
O pato-real atravessa a cerca da capoeira. Passa junto ao canteiro das dálias brancas e vermelhas e avança pelo carreiro que vai ter ao pomar. «É bom poder passear em liberdade!» pensa, enquanto distende as asas de penas matizadas.
Ao vê-lo, o gato Malhado, não resiste e mete conversa:
— Pelo que vejo, mesmo nas manhãs frias de Inverno, ainda lhe pula o pé para o passeio…
E logo o pato, num grasnar escorreito:
— É como vê, amigo Malhado. Uma boa caminhada nunca fez mal a ninguém. Antes pelo contrário! – e acrescenta: - Mas o amigo parece que também acordou cedo…
_ Estou a ver quem passa! - replica o bichano, ajeitando-se melhor sobre o muro
— Ou a ver se caça algum pardal desprevenido… – responde o outro em tom zombeteiro.
— Lá está o amigo Pato a meter-se onde não deve. O que faço ou não faço, é cá comigo, não acha? – zanga-se o tareco, focinho empertigado. E continua: - Mas sempre lhe digo que se engana. Hoje, por sinal, estou de dieta. Comi há pouco um bom pedaço de erva-gateira para limpar o estômago.
O pato-real põe água na fervura:
— Tem razão. Aquilo que o meu amigo faz ou não faz, não é da minha conta. Mas que madrugou, madrugou! Bem o julgava em casa, aninhado, a dormir um sono. E, afinal…
— E, afinal… acontece que uma manhã de sol no Inverno não é coisa para se desperdiçar. Por isso, saí mais cedo e vim dar o meu giro.
O pato, olhinho vivo, desvenda o céu:
— A manhã acordou fria da geada, lá isso acordou. Mas que se pôs bem bonita também é verdade. De mais a mais, com este rico sol!— Sim, sim. – concorda o gato. – Mas muito antes de o sol abalar, meto-me outra vez em casa. No Inverno, quanto a mim, não há nada melhor do que o calorzinho do borralho na cozinha!
O pato tem outra opinião.
— Pois eu, com sol ou sem ele, vou até ao tanque tomar o meu banho...
O gato põe-se de pé, num susto.
— Banho?! – repete em sobressalto. – Ó amigo Pato-Real, nem me fale nisso, que fico logo todo arrepiado!
— Eu sei, eu sei como o amigo Malhado é friorento. Quanto ao seu medo da água…
— Água?! Água só para beber, se tenho sede! – interrompe o gato, que adianta: - Embora, como o compadre sabe, eu seja bastante asseado!
E fala verdade. Principalmente após as refeições, lá está ele ocupado a cuidar da sua aparência. Ou seja, a passar a pata molhada de saliva nas orelhas, na cabeça e no focinho. E como a sua língua é muito áspera, serve-se dela como de uma escova para alisar o pêlo.
O pato toma jeito de quem deseja pôr-se a caminho.
— Pois como lhe disse, vou até ao tanque do pomar. – repete. – A mim, o frio não me apoquenta. Para isso servem as minhas penas. Mesmo no Inverno, é no tanque que me sinto bem, a chapinhar à vontade…
— Então, que lhe faça bom proveito. O banho e o passeio!
— O mesmo é dizer, que cada um é como é. – comenta o pato com ar sério.
— E que por isso mesmo há que saber respeitar e entender as preferências de cada um. – atira o bichano, também com ar de quem sabe o que diz.
— Nem mais. – remata o pato-real a pôr ponto final na conversa. Em seguida, despede-se:
— Prazer em vê-lo, amigo Malhado. Até outro dia!
— Igualmente, amigo Pato-Real. Até ver! – responde o gato, enquanto o pato retoma sem pressas o passeio.
«Quanto me haviam a mim de dar para me meter dentro do tanque. Ainda por cima no Inverno!», fica-se o malhado a cogitar, patas de veludo sobre o muro, onde trepam, pródigas de perfume, as rosas-de-todo-o-ano.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América

Escureceram os céus
e havia sol.
Pés descalços no pó do chão
a pequenina criança negra
aproximou-se da mão branca
que lhe estendia o prato
barato de plástico
com a dose calibrada da ração.
Pegou nele com ambas as mãos
e num gesto inesperado e ensinado
ajoelhou naquele chão
onde a chuva nunca foi milagre
perante quem lhe estendia a dádiva do pão.
Nesse chão que não conhece
charrua nem arado nem enxada que o dome
onde a safra são as pedras
e os cardos o fruto que se oferece.
Ajoelhou sem palavras
que se as houvesse
seriam: peço perdão por ter nascido
e por ter fome.
Mas no instante
em que os joelhinhos de ébano erguia
da sua humílima posição de prece
como se estivesse a agradecer em oração
a vida que lhe coube em sorte
um súbito acesso de furor divino
riscou a tarde
no brilho de um relâmpago
seguido do estrondo do trovão.
Era a voz de Deus
num aviso aos homens
acompanhado das lágrimas dos anjos
que não vimos mas pressentimos
num choro amargurado e aflito.
Enquanto o mundo continua surdo
perante o silêncio que antecede o grito
e a esperança que antecede a morte.
Soledade Martinho Costa
(Inédito)

Tempo de reflexão e de abstinência para os católicos, a Quaresma (do latim quadragesíma) representa os quarenta dias de jejum de Jesus Cristo no deserto, para descanso físico e espiritual, antes de principiar o seu ministério apostólico.
Com início na quarta-feira de Cinzas (quando encerra a quadra do Carnaval, logo após a terça-feira Gorda), termina no Sábado Santo, que antecede o dia da comemoração da Ressurreição de Cristo – o Domingo de Páscoa, festa da Igreja Cristã, solenizada desde os primórdios do cristianismo. No entanto, se procedermos à contagem destes dias, iremos achar menos de quarenta, uma vez que os domingos não são incluídos, por não serem considerados dias de penitência.
A última semana da Quaresma (Semana Santa ou da Paixão) vai do domingo de Ramos (ou domingo da Paixão do Senhor), que comemora a entrada de Cristo em Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica, até ao Sábado Santo, que antecede o Domingo de Páscoa. Sete dias depois da Páscoa celebra-se o Quasímodo, ou «oitava da Páscoa», correspondente ao domingo de Pascoela.
A Ascensão do Senhor (ou Ascensão de Jesus Cristo aos Céus) ocorre no quadragésimo dia a seguir à Páscoa, enquanto cinquenta dias após a Páscoa é comemorada entre os cristãos a Festa do Pentecostes (ou do Espírito Santo), em memória da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. No domingo seguinte cumpre-se a solenidade da Santíssima Trindade e na quinta-feira imediata têm lugar as cerimónias do Corpo de Deus. Estas duas festas, embora celebradas já fora do tempo pascal, encontram-se ainda relacionadas com a comemoração da Páscoa.
Oficialmente, a Igreja denomina os seis domingos que antecedem o domingo de Páscoa por domingos I, II, III, IV e V da Quaresma, chamando ao sexto Domingo de Ramos na Paixão do Senhor. Estes domingos, ou as respectivas semanas são designados, no dizer do povo, pelo nome das figuras bíblicas: Ana (Santa Ana, casada com São Joaquim, pais de Nossa Senhora): Magana (Maria Madalena ou Maria Magdala, que vivia em Magdalane, na Galileia - daí o seu nome -, pecadora que se converteu a Cristo, lavando-Lhe os pés e enxugando-Lhos com os seus próprios cabelos): Rabeca (Rebeca, filha de Bathuel e esposa de Isaac, filho de Abraão, mãe dos gémeos Esaú e Jacob): Susana (mulher judia célebre pela sua beleza e castidade, injustamente acusada de adultério por dois velhos, que foram condenados à morte) e Lázaro (São Lázaro, ressuscitado por Cristo três dias depois de morto). Popularmente, se dirá, pois: «Ana, Magana, Rabeca, Susana, Lázaro e Ramos, na Páscoa estamos».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.III
Ed. Círculo de Leitores

Diz-se dos dias principais da quadra carnavalesca: Sábado Gordo, Domingo Gordo e Terça-Feira Gorda – denominação que ficou dos antigos Domingos Gordos que decorriam entre o Dia de Reis e o Carnaval, assim chamados devido ao excessivo consumo de carnes gordas verificado nestes dias em repastos rituais.
Se a Páscoa ocorre cedo, em meados de Março, uma vez que o Carnaval depende da data da Páscoa (como todas as festas móveis do calendário), os chamados «dias gordos», mais propriamente a Terça-Feira Gorda, último dia de Carnaval (que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, primeiro dia da Quaresma), poderão oscilar entre o dia 3 de Fevereiro e o dia 9 de Março, nunca depois desta data. Os «dias magros» são o sábado e o domingo anteriores aos dias «gordos».
É neste universo, onde os procedimentos orais e gestuais – por conseguinte sociais – se invertem, que vamos encontrar diversas práticas específicas do ciclo do Carnaval, algumas mais do passado do que do presente, embora muitas delas continuem a verificar-se, particularmente entre a comunidade rural.
Se o Carnaval actual se transformou numa sombra do Carnaval de outros tempos, talvez não venha a despropósito lembrar algumas das brincadeiras e folguedos que vigoravam outrora, suprimidos que foram uns, ao longo dos anos (proibidos pelas autoridades), outros caídos em desuso e outros ainda por motivo de substituição das praxes, de acordo com a evolução e a mudança de hábitos e conceitos operados no seio da sociedade.
De civilizado o Carnaval não tinha, efectivamente, nada. Quer o Carnaval rural, quer o urbano (particularmente o setecentista e o oitocentista), projectava-se de forma anárquica, suja, irresponsável e até violenta, onde nada nem ninguém escapava ou era respeitado, mesmo que não fosse folião – ou precisamente por isso. De tal modo, que alguns editais publicados em 1817 «proibiam os folguedos de Carnaval» – ressuscitados, entretanto, a partir dos anos do liberalismo.
Por essas épocas vivia-se intensamente o «arremesso» (com força e pontaria certeira), e tudo servia para arremessar ao próximo, fosse um companheiro de folia ou um pacato cidadão avesso a folguedos: tomates, laranjas e ovos goros (podres), farinha, tremoços, cinza, pó-de-sapatos (pó preto), pó de talco, cal, lixo, excrementos, vísceras, ratos, sapos, rãs, lagartos (vivos ou mortos), água, dejectos, etc. (além de pedras e de toda a espécie de objectos velhos ou deteriorados).
As «cacadas», «caqueiradas» ou «paneladas» (recipientes com pedras, pedaços de madeira e toda a espécie de lixo) eram também atiradas para dentro das casas, à força ou à menor distracção, pelas portas e janelas. Ainda hoje, no Nordeste Transmontano, se usa o termo «deixar cacadas», que corresponde ao acto, mantido ali (sempre a cargo dos mais novos), de deitar, à noite, para dentro das casas que se descuidam com as janelas ou portas abertas, sacos ou mãos cheias de bolhacas que vão apanhar dos carvalhos.
As «pimentoadas» faziam-lhes companhia, arremessadas do mesmo jeito, a originar dentro das casas um cheiro nauseabundo e sufocante, que provocava tosse, obrigando os moradores a saírem para a rua, devido aos trapos velhos a arder dentro de um caco, misturados com malaguetas e estrume dos animais.
Passar por baixo de uma janela, constituía perigo para qualquer um, pois podia-se levar com o despejo de um balde de água ou de outra coisa menos limpa. Por isso, os precavidos, vestiam nos dias de Carnaval os fatos mais usados, munindo-se ainda de chapéus-de-chuva, para evitar males maiores.
Colavam-se rabos de papel (os «rabos leva») com legendas irreverentes a quem passava ao alcance da mão (costume ainda hoje mantido pelas crianças) e amarravam-se utensílios velhos (tampas, panelas, caçarolas ou latas) aos rabos dos gatos e dos cães, que corriam tresloucados por ruas e travessas, causando o pânico, o riso e um barulho insuportável.
Em muitas casas os vidros chegavam a ser retirados das janelas. Quando assim não acontecia, vidros, pedras e outros objectos cortantes ou contundentes constituíam as armas utilizadas (mesmo navalhas de ponta e mola) em desacatos e pancadaria, que culminavam, por vezes, com ferimentos nos intervenientes e até em mortes, nalguns casos.
Tudo isto, além de uma lista infindável de tropelias divertidas e inofensivas (algumas ainda hoje mantidas), em que quase todos participavam, uns como causadores directos, outros como suas «vítimas»: a dentada numa apetitosa «azevia» recheada com estopa ou algodão ou tremendamente picante; a aranha gigante que se descobria entre as dobras do lençol ao abrir a cama; a «osga» colada numa parede ou a carteira ou moeda coladas ao chão, que o transeunte tentava apanhar sem dar nas vistas – motivo para gargalhadas ante o embaraço dos mais desprevenidos.
Figuras populares do Carnaval de rua eram também os «Entrudos», homens mascarados apresentando ventres descomunais e munidos de bengalas, que se dirigiam a quem passava para lhes aplicar as tradicionais «pançadas», a causar um certo receio aos importunados.
No meio rural os divertimentos eram idênticos, apenas lhe acrescentavam as «roncas do Entrudo», sempre durante a noite, para que o incómodo fosse maior. As «roncas» eram (e são) feitas com a bexiga do porco, cozida no bocal de um cântaro de barro ou num cortiço de abelhas vazio, com um buraco no meio por onde sai um cordel que, ao ser puxado, emite um som barulhento, monótono e desagradável.
No Nordeste Transmontano, onde o costume se mantém, dão-lhe o nome de «pandorreiras», feitas igualmente com um cântaro de barro, mas com uma palha introduzida no buraco, a causar, ao ser puxada, o mesmo som incomodativo.
Estas musicatas percorrem as aldeias e os seus arredores, indo por vezes à entrada das aldeias vizinhas, num acto de provocação, produzindo o maior barulho possível, munidos, ainda, com buzinas, bombos, tambores, cornetas e latas, estas zurzidas por paus, fazendo assim a festa até noite avançada, a incomodar meio mundo, pois essa era (e é), fundamentalmente, a intenção dos «músicos».
Todavia, aos poucos, o Carnaval truculento e desordeiro substituiu os «arremessos» abrutalhados e sujos, pelos papelinhos e serpentinas multicores e pelos saquinhos de pano cheios com arroz, alpista ou serradura – ou também com feijão ou grão, a torná-los, talvez para matar saudades, um pouco mais pesados. Os baldes de água reduziram-se à dimensão das bisnagas, por vezes cheias com água perfumada ou mesmo só com perfume, e o barulho provocado pelos cães e gatos, ao dos «estalinhos», «bichas-de-rabear» e «bombinhas», que permanecem até aos nossos dias.
Em Lisboa, na noite de Carnaval, realiza-se o primeiro baile de máscaras no Real Teatro de São Carlos (1809) e organiza-se pela primeira vez (1887) um Cortejo de Flores, com carros enfeitados e a respectiva «batalha», evento considerado na época um autêntico êxito e uma verdadeira inovação.
Iniciava-se uma nova era do Carnaval português.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol.II
Ed. Círculo de Leitores

Nos dias sem data
Repousa os olhos
Na sede da paisagem.
Aspira os cheiros da terra
Lavrada, semeada, sua.
Recolhe em cada seio
O canto da cigarra.
Desfaz a trança
Desfaz a cama
E sonha as lágrimas da Lua.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Tela: Fernando Barbosa

Terra arroteada ao calor das veias
Em ti se enrola
O corpo em sobressalto
Preso das ondas
Do vento
Da maresia
Do voo das gaivotas
Em manhãs de espuma.
Em ti se acoita
O medo
A lágrima
A agonia
No ventre abrupto e prenhe
Das escarpas e das dunas.
Em ti se fala
A língua
Dos vultos embuçados
Da névoa
Dos corais
Dos búzios
E dos limos.
Em ti se ausculta
A noite
A morte
E os segredos
Que estalam
Nos chicotes
Que zurzem os destinos.
Marco de bruma
Travo de sal
Que a vastidão da raia
Aponta
Descreve
Delimita
Ao canto das sereias
No embrião dos dias.
Terra sem nome
Suspensa dos rochedos
Aonde aportam
Insones os fantasmas
A clamar palavras impossíveis
Ante o perfil
Das altas penedias.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Poemas do Sol e da Cal”
(Ed. Editorial Presença)
Foto: Rui Abreu, penedias entre a praia da Adraga e da Ursa, Sintra

Foi sem alvoroço
que o cão da quinteira
falou à raposa
ladina
matreira
que buscava almoço:
-— Comadre Raposa
o que a traz por cá
assim
de andar manso
sem fazer barulho
o rabo caído
o olhar guloso
vamos cara amiga
ora conte lá
quero que me diga?!
Eu não acredito
que vá de passeio
eu sei que é fingida
eu sei que é matreira…
Bem sabe que a vi
ontem à tardinha
a rondar a cerca
desta capoeira!
Olhe que as galinhas
os patos e os galos
não gostam de si
não vá visitá-los!
A mim não me engana
comadre Raposa
pensa que não sei
que é falsa e manhosa?!
Conheço-lhe a fama
da sua esperteza
siga o seu caminho
não seja gulosa!
Siga o meu conselho
volte lá para longe
onde tem a toca.
Eu não sou de brigas
nem armo em valente
mas vou estar à coca
vou ficar à espreita
pois não estou contente.
E saiba a comadre
se isto lhe aproveita
que eu sou cão pequeno
mas tenho bom dente!
Soledade Martinho Costa
Do livro Um-Dó-Li-Tá
Edição Figueirinhas
Considerada ainda não há muitos anos uma espécie de símbolo da coesão familiar, o linho representava, por isso mesmo, uma herança transmitida de pais para filhos, quer constituída por reservas de roupa branca de vestir e destinada à casa, quer em roupas do «bragal» (enxoval) das raparigas ou em peças inteiras guardadas em rolos nas grandes arcas, como um tesouro de real valia.
De um modo geral, tudo se fazia com o linho: lençóis, toalhas de mesa ou de rosto, colchas, camisas, saias, coletes, toalhas de altar e os antigos «sacos de côngrua», enfeitados com uma renda na abertura – que serviam para meter o milho oferecido em certas aldeias, pela maior parte das pessoas, ao padre no dia da visita pascal – o «compasso» –, como acontecia no Sobrado (Valongo, Porto).
As peças de vestuário ou destinadas à casa, confeccionadas em linho, na sua maioria bordadas, continuam, actualmente, embora dispendiosas, a ser amplamente comercializadas, tendo em conta a sua beleza e sentido da verdadeira riqueza que representam no contexto da nossa tradição artesanal – bem elucidativo, em termos de valor, no ditado local de Ponte de Lima (Minho): «Depois do ouro, é o linho».
Os «tomentos» eram antigamente utilizados em panais para a apanha da azeitona, colchões e sacos para guardar os cereais, enquanto a estopa (parte fibrosa e áspera do linho) era usada em calças, saias e aventais de trabalho – hoje a servir à confecção de carpetes, tapetes, reposteiros e ainda à execução dos trajos destinados aos ranchos folclóricos, onde se aplica, igualmente, a estopinha. Na sua forma artesanal, o linho pode apresentar trabalhos misturados com lã, seda, algodão ou estopa.
Por merecer reparo, registe-se que, no Porto, na noite de São João, mandava a tradição que fosse colhido um raminho de linho em nove linhares, formando com eles um único ramo, que se guardava depois com fins mágico-propiciatórios.
Em Santo Tirso (Porto), era igualmente hábito, entre Maio e Junho, irem casais de jovens aos campos de linho, antes deste ser arrancado, para formarem pares e rolarem sobre os linhares, num evidente ritual pagão de fecundidade, chamado ali, o «talhar da camisa» – tradição não completamente esquecida, pelo menos nas aldeias ao redor de Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto, Minho), onde os mais antigos e os mais novos continuam a manter o preceito. Por isso, a quadra: «Raparigas e rapazes/ Ó jovens de Portugal/ Vinde talhar a camisa/ Em cima do meu linhal.»
Localidades onde ainda hoje se semeia e tece o linho tradicionalmente, em laboração quer familiar, quer empresarial, e onde se manteve, ainda que em menor escala, ao longo do tempo, ou foi recuperada nos últimos anos a sua quase perdida produção, acontece, entre outros lugares, em Pedraça, Predaído, Corrilhã, Moreira, Covide, Apúlia, Tropeço, Nespereira, São Pedro de Raimonda, Soutelo, Paradela do Rio, Cruz dos Madeiros e Lombo do Curral (Santana, ilha da Madeira), local conhecido, antigamente, por «fazer os melhores panos de linho».
Considerada uma actividade caseira, praticada especialmente por mulheres, mostrava-se mais desenvolvida na região norte, com várias centenas de artesãs concentradas, sobretudo, no Vale do Sousa.
Na Beira Baixa (Alcains, Caria, Belmonte, Pêro Viseu, Oleiros e, principalmente, na Covilhã) o número de tecedeiras, por volta de 1865, segundo estatísticas da época, era de mil trezentas e noventa e cinco, que possuíam teares, enquanto o total de linheiras, que trabalhavam apenas os fios de linho, era de cento e uma. Actualmente, com o linho, na sua maioria, importado de Itália, Bélgica e Irlanda, para «urdir» (ir ao tear) e para «tapar» (já tecido), o número de tecedeiras e bordadouras é ainda de alguns milhares espalhados por todo o país, embora, mais marcadamente, em certas localidades e regiões, casos de Boucos, Guimarães, Agra, Arouca, Vilarinho, Simões, Vilarinho, Bilhó, Mondrões, Agarês, Castro Daire, Almalaguês e Vale de Cambra – com destaque para os bordados manuais de Lixa, Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira, que apresentam bainhas abertas, ponto aberto, crivo, matiz, alto-relevo, richelieu, etc…
A laborar de maneira artesanal, frente aos seus teares (e onde podem ser adquiridos os belos trabalhos em linho que produzem), vamos encontrá-las ainda noutras recônditas aldeias, como: Gondar, Várzea do Calde, Limões, Cerva, Fridão Fundão, Janeiro de Cima, Fundada, Parceiros, Almalaguês, Alcaravela, Cachopo e Cruz dos Madeiros.
Algumas das localidades em que se procede à encenação das antigas espadeladas, como espectáculo recreativo e cultural, situam-se em Corredoura (Guimarães), a cargo do rancho folclórico local; Moreira (Monção), a cargo da Casa do Povo de Vale da Gadanha; Barroças e Taias (Monção), a cargo da Junta de Freguesia e Ribeira de Pena (Trás-os-Montes), a cargo da Câmara Municipal.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
Foto: «As Tecedeiras», Diego Velásquez, Museu do Prado, Madrid
As espadeladas tradicionais, hoje já raras, podem ocorrer na própria eira ou ao serão, em casa dos lavradores, juntando-se familiares, amigos e vizinhos – em tempos mais recuados, com a participação de grupos de raparigas e rapazes vindos de aldeias vizinhas, trazendo as suas danças e cantares, acompanhados dos indispensáveis instrumentos típicos da região: bandurra, harmónica, concertina, bombo, pandeiro, ferrinhos…
Por vezes, juntava-se mais do que uma rusga, sendo a ocasião propícia a jogos, brincadeiras e namoricos, terminando o serão com um «magusto» ou o tradicional «ciinho» (pequena ceia servida em terras minhotas), um bailarico, cantares ao desafio, e um despique entre tocadores, ganhando sempre, não o que tocava melhor, mas o que tinha melhor reportório – tradição que se vai conservando, num lugar ou noutro, agora apenas com algumas cantigas.
Os «espadeladeiros», «espadeladouros» ou «cortiços», mais altos ou mais baixos, em madeira ou cortiça, enrolada em forma cilíndrica por meio de arame, com pedras no fundo, para lhes dar maior fixação ao solo, são utilizados pelas mulheres («espadeladeiras», «espadadeiras» ou «tascadeiras»), em pé ou sentadas atrás, a agarrar o linho à mão em pequenas porções e a colocá-lo na «boca» (abertura) dos «cortiços», procedendo à tarefa de «espadelar» ou «gramar» (bater) o linho com a ajuda da «espadela», «espadeladouro» ou «gramadeira» (espécie de cutelo em madeira), de forma a fazer desaparecer as arestas (fragmentos linhosos da planta) e a sacudir a palha e outras impurezas. Por acção do batimento vão-se soltando os «tomentos», ou seja, a fibra mais áspera do linho.
Mas o ritual do linho não acaba aqui. Cabe-lhe passar pelos dentes do «sedeiro» (de madeira, com dentes de ferro), a fim de separar o linho da «estopa», fibra igualmente áspera, e da «estopinha», fibra áspera, embora mais fina, ambas «rasteladas» ou «carpeadas» (penteadas) depois, com a ajuda do «rastelo« ou «carda» (pente arredondado, munido de cabo e varias fiadas de dentes metálicos), resultando daí os rolos alongados designados por «manelos» e «roçadas», provenientes dos «tomentos».
Segue-se o trabalho de fiar o linho, quase sempre também ao serão, junto da lareira, com a ajuda da roca e do fuso, a transformar o linho em fio e depois em meadas, utilizando-se o «sarilho», objecto rotativo – na serra de Arga feito de canas, noutros lugares em cana ou madeira.
A fase seguinte, chamada «barrela ou «cozedura», destina-se a «corar» (branquear) as meadas, feita durante uma semana dentro de «cortiços», panelas de ferro ou cestos (caso do Mezio, Beira Litoral), com as meadas escaldadas em água a ferver, à qual se junta cinza retirada da lareira, operação executada diariamente (chamada em Valongo (Porto), «joeirada»), com o cuidado de manter-se a «barrela» sempre quente e bem tapada. Há quem proceda à cozedura das meadas dentro do próprio forno, aquecido e depois revestido com palha-centeia, molhada, para «quebrar o calor», desta maneira demorando a «barrela» mais uns dias.
Em qualquer dos casos, a preferência vai para a cinza proveniente da lenha de vide, dizendo-se em Pedraça (Minho) que «as meadas estão «emburriadas» em cinza». Nesta localidade acrescentam-se à cinza algumas ervas «para amaciar o linho»: mentrastos, funcho e aradeiras.
Após a «cozedura», as meadas são batidas e lavadas nas pedras do rio ou num tanque grande, de preferência com água corrente, e estendidas para secar, enfiadas em canas dispostas nos campos.
Quando seco, o linho vai à dobadoira manual, para se fazer com ele os novelos, que são dispostos no «urdidor», «urdideira» ou «espadilha», equipamento que serve para montar a «teia» ou «urdidura», a resultar no cruzamento dos fios que vão ser tecidos, com o fio a passar ainda pelo «rastilho» (peça de madeira com vários dentes), a fim de colocar-se a «teia» no tear. Enchem-se seguidamente as «canelas», utilizando-se o «caneleiro», o fio passa para a «lançadeira» e começa-se então – com o tear a mover-se comandado pelos pés da tecedeira, num movimento sincronizado –, finalmente, a tecer o linho.
Hoje, naturalmente, com a maioria do nosso (pouco) linho a ser tecido por fiação mecânica (invenção ocorrida em 1810), verificando-se a instalação dos primeiros teares mecânicos em Guimarães no ano de 1884.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
Foto: «Tascar» o linho no «maçadoro», para o tornar flexível, Várzea de Calde, Viseu.

Após o campo destinado ao linhal ter sido bem estrumado, lavrado, gradado e dividido em leiras, para facilitar o trabalho da sementeira, esta é feita em lanço farto (às mãos cheias), verificando-se, por vezes, o antigo costume de molhar com saliva a cabeça do dedo polegar e encostá-la à terra: se vierem sete sementes agarradas a ela, o campo considera-se bem semeado. Um mês mais tarde procede-se à monda das ervas daninhas, tarefa bem patente na quadra: «Eu hei-de ir ao teu linhar/ Que o teu linhar tudo tem/ Tem gorga, tem saramago/ E pessêguelo também.»
O campo é regado ao fim de três dias de semeado, no caso do tempo estar quente, com pouca água, e não mais de doze vezes, divididas por várias alturas, durante o crescimento da planta, utilizando-se nesta operação um «basculho», feito com ervas secas amarradas na ponta de um pau.
Pelos inícios de Julho, perdida a flor, de um tom azul-violeta, o linho começa a ganhar uma cor amarelada e a apresentar nas extremidades a «baganha», espécie de casulo que substitui a flor, dentro da qual se encontram as sementes do linho, ou a linhaça (à roda de dez a doze sementes por «baganha», se o linho se apresentar forte): está na altura da «arrinca» ou «arreiga» (arrancar o linho à mão) – a juntar festivamente, ainda hoje, quem deseja ajudar na tarefa.
O linho é então reunido, sempre com a raiz para o mesmo lado, sendo-lhe retirada a «baganha» com a ajuda do «ripo», «ripador» ou «rapigo», utensílio de madeira semelhante a um grande pente com dentes de ferro (na Covilhã, Beira Baixa, chamado «ripanço»). A esta operação davam em Santo Tirso (Douro Litoral) o nome de «desbaganhar», «ripar» ou «arripinhar». Daí, que se continue a cantar em Pedraça (Cabeceiras de Basto, Minho): «Donde vens, ó Ana?/ Venho da montanha/ De regar o linho/ Que já tem baganha.»
Da linhaça, reserva-se uma parte para nova sementeira e a restante para a indústria de tintas e vernizes (óleo de linhaça) e fins medicinais – chás, com algumas das sementes dentro de uma «boneca» de pano, introduzida na água até esta ferver um pouco, ou nas antigas e conhecidas «papas de linhaça».
Liberta de sementes, a «baganha», depois de esmagada, servia em anos idos para encher os travesseiros e almofadas, tecidos, por sua vez, com linho suficientemente grosso, de modo a minimizar a relativa ou nenhuma macieza do enchimento. Acontecia assim em Pedraça, na serra de Arga (Alto Minho), em São Martinho da Gândara (Ponte de Lima, Minho) e no Mezio (Castro Daire, Beira Alta).
Depois da «arrinca» do linho e da sua separação em molhos, estes são «enriados» ou «afogados», isto é, mergulhados num tanque, entre dez a quinze dias, onde ficam para fortalecer e soltar a parte fibrosa, colocados em camadas paralelas, com tábuas por cima e algumas pedras sobre elas, de modo a conservá-los fixos e submersos. Em Roriz, Outeiro, Veiga e Leiroinha (Braga) com as chamadas «poças do linho» (já desaparecidas), usadas outrora unicamente para esse fim.
Retirados da água, abrem-se os molhos e deixam-se no campo a «corar» de oito a doze dias, após o que são malhados na eira com um mangual, para quebrar a palha. A tarefa imediata (reduzida sempre que se procede à operação anterior), consiste na «massagem» efectuada no engenho hidráulico (outrora de tracção animal), com o linho «maçado» ou «tascado» no «maçadouro» (laje lisa), para se tornar flexível, tomando em Valongo (Douro Litoral) o nome de «estrigão» e em Pedraça (Minho) a designação de «maça» ou «manta». A partir desta altura o trabalho começa a ser executado somente por mulheres.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI
Ed. Círculo de Leitores
Foto: flor do linho
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