Quarta-feira, 30 de Agosto de 2023

DÁDIVA

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Foi como se dois lagos

Inundassem os teus olhos

Num romper de descobertas

A revelar-se sem palavras

Que mal ainda entendes

Mas que o teu coração

Se reservou o direito de sentir.

 

Que transformaste depois em lava

A deslizar pela seda da tua face.

 

Estendi os braços

E apaguei-a com as minhas mãos

Cada vez mais vazias de sorrisos e de afectos

E mais cheias de ausências e cansaços

Num eterno desacerto

Das horas que nos devoram

Desde as águas do primeiro instante

Onde o sonho principia.

 

Onde a ilusão

Num enredo de segredos

É apenas a construção inicial

Do que nunca se dá por concluído.

 

Mistério que nos envolve

Que nos alimenta como seiva

Mas que não nos deixa criar raízes.

 

Antes nos aproxima

Em prazo estabelecido

Do último poema

No verso final.

 

Hoje um anjo ofereceu-me uma flor

O seu olhar

E as suas lágrimas.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Um Piano ao Fim da Tarde

Edições Sarrabal

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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023

CAVALOS DE VÁRIAS CORES

14991914_1152502734837624_9131787987504480282_n.jpCorreram cavalos negros
Rompendo da madrugada
Seus cascos a rasgar medos
Que seus dorsos fustigavam.


Correram cavalos brancos
De patas escavando fundo
Crinas tingidas de sangue
Do mesmo que alaga o mundo.


Correram cavalos verdes
Roxos, cinzentos, azuis
Olhos cegos de tormentas
Mas firmes nas direcções.


Soledade Martinho Costa

Do livro «Reduto»

publicado por sarrabal às 00:20
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Terça-feira, 15 de Agosto de 2023

15 DE AGOSTO - «DORMIÇÃO» DE NOSSA SENHORA

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A morte da Virgem Maria terá ocorrido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita, quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos.

A casa foi chamada a primeira Igreja de Santa Maria do Monte Sião. Hoje, numa parte da área que a basílica ocupou, ergue-se a Igreja da Dormição, consagrada em 1910, que se avista de todos os pontos de Jerusalém.

O sofrimento da Virgem desde a morte de seu Amado Filho, deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua morte (a que se dá o nome de Dormição). Sobre esse acontecimento, escreveram São Bernardo e São Francisco de Sales: «…morte que mesmo os anjos desejariam se fossem capazes de morrer.».

Desde tempos remotíssimos que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégio que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus. «Que a Imaculada Sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrena, foi assumpta em corpo e alma à Glória Celeste». Esta solenidade (Assunção da Virgem Santa Maria) advém de uma liturgia local praticada em Jerusalém, introduzida no século VI na liturgia bizantina e depois em Roma, um século mais tarde.

A Basílica de Santa Maria Maior, também designada por Basílica Liberiana ou Basílica de Nossa Senhora das Neves, uma das maiores basílicas patriarcais dedicadas à Virgem Maria, situada na colina Esquilino (uma das sete colinas de Roma), divide, até hoje, a opinião dos historiadores. Enquanto uns admitem ter sido construída durante a vigência do papa Sisto III, entre 432 e 440, dedicada ao culto de Maria Mãe de Deus, cujo dogma da Divina Maternidade fora declarado no Concílio de Éfeso (431), outros sustentam que a sua fundação remonta ao pontificado do papa Libério (352-366). Sisto III, durante a sua vigência, tê-la-à dedicado, então, à Virgem Maria depois do Concílio. A Basílica de Santa Maria Maior é considerada o mais antigo e importante templo mariano do Ocidente.

A definição dogmática da Assunção Corpórea de Maria ao Céu foi proclamada em 1950.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI

Ed. Círculo de Leitores

 

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Segunda-feira, 14 de Agosto de 2023

MÊS DE AGOSTO - ROMARIAS E ROMEIROS

1175139_514938588594045_1541530446_n.jpgTerminada a grande celebração litúrgica, o povo dá então largas ao seu contentamento, ao seu entusiasmo, à esperança de que as suas preces tenham sido ouvidas. Porque as consciências repousam agora na paz das penitências cumpridas.
Esquecem-se os joelhos sangrados e o peso dos círios. Os risos trepam aos olhos onde a comoção, pouco antes, tinha feito poiso. As almas soltam-se. As conversas são outras. Só é preciso ter fé, e essa tem-na o povo.
Por isso faz as suas procissões. Recama, por sua mão, com pétalas de flores, os caminhos que pisam os seus santos. Faz e cumpre promessas. Invoca Cristo.
Mas sem alegria a devoção não é perfeita. Daí, a necessidade do deslumbramento feérico das luzes a iluminar cansaços de imensa escuridão. Do aconchego das vozes nos ouvidos que poucas falas escutam. Da presença de quem não se conhece e se aceita por companhia e por amigo. Dos aromas, peregrinos de paisagens, nomes e distâncias. Do pão, a lembrar das mãos os gestos que percorrem as searas. Dos foguetes, sem asas para tocar os céus. Dos abraços, da música, da magia, a envolverem o corpo e o espírito num tule de segredos que ninguém descobre.
No mar de gente, como se fora tão-só o mesmo corpo, um único desejo. Quase ingénuo, por tão simples. E tão pouco exigente por tão puro: ver, ouvir, participar – estar presente!
Faz-se a reconciliação com o dia-a-dia. Com as horas que o tempo esgota sem compromisso de regresso. Tréguas tão breves, essas. Contudo, as que são permitidas e possíveis. O mundo não é assim. Muito menos a vida.
Para esquecer rotinas que obrigam ao retorno, há que viver a festa. Respirá-la. Bebê-la. Como se fora um campo de lilases. Uma fonte que socorre a nossa sede. Ainda que a ilusão dure tão pouco. Que a evasão seja tão breve. Irremediavelmente, por um ou poucos dias.

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 19:39
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Sábado, 12 de Agosto de 2023

FALAS DA TERRA

SENHORA DA AGONIA.jpg

Sou emigrante

Venho de França

Trago na mala

Uma lembrança

Coisa bonita

Bem ao meu gosto

Para dar ao santo

Da minha aldeia

Que se venera

No mês de Agosto.

 

À minha espera

Tenho os meus pais

Com a saudade

Escrita no rosto

A minha mana

Os meus sobrinhos

Tios e primos

De quem eu gosto.

 

E dão-me beijos

Muitos abraços

A pôr carinho

Ai, nos meus passos

Dentro de casa

Sinto-me bem

Volto ao regaço

De minha mãe.

 

E torno ao mel

Ao leite morno

Ao pão que coze

Dentro do forno

E sei das festas

Da procissão

Da blusa nova

Feita ao serão.

 

E sei do padre

E dos vizinhos

Do meu compadre

Dos meus padrinhos

Sei dos noivados

E quem nasceu

Dizem-me os nomes

De quem morreu.

 

Sei da semente

Deitada à terra

E mais do fogo

Que houve na serra

E sei do porco

E sei da vaca

Espreito a farinha

Dentro da saca.

 

Louvo a colheita

Da Primavera

Revejo os muros

Cobertos de hera

Jogo ao chinquilho

Com os amigos

Subo às figueiras

Para comer figos.

 

Vejo nas moitas

Coelhos bravos

Vou ao cortiço

Mirar os favos

Junto ao riacho

Espanto as perdizes

Olho pelos campos

Minhas raízes.

 

Da oliveira

Faço uma alfombra

Bebo da bilha

Sentado à sombra

Pego um raminho

De erva-cidreira

Mato saudades

Da minha Beira.

 

Sou emigrante

Venho de França

Trago na mala

Uma lembrança

Coisa bonita

Bem ao meu gosto

Para dar ao santo

Da minha aldeia

Que se venera

No mês de Agosto.

Soledade Martinho Costa

(Musicado pelo Maestro Nóbrega e Sousa)

Do livro Canções Contadas

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 20:35
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Domingo, 6 de Agosto de 2023

«POR TODOS OS SÍTIOS AO MESMO TEMPO»

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EM DESTAQUE

(Excerto da crónica de AFONSO REIS CABRAL publicada esta semana no Expresso sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Leitura a não perder!)

 

« … Segui de mota. De Alcântara ao Rato, e daí para o Marquês, fez-se um contínuo de peregrinos que perde tamanho pela televisão. Nenhum directo tem o alcance dos meus olhos. Aquela rapariga sentou-se na calçada e ri-se numa língua estrangeira. As amigas copiam-lhe a gargalhada. Os franceses usam T-shirts iguais às do Wally, que nunca está onde se pensa. Dezenas de congregações mostram as bandeiras, centenas de países o mesmo – e por todo lado vive-se um regime de excepção e de felicidade que é como um regresso à infância. (...)


« ...A esperança destes peregrinos no futuro, assim visível e despudorada, é invejável pelo que tem de temerário e belo e irredutível. Sem eles, não se faz a mudança que uma instituição como a Igreja tanto precisa. Nem a verdadeira expiação dos males passados.

Talvez por causa da proximidade de culturas, etnias, orientações e vidas diferentes, por tanta exuberância, e por um jeito tão profundamente jovem e alegre de mostrar a fé – de mostrar a vida –, eu, que não sou corporativo e que sempre vivi espiritualmente de pura vontade individual, senti o instinto irresistível de aderir à massa. À falta de melhor, deparei-me com um único rapaz descalço entre os milhares de peregrinos. Descalcei-me também, para sermos uma multidão de dois.

Pelo Parque Eduardo VII, não havia demasiados telemóveis nem as caras se olhavam demasiado ao ecrã. Quase todos os participantes das Jornadas são filhos do digital que parecem ter-se rebelado contra o pai. A alegria juvenil, contagiosa e por esgotar, tem algo de inocente e catolicamente excêntrico, como se os peregrinos fossem crianças a jogar à bola com Cristo. (...)


A juventude instalada, a ideia de que vivemos na cidade e no país o entusiasmo e a esperança (palavras que deviam alimentar), parece-se com este sorriso que dá fôlego. Bem é preciso o fôlego, porque ao lado dos cânticos nunca deixa de haver o silêncio. Hoje, depois de ter visto o Papa Francisco no CCB, visitei não sei porquê a cidade silenciosa da avenida de Ceuta.

Aí não pulsam os peregrinos. Por baixo do viaduto da Quinta do Loureiro, sentam-se figuras sumidas que são pessoas. (...)

Dentro do bairro, quatro, cinco, seis pessoas saem de carros dos anos noventa – seguem desnorteados, mas logo os traficantes lhes dão o norte. Duzentos metros adiante, na subida para Campo de Ourique, quando acho impossível ter fôlego para tanta humanidade ferida, tantas preces por atender (...) encontro na mata uma mulher de vestido comprido, em pé e de pernas afastadas. Alça as saias do vestido às riscas. Um homem agachado à sua frente (…) é só ele a ajudá-la com uma seringa junto às virilhas.

Antes de partir, imaginei que Deus passeia por todos os sítios ao mesmo tempo. Mas por estas ruas – meu Deus – passeia de mãos nos bolsos.»

 

Afonso Reis Cabral 

 

O MEU COMENTÁRIO

 

Acabei de ler a sua crónica. E passeei por Lisboa. Passeei por dentro do nome de Lisboa. A minha cidade. A minha terra (sou lisboeta). A acompanhar-me, tive um jovem escritor já consagrado, de olhos deslumbrados mas atentos, a servir-me de guia no meu passeio. Mostrou-me a luz e a alegria nas ruas, ao lado da tristeza que se oculta nas sombras. O riso e a lágrima. O fervor da Fé nas bandeiras multicores, a esperança a despontar nos rostos juvenis, a cidade invadida por milhares de pombas da paz, a esvoaçar sob o céu da nossa capital. Vi a beleza desta nossa Lisboa e o menos belo que vive a seu lado. Os velhos que tiveram a sorte de assistir ao que nunca tinham visto, e olham em redor, de olhos postos na multidão, mas de coração aberto à oração a Deus, pelos seus e pelo mundo. Ouvi um nome soletrado em todas as bocas. FRANCISCO!

O PAPA FRANCISCO com os «recados» que nos dá ( tão contrários aos proferidos por Papas anteriores) a encarnar, a aproximar-se da figura sagrada de Cristo. Cristo aprová-los-ia. Proferidos num tempo actual, virados para os dias que se vivem hoje e para a maneira de estar e de ser dos nossos jovens. Para a nossa realidade. «Recados» que são uma luz e uma benção. O fausto que o cerca não lhe pertence, nem o exiguiu. O do Vaticano já lá estava. Deus não tenha pressa em retirá-lo de nós.

A si, Afonso, agradeço ter-me servido de guia neste palmilhar por uma Lisboa que fiquei a conhecer melhor, vista pela sua sensibilidade e pelo seu olhar que tudo vê mesmo quando a escuridão é profunda. Beijo.

Soledade Martinho Costa

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Terça-feira, 1 de Agosto de 2023

CANSAÇO

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Quisera

Esquecer meu nome

Quem sou

O que fiz

O que faço

Deixar de escutar

Repetido e sentido

O choro e o grito.

 

O coração não pode

Romper a teia de granito

Que nos tolhe e cerceia

Que nos mata por dentro

Porque é muito o cansaço.

 

Quisera

Fugir da sensação

De pétala caída

Que nem a força do vento

Arrasta mais.

 

Despir o corpo que me veste

Agarrar o sonho pela asa

E regressar a mim

Só alma e não matéria

E transformada em pó

Subir aos céus.

 

Ser apenas memória

Ser apenas saudade

Ser apenas silêncio que enche a casa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edicções Sarrabal

 

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