Quinta-feira, 30 de Março de 2023

VERSOS DIVERSOS - JOANA E A TARTARUGA (para os mais pequenos)

232444498_380342590129883_3094235960465220093_n.jp

Dona Tartaruga

Seja boazinha

Estique a cabecinha

Lá da carapaça

E diga a quem passa:

Quantos anos tem?

É que ouvi dizer

Que tem mais de cem!

 

Quer saber quem sou?

Eu sou a Joana

E tenho um irmão

Sou muito pequena

Só tenho seis anos

Mas já sei fazer

Bolas de sabão!

 

Se ando na escola?

Claro que sim

Sei a tabuada

Melhor que ninguém!

 

Agora responda

Seja boazinha

Estique a cabecinha

Lá da carapaça

E diga a quem passa:

Quantos anos tem?

 

Porque é que pergunto?

Pois bem

Para saber

É que há muita coisa

Que eu ainda não sei

Que eu ainda não sei

Mas hei-de aprender!

 

Se gosto de bichos?

Não hei-de gostar?

Tenho um Periquito

um Grilo-Grilão

um Galo da Índia

Três Pombos Correios

Um Gato e um Cão!

 

Mas vamos

Responda

Não seja mazinha

Nem faça pirraça

Estique a cabecinha

Lá da carapaça

E diga à Joana:

Quantos anos tem?

 

É mesmo verdade

Que tem mais de cem?

 

Soledade Martinho Costa

Do livro Um-Dó-Li-Tá

Ed. Figueirinhas

 

Ilustração ©Courtney Brim

publicado por sarrabal às 00:50
link | comentar | favorito
Terça-feira, 28 de Março de 2023

FRONTEIRA

Mariana.jpgEsta amargura

Que me enlaça

Rotineira

Esta renúncia

Companheira

Deste agravo antigo

Que mordeu

E se prendeu na carne

Em ferida aberta.

 

Este cansaço

Que paira e vem de manso

Acolher-se no sangue

Do meu corpo

Este negar de amor

Que se repete

A esbracejar rebelde

No meu peito.

 

Esta fronteira

Na frente dos meus braços

É a pergunta

Que escondo e se liberta

A rir, na lágrima

Que tomba em minhas faces.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Reduto

Imagem: quadro de António Pimentel, da série «Mariana Alcoforado»

publicado por sarrabal às 01:06
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 27 de Março de 2023

VAMOS VER SE A MODA NÃO PEGA POR CÁ!

 

este (2).jpg

500x.jpg

Em Inglaterra (Devon), os livros da escritora mundialmente conhecida Enid Blyton (mais de 700 títulos publicados), destinados ao público leitor infantil e juvenil, foram retirados das livrarias e armazenados em local onde não possam ser vistos pelos leitores. Pertencem às famosas colecções de mistério e aventura dos Cinco e dos Sete, incluindo os livros que fazem parte da série do famoso Noddy, tão adorado pelas crianças. 

As causas apontadas, por absurdas, reportam-se à «linguagem desactualizada, que pode ser ofensiva para os leitores». Nas prateleiras estão apenas disponíveis livros que já foram corrigidos e reeditados recentemente, «de onde foram removidos termos ofensivos». Esta medida, revela em documento, «que os títulos apresentam uma linguagem cada vez mais desactualizada». Segundo os promotores, o facto tem levado as bibliotecas a comprar reediçoes «novas e actualizadas». De qualquer forma, parte da opinião pública é de opinião «que a decisão se apresenta de relevância duvidosa». Muitas são as alterações às «palavras e expressões» utilizadas pela autora, sendo o ilógico objectivo actual, em relação às obras, «o de torná-las intemporais». Ficam dois exemplos das «correcções», que os responsáveis afirmam «serem feitas de maneira sensível e cuidada, com a narrativa a manter-se intacta e sem nada ser alterado». No que respeita a personagens femininas: (alusivas a tarefas domésticas para as meninas) rotuladas agora de «noções sexistas» foram substituídas por «uma lição de igualdade de géneros». Em referência à cor da pele de uma personagem (descrição de um menino pescador de rosto moreno», lê-se agora «um menino pescador bronzeado». A palavra «castanho», entre outras, é uma das que deixou de figurar nos livros de Enid Blyton.

Ao fim de 30 anos, e com o sucesso que a sua obra alcançou pelo mundo inteiro, é que se lhe reconhece «uma escrita com falta de mérito literário, racista, sexista e homofóbica»! Por esse motivo, em 2019, a entidade que produz moedas no Reino Unido, recusou lançar uma moeda comemorativa com a face da escritora.

Enid Blyton começou a escrever em 1939 até à sua morte em 1968, com 71 anos.

 

«MODERNA VERSÃO DE VALORES»

 

Esperemos que, por cá, não vingue esta moda, que, aparentemente (e subtilmente), parece vir em proveito das crianças e dos jovens. Por estes lados, vamos tendo o «Acordo Ortográfico». Ignoro qual o convénio feito entre a escritora e os editores no que respeita a direitos autorais. Se vendeu o trabalho, nada feito. Se não o fez, pela contagem dos anos, a obra ainda não é pública (e nem assim seria possível). Estará, decerto, nas mãos dos seus herdeiros. Apenas com a sua concordância este abuso poderá ser feito. Os tempos mudam, as sociedades também. Mudam os hábitos, mudam os costumes. Só não me recordo de alguma vez terem mudado os livros: o conteúdo, a forma, a escrita! No seu todo, e para sempre, um livro manter-se-á inalterável. Por outro lado, os meus filhos leram os Cinco, leram os Sete, leram o Noddy e nada aconteceu que os molestasse, ou que os levasse a ser racistas, sexistas ou homofóbicos. Eu própria os li com eles, porque me divertiam, como a eles os divertia. E continuo igual. O que está a passar-se com a obra de Enid Blyton, para mim, é inadmissível, é um escândalo. Falsos, feios, sujos moralismos! Então, e se estas «prioridades literárias», com o objectivo de «protegerem» as crianças leitoras, em vez de deturpar os livros de Blyton, fossem em favor das crianças vítimas das guerras? Das crianças vítimas da fome, das doenças, sem tecto, orfãs, porque soterrados nos destroços dos seus países de origem ficaram os corpos dos seus pais?! Mundo ignóbil, falso e hipócrita.

 

Soledade Martinho Costa.

 

publicado por sarrabal às 16:19
link | comentar | ver comentários (3) | favorito (1)
Sábado, 25 de Março de 2023

HISTORINHA - A CEREJEIRA (para os mais pequenos 8/10 anos)

41884509_1878269272260963_2760339296039731200_n.jpA cerejeira de que vos vou falar nasceu numa quinta onde havia diversas árvores de fruto: macieiras, laranjeiras, pessegueiros, pereiras e outras. Era uma árvore muito jovem que dava frutos pela primeira vez. Por isso, estava coberta de flores, o que a deixava muito orgulhosa.

«Como serão as minhas cerejas? – pensava ela. – Serão grandes? Serão doces? Serão muito vermelhas? Quem as irá colher? Quem as irá provar?».

Com estes pensamentos, ficava a abanar a rama docemente, como a embalar a promessa da chegada dos frutos por ela tão ansiosamente esperados.

Que linda estás, assim, toda florida! - disse-lhe, certa manhã, um pardal que viera pousar num dos seus ramos.

Ah, amigo Pardal, estou tão feliz. Imagina que vou dar frutos pela primeira vez!

Nesse caso, parabéns! – exclamou, afectuosamente, a pequena ave.

Só desejo que os meus frutos sejam muito, muito vermelhos! – suspirou, esperançada, a jovem cerejeira.

O pardal pôs a cabecinha à banda, admirou os ramos de folhinhas verdes salpicadas de flores, e disse, sincero, a fazer-se convidar:

Se não te importas, virei visitar-te daqui a mais uns tempos. Sabes que nós, os pardais, gostamos muito de cerejas…

Com certeza. Em breve estarei carregadinha de frutos e poderás comê-los à tua vontade! – ofereceu a cerejeira com igual sinceridade.

A imaginar futuros almoços postos, gentilmente, à sua disposição, o pardal saltitou de um para o outro ramo.

Já alguém te disse que lá muito longe, no Japão, fazem todos os anos uma grande festa a que dão o nome de Festa das Cerejeiras? – perguntou ele, que era uma ave culta e gostava de conversar.

Apanhada de surpresa, pois longe estava de supor que num país distante as cerejeiras fossem tão apreciadas, a jovem árvore mostrou-se interessadíssima com a novidade.

Não, nunca ouvi falar. Mas conta, conta! Quando fazem essa festa?

Quando as cerejeiras estão cobertas de flores, como tu agora. – informou o pardal.

Já lá estiveste? – perguntou a cerejeira.

Não. Quem me contou foi uma andorinha minha amiga, muito viajada, e que sabe muitas coisas passadas no mundo dos homens. – explicou o pardal.

Nesta altura, houve um momento de silêncio que ambos aproveitaram: a cerejeira para balouçar os ramos floridos ao sabor do vento; o pardal para esticar as asinhas num jeito de abraço.

E que mais sabes acerca de cerejeiras? – quis saber a árvore.

Sei que as meninas gostam de pendurar as cerejas nas orelhas, a fingirem de brincos…

E que mais?

Que as cerejas servem para fazer doces, geleias e compotas…

Sim?

Que da madeira de cerejeira se fazem delicados trabalhos de marcenaria…

Sabes muitas coisas, amigo Pardal! – elogiou a cerejeira perante tão vastos conhecimentos.

O pardal, com ar modesto, agradeceu.

Bom, mas agora vou andando. Tenho um encontro marcado, ali, na Figueira Grande, com um grupo de pardais meus amigos. Mas eu volto. E não só pelas tuas cerejas. Volto para saber de ti, porque sou teu amigo! – afirmou antes de levantar voo.

Quando ficou sozinha, a cerejeira pensou de si para si:

«Que bom ter um novo amigo. Quem dera que volte depressa!»

Tempo depois, por entre a sua folhagem, começaram a surgir os primeiros frutos. Mas a cerejeira não se mostrou feliz. Pelo contrário! Ao verificar que as cerejas não ofereciam a cor vermelha que tanto desejava, sentiu-se imensamente triste.

«Que pouca sorte a minha. – lamentava-se ela. – Que frutos tão sem graça os meus, assim, sem cor…Nem o meu amigo Pardal os vai cobiçar por mais fome que tenha!».

O Sol, lá em cima, ia ouvindo os seus queixumes.

«Tem ainda muito que aprender.» - pensava ele.

Até que um dia, o Sol, condoído com o desgosto da cerejeira, aqueceu os seus raios o mais que pôde, enviou-os para a Terra, e com eles envolveu dias e dias a fio a polpa das cerejas.

Ao reparar que os seus frutos a pouco e pouco mudavam de cor, a cerejeira encheu-se de alegria. As cerejas, finalmente amadurecidas e muito vermelhas pela acção do Sol, pendiam agora ao longo dos seus ramos, em graciosos cachos, como se fossem meninos a dar a mão.

Cá estou eu de novo. Mas hoje venho para almoçar! – ouviu a cerejeira certa vez.

Olá, amigo Pardal, sê bem-vindo! – saudou ela muito feliz. – Podes comer à-vontade. O prometido, é devido!

O pardalito debicou um dos frutos.

Hum…Como são boas. Nunca provei cerejas tão docinhas e vermelhas como as tuas!

Ao escutar estas palavras a cerejeira estremeceu todos os seus ramos numa grande satisfação.

Foi nesta altura que o Sol, lá em cima, piscou um dos seus raios para a Terra com um ar muito maroto!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Seis Histórias numa História de Todas as Cores”

Ed. CEBI (Fundação José Álvaro Vidal)

 

Ilustração: pintor António Pimentel

 

(História do lápis vermelho)

publicado por sarrabal às 01:17
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 23 de Março de 2023

O MEU POEMA «CASAS DE LISBOA» NO NOVO DISCO DE JORGE GOES

lx0106dq.jpg

Este meu poema faz parte do recente disco de Jorge Goes, intitulado «Essências», a ser apresentado muito em breve. Quase toda a música do álbum é da autoria do próprio Jorge Goes, incluindo a do meu poema. A gravação foi efectuada no estúdio Cruzeiro, de José Cid, numa co-produção de Jorge Goes e Zé Cid. Estou bem acompanhada, com letras e músicas de nomes bem conhecidos: a começar por Zé Cid; Manuel Alegre; Mário Rainho; Mário Mata; Tozé Brito e Vitorino.

 

CASAS DE LISBOA

 

Casas de Lisboa

Viradas ao Tejo

Vestidas de Sol

Com cortinas de renda.

 

Casas de Lisboa

Viradas ao Tejo

Que lhes conta segredos

De reis e de infantes

De audácias distantes

De naus e degredos.

 

Casas de Lisboa

Varandas amigas

De pardais e pombos

Com gente que fala

No jeito que temos

A Língua que somos.

 

Com gente que embala

Os sonhos esquecidos

Os sonhos perdidos

Na dança das ondas.

 

São pedras

Postigos

E portas fechadas

Janelas

Telhados

E degraus de escadas.

 

São muros

Mirantes

Jardins e calçadas

E tantos amantes

De vidas passadas.

 

Largos e igrejas

A lembrar fogueiras

Lendas verdadeiras

De um País amado

De um País saudade

De faces trigueiras.

 

E o que o Tejo diz

E o mais que lhes diga

Escuta-se no vento

Como em voz amiga.

 

Palavras que trazem

Alma marinheira

E a cor da cidade

No Cais da Ribeira.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Um Piano ao Fim da Tarde

Edicões Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 22:10
link | comentar | favorito (1)
Quarta-feira, 22 de Março de 2023

CELEBRAÇÕES DA QUARESMA - PROCISSÃO DOS HOMENS E PROCISSÃO DOS NUS NO LADOEIRO

 

IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÂO DO

Perde-se nos tempos esta tradição litúrgica efectuada na aldeia do Ladoeiro (Idanha-a-Nova), embora se admita a hipótese de remontar ao ano de 1581, data da fundação da Misericórdia local.

O ritual religioso tem início na primeira sexta-feira da Quaresma, prolongando-se pelas seguintes, à excepção da sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos. Pelas vinte e uma horas (outrora à meia-noite), os irmãos da Misericórdia, velhos e novos, dirigem-se à Capela da Misericórdia, onde vão buscar a Cruz de Cristo. Dali, partem em cortejo, acompanhados pelo pároco, cada um levando na mão uma vela acesa – símbolo da Luz de Cristo.

Percorrem assim as ruas principais do lugar, encaminhando-se depois para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Espectação, ao encontro dos irmãos da Confraria do Santíssimo Sacramento. O regresso à capela é feito em conjunto: os irmãos da Confraria à frente, os da Irmandade da Misericórdia seguindo atrás, vestidos com opas vermelhas.

Desde a saída e até o regresso ao ponto de partida (Capela da Misericórdia), são rezados cinco «Mistérios», alusivos a outros tantos episódios da Paixão de Cristo. O padre caminha atrás da Cruz, e do seu lado direito segue o provedor da Misericórdia. Tanto o tesoureiro como o secretário levam na mão uma vara. Os rapazinhos acompanham os pais, alguns vestindo também opas vermelhas.

A procissão demora cerca de uma hora a percorrer a aldeia, sendo o itinerário em forma de círculo. E faça frio ou a noite seja de chuva, o cerimonial, por tradição, nunca deixa de cumprir-se.

As mulheres, a quem era, em anos recuados, proibido em absoluto participar na cerimónia, acompanham hoje, embora a certa distância, o ritual religioso, enquanto outras preferem, como em tempos idos, ficar em casa, à porta ou à janela, com uma vela acesa na mão.

PROCISSÃO DOS NUS                                                                  

Ainda no Ladoeiro, tinha lugar outrora, a «Procissão dos Nus», que se efectuou pela última vez em 1900. Porque muitos vão os anos em que deixou de efectuar-se, porque, actualmente, seria impensável uma tal celebração, recordo-a hoje aqui, para que possamos aquilatar o quanto as sociedades, incluindo a rural, evoluiram e se adaptaram a novos padrões e conceitos que, por esses tempos, eram considerados normais, aceites e practicados pelo povo.

A procissão ocorria, principalmente, na Quaresma, ou quando era necessário pedir a ajuda divina perante calamidades: secas, chuvas, pragas ou, simplesmente, para solicitar benesses para as terras de cultivo.

Os pais das crianças (só os homens) juntavam então os filhos com idades compreendidas entre os dois e os sete anos, meninos e meninas, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Espectação, despiam-nos e percorriam com eles, em procissão nocturna, as ruas da aldeia. O choro começava no interior da igreja, após ter sido retirada a roupa às crianças. Choro que aumentava ao saírem para a rua. Causas óbvias: o inesperado da situação, o frio, a vergonha e o medo.

Pelas ruas, o choro das crianças impressionava, aflitivamente, quem o ouvia. Os pais, esses, acreditavam ser essa a forma de Deus os atender. Daí, oferecerem-Lhe o sacrifício dos filhos. Várias razões os obrigavam a fazê-lo: a pobreza, a sobrevivência, a ingenuidade, a ignorância. E se Deus no seu infinito amor às crianças atendia o pedido dos pais, era por saber que os homens, afinal, O conheciam tão pouco, ao exigirem tamanha penitência dos filhos.

 

Soledade Martinho Costa

    

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.III

Ed. Círculo de Leitores

Foto: Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação

publicado por sarrabal às 01:23
link | comentar | favorito
Terça-feira, 21 de Março de 2023

21 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DA ÁRVORE E DA FLORESTA

276157656_4936381476449712_1363667502000394899_n.j

AS ÁRVORES MORREM DE NOITE (sempre lembrados)

 

Era uma vez uma terra do concelho de Vila Franca de Xira chamada Alverca do Ribatejo. Hoje uma cidade, mas na época em que tudo aconteceu, não passava de uma pequena vila. Nessa terra existia uma longa estrada. A seu lado, corria o canto transparente do rio Crós-Cós. Quer a estrada quer o rio, ladeados de choupos, que moravam ali há muitos, muitos anos. Tantos, que as pessoas da vila, geração após geração, se foram habituando à sua presença e à sua voz. Como se os choupos fizessem parte da família. Se eram muitos? Sim eram muitos. As três fieiras somavam umas boas dezenas: duas ladeavam a estrada, uma delas rés ao rio, a outra, a terceira, ladeava o rio do outro lado das terras de cultivo.

Quando as pessoas passavam por essa estrada, punham-se à conversa com eles. Os choupos, por sua vez, contavam-lhes então a sua alegria por estarem ali, a cobrir de sombra e rumorejo a poeira da estrada. Depois, as pessoas seguiam, às suas vidas, os choupos acenavam os ramos num gesto de despedida e marcavam um novo encontro para outro dia.

No Outono as folhas dos choupos tomavam a cor do oiro e deixavam-se cair, num embalo, sobre a terra. Nessa altura, ofereciam às pessoas da vila um tapete estaladiço e fofo ao longo da estrada. Os ramos, esses, mal espreitava o Inverno, nus, erguidos ao céu numa prece, pareciam tiritar de frio, a pedir o regresso dos seus vestidos verdes. E contavam às pessoas a impaciência da sua longa espera. Para os consolar, elas diziam que não. Que o tempo passava muito depressa.

Quando a Primavera se anunciava no voo da primeira andorinha, que alegria para os choupos! Era vê-los num alvoroço a vestirem as suas grandes copas. A colocarem uma folha aqui, outra acolá, ao longo dos ramos. Folhas de um verde muito claro, a espreitarem lá dos troncos o céu, a terra, a estrada, o mundo, o ciclo de uma nova vida. As pessoas passavam, sorriam, davam-lhes as boas-vindas e pensavam que durante o Verão a sombra frondosa dos velhos choupos voltaria a proteger os seus passos do rigor do Sol. E que linda era a estrada na Primavera! E nas manhãs, e nas tardes, e nas noites de Verão! Ao fundo da estrada, a Fonte, tão antiga quanto os choupos, emprestava ao ambiente mais encanto, maior beleza, maior frescura. Fonte do Choupal, era esse o seu nome. Também por Choupal era conhecida a estrada e o próprio sítio. Da sua água, dizia a tradição, quem dela bebesse, jamais sairia de Alverca do Ribatejo…

Um dia, quiseram construir «gaiolas de cimento» no Choupal. Pensaram em cortar os choupos. As autoridades da terra disseram que não. Os choupos eram centenários. Eram preciosos. Eram um património. E tinham tantos amigos! Apesar da recusa, certa manhã, Alverca do Ribatejo acordou mais pobre, mais poluída, menos verde. Durante a noite, muitos dos choupos, os amigos e velhos choupos, haviam sido cortados, criminosamente, um após outro, junto à raiz. Por pessoas que não eram da terra, não gostavam da presença dos choupos, nem da sua voz, nem de conversar com eles, nem de ouvir as suas histórias. Pessoas que não entenderam a amizade entre os choupos e os habitantes da vila. Pessoas para quem não existe o Dia Mundial da Árvore, nem o Dia Mundial da Floresta, nem o Dia Mundial do Ambiente. Porque não gostam nem das árvores, nem das florestas, nem se preocupam com o ambiente. Porque só gostam de construir «gaiolas de cimento».

Quando souberam da morte dos choupos, os meninos e as meninas que cresceram habituados à sua companhia, à sua voz, à sua sombra, hoje homens e mulheres como eu, sentiram uma grande tristeza, uma grande saudade, uma grande pena. E ainda uma grande revolta. Tão grande e tão profunda, como a sua surpresa, a sua incredulidade, o seu espanto, o seu desgosto. Os choupos, apanhados numa cilada criminosa, não tiveram tempo para se despedir. Não disseram adeus a ninguém. Não puderam, tão-pouco, pedir auxílio aos seus amigos da vila.

A história aqui fica. A lembrar os choupos da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude. Com quem conversei, que sabiam da minha vida e da vida dos meus amigos, que me contavam, também eles, os seus segredos. Os choupos a quem não pude dizer adeus. A quem não pude agradecer a companhia, a beleza, a frescura que me deram durante tantos anos. Bebi da água da Fonte e a magia cumpriu-se. Quanto aos velhos, aos amigos choupos, calculo que as suas raízes, debaixo do cimento, devem pensar: «Se ao menos conseguíssemos romper esta muralha, talvez os rebentos das nossas raízes pudessem, ainda, voltar à superfície, à luz, à vida, ao convívio dos nossos amigos. Talvez pudéssemos voltar a crescer e a transformar-nos de novo nos choupos que fomos, num prodígio verde, a coar o Sol, a ladear, como dantes, a estrada e o rio de quem temos tantas saudades…»

O Choupal, hoje, não o reconheço. Não existe. Resta-lhe o nome: «moro no Choupal»; «fica na estrada do Choupal»; «a praça do Choupal». Mas poucos dos que lá moram ou passam, conheceram e amaram os velhos choupos. A Fonte, pobre dela. Está hoje «encastoada», num dos prédios ali construídos. Provavelmente, só uma réstia de pudor, não deixou que a destruíssem.

Lembro os passeios do meu «grupo», até ao Choupal, rapazes e raparigas (éramos tantos!), no final das tardes sem nuvens na vida de cada um de nós. Nas noites de Verão, sentados nos degraus da Fonte, numa alegria de que apenas a juventude guarda o segredo. Das canções que cantávamos, felizes, porque só os sonhos habitavam o nosso pensamento.

Hoje não tenho sequer vontade de passar por lá. Se possível, evito. Depois da morte dos «meus» choupos, vítimas de homicídio voluntário, premeditado e não punido.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Crónicas de Porcelana

Edições Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 21:20
link | comentar | favorito

21 DE MARÇO - DIA MUNDIAL DA POESIA

Cópia de capa (2).JPG

ABRIR AS ASAS

 

O tempo teima

Em derramar sobre o meu corpo

As horas que se tornam dias.

 

Mas não rejeito o tempo

Rejeito, sim, o que me traz o tempo

O tempo que se desfaz no tempo

Sem que me dê a quietude que mereço.

 

Ata-me os braços

Tolhe-me o pensamento

E não tenho modo de alterar o tempo

O tempo que me prende e onde permaneço

Cativa neste labirinto

Onde me perdi

E não me reconheço.

 

Só conheço a demora que se esconde

E adormece de mágoa em meus ouvidos

E a lágrima que nunca me obedece

Que desliza em minha face e não responde

Por saber o quanto sei o seu sentido.

 

Só conheço no poema que se despe

E que o meu punho escreve com clareza

O pesar de não ser mais como era dantes

Um tempo feito de paz e comunhão

Onde brilhava a esperança sempre acesa.

 

Tempo de datas e nomes e surpresas

Feito de beijos e risos e abraços

Onde nasciam os sonhos e a certeza

De haver na mesa a frescura do pão

E na lareira o ciciar das brasas.

 

Porque o afecto era o elo, era a magia

Era tudo o que se tem e se deseja

Sem mácula, sem dano, sem agravo

A unir as mãos sob a ternura

Sem sombra ou amargura nas palavras.

 

Pudesse

Dentro de mim abrir as asas.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 20:55
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 15 de Março de 2023

A CONSTIPAÇÃO DO CARACOL (para os mais pequenos)

120611161_3358561774231698_5637347185969407364_n.jSenhor Caracol andou pela horta

Passeio para aqui, passeio para ali

Pauzinhos no ar, cabecinha ao sol.


Não teve cuidado e depois

Atchim!

Senhor Caracol ficou constipado.


Hoje de manhã não saiu da casca

Não foi para a horta nem para o jardim

Então, lamentou-se:

- Que grande arrelia! Coitado de mim!


Ao saber do caso, a dona Lagarta

Logo resolveu mandar-lhe uma carta

Carta que transcrevo e dizia assim:


Senhor Caracol, siga o meu conselho

Não torne para aí de cabeça ao léu

Quando andar ao sol ponha o seu chapéu!


Soledade Martinho Costa


Do livro Um-Dó-Li-Tá

Ed, Figueirinhas

Ilustração: Zé Manel

 

publicado por sarrabal às 20:36
link | comentar | favorito

CERTEZA

Duy Huynh - Tutt'Art@ (1).jpg

Que horas são?

É tarde

Tão tarde já

E vou

Mas fico

A pensar no dia de amanhã.

 

Quantos dias virão

Sim, quantos mais

Quantas vezes o sol nascerá

Nos meus olhos ainda adormecidos?

 

E tanto por fazer

E tanto por pensar.

 

Chegarão as tardes

As manhãs?

 

E as noites

As noites para sonhar

Quantas serão?

 

E um medo vagabundo

Uma ansiedade

Uma vontade de parar o tempo

Despertam então em mim

Alvoroçada

A certeza quase espanto

Quase assombro

Que todo aquele

Que vem a este mundo

Traz hora de partida e de chegada.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “A Palavra Nua”

Tela: Duy Huynh

 

publicado por sarrabal às 01:15
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2026

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. SEGREDOS

. HOJE

. LEZÍRIA

. RÁCICO

. 3 DE FEVEREIRO - SÃO BRÁS...

. 2 DE FEVEREIRO - FESTA DA...

. 20 DE JANEIRO - SÃO SEBAS...

. 6 DE JANEIRO - DIA DE REI...

. ALENTEJO AUSENTE

. CALENDÁRIO DE JANEIRO

. NOVO ANO 2026

. FESTA DO MENINO - 1 DE JA...

. TRADIÇÕES - AS «JANEIRAS»...

. PORTUGAL DESCONHECIDO - A...

. NATAL 2025

. TRADIÇÕES DO NATAL - AS F...

. A QUARTA SEMANA DO ADVENT...

. PORTUGAL DESCONHECIDO - T...

. CALENDÁRIO – DEZEMBRO

. TALVEZ

.arquivos

. Março 2026

. Fevereiro 2026

. Janeiro 2026

. Dezembro 2025

. Novembro 2025

. Outubro 2025

. Setembro 2025

. Agosto 2025

. Julho 2025

. Junho 2025

. Maio 2025

. Abril 2025

. Março 2025

. Fevereiro 2025

. Janeiro 2025

. Dezembro 2024

. Novembro 2024

. Outubro 2024

. Setembro 2024

. Agosto 2024

. Julho 2024

. Junho 2024

. Maio 2024

. Abril 2024

. Março 2024

. Fevereiro 2024

. Janeiro 2024

. Dezembro 2023

. Novembro 2023

. Outubro 2023

. Setembro 2023

. Agosto 2023

. Julho 2023

. Junho 2023

. Maio 2023

. Abril 2023

. Março 2023

. Fevereiro 2023

. Janeiro 2023

. Dezembro 2022

. Novembro 2022

. Outubro 2022

. Setembro 2022

. Agosto 2022

. Julho 2022

. Junho 2022

. Maio 2022

. Abril 2022

. Fevereiro 2022

. Janeiro 2022

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Setembro 2021

. Agosto 2021

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Março 2020

. Novembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Dezembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

blogs SAPO
Em destaque no SAPO Blogs
pub