
Foi como se dois lagos
Inundassem os teus olhos
Num romper de descobertas
A revelar-se sem palavras
Que mal ainda entendes
Mas que o teu coração
Se reservou o direito de sentir.
Que transformaste depois em lava
A deslizar pela seda da tua face.
Estendi os braços
E apaguei-a com as minhas mãos
Cada vez mais vazias de sorrisos e de afectos
E mais cheias de ausências e cansaços
Num eterno desacerto
Das horas que nos devoram
Desde as águas do primeiro instante
Onde o sonho principia.
Onde a ilusão
Num enredo de segredos
É apenas a construção inicial
Do que nunca se dá por concluído.
Mistério que nos envolve
Que nos alimenta como seiva
Mas que não nos deixa criar raízes.
Antes nos aproxima
Em prazo estabelecido
Do último poema
No verso final.
Hoje um anjo ofereceu-me uma flor
O seu olhar
E as suas lágrimas.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Correram cavalos negros
Rompendo da madrugada
Seus cascos a rasgar medos
Que seus dorsos fustigavam.
Correram cavalos brancos
De patas escavando fundo
Crinas tingidas de sangue
Do mesmo que alaga o mundo.
Correram cavalos verdes
Roxos, cinzentos, azuis
Olhos cegos de tormentas
Mas firmes nas direcções.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Reduto»

A morte da Virgem Maria terá ocorrido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita, quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos.
A casa foi chamada a primeira Igreja de Santa Maria do Monte Sião. Hoje, numa parte da área que a basílica ocupou, ergue-se a Igreja da Dormição, consagrada em 1910, que se avista de todos os pontos de Jerusalém.
O sofrimento da Virgem desde a morte de seu Amado Filho, deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua morte (a que se dá o nome de Dormição). Sobre esse acontecimento, escreveram São Bernardo e São Francisco de Sales: «…morte que mesmo os anjos desejariam se fossem capazes de morrer.».
Desde tempos remotíssimos que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégio que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus. «Que a Imaculada Sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrena, foi assumpta em corpo e alma à Glória Celeste». Esta solenidade (Assunção da Virgem Santa Maria) advém de uma liturgia local praticada em Jerusalém, introduzida no século VI na liturgia bizantina e depois em Roma, um século mais tarde.
A Basílica de Santa Maria Maior, também designada por Basílica Liberiana ou Basílica de Nossa Senhora das Neves, uma das maiores basílicas patriarcais dedicadas à Virgem Maria, situada na colina Esquilino (uma das sete colinas de Roma), divide, até hoje, a opinião dos historiadores. Enquanto uns admitem ter sido construída durante a vigência do papa Sisto III, entre 432 e 440, dedicada ao culto de Maria Mãe de Deus, cujo dogma da Divina Maternidade fora declarado no Concílio de Éfeso (431), outros sustentam que a sua fundação remonta ao pontificado do papa Libério (352-366). Sisto III, durante a sua vigência, tê-la-à dedicado, então, à Virgem Maria depois do Concílio. A Basílica de Santa Maria Maior é considerada o mais antigo e importante templo mariano do Ocidente.
A definição dogmática da Assunção Corpórea de Maria ao Céu foi proclamada em 1950.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
Terminada a grande celebração litúrgica, o povo dá então largas ao seu contentamento, ao seu entusiasmo, à esperança de que as suas preces tenham sido ouvidas. Porque as consciências repousam agora na paz das penitências cumpridas.
Esquecem-se os joelhos sangrados e o peso dos círios. Os risos trepam aos olhos onde a comoção, pouco antes, tinha feito poiso. As almas soltam-se. As conversas são outras. Só é preciso ter fé, e essa tem-na o povo.
Por isso faz as suas procissões. Recama, por sua mão, com pétalas de flores, os caminhos que pisam os seus santos. Faz e cumpre promessas. Invoca Cristo.
Mas sem alegria a devoção não é perfeita. Daí, a necessidade do deslumbramento feérico das luzes a iluminar cansaços de imensa escuridão. Do aconchego das vozes nos ouvidos que poucas falas escutam. Da presença de quem não se conhece e se aceita por companhia e por amigo. Dos aromas, peregrinos de paisagens, nomes e distâncias. Do pão, a lembrar das mãos os gestos que percorrem as searas. Dos foguetes, sem asas para tocar os céus. Dos abraços, da música, da magia, a envolverem o corpo e o espírito num tule de segredos que ninguém descobre.
No mar de gente, como se fora tão-só o mesmo corpo, um único desejo. Quase ingénuo, por tão simples. E tão pouco exigente por tão puro: ver, ouvir, participar – estar presente!
Faz-se a reconciliação com o dia-a-dia. Com as horas que o tempo esgota sem compromisso de regresso. Tréguas tão breves, essas. Contudo, as que são permitidas e possíveis. O mundo não é assim. Muito menos a vida.
Para esquecer rotinas que obrigam ao retorno, há que viver a festa. Respirá-la. Bebê-la. Como se fora um campo de lilases. Uma fonte que socorre a nossa sede. Ainda que a ilusão dure tão pouco. Que a evasão seja tão breve. Irremediavelmente, por um ou poucos dias.
Soledade Martinho Costa

Sou emigrante
Venho de França
Trago na mala
Uma lembrança
Coisa bonita
Bem ao meu gosto
Para dar ao santo
Da minha aldeia
Que se venera
No mês de Agosto.
À minha espera
Tenho os meus pais
Com a saudade
Escrita no rosto
A minha mana
Os meus sobrinhos
Tios e primos
De quem eu gosto.
E dão-me beijos
Muitos abraços
A pôr carinho
Ai, nos meus passos
Dentro de casa
Sinto-me bem
Volto ao regaço
De minha mãe.
E torno ao mel
Ao leite morno
Ao pão que coze
Dentro do forno
E sei das festas
Da procissão
Da blusa nova
Feita ao serão.
E sei do padre
E dos vizinhos
Do meu compadre
Dos meus padrinhos
Sei dos noivados
E quem nasceu
Dizem-me os nomes
De quem morreu.
Sei da semente
Deitada à terra
E mais do fogo
Que houve na serra
E sei do porco
E sei da vaca
Espreito a farinha
Dentro da saca.
Louvo a colheita
Da Primavera
Revejo os muros
Cobertos de hera
Jogo ao chinquilho
Com os amigos
Subo às figueiras
Para comer figos.
Vejo nas moitas
Coelhos bravos
Vou ao cortiço
Mirar os favos
Junto ao riacho
Espanto as perdizes
Olho pelos campos
Minhas raízes.
Da oliveira
Faço uma alfombra
Bebo da bilha
Sentado à sombra
Pego um raminho
De erva-cidreira
Mato saudades
Da minha Beira.
Sou emigrante
Venho de França
Trago na mala
Uma lembrança
Coisa bonita
Bem ao meu gosto
Para dar ao santo
Da minha aldeia
Que se venera
No mês de Agosto.
Soledade Martinho Costa
(Musicado pelo Maestro Nóbrega e Sousa)
Do livro Canções Contadas
Edições Sarrabal

EM DESTAQUE
(Excerto da crónica de AFONSO REIS CABRAL publicada esta semana no Expresso sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Leitura a não perder!)
« … Segui de mota. De Alcântara ao Rato, e daí para o Marquês, fez-se um contínuo de peregrinos que perde tamanho pela televisão. Nenhum directo tem o alcance dos meus olhos. Aquela rapariga sentou-se na calçada e ri-se numa língua estrangeira. As amigas copiam-lhe a gargalhada. Os franceses usam T-shirts iguais às do Wally, que nunca está onde se pensa. Dezenas de congregações mostram as bandeiras, centenas de países o mesmo – e por todo lado vive-se um regime de excepção e de felicidade que é como um regresso à infância. (...)
« ...A esperança destes peregrinos no futuro, assim visível e despudorada, é invejável pelo que tem de temerário e belo e irredutível. Sem eles, não se faz a mudança que uma instituição como a Igreja tanto precisa. Nem a verdadeira expiação dos males passados.
Talvez por causa da proximidade de culturas, etnias, orientações e vidas diferentes, por tanta exuberância, e por um jeito tão profundamente jovem e alegre de mostrar a fé – de mostrar a vida –, eu, que não sou corporativo e que sempre vivi espiritualmente de pura vontade individual, senti o instinto irresistível de aderir à massa. À falta de melhor, deparei-me com um único rapaz descalço entre os milhares de peregrinos. Descalcei-me também, para sermos uma multidão de dois.
Pelo Parque Eduardo VII, não havia demasiados telemóveis nem as caras se olhavam demasiado ao ecrã. Quase todos os participantes das Jornadas são filhos do digital que parecem ter-se rebelado contra o pai. A alegria juvenil, contagiosa e por esgotar, tem algo de inocente e catolicamente excêntrico, como se os peregrinos fossem crianças a jogar à bola com Cristo. (...)
A juventude instalada, a ideia de que vivemos na cidade e no país o entusiasmo e a esperança (palavras que deviam alimentar), parece-se com este sorriso que dá fôlego. Bem é preciso o fôlego, porque ao lado dos cânticos nunca deixa de haver o silêncio. Hoje, depois de ter visto o Papa Francisco no CCB, visitei não sei porquê a cidade silenciosa da avenida de Ceuta.
Aí não pulsam os peregrinos. Por baixo do viaduto da Quinta do Loureiro, sentam-se figuras sumidas que são pessoas. (...)
Dentro do bairro, quatro, cinco, seis pessoas saem de carros dos anos noventa – seguem desnorteados, mas logo os traficantes lhes dão o norte. Duzentos metros adiante, na subida para Campo de Ourique, quando acho impossível ter fôlego para tanta humanidade ferida, tantas preces por atender (...) encontro na mata uma mulher de vestido comprido, em pé e de pernas afastadas. Alça as saias do vestido às riscas. Um homem agachado à sua frente (…) é só ele a ajudá-la com uma seringa junto às virilhas.
Antes de partir, imaginei que Deus passeia por todos os sítios ao mesmo tempo. Mas por estas ruas – meu Deus – passeia de mãos nos bolsos.»
Afonso Reis Cabral
O MEU COMENTÁRIO
Acabei de ler a sua crónica. E passeei por Lisboa. Passeei por dentro do nome de Lisboa. A minha cidade. A minha terra (sou lisboeta). A acompanhar-me, tive um jovem escritor já consagrado, de olhos deslumbrados mas atentos, a servir-me de guia no meu passeio. Mostrou-me a luz e a alegria nas ruas, ao lado da tristeza que se oculta nas sombras. O riso e a lágrima. O fervor da Fé nas bandeiras multicores, a esperança a despontar nos rostos juvenis, a cidade invadida por milhares de pombas da paz, a esvoaçar sob o céu da nossa capital. Vi a beleza desta nossa Lisboa e o menos belo que vive a seu lado. Os velhos que tiveram a sorte de assistir ao que nunca tinham visto, e olham em redor, de olhos postos na multidão, mas de coração aberto à oração a Deus, pelos seus e pelo mundo. Ouvi um nome soletrado em todas as bocas. FRANCISCO!
O PAPA FRANCISCO com os «recados» que nos dá ( tão contrários aos proferidos por Papas anteriores) a encarnar, a aproximar-se da figura sagrada de Cristo. Cristo aprová-los-ia. Proferidos num tempo actual, virados para os dias que se vivem hoje e para a maneira de estar e de ser dos nossos jovens. Para a nossa realidade. «Recados» que são uma luz e uma benção. O fausto que o cerca não lhe pertence, nem o exiguiu. O do Vaticano já lá estava. Deus não tenha pressa em retirá-lo de nós.
A si, Afonso, agradeço ter-me servido de guia neste palmilhar por uma Lisboa que fiquei a conhecer melhor, vista pela sua sensibilidade e pelo seu olhar que tudo vê mesmo quando a escuridão é profunda. Beijo.
Soledade Martinho Costa

Quisera
Esquecer meu nome
Quem sou
O que fiz
O que faço
Deixar de escutar
Repetido e sentido
O choro e o grito.
O coração não pode
Romper a teia de granito
Que nos tolhe e cerceia
Que nos mata por dentro
Porque é muito o cansaço.
Quisera
Fugir da sensação
De pétala caída
Que nem a força do vento
Arrasta mais.
Despir o corpo que me veste
Agarrar o sonho pela asa
E regressar a mim
Só alma e não matéria
E transformada em pó
Subir aos céus.
Ser apenas memória
Ser apenas saudade
Ser apenas silêncio que enche a casa.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
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