Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2024

MEU FILHO

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Meu filho, minha ternura

Meu coração dado inteiro

És a fome da fartura

Que guardo no meu celeiro.

 

Meu filho, minha alegria

Meu cansaço, meu deleite

És a fonte do meu dia

Candeia do meu azeite.

 

Meu filho, minha coragem

Minha luta, minha chama

Eras fruto na folhagem

Se os meus braços fossem rama.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Reduto

Pintura: William Adolpho-Bouguereau

publicado por sarrabal às 12:25
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Sábado, 20 de Janeiro de 2024

20 DE JANEIRO – SÃO SEBASTIÃO PATRONO DA PESTE, DA FOME E DA GUERRA

GUIDO RENI.jpg

Porque muitas orações têm sido proferidas e muitas apenas pensadas. Porque a lenda ou a verdade nos deve fazer acreditar em milagres, para nos dar a força, a coragem e a serenidade para prosseguir, com confiança e esperança, nos dias que hão-de vir.

SMC

Associado pela sua miraculosa protecção às grandes pestes e epidemias que grassaram nos séculos XIV e XV até meados do século XVI, uniu-se o povo, em Portugal como noutras partes do Mundo (particularmente em Roma), em promessas conjuntas de apelação ao santo, canonicamente advogado da peste, da fome e da guerra, para que, por sua intercessão junto de Deus, fosse possível a extinção do mal que tão triste e dolorosamente castigava as populações.

Crentes no poder do Mártir São Sebastião, para o santo se voltaram as preces, os votos e a fé do povo. E porque em determinados casos, o povo se sentiu alvo de milagrosa protecção, por ter sido erradicado o pesadelo da peste, eternamente devedor e grato, vai cumprindo ao longo dos séculos as promessas feitas em horas de luto e aflição. São Sebastião surge, assim, por esse particular motivo (e pela data da sua celebração ocorrer no dia 20 de Janeiro), como um dos santos mais consagrados neste mês, em festas e romarias portuguesas, onde a tradição se confina, na maioria das vezes (em analogia aos votos conjuntos feitos pelo povo dessas épocas), à distribuição de manjares cerimoniais, bodos ou leilões de alimentos, em que se torna evidente o sentido de associação das populações em manducações rituais colectivas.

Sem esquecer a fome, outro símbolo do santo protector, dadas as condições geográficas de certas zonas do nosso País, em que uma agricultura de subsistência familiar, já de si débil, era atingida por pragas, dando origem a períodos de enorme carência alimentar, sofrida pelos seus habitantes, ou associada à própria peste, como consequência desta.

A fome, hoje retratada pela abundância de alimento nos banquetes rituais conjuntos celebrados em louvor do Santo Mártir, a honrar a tradição das promessas vindas do passado, apresentam particular relevância nas festividades da Póvoa de Atalaia, Fundão (Festa das Papas); em Santa Maria da Feira, Aveiro (Festa das Fogaceiras); em Atouguia, Alenquer (Festa dos Leilões); em Couto de Dornelas, Boticas, Vila Real (Festa de São Sebastião); em Valado de Frades, Nazaré (Festa das Chouriças); em Amiais de Baixo, Santarém (Festa em Honra do Santo Mártir) e em Gondiães e Samão, Cabeceiras de Basto, Braga (Festa das Papas).

São Sebastião é também o santo que mais capelas possui espalhadas pelo nosso País, onde é celebrado no seu dia ou mesmo noutras datas. Conta-se que quando da peste que assolou Lisboa em 1569, o rei D. Sebastião, em acção de graças, lhe mandou erigir um templo, sendo a primeira pedra lançada pelo rei junto à margem do Tejo, no Terreiro do Paço. Quatro anos depois (1573), a seu pedido e para enriquecimento do templo, o papa envia-lhe de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.

Quando Filipe II de Espanha toma posse do reino de Portugal, desaprova de imediato a construção do templo naquele local. Ao saber que o Mosteiro de São Vicente necessitava de obras, manda que este seja restaurado com a pedraria e materiais do templo de São Sebastião. Por isso se observa nos capitéis das colunas e no friso da cimalha real da Igreja de São Vicente o ornato, em relevo, de flechas aspadas. Pertenciam à cantaria do templo que o rei D. Sebastião, por voto seu, desejou erguer ao Santo Mártir do seu nome.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Festas e Tradições, Vol.I

Ed. Círculo de Leitores,

Pintura: Guido Reni

publicado por sarrabal às 00:24
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Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2024

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE INVERNO II

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A tarde toma agora o lugar da manhã que parte. Instala-se, sacode o algodão das nuvens e põe-se toda de um azul-celeste. Tão azul se põe, que o céu se confunde com o mar, a mostrar-se, lá ao longe, aos olhos do povoado. Parecem um só, de braço dado: o mar e o céu! Mas verde e não azul, fica o mar quando está zangado e cinzento o céu, quando, sem revelar porquê, a tristeza o invade.

As figueiras, despojadas de folhas, erguem, como abraços apontados ao céu, os troncos esguios, num protesto. Ao verem as laranjeiras agasalhadas na copa redonda da rama verde-escura, sentem, com maior nostalgia, a nudez cinzenta que lhes veste o corpo. O Outono cobiça e rouba as suas folhas e o Inverno não lhes devolve o adorno com que se embelezam. Por isso, saudosas do bem que perderam, segredam entre si: «Que sorte a das laranjeiras. Sempre bem vestidas, sempre perfumadas, enfeitadas de frutos no Inverno!» E têm razão. Viajantes de mares longínquos desde a China, lá estão elas, as laranjeiras, entre a saia rodada, a lembrar marés e caravelas no primeiro pé de laranja doce. À sua volta, as outras árvores quase pararam por completo a dádiva cíclica dos frutos. Mas as laranjeiras, árvores de folha perene, orgulham-se de oferecer nos ramos os gomos sumarentos durante a estação fria do Inverno. Quanto às figueiras, árvores de folha caduca, terão de esperar um pouco mais. Até à chegada da Primavera, altura em que começam a vestir de novo o aconchego dos seus vestidos verdes. Tão verdes como, por vezes, a cor do mar que banha os países onde, roxos ou brancos, amadurecem os seus frutos.

No céu, a cor azul-celeste deu lugar ao tom azul-escuro. Sinal de que a noite vai chegar. As nuvens, vindas de um sítio que só elas sabem, correm, correm de novo pelo céu fora como se tentassem agarrar o vento. Agarrar o vento? Oh, não!

O vento é que as empurra. E elas não protestam. Obedecem. Umas atrás das outras, num galope sem freio à sua frente.

Com o vento, veio a noite, agasalhada na sua capa de breu. É nela que oculta a escuridão que lança sobre a Terra para que esta adormeça. E também as sombras, que num bailar constante, têm por missão velar-lhe o sono, até que a Terra desperte e o dia amanheça.

Pai! Pai Pinheiro! Onde se esconderam as estrelas do céu, que não as vejo?

Atrás das nuvens… - responde o pinheiro, pai da pinha que baloiça ao vento entre as agulhas finas.

Agasalhadas nelas porque têm frio?

Não, minha filha. As nuvens não podem aquecer as estrelas, porque são elas que trazem a chuva!

Ah! – diz, simplesmente, a pinha.

E tu, não dormes? – pergunta o pai.

Ainda não. Penso que as estrelas fazem falta no céu…

Sim, as estrelas do céu são as mais bonitas que enfeitam os pinheiros!

Recolhido sob o telhado da casa, um pardal, cabecinha enfiada no casaco de penas, dorme. Sonha, talvez, com o fim do Inverno. Com o ninho, que há-de construir, com os ovos, os filhos, o perfume das flores e as searas de trigo… E nem dá pela chuva que começa a cair.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Histórias que o Inverno me Contou»

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 18:14
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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2024

«AS CRIANÇAS DA GUERRA»

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Por entre os ramos do pinheiro

enfeitado com luzes multicores

espreitam-me as «crianças da guerra»

a vaguear, abandonadas à sorte

no seu país de escombros.

 

Olho as figuras do Presépio

e junto da Virgem, de São José

do Menino e dos Reis Magos

«as crianças da guerra»

que escaparam à morte

famintas, rôtas, sujas, descalças

gritam o meu nome

enquanto caminham à deriva

sobre as pedras calcinadas

de uma pátria sem norte.

 

Nas prendas embrulhadas

em papéis vistosos

numa profusão de mimos e de amor

vejo «as crianças da guerra»

a suster as lágrimas

no medo que lhes veste o rosto

e lhes faz tremer

numa convulsão de dor

o corpinho martirizado pelo pânico.

 

Não, não pude viver este Natal

nem o Novo Ano que chegou

sem sentir esta tristeza

sem lembrar «as crianças da guerra»

votadas a um destino refém

por um poder satânico

a que foram condenadas.

 

Quem dera tê-las nos meus braços

a devolvê-las aos pais

âs casas que habitavam

aos amigos, aos brinquedos

aos animais que amavam

a um mundo que possa ser

digno desse nome.

 

Mas tenho uma certeza

«as crianças da guerra» não são mais

do que anjos

que não aprenderam ainda

a brir as asas e a fugir da Terra

em direcção ao céu.

 

Soledade Martinho Costa

 

(Inédito/2023/ 2024)

publicado por sarrabal às 11:13
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