
De há uns anos para cá, tenho andado a fazer uma espécie de colecção, atenta a alguns anúncios (por vezes vistos em tabuletas afixadas em prédios) ou pequenas notícias lidas em jornais, ou aqui ou ali, ou ouvidas na TV, quase sempre no Telejornal. Delas retenho pormenores que me têm chamado a atenção e despertado o sorriso, perante as partidas que as palavras nos pregam, a originar a ironia e a graça, consoante a forma de lhes descobrir o absurdo, a incongruência ou a coincidência que levam ao humor. Basta um pouco de atenção, para encontrarmos, com facilidade, estes pequenos «tesouros» que as palavras, sabiamente, nos oferecem. Fica um breve resumo:
Nomes e Profissões:
Pedro Pinheiro – assentador de soalhos
Elisa Salpico – empregada a dias
José Bulha – advogado
Carlos Bacalhau – ginecologista
António Faísca – electricista
Pedro Escuto – repórter de guerra (TV)
Alexandre Gallo – elemento da comissão de investigação sobre o nitrofurano nos aviários (TV)
Pena dos Reis – delegado do Ministério Público
José Cura – maestro argentino (colaborou no programa de apoio aos doentes com leucemia)
Vítor Manuel Alho Gonçalves – merceeiro
António Poço – agricultor (entrou no recente debate sobre a seca em Portugal emitido pela TVI )
Pequenas Notícias:
Em Matos, Cheirinhos, os habitantes queixam-se de maus cheiros devido a uma empresa de transformação de lixos (Telejornal).
Um médico, durante a consulta, deu uma bofetada a um menino de cinco anos que lhe chamou «totó». A criança chama-se Nuno Ladino. (Telejornal)
Na noite de ontem registaram-se facadas e desordem na Rua do Crime, em Faro (Telejornal).
A acidentada, Custódia Perfeita, era surda (Telejornal).
Caiu uma placa na Rua da Firmeza (Telejornal).
Nos Açores, houve uma inundação na Rua da Ribeira (Telejornal).
Durão Barroso recebe o grande Cancelário da Confraria do Vinho do Porto (2008). A esposa, Margarida Sousa Uva, ligada a uma família de produtores de vinho, acompanhou-o durante a cerimónia. Margarida Sousa Uva faleceu em 2016 (Telejornal)
Em Mesão Frio, por motivo das baixas temperaturas, muitos automobilistas ficaram retidos na estrada devido ao gelo (Telejornal).
Merece um sorriso, não?
Soledade Martinho Costa

Como testemunho de reconhecimento por tudo quanto a terra produziu e prece de benefício para as colheitas do novo ano, a bênção dos campos tinha lugar, principalmente, nos três dias anteriores à Quinta-Feira de Ascensão, formando-se cortejos que percorriam, nesses três dias, diversos lugares para proceder ao remoto ritual.
Actualmente, já assim não é. Embora se mantenha o preceito de a bênção ser feita no tempo das colheitas da Primavera ou no fim do Verão. Daí merecer a pena referir (por fugir ao que é usual nestas ocasiões) a bênção dos campos efectuada em 1996, na aldeia beirã de Manhouce (Vizeu), quando ali chegou a imagem peregrina de Nossa Senhora da Conceição.
Era a altura das colheitas do Verão e alguém se lembrou de ofertar à Senhora produtos da própria terra, em troca da sua bênção. Assim, cada casa, cada janela, cada porta, cada rua, com eles se enfeitou da maneira mais original, artística e festiva. Utilizaram-se sacas de feijão, de batata, de grão, abóboras, maçarocas, azeitonas, peras, maçãs, castanhas, figos, etc, etc.
Viam-se portões ornamentados com cachos de uva. Cestos vindimos cheios de milho-branco, outros de milho vermelho. Ninguém esqueceu uma diversidade de utensílios agrícolas, expostos em lugar de detaque: alfaias, grades, enxadas, arados. Mesmo os carros de bois. Viam-se cestas, canastras, mantas típicas estendidas no chão, com uma diversidade de produtos em cima – tudo o que a terra dá. Nem sequer faltaram as broas de milho nem as pequeninas «bolas» feitas com massa de pão, os «michos».
As soleiras das portas e diversos lugares visíveis apresentavam desenhos imaginativos feitos com feijão, pevides e demais sementes. Outros, em carreirinhas singelas, alguns alternando apenas na cor e nos elementos usados. Outros, ainda, em arabescos mais rebuscados e criativos, a mostrar a arte que sabem ter as mãos calejadas.
E flores, muitas flores, a fazerem efeitos e legendas nas portas: «Senhora da Conceição»; «Nossa Senhora»; «Bendita Sejas». Até as palavras «Ave-Maria» apareceram «bordadas» no chão com espigas de trigo. Era a festa. A grande festa rural. Feita da riqueza de quem trabalha a terra. E a quem a terra tanto dá, quando a sabem amar e tratar bem.
Nossa Senhora da Conceição decerto viu, apreciou e atendeu o pedido das gentes de Manhouce, abençoando, em troca, os campos de quem foi capaz de lhe mostrar o seu reconhecimento, a sua fé e a beleza das coisas simples.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. IV
Ed. Círculo dos Leitores
O povo chama-lhe Senhora do Circo, mas o seu nome é Senhora do Círculo, derivando o nome da santa, supostamente, do muro circular de pedra que rodeia o santuário, com uma bancada corrida no sopé. As chaves da capela, situada na serra do Sicó, encontram-se na posse alternada de três aldeias próximas: Furadouro, Casmilo e Vale de Janes.
Junto à ermida, ao que se julga datada do século XII ou XIV (hoje descaracterizada, visto os anexos e o alpendre terem sido modernizados), pode observar-se um pequeno púlpito, em pedra, de forma cilíndrica, ao que se julga, eregido aquando da construção deste lugar de culto.
Lá do alto, avistam-se as serras do Buçaco e do Caramulo e a própria serra da Estrela, em dias de Sol, mostra as suas povoações mais elevadas. O olhar leva-nos ainda a distinguir toda a costa, desde Ovar a Peniche, à Figueira da Foz e aos campos do Mondego.
A seus pés, vertentes, socalcos, montes e encostas vestidos de tojo, de flores silvestres, de pedras cinzentas e milenárias. Depois, como um tapete, desde a base da serra e ao redor das aldeias, o vale fértil, a terra lavrada, amanhada, de semeio (batata, tremoço, aveia, cevada, trigo), tratada pelas mãos das gentes que olham cá de baixo o alto da serra e pedem à Senhora que as colheitas sejam fartas, que a chuva venha a tempo, ou cesse, quando desnecessária.
Ainda hoje, mais raramente, quando a seca se faz sentir, o povo dirige-se para a Senhora do Círculo, subindo em procissão até ao cume a entoar ladainhas de rogação, para implorar à senhora a chuva que tarda. Nessas ocasiões, não raras vezes, como dizem, «a chuva bendita acaba por vir brindar a penitência, a devoção e o pedido, antes mesmo do cortejo iniciar a descida da serra».
A imagem gótica da Virgem, que segura o Menino com o braço esquerdo e espalma a mão direita levantada em gesto de bênção, tem duas romarias anuais: uma no domingo seguinte ao domingo de Pascoela, a outra no Dia de Ascensão. Supõe-se, todavia, que mesmo antes da feitura da imagem, aquele lugar fosse já local de culto dos habitantes pré-romanos e romanos de Conímbriga e de outras povoações.
Ali acorriam, em tempos mais recuados, romeiros de todos os lugares de Coimbra, chegando alguns a pernoitar junto à capela. Mesmo os pescadores de Buarcos (Figueira da Foz), que do mar avistam a capelinha da santa, vinham em cumprimento de promessas.
Em dias de romaria, dirigiam-se à capela diversas procissões idas das aldeias de Redinha, Tapeus, Ega, Anços, Condeixas, Zambujal, Arrifana, Poço, Vale de Janes, Casmilo e Furadouro. Em 1721, consta que a elas se juntou a procissão da aldeia do Sebal, na intenção de pedir à Senhora do Círculo que livrasse as suas terras do «pulgão e da lagarta da vinha». E, conforme diz o povo desse lugar, «foi tão milagrosa a resposta que, daí em diante, sempre que necessitavam de ajuda, recorriam à santa, sendo certo que, no regresso, as terras estavam limpas de pragas».
No interior da ermida (segundo informação paroquial registada no ano de 1721) terá existido uma pia baptismal. As mulheres que esperavam filhos prometiam então à santa ir ali baptizá-los, «para que a Virgem fosse a sua protectora», implorando-lhe ainda «uma boa hora».
Por motivo dessa crença, a romaria efectuada depois da Pascoela, era conhecida outrora por Festa dos Meninos, facto que continua a fazer com que as famílias mantenham a tradição de levar consigo as crianças.
Actualmente, os romeiros já não fazem a íngreme subida da serra a pé, por carreiros e atalhos, como se fez até meados de 1975, levando as mulheres cestos à cabeça, para vender «os bolos da festa», ou água em cântaros de barro, «vendida ao pucarinho àqueles que tinham sede». Agora, o percurso é feito de carro e as tendas armadas ao redor da capela oferecem um pouco de tudo – embora a maioria dos romeiros não dispense a merenda levada de casa.
O que ficou do passado são as «rosas cucas», silvestres, que se vendem ainda hoje em raminhos «benfazejos» a quem vai à romaria. Noutros tempos, não havia quem as não trouxesse, juntamente com uma estampa da senhora, presa no chapéu (os rapazes) ou ao peito (as raparigas).
Pelas aldeias que levam à ermida, os caminhos vestem-se, igualmente, de oliveiras, nogueiras, vinhas, milheirais, papoilas, malmequeres e espigas de trigo – a lembrar os moinhos (já poucos) que por aqueles lados insistem em moer o grão, cuja farinha as mãos experientes das mulheres transformam no saboroso pão que continua a ser cozido ali nos velhos fornos de lenha, particulares ou comunitários.
A romaria que se realiza após a Pascoela, além do cumprimento de promessas, comporta missa campal, seguida de procissão ao redor da capela – antigamente três voltas, agora uma só –, onde se fazem representar os estandartes das aldeias presentes. No final da tarde é rezado o terço em conjunto, a anunciar o termo da romagem.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. IV
Ed. Círculo de Leitores

É hoje o dia dos teus anos
Debruço-me em teus braços
Dou-te um beijo
E nem calculas
Como sinto em mim desejo
De fazer-te esquecer
Os desenganos.
Mal desperto ainda do teu sono
Rabujas que há já rugas no teu rosto.
Deixá-lo
Porque sabes bem que gosto
Quando depois do Verão
Chega o Outono.
E vê
Repara bem na luz do dia
A envolver-nos assim
Nesta magia
A atravessar os vidros da janela.
Mais logo
Só terás no seu lugar
O declinar da tarde
E o luar
Quando o manto da noite
Entrar por ela.
Soledade Martinho Costa
Do livro Reduto

(Excertos do texto entregue ao PR em 18/4/2023)
«(...)
Dirigimo-nos a Vossa Excelência apelando à Sua intervenção no sentido da defesa da Língua Portuguesa, tal como esta nos surge definida no n.º 3, do artigo 11.º da Constituição da República Portuguesa.
(...)
Apelamos a Vossa Excelência que defenda activa e intransigentemente uma Língua que conta 800 anos de História.
(…)
Apelamos, em suma, a Vossa Excelência, que seja reconhecido e revertido o gravíssimo erro cometido e por via do qual o Estado Português adoptou o Acordo Ortográfico, anulando-o, e restituindo a Portugal e aos Portugueses a sua Língua.(...)»
(Em anexo foi entregue lista de aderentes. Serão entregues mais listas, conforme forem chegando mais opositores. Para aderir, basta enviar nome e profissão para o seguinte e-mail: (isabelferreira@net.sapo.pt)
Apenas solicito que deixem nome na minha caixa dos comentários.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Discordo e não aceito o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Soledade Martinho Costa
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CADA LÍNGUA A SEU FALANTE – CADA LÍNGUA AMADA A SEU AMANTE
(Os APELOS também se fazem com poesia.)
Nomes que nos vêm do passado
Pelo teor da escrita consagrados
A dar o nome a ruas e jardins
Juntai a nós o vosso espanto
Lá dos confins imaginados
A unir à nossa voz o vosso pranto.
Palavras como herança recebida
Identidade, Povo, Pátria, talvez destino
E a vontade de escrevê-las
Uma a uma, linha a linha
Sobre a folha de papel em branco
Na esperança de travar o desatino.
A Língua Portuguesa
Em resistência
Em corpo inteiro
Escrita no seu todo inicial
Com sensatez e brio
Sem que lhe roubem
Beleza, coerência. Dignidade.
Palavras nossas, amigas e amadas
Aprendidas, repetidas, depuradas
Defendidas de supressões organizadas
Protegidas no direito que lhe assiste
Na consciência que se impõe e que resiste
E no respeito que nos dita a Liberdade.
Soledade Martinho Costa
(10/5/2023)


«MARAFONA»
Nas festas anuais de Monsanto (Idanha-a-Nova), realizadas no primeiro domingo a seguir ao dia 3 de Maio, as «maias» chamadas ali também «marafonas» (bonecas), representam um símbolo local e elemento fundamental da festa. Confeccionadas em pano por mãos femininas, expressamente para esta romaria, não possuem rosto desenhado, mas antes uma almofadinha branca que lhes serve de cara. Vestem vestidinho rodado, um pequenino lenço na cabeça e laço de seda atado à cintura. As raparigas, ao voltarem da romaria, têm por antiquíssima tradição colocar as «marafonas» sobre as camas, para «proteger as casas dos raios quando faz trovoada».
No entanto, a Festa de Santa Cruz ou do Castelo, tem por finalidade principal lembrar a vitória dos habitantes de Monsanto, face a um cerco lendário que terá durado sete anos, conforme reza a tradição. Só não se chegou ainda à conclusão se o célebre cerco ao castelo terá sido efectuado pelos Romanos, pelos Mouros ou pelos Castelhanos – conquanto, se aponte para os primeiros (chefiados pelo cônsul Paulo Emílio). Mas outras suposições continuam a estar por detrás do evento, como, por exemplo, as próprias festas de Roma, efectuadas nos primeiros dias de Maio.
O que a lenda nos conta é que, sitiado o castelo, difícil seria aos sitiantes chegar à sua posse, devido à impossibilidade de escalar os muros da fortaleza, erguida sobre as brenhas pedregosas do monte. Daí, o inimigo pensar em vencê-los pela fome. E não andavam longe da verdade. Dentro do castelo os mantimentos escasseavam assustadoramente, até ficarem reduzidos a um alqueire de trigo e a uma única bezerra.
Eis, então, que uma velha monsantina se lembrou, com sabedoria e esperteza, de darem à vitela todo o trigo que possuíam e deitá-la depois pelas muralhas abaixo, a simular a fartura que, na realidade, não existia. Os sitiantes, ao verem a bezerra despenhar-se sobre as rochas a mostrar nas entranhas o trigo ingerido, acreditaram que bem providos de alimentos estariam decerto os portugueses, para daquele modo os desperdiçarem e, enganados pelo estratagema, levantaram o cerco e abandonaram a região.
Este episódio teve lugar no dia 3 de Maio de um ano incerto. Ao que se diz, desde essa data e até hoje começou a celebrar-se a festa.
Os potes floridos, lançados pelas mulheres do alto das muralhas, simbolizam a bezerra, enquanto as flores, o trigo comido pelo animal. As «marafonas» ou «maias» representam, por sua vez, no dizer de uns, a idosa mulher que tão sábio conselho soube dar, embora, na opinião de outros, recordam as próprias mosantinas, a festejar, em alegre arraial, a retirada dos sitiantes
Pelas vertentes da serrania e socalcos ao redor do castelo, pastam as cabras, alheias à história, às lendas, à festa.
É Monsanto (igual a Mundo Santo ou a Monte Santo), a lembrar, quem sabe, o monte Olimpo (a morada dos deuses), onde reinou, a deusa ou ninfa Maia, protectora das trovoadas, que as «marafonas» propiciatórias, à sua semelhança, arrastam para longe, a «livrar do raio», após terem dormido o sono da tradição na cama das raparigas.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas Vol. IV
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