
A confirmar prometimentos não cumpridos
há passos esquecidos das moradas
e vozes a soar noutros ouvidos
Sempre que o coração segreda
que mesmo rodeado de gente
está sozinho
viesse alguém quebrar a solidão
com um beijo, um abraço
um gesto de carinho.
Talvez quando a saudade vier
em data incerta
dar a notícia que já tanto tarda
se encha de murmúrios
toda a casa.
Pressentir-se-à então por toda ela
com a suavidade de um suspiro
um nome que a ninguém pertence
a afagar a textura das paredes
no voo de seda de uma asa.
como se fora ave que abandona o ninho.
Apetecia-me rasgar este poema
mas tenho pena do choro das palavras.
Soledade Martinho Costa
Inédito
(Setembro/2023)

As promessas que se fazem e se cumprem aos santos, resultam da fé, da devoção e do culto religioso que o povo presta aos oragos de um lugar, de uma aldeia, de uma vila ou de uma cidade – ou, tão-só, ao titular de uma igreja ou de uma capela.
Anteriormente ao século VII, as catedrais, igrejas ou localidades não possuíam santos titulares ou padroeiros. Apenas as basílicas e igrejas que conservavam as relíquias de um santo mártir podiam adoptar o seu nome como santo padroeiro ou titular desses lugares sagrados.
A partir desse século quase todas as igrejas começam a organizar-se no sentido de elegerem os seus padroeiros, sendo escolhidos, em primeiro lugar, naturalmente, as figuras do Divino Salvador e da Virgem Maria, seguidas dos Santos Mártires.
Por altura da conquista da Espanha pelos Árabes, já todas as igrejas possuíam um santo padroeiro, a dar o seu nome ao templo e a servir de patrono às comunidades.
Em documentos da Idade Média, é usual o nome das localidades ser antecedido do nome do seu padroeiro, datando dessa época o processo da constituição das paróquias formadas em núcleos sociais, a assinalar a vida comunitária e religiosa das populações.
Reposto o culto cristão após a Reconquista, reatou-se esta tradição cristã (que nunca deixou de manter-se), a englobar capelas, igrejas, mosteiros e lugares, numa reafirmação da religiosidade popular.
Os novos colonos das comunidades, que tomaram para si as terras abandonadas pelos Mouros, no sentido de as povoar e cultivar, acabaram por ser eles próprios a contribuir para devolver às populações as práticas da devoção cristã, incluindo as do culto prestado aos seus santos padroeiros, procedendo à reconstrução ou edificação de capelas e igrejas, entretanto destruídas, de modo a que o povo pudesse praticar os preceitos religiosos da sua devoção em locais sagrados.
À frente dos templos, como responsáveis e orientadores pastorais dessas mesmas comunidades, eram colocados sacerdotes, por esse tempo a designarem os fiéis por fili eclesiae («fregueses»), designação que se estendia à localidade, dando-se-lhe o nome de «freguesia» - a substituir a anterior denominação, «paróquia», actualmente recuperada, embora de certa forma circunscrita às actividades paroquiais (religiosas) de cada terra.
O processo de reorganização e formação das comunidades rurais, conquanto moroso (vai do século V ao século XI), é retomado a partir de então, agora com a igreja ou a capela sob a invocação dos santos a associar-se, em estreita união com as populações, no sentido de passar a celebrar-se em data fixa o dia dedicado ao orago, escolha a recair no seu dia litúrgico, estipulado pela Igreja Católica, ou em datas ligadas a acontecimentos importantes ocorridos no seio das comunidades e relacionados com a figura do santo.
Por outro lado, a origem das romarias deriva, supostamente, das peregrinações da era apostólica ao túmulo de Jesus, em Jerusalém, às quais se seguiram as peregrinações a Roma, capital da Igreja Católica, com grupos de peregrinos em cumprimento de promessas aos túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo.
Como alguém escreveu, «os crentes iam a Roma, romeavam, eram romeiros», diferindo das grandes peregrinações o facto de as romarias serem realizadas anualmente em caminhadas de menor percurso.
Às peregrinações a Roma e a outros santuários de invocação a Cristo ou à Virgem Maria, associaram-se depois as de veneração aos santos, acrescentando-lhe o povo a parte profana – a diversão –, ou, simplesmente, mantendo-a, vinda de épocas pré-cristãs.
Com o passar do tempo, em certas localidades, alguns dos antigos padroeiros acabaram por ter pouco significado, verificando-se, mesmo, a extinção da sua festa, quer por motivos da ruína dos templos e consequente desinteresse das populações, quer por terem sido ultrapassados, no decorrer dos anos, por uma devoção maior a outro santo.
Símbolo da fé do povo e sinónimo de protecção à comunidade paroquial – a delimitar, por vezes, o próprio território que lhe cabe, como guardião das terras e dos seus respectivos habitantes –, o santo padroeiro significa o amparo e o confidente, o protector, aquele que, por sua intercessão junto de Deus, tem a faculdade e a missão de defender e obter para quem a ele recorre, o louva e nele confia, as graças pedidas em oração e voto de promessa – particularmente, nas alturas mais precisas e difíceis da vida de cada um.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI
Ed. Círculo de Leitores
Imagem: Santa Justa e Santa Rufina, Murillo (Museu de Belas-Artes de Sevilha). Segundo a lenda, seriam irmãs, mortas no tempo da Roma Imperial. Padroeiras dos oleiros.

Olho em redor mal desperta
O dia acordou mais cedo do que eu.
Sou feito de seivas
De geadas e matos
De aves e manhãs
Pedras e regatos.
Sou fruto das flores
Sou a brisa e o vento
Safões dos pastores
Água dos cantis.
Sou lume ateado
Seara de espigas
Sou pão amassado
Lágrimas, cantigas.
Sou mel e orvalho
Sou sede e calor
Sou do milho o malho
Sou a hora do amor.
Sou o povo que reza
Sou o Sol a nascer
Sou enxada que pesa
Sou o trigo a crescer.
Sou o pisar da uva
Sou o corpo cansado
Sou o canto da chuva
Sou o estrume e o arado.
………………………………..
Sou barco parado
Sobre ondas de pranto
Sou o sangue que corre
Nas veias do tempo.
Sou feito de estrelas
De sal e marés
De limos e algas
Tormenta e convés.
Sou sopro de brisa
Saudade, cadência
Vulto de um País.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Reduto”
Foto: aldeia de Sistelo (Arcos de Valdevez, Alto Minho)
(Não tem nome de autor)
Coitado do cão Totó
preso na ponta da trela
cão sem pulga
cão sem osso
sem casota
sem cadela.
Coitado do cão Totó
com capa de flanela.
Tem coleira cravejada
com pedrinhas multicores
tem caminha de madeira
com lençóis e cobertores
mas não queria tais favores.
Lava o pêlo com champô
usa perfume para cão
mas na verdade já vi
que nem sequer sai à rua
para fazer o seu chichi.
Não guarda a casa ao dono
porque não é guardador
não lhe guarda o rebanho
porque não é cão pastor
tão-pouco sabe ir à caça
porque não é perdigueiro.
E triste desta desgraça
dorme, dorme o dia inteiro!
Coitado do cão Totó
quem lhe dera ser rafeiro
ter amigos, companheiros
(rafeiros desses, pràí)
e meninos pra brincar.
Andar ao Sol e à chuva
e ser o terror dos gatos
e fazer mil desacatos
comer
dormir
e ladrar
ser o senhor dos seus actos!
Bem longe das vitaminas
da cama
dos cobertores
do champô
do sabonete
da coleira de brilhantes
da capa de flanela.
Cão sem pulga
cão sem osso
sem casota
sem cadela.
Coitado do cão Totó
preso na ponta da trela.
Soledade Martinho Costa
Do livro O cão Totó
Ed. Publicações Europa-América
Ilustração do livro: Luís Faria
(A foto está meia desfocada, sem brilho. Não consegui fazer melhor, reproduzindo as cores originais. Algo vai mal com a minha Canon. Precisa de ser vista.)



— Olha, lá vem a Pomba-Torcaz! Volta de férias no Norte da Europa. Que sorte! Eu, então, só conheço os arredores deste pombal… – lastima-se a senhora pomba-de-leque.
O senhor pombo-gravatinha dá a sua opinião:
— Cá por mim, não me queixo. Acho lindo o nosso povoado! Além disso, não tenho de me ralar sempre a fazer as malas. Uns regressam, outros vão-se embora. É o Outono, e está tudo dito. Partiram as Andorinhas, as Cotovias e os Rouxinóis. Estão de abalada os Cucos, os Melros e os Noitibó. Mas temos de volta os Patos-Bravos, as Rolas e as Narcejas. Calculo, senhora Pomba-de-Leque, as coisas interessantes que trazem para nos contar…
— Pois sim. Mas eu também gostava de viajar, de conhecer outros lugares… – responde a pomba, numa confissão.
O pombo-de-papo mete-se na conversa:
— Sabe, senhora Pomba, nós não somos aves migratórias. Somos pombos domésticos. Aí tem a diferença. – diz ele, a confortá-la. E acrescenta:
— Um destes dias, vou convidá-la a acompanhar-me num passeio à cidade. Verá os jardins onde as flores só brotam da terra graças às mãos dos jardineiros. As pessoas apressadas, que já nem sabem dizer bom-dia. E os prédios altos, mais altos do que as ondas do mar quando se enfurece. Verá também os carros barulhentos que poluem de cinzento a atmosfera. E as ruas estreias, tão estreitas, que o Sol, por mais voltas que dê, não consegue lá entrar. Quando regressarmos, tenho a certeza de que vai achar muito mais bonita a praia, lá em baixo, e os arredores do nosso pombal!
A senhora pomba, olhinhos redondos como missanga, arrulha, num enleio:
— É capaz de ter razão…
E aninham-se os três, a senhora pomba-de-leque, o senhor pombo-gravatinha e o senhor pombo-de-papo, fora do pombal, a ouvir o mar, ao longe, para além do sítio onde fica a sua casa.
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que o Outono me Contou
Ed. Publicações Europa-América

A nativa
Surge das entranhas da terra
No rosto a sentença defronta a multidão
Inventa o último reduto.
Símbolo da raça
No porto da sua mão a imagem
Pacientemente construída
Aguarda a transacção.
Do tombadilho
A objectiva fixa o momento.
E aos guerreiros de penas coloridas
Aos pássaros de fogo agora extinto
Do espaço filantropo das reservas
Promete, com indulgência
Divulgação a bem da casta decadente.
Para lá dos olhos, do bocejo
Do sorriso poliglota dos turistas
A invasão progride inultamente.
Os vírus penetram os corpos.
Nas cidades o extermínio
É feito com eficiência.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
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