Sexta-feira, 29 de Setembro de 2023

O CHORO DAS PALAVRAS

pombo 1.jpg

A confirmar prometimentos não cumpridos

há passos esquecidos das moradas

e vozes a soar noutros ouvidos

 

Sempre que o coração segreda

que mesmo rodeado de gente

está sozinho

viesse alguém quebrar a solidão

com um beijo, um abraço

um gesto de carinho.

 

Talvez quando a saudade vier

em data incerta

dar a notícia que já tanto tarda

se encha de murmúrios

toda a casa.

 

Pressentir-se-à então por toda ela

com a suavidade de um suspiro

um nome que a ninguém pertence

a afagar a textura das paredes

no voo de seda de uma asa.

como se fora ave que abandona o ninho.

 

Apetecia-me rasgar este poema

mas tenho pena do choro das palavras.

 

Soledade Martinho Costa

 

Inédito

 

(Setembro/2023)

publicado por sarrabal às 05:25
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2023

SANTOS PADROEIROS - ORIGENS

Santas_Justa_y_Rufina,_por_Murillo.jpg

As promessas que se fazem e se cumprem aos santos, resultam da fé, da devoção e do culto religioso que o povo presta aos oragos de um lugar, de uma aldeia, de uma vila ou de uma cidade – ou, tão-só, ao titular de uma igreja ou de uma capela.

Anteriormente ao século VII, as catedrais, igrejas ou localidades não possuíam santos titulares ou padroeiros. Apenas as basílicas e igrejas que conservavam as relíquias de um santo mártir podiam adoptar o seu nome como santo padroeiro ou titular desses lugares sagrados.

A partir desse século quase todas as igrejas começam a organizar-se no sentido de elegerem os seus padroeiros, sendo escolhidos, em primeiro lugar, naturalmente, as figuras do Divino Salvador e da Virgem Maria, seguidas dos Santos Mártires.

Por altura da conquista da Espanha pelos Árabes, já todas as igrejas possuíam um santo padroeiro, a dar o seu nome ao templo e a servir de patrono às comunidades.

Em documentos da Idade Média, é usual o nome das localidades ser antecedido do nome do seu padroeiro, datando dessa época o processo da constituição das paróquias formadas em núcleos sociais, a assinalar a vida comunitária e religiosa das populações.

Reposto o culto cristão após a Reconquista, reatou-se esta tradição cristã (que nunca deixou de manter-se), a englobar capelas, igrejas, mosteiros e lugares, numa reafirmação da religiosidade popular.

Os novos colonos das comunidades, que tomaram para si as terras abandonadas pelos Mouros, no sentido de as povoar e cultivar, acabaram por ser eles próprios a contribuir para devolver às populações as práticas da devoção cristã, incluindo as do culto prestado aos seus santos padroeiros, procedendo à reconstrução ou edificação de capelas e igrejas, entretanto destruídas, de modo a que o povo pudesse praticar os preceitos religiosos da sua devoção em locais sagrados.

À frente dos templos, como responsáveis e orientadores pastorais dessas mesmas comunidades, eram colocados sacerdotes, por esse tempo a designarem os fiéis por fili eclesiae («fregueses»), designação que se estendia à localidade, dando-se-lhe o nome de «freguesia» - a substituir a anterior denominação, «paróquia», actualmente recuperada, embora de certa forma circunscrita às actividades paroquiais (religiosas) de cada terra.

O processo de reorganização e formação das comunidades rurais, conquanto moroso (vai do século V ao século XI), é retomado a partir de então, agora com a igreja ou a capela sob a invocação dos santos a associar-se, em estreita união com as populações, no sentido de passar a celebrar-se em data fixa o dia dedicado ao orago, escolha a recair no seu dia litúrgico, estipulado pela Igreja Católica, ou em datas ligadas a acontecimentos importantes ocorridos no seio das comunidades e relacionados com a figura do santo.

Por outro lado, a origem das romarias deriva, supostamente, das peregrinações da era apostólica ao túmulo de Jesus, em Jerusalém, às quais se seguiram as peregrinações a Roma, capital da Igreja Católica, com grupos de peregrinos em cumprimento de promessas aos túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo.

Como alguém escreveu, «os crentes iam a Roma, romeavam, eram romeiros», diferindo das grandes peregrinações o facto de as romarias serem realizadas anualmente em caminhadas de menor percurso.

Às peregrinações a Roma e a outros santuários de invocação a Cristo ou à Virgem Maria, associaram-se depois as de veneração aos santos, acrescentando-lhe o povo a parte profana – a diversão –, ou, simplesmente, mantendo-a, vinda de épocas pré-cristãs.

Com o passar do tempo, em certas localidades, alguns dos antigos padroeiros acabaram por ter pouco significado, verificando-se, mesmo, a extinção da sua festa, quer por motivos da ruína dos templos e consequente desinteresse das populações, quer por terem sido ultrapassados, no decorrer dos anos, por uma devoção maior a outro santo.

Símbolo da fé do povo e sinónimo de protecção à comunidade paroquial – a delimitar, por vezes, o próprio território que lhe cabe, como guardião das terras e dos seus respectivos habitantes –, o santo padroeiro significa o amparo e o confidente, o protector, aquele que, por sua intercessão junto de Deus, tem a faculdade e a missão de defender e obter para quem a ele recorre, o louva e nele confia, as graças pedidas em oração e voto de promessa – particularmente, nas alturas mais precisas e difíceis da vida de cada um.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI

Ed. Círculo de Leitores

 

Imagem: Santa Justa e Santa Rufina, Murillo (Museu de Belas-Artes de Sevilha). Segundo a lenda, seriam irmãs, mortas no tempo da Roma Imperial. Padroeiras dos oleiros.

publicado por sarrabal às 00:24
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Domingo, 24 de Setembro de 2023

REALIDADE

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Olho em redor mal desperta

O dia acordou mais cedo do que eu.

 
Pela cortina entreaberta da janela
Vejo o céu
Onde as nuvens galopam
Sem dimensão nem tempo.
 
Navego os olhos
Pelo branco das paredes
E paro a imaginar-me
Caracol ou estrela ou do mar
Quando os meus olhos se perdem
Nas imagens
Por detrás dos vidros
Onde alguém pintou esse prodígio.
 
E logo os pensamentos
Num tropel
Invadem o meu espaço
O meu refúgio
Como se fosse um mar em tempestade
A inundar de pranto o areal.
 
Visto-me então da força que resiste
Faço o retorno dos sonhos que são idos
E assim fico sem bússola, sem norte
Sem farol que me oriente os passos
A suster com o coração o temporal.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
publicado por sarrabal às 01:08
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2023

VULTO DE UM PAÍS

SISTELO ALDEIA ARCOS DE VALDEVEZ.jpgSou feito de seivas

De geadas e matos

De aves e manhãs

Pedras e regatos.

 

Sou fruto das flores

Sou a brisa e o vento

Safões dos pastores

Água dos cantis.

 

Sou lume ateado

Seara de espigas

Sou pão amassado

Lágrimas, cantigas.

 

Sou mel e orvalho

Sou sede e calor

Sou do milho o malho

Sou a hora do amor.

 

Sou o povo que reza

Sou o Sol a nascer

Sou enxada que pesa

Sou o trigo a crescer.

 

Sou o pisar da uva

Sou o corpo cansado

Sou o canto da chuva

Sou o estrume e o arado.

………………………………..

Sou barco parado

Sobre ondas de pranto

Sou o sangue que corre

Nas veias do tempo.

 

Sou feito de estrelas

De sal e marés

De limos e algas

Tormenta e convés.

 

Sou sopro de brisa

Saudade, cadência

Vulto de um País.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Reduto”

 

Foto: aldeia de Sistelo (Arcos de Valdevez, Alto Minho)

(Não tem nome de autor)

 

publicado por sarrabal às 02:09
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Sábado, 9 de Setembro de 2023

O CÃO TOTÓ (Para os mais pequenos e também para alguns adultos)

049.JPGCoitado do cão Totó

preso na ponta da trela

cão sem pulga

cão sem osso

sem casota

sem cadela.

 

Coitado do cão Totó

com capa de flanela.

 

Tem coleira cravejada

com pedrinhas multicores

tem caminha de madeira

com lençóis e cobertores

mas não queria tais favores.

 

Lava o pêlo com champô

usa perfume para cão

mas na verdade já vi

que nem sequer sai à rua

para fazer o seu chichi.

 

Não guarda a casa ao dono

porque não é guardador

não lhe guarda o rebanho

porque não é cão pastor

tão-pouco sabe ir à caça

porque não é perdigueiro.

 

E triste desta desgraça

dorme, dorme o dia inteiro!

 

Coitado do cão Totó

quem lhe dera ser rafeiro

ter amigos, companheiros

(rafeiros desses, pràí)

e meninos pra brincar.

 

Andar ao Sol e à chuva

e ser o terror dos gatos

e fazer mil desacatos

comer

dormir

e ladrar

ser o senhor dos seus actos!

 

Bem longe das vitaminas

da cama

dos cobertores

do champô

do sabonete

da coleira de brilhantes

da capa de flanela.

 

Cão sem pulga

cão sem osso

sem casota

sem cadela.

 

Coitado do cão Totó

preso na ponta da trela.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro O cão Totó

Ed. Publicações Europa-América

Ilustração do livro: Luís Faria

 

(A foto está meia desfocada, sem brilho. Não consegui fazer melhor, reproduzindo as cores originais. Algo vai mal com a minha Canon. Precisa de ser vista.)

 

publicado por sarrabal às 01:12
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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2023

CONVERSA DE POMBOS (Para os mais pequenos)

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Olha, lá vem a Pomba-Torcaz! Volta de férias no Norte da Europa. Que sorte! Eu, então, só conheço os arredores deste pombal… – lastima-se a senhora pomba-de-leque.

O senhor pombo-gravatinha dá a sua opinião:

Cá por mim, não me queixo. Acho lindo o nosso povoado! Além disso, não tenho de me ralar sempre a fazer as malas. Uns regressam, outros vão-se embora. É o Outono, e está tudo dito. Partiram as Andorinhas, as Cotovias e os Rouxinóis. Estão de abalada os Cucos, os Melros e os Noitibó. Mas temos de volta os Patos-Bravos, as Rolas e as Narcejas. Calculo, senhora Pomba-de-Leque, as coisas interessantes que trazem para nos contar…

Pois sim. Mas eu também gostava de viajar, de conhecer outros lugares… – responde a pomba, numa confissão.

O pombo-de-papo mete-se na conversa:

Sabe, senhora Pomba, nós não somos aves migratórias. Somos pombos domésticos. Aí tem a diferença. – diz ele, a confortá-la. E acrescenta:

Um destes dias, vou convidá-la a acompanhar-me num passeio à cidade. Verá os jardins onde as flores só brotam da terra graças às mãos dos jardineiros. As pessoas apressadas, que já nem sabem dizer bom-dia. E os prédios altos, mais altos do que as ondas do mar quando se enfurece. Verá também os carros barulhentos que poluem de cinzento a atmosfera. E as ruas estreias, tão estreitas, que o Sol, por mais voltas que dê, não consegue lá entrar. Quando regressarmos, tenho a certeza de que vai achar muito mais bonita a praia, lá em baixo, e os arredores do nosso pombal!

A senhora pomba, olhinhos redondos como missanga, arrulha, num enleio:

É capaz de ter razão…

E aninham-se os três, a senhora pomba-de-leque, o senhor pombo-gravatinha e o senhor pombo-de-papo, fora do pombal, a ouvir o mar, ao longe, para além do sítio onde fica a sua casa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Histórias que o Outono me Contou

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 20:36
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2023

ÌNDIA

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A nativa

Surge das entranhas da terra

No rosto a sentença defronta a multidão

Inventa o último reduto.

 

Símbolo da raça

No porto da sua mão a imagem

Pacientemente construída

Aguarda a transacção.

 

Do tombadilho

A objectiva fixa o momento.

 

E aos guerreiros de penas coloridas

Aos pássaros de fogo agora extinto

Do espaço filantropo das reservas

Promete, com indulgência

Divulgação a bem da casta decadente.

 

Para lá dos olhos, do bocejo

Do sorriso poliglota dos turistas

A invasão progride inultamente.

 

Os vírus penetram os corpos.

 

Nas cidades o extermínio

É feito com eficiência.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Um Piano ao Fim da Tarde

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 19:51
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