gente quis
Somente
Poder amar
Com um amor
Ardente.
Era um país
Virado ao mar
Dolente
No qual a dor
No chão se fez
Semente.
Era um país
Onde a raiz
De um verso
Tinha o refrão
De uma canção
Urgente.
Era um país
Que a gente quis
Somente
Poder amar
Assim.
Soledade Martinho Costa
Nota: hoje, substituía o último verso: «Não desta maneira»
. SEGREDOS
. HOJE
. LEZÍRIA
. RÁCICO
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