
Dona Tartaruga
Seja boazinha
Estique a cabecinha
Lá da carapaça
E diga a quem passa:
Quantos anos tem?
É que ouvi dizer
Que tem mais de cem!
Quer saber quem sou?
Eu sou a Joana
E tenho um irmão
Sou muito pequena
Só tenho seis anos
Mas já sei fazer
Bolas de sabão!
Se ando na escola?
Claro que sim
Sei a tabuada
Melhor que ninguém!
Agora responda
Seja boazinha
Estique a cabecinha
Lá da carapaça
E diga a quem passa:
Quantos anos tem?
Porque é que pergunto?
Pois bem
Para saber
É que há muita coisa
Que eu ainda não sei
Que eu ainda não sei
Mas hei-de aprender!
Se gosto de bichos?
Não hei-de gostar?
Tenho um Periquito
um Grilo-Grilão
um Galo da Índia
Três Pombos Correios
Um Gato e um Cão!
Mas vamos
Responda
Não seja mazinha
Nem faça pirraça
Estique a cabecinha
Lá da carapaça
E diga à Joana:
Quantos anos tem?
É mesmo verdade
Que tem mais de cem?
Soledade Martinho Costa
Do livro Um-Dó-Li-Tá
Ed. Figueirinhas
Ilustração ©Courtney Brim
Esta amargura
Que me enlaça
Rotineira
Esta renúncia
Companheira
Deste agravo antigo
Que mordeu
E se prendeu na carne
Em ferida aberta.
Este cansaço
Que paira e vem de manso
Acolher-se no sangue
Do meu corpo
Este negar de amor
Que se repete
A esbracejar rebelde
No meu peito.
Esta fronteira
Na frente dos meus braços
É a pergunta
Que escondo e se liberta
A rir, na lágrima
Que tomba em minhas faces.
Soledade Martinho Costa
Do livro Reduto
Imagem: quadro de António Pimentel, da série «Mariana Alcoforado»


Em Inglaterra (Devon), os livros da escritora mundialmente conhecida Enid Blyton (mais de 700 títulos publicados), destinados ao público leitor infantil e juvenil, foram retirados das livrarias e armazenados em local onde não possam ser vistos pelos leitores. Pertencem às famosas colecções de mistério e aventura dos Cinco e dos Sete, incluindo os livros que fazem parte da série do famoso Noddy, tão adorado pelas crianças.
As causas apontadas, por absurdas, reportam-se à «linguagem desactualizada, que pode ser ofensiva para os leitores». Nas prateleiras estão apenas disponíveis livros que já foram corrigidos e reeditados recentemente, «de onde foram removidos termos ofensivos». Esta medida, revela em documento, «que os títulos apresentam uma linguagem cada vez mais desactualizada». Segundo os promotores, o facto tem levado as bibliotecas a comprar reediçoes «novas e actualizadas». De qualquer forma, parte da opinião pública é de opinião «que a decisão se apresenta de relevância duvidosa». Muitas são as alterações às «palavras e expressões» utilizadas pela autora, sendo o ilógico objectivo actual, em relação às obras, «o de torná-las intemporais». Ficam dois exemplos das «correcções», que os responsáveis afirmam «serem feitas de maneira sensível e cuidada, com a narrativa a manter-se intacta e sem nada ser alterado». No que respeita a personagens femininas: (alusivas a tarefas domésticas para as meninas) rotuladas agora de «noções sexistas» foram substituídas por «uma lição de igualdade de géneros». Em referência à cor da pele de uma personagem (descrição de um menino pescador de rosto moreno», lê-se agora «um menino pescador bronzeado». A palavra «castanho», entre outras, é uma das que deixou de figurar nos livros de Enid Blyton.
Ao fim de 30 anos, e com o sucesso que a sua obra alcançou pelo mundo inteiro, é que se lhe reconhece «uma escrita com falta de mérito literário, racista, sexista e homofóbica»! Por esse motivo, em 2019, a entidade que produz moedas no Reino Unido, recusou lançar uma moeda comemorativa com a face da escritora.
Enid Blyton começou a escrever em 1939 até à sua morte em 1968, com 71 anos.
«MODERNA VERSÃO DE VALORES»
Esperemos que, por cá, não vingue esta moda, que, aparentemente (e subtilmente), parece vir em proveito das crianças e dos jovens. Por estes lados, vamos tendo o «Acordo Ortográfico». Ignoro qual o convénio feito entre a escritora e os editores no que respeita a direitos autorais. Se vendeu o trabalho, nada feito. Se não o fez, pela contagem dos anos, a obra ainda não é pública (e nem assim seria possível). Estará, decerto, nas mãos dos seus herdeiros. Apenas com a sua concordância este abuso poderá ser feito. Os tempos mudam, as sociedades também. Mudam os hábitos, mudam os costumes. Só não me recordo de alguma vez terem mudado os livros: o conteúdo, a forma, a escrita! No seu todo, e para sempre, um livro manter-se-á inalterável. Por outro lado, os meus filhos leram os Cinco, leram os Sete, leram o Noddy e nada aconteceu que os molestasse, ou que os levasse a ser racistas, sexistas ou homofóbicos. Eu própria os li com eles, porque me divertiam, como a eles os divertia. E continuo igual. O que está a passar-se com a obra de Enid Blyton, para mim, é inadmissível, é um escândalo. Falsos, feios, sujos moralismos! Então, e se estas «prioridades literárias», com o objectivo de «protegerem» as crianças leitoras, em vez de deturpar os livros de Blyton, fossem em favor das crianças vítimas das guerras? Das crianças vítimas da fome, das doenças, sem tecto, orfãs, porque soterrados nos destroços dos seus países de origem ficaram os corpos dos seus pais?! Mundo ignóbil, falso e hipócrita.
Soledade Martinho Costa.
A cerejeira de que vos vou falar nasceu numa quinta onde havia diversas árvores de fruto: macieiras, laranjeiras, pessegueiros, pereiras e outras. Era uma árvore muito jovem que dava frutos pela primeira vez. Por isso, estava coberta de flores, o que a deixava muito orgulhosa.
«Como serão as minhas cerejas? – pensava ela. – Serão grandes? Serão doces? Serão muito vermelhas? Quem as irá colher? Quem as irá provar?».
Com estes pensamentos, ficava a abanar a rama docemente, como a embalar a promessa da chegada dos frutos por ela tão ansiosamente esperados.
— Que linda estás, assim, toda florida! - disse-lhe, certa manhã, um pardal que viera pousar num dos seus ramos.
— Ah, amigo Pardal, estou tão feliz. Imagina que vou dar frutos pela primeira vez!
— Nesse caso, parabéns! – exclamou, afectuosamente, a pequena ave.
— Só desejo que os meus frutos sejam muito, muito vermelhos! – suspirou, esperançada, a jovem cerejeira.
O pardal pôs a cabecinha à banda, admirou os ramos de folhinhas verdes salpicadas de flores, e disse, sincero, a fazer-se convidar:
— Se não te importas, virei visitar-te daqui a mais uns tempos. Sabes que nós, os pardais, gostamos muito de cerejas…
— Com certeza. Em breve estarei carregadinha de frutos e poderás comê-los à tua vontade! – ofereceu a cerejeira com igual sinceridade.
A imaginar futuros almoços postos, gentilmente, à sua disposição, o pardal saltitou de um para o outro ramo.
— Já alguém te disse que lá muito longe, no Japão, fazem todos os anos uma grande festa a que dão o nome de Festa das Cerejeiras? – perguntou ele, que era uma ave culta e gostava de conversar.
Apanhada de surpresa, pois longe estava de supor que num país distante as cerejeiras fossem tão apreciadas, a jovem árvore mostrou-se interessadíssima com a novidade.
— Não, nunca ouvi falar. Mas conta, conta! Quando fazem essa festa?
— Quando as cerejeiras estão cobertas de flores, como tu agora. – informou o pardal.
— Já lá estiveste? – perguntou a cerejeira.
— Não. Quem me contou foi uma andorinha minha amiga, muito viajada, e que sabe muitas coisas passadas no mundo dos homens. – explicou o pardal.
Nesta altura, houve um momento de silêncio que ambos aproveitaram: a cerejeira para balouçar os ramos floridos ao sabor do vento; o pardal para esticar as asinhas num jeito de abraço.
— E que mais sabes acerca de cerejeiras? – quis saber a árvore.
— Sei que as meninas gostam de pendurar as cerejas nas orelhas, a fingirem de brincos…
— E que mais?
— Que as cerejas servem para fazer doces, geleias e compotas…
— Sim?
— Que da madeira de cerejeira se fazem delicados trabalhos de marcenaria…
— Sabes muitas coisas, amigo Pardal! – elogiou a cerejeira perante tão vastos conhecimentos.
O pardal, com ar modesto, agradeceu.
— Bom, mas agora vou andando. Tenho um encontro marcado, ali, na Figueira Grande, com um grupo de pardais meus amigos. Mas eu volto. E não só pelas tuas cerejas. Volto para saber de ti, porque sou teu amigo! – afirmou antes de levantar voo.
Quando ficou sozinha, a cerejeira pensou de si para si:
«Que bom ter um novo amigo. Quem dera que volte depressa!»
Tempo depois, por entre a sua folhagem, começaram a surgir os primeiros frutos. Mas a cerejeira não se mostrou feliz. Pelo contrário! Ao verificar que as cerejas não ofereciam a cor vermelha que tanto desejava, sentiu-se imensamente triste.
«Que pouca sorte a minha. – lamentava-se ela. – Que frutos tão sem graça os meus, assim, sem cor…Nem o meu amigo Pardal os vai cobiçar por mais fome que tenha!».
O Sol, lá em cima, ia ouvindo os seus queixumes.
«Tem ainda muito que aprender.» - pensava ele.
Até que um dia, o Sol, condoído com o desgosto da cerejeira, aqueceu os seus raios o mais que pôde, enviou-os para a Terra, e com eles envolveu dias e dias a fio a polpa das cerejas.
Ao reparar que os seus frutos a pouco e pouco mudavam de cor, a cerejeira encheu-se de alegria. As cerejas, finalmente amadurecidas e muito vermelhas pela acção do Sol, pendiam agora ao longo dos seus ramos, em graciosos cachos, como se fossem meninos a dar a mão.
— Cá estou eu de novo. Mas hoje venho para almoçar! – ouviu a cerejeira certa vez.
— Olá, amigo Pardal, sê bem-vindo! – saudou ela muito feliz. – Podes comer à-vontade. O prometido, é devido!
O pardalito debicou um dos frutos.
— Hum…Como são boas. Nunca provei cerejas tão docinhas e vermelhas como as tuas!
Ao escutar estas palavras a cerejeira estremeceu todos os seus ramos numa grande satisfação.
Foi nesta altura que o Sol, lá em cima, piscou um dos seus raios para a Terra com um ar muito maroto!
Soledade Martinho Costa
Do livro “Seis Histórias numa História de Todas as Cores”
Ed. CEBI (Fundação José Álvaro Vidal)
Ilustração: pintor António Pimentel
(História do lápis vermelho)

Este meu poema faz parte do recente disco de Jorge Goes, intitulado «Essências», a ser apresentado muito em breve. Quase toda a música do álbum é da autoria do próprio Jorge Goes, incluindo a do meu poema. A gravação foi efectuada no estúdio Cruzeiro, de José Cid, numa co-produção de Jorge Goes e Zé Cid. Estou bem acompanhada, com letras e músicas de nomes bem conhecidos: a começar por Zé Cid; Manuel Alegre; Mário Rainho; Mário Mata; Tozé Brito e Vitorino.
CASAS DE LISBOA
Casas de Lisboa
Viradas ao Tejo
Vestidas de Sol
Com cortinas de renda.
Casas de Lisboa
Viradas ao Tejo
Que lhes conta segredos
De reis e de infantes
De audácias distantes
De naus e degredos.
Casas de Lisboa
Varandas amigas
De pardais e pombos
Com gente que fala
No jeito que temos
A Língua que somos.
Com gente que embala
Os sonhos esquecidos
Os sonhos perdidos
Na dança das ondas.
São pedras
Postigos
E portas fechadas
Janelas
Telhados
E degraus de escadas.
São muros
Mirantes
Jardins e calçadas
E tantos amantes
De vidas passadas.
Largos e igrejas
A lembrar fogueiras
Lendas verdadeiras
De um País amado
De um País saudade
De faces trigueiras.
E o que o Tejo diz
E o mais que lhes diga
Escuta-se no vento
Como em voz amiga.
Palavras que trazem
Alma marinheira
E a cor da cidade
No Cais da Ribeira.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edicões Sarrabal

Perde-se nos tempos esta tradição litúrgica efectuada na aldeia do Ladoeiro (Idanha-a-Nova), embora se admita a hipótese de remontar ao ano de 1581, data da fundação da Misericórdia local.
O ritual religioso tem início na primeira sexta-feira da Quaresma, prolongando-se pelas seguintes, à excepção da sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos. Pelas vinte e uma horas (outrora à meia-noite), os irmãos da Misericórdia, velhos e novos, dirigem-se à Capela da Misericórdia, onde vão buscar a Cruz de Cristo. Dali, partem em cortejo, acompanhados pelo pároco, cada um levando na mão uma vela acesa – símbolo da Luz de Cristo.
Percorrem assim as ruas principais do lugar, encaminhando-se depois para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Espectação, ao encontro dos irmãos da Confraria do Santíssimo Sacramento. O regresso à capela é feito em conjunto: os irmãos da Confraria à frente, os da Irmandade da Misericórdia seguindo atrás, vestidos com opas vermelhas.
Desde a saída e até o regresso ao ponto de partida (Capela da Misericórdia), são rezados cinco «Mistérios», alusivos a outros tantos episódios da Paixão de Cristo. O padre caminha atrás da Cruz, e do seu lado direito segue o provedor da Misericórdia. Tanto o tesoureiro como o secretário levam na mão uma vara. Os rapazinhos acompanham os pais, alguns vestindo também opas vermelhas.
A procissão demora cerca de uma hora a percorrer a aldeia, sendo o itinerário em forma de círculo. E faça frio ou a noite seja de chuva, o cerimonial, por tradição, nunca deixa de cumprir-se.
As mulheres, a quem era, em anos recuados, proibido em absoluto participar na cerimónia, acompanham hoje, embora a certa distância, o ritual religioso, enquanto outras preferem, como em tempos idos, ficar em casa, à porta ou à janela, com uma vela acesa na mão.
PROCISSÃO DOS NUS
Ainda no Ladoeiro, tinha lugar outrora, a «Procissão dos Nus», que se efectuou pela última vez em 1900. Porque muitos vão os anos em que deixou de efectuar-se, porque, actualmente, seria impensável uma tal celebração, recordo-a hoje aqui, para que possamos aquilatar o quanto as sociedades, incluindo a rural, evoluiram e se adaptaram a novos padrões e conceitos que, por esses tempos, eram considerados normais, aceites e practicados pelo povo.
A procissão ocorria, principalmente, na Quaresma, ou quando era necessário pedir a ajuda divina perante calamidades: secas, chuvas, pragas ou, simplesmente, para solicitar benesses para as terras de cultivo.
Os pais das crianças (só os homens) juntavam então os filhos com idades compreendidas entre os dois e os sete anos, meninos e meninas, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Espectação, despiam-nos e percorriam com eles, em procissão nocturna, as ruas da aldeia. O choro começava no interior da igreja, após ter sido retirada a roupa às crianças. Choro que aumentava ao saírem para a rua. Causas óbvias: o inesperado da situação, o frio, a vergonha e o medo.
Pelas ruas, o choro das crianças impressionava, aflitivamente, quem o ouvia. Os pais, esses, acreditavam ser essa a forma de Deus os atender. Daí, oferecerem-Lhe o sacrifício dos filhos. Várias razões os obrigavam a fazê-lo: a pobreza, a sobrevivência, a ingenuidade, a ignorância. E se Deus no seu infinito amor às crianças atendia o pedido dos pais, era por saber que os homens, afinal, O conheciam tão pouco, ao exigirem tamanha penitência dos filhos.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.III
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação

AS ÁRVORES MORREM DE NOITE (sempre lembrados)
Era uma vez uma terra do concelho de Vila Franca de Xira chamada Alverca do Ribatejo. Hoje uma cidade, mas na época em que tudo aconteceu, não passava de uma pequena vila. Nessa terra existia uma longa estrada. A seu lado, corria o canto transparente do rio Crós-Cós. Quer a estrada quer o rio, ladeados de choupos, que moravam ali há muitos, muitos anos. Tantos, que as pessoas da vila, geração após geração, se foram habituando à sua presença e à sua voz. Como se os choupos fizessem parte da família. Se eram muitos? Sim eram muitos. As três fieiras somavam umas boas dezenas: duas ladeavam a estrada, uma delas rés ao rio, a outra, a terceira, ladeava o rio do outro lado das terras de cultivo.
Quando as pessoas passavam por essa estrada, punham-se à conversa com eles. Os choupos, por sua vez, contavam-lhes então a sua alegria por estarem ali, a cobrir de sombra e rumorejo a poeira da estrada. Depois, as pessoas seguiam, às suas vidas, os choupos acenavam os ramos num gesto de despedida e marcavam um novo encontro para outro dia.
No Outono as folhas dos choupos tomavam a cor do oiro e deixavam-se cair, num embalo, sobre a terra. Nessa altura, ofereciam às pessoas da vila um tapete estaladiço e fofo ao longo da estrada. Os ramos, esses, mal espreitava o Inverno, nus, erguidos ao céu numa prece, pareciam tiritar de frio, a pedir o regresso dos seus vestidos verdes. E contavam às pessoas a impaciência da sua longa espera. Para os consolar, elas diziam que não. Que o tempo passava muito depressa.
Quando a Primavera se anunciava no voo da primeira andorinha, que alegria para os choupos! Era vê-los num alvoroço a vestirem as suas grandes copas. A colocarem uma folha aqui, outra acolá, ao longo dos ramos. Folhas de um verde muito claro, a espreitarem lá dos troncos o céu, a terra, a estrada, o mundo, o ciclo de uma nova vida. As pessoas passavam, sorriam, davam-lhes as boas-vindas e pensavam que durante o Verão a sombra frondosa dos velhos choupos voltaria a proteger os seus passos do rigor do Sol. E que linda era a estrada na Primavera! E nas manhãs, e nas tardes, e nas noites de Verão! Ao fundo da estrada, a Fonte, tão antiga quanto os choupos, emprestava ao ambiente mais encanto, maior beleza, maior frescura. Fonte do Choupal, era esse o seu nome. Também por Choupal era conhecida a estrada e o próprio sítio. Da sua água, dizia a tradição, quem dela bebesse, jamais sairia de Alverca do Ribatejo…
Um dia, quiseram construir «gaiolas de cimento» no Choupal. Pensaram em cortar os choupos. As autoridades da terra disseram que não. Os choupos eram centenários. Eram preciosos. Eram um património. E tinham tantos amigos! Apesar da recusa, certa manhã, Alverca do Ribatejo acordou mais pobre, mais poluída, menos verde. Durante a noite, muitos dos choupos, os amigos e velhos choupos, haviam sido cortados, criminosamente, um após outro, junto à raiz. Por pessoas que não eram da terra, não gostavam da presença dos choupos, nem da sua voz, nem de conversar com eles, nem de ouvir as suas histórias. Pessoas que não entenderam a amizade entre os choupos e os habitantes da vila. Pessoas para quem não existe o Dia Mundial da Árvore, nem o Dia Mundial da Floresta, nem o Dia Mundial do Ambiente. Porque não gostam nem das árvores, nem das florestas, nem se preocupam com o ambiente. Porque só gostam de construir «gaiolas de cimento».
Quando souberam da morte dos choupos, os meninos e as meninas que cresceram habituados à sua companhia, à sua voz, à sua sombra, hoje homens e mulheres como eu, sentiram uma grande tristeza, uma grande saudade, uma grande pena. E ainda uma grande revolta. Tão grande e tão profunda, como a sua surpresa, a sua incredulidade, o seu espanto, o seu desgosto. Os choupos, apanhados numa cilada criminosa, não tiveram tempo para se despedir. Não disseram adeus a ninguém. Não puderam, tão-pouco, pedir auxílio aos seus amigos da vila.
A história aqui fica. A lembrar os choupos da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude. Com quem conversei, que sabiam da minha vida e da vida dos meus amigos, que me contavam, também eles, os seus segredos. Os choupos a quem não pude dizer adeus. A quem não pude agradecer a companhia, a beleza, a frescura que me deram durante tantos anos. Bebi da água da Fonte e a magia cumpriu-se. Quanto aos velhos, aos amigos choupos, calculo que as suas raízes, debaixo do cimento, devem pensar: «Se ao menos conseguíssemos romper esta muralha, talvez os rebentos das nossas raízes pudessem, ainda, voltar à superfície, à luz, à vida, ao convívio dos nossos amigos. Talvez pudéssemos voltar a crescer e a transformar-nos de novo nos choupos que fomos, num prodígio verde, a coar o Sol, a ladear, como dantes, a estrada e o rio de quem temos tantas saudades…»
O Choupal, hoje, não o reconheço. Não existe. Resta-lhe o nome: «moro no Choupal»; «fica na estrada do Choupal»; «a praça do Choupal». Mas poucos dos que lá moram ou passam, conheceram e amaram os velhos choupos. A Fonte, pobre dela. Está hoje «encastoada», num dos prédios ali construídos. Provavelmente, só uma réstia de pudor, não deixou que a destruíssem.
Lembro os passeios do meu «grupo», até ao Choupal, rapazes e raparigas (éramos tantos!), no final das tardes sem nuvens na vida de cada um de nós. Nas noites de Verão, sentados nos degraus da Fonte, numa alegria de que apenas a juventude guarda o segredo. Das canções que cantávamos, felizes, porque só os sonhos habitavam o nosso pensamento.
Hoje não tenho sequer vontade de passar por lá. Se possível, evito. Depois da morte dos «meus» choupos, vítimas de homicídio voluntário, premeditado e não punido.
Soledade Martinho Costa
Do livro Crónicas de Porcelana
Edições Sarrabal

ABRIR AS ASAS
O tempo teima
Em derramar sobre o meu corpo
As horas que se tornam dias.
Mas não rejeito o tempo
Rejeito, sim, o que me traz o tempo
O tempo que se desfaz no tempo
Sem que me dê a quietude que mereço.
Ata-me os braços
Tolhe-me o pensamento
E não tenho modo de alterar o tempo
O tempo que me prende e onde permaneço
Cativa neste labirinto
Onde me perdi
E não me reconheço.
Só conheço a demora que se esconde
E adormece de mágoa em meus ouvidos
E a lágrima que nunca me obedece
Que desliza em minha face e não responde
Por saber o quanto sei o seu sentido.
Só conheço no poema que se despe
E que o meu punho escreve com clareza
O pesar de não ser mais como era dantes
Um tempo feito de paz e comunhão
Onde brilhava a esperança sempre acesa.
Tempo de datas e nomes e surpresas
Feito de beijos e risos e abraços
Onde nasciam os sonhos e a certeza
De haver na mesa a frescura do pão
E na lareira o ciciar das brasas.
Porque o afecto era o elo, era a magia
Era tudo o que se tem e se deseja
Sem mácula, sem dano, sem agravo
A unir as mãos sob a ternura
Sem sombra ou amargura nas palavras.
Pudesse
Dentro de mim abrir as asas.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal
Senhor Caracol andou pela horta
Passeio para aqui, passeio para ali
Pauzinhos no ar, cabecinha ao sol.
Não teve cuidado e depois
Atchim!
Senhor Caracol ficou constipado.
Hoje de manhã não saiu da casca
Não foi para a horta nem para o jardim
Então, lamentou-se:
- Que grande arrelia! Coitado de mim!
Ao saber do caso, a dona Lagarta
Logo resolveu mandar-lhe uma carta
Carta que transcrevo e dizia assim:
Senhor Caracol, siga o meu conselho
Não torne para aí de cabeça ao léu
Quando andar ao sol ponha o seu chapéu!
Soledade Martinho Costa
Do livro Um-Dó-Li-Tá
Ed, Figueirinhas
Ilustração: Zé Manel

Que horas são?
É tarde
Tão tarde já
E vou
Mas fico
A pensar no dia de amanhã.
Quantos dias virão
Sim, quantos mais
Quantas vezes o sol nascerá
Nos meus olhos ainda adormecidos?
E tanto por fazer
E tanto por pensar.
Chegarão as tardes
As manhãs?
E as noites
As noites para sonhar
Quantas serão?
E um medo vagabundo
Uma ansiedade
Uma vontade de parar o tempo
Despertam então em mim
Alvoroçada
A certeza quase espanto
Quase assombro
Que todo aquele
Que vem a este mundo
Traz hora de partida e de chegada.
Soledade Martinho Costa
Do livro “A Palavra Nua”
Tela: Duy Huynh
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