
Ao redor dos teus ombros
Dos teus pulsos
Sobre um mar
Forjado
Onde o Outono
Se despede dos frutos
E das aves
Há barcos à deriva
Naufragados na mentira
Que te amordaça a sombra.
À volta do teu corpo
Dos teus passos
Nas manhãs
Enevoadas do olhar
Os mesmos rios
Confusos
Entre as margens
Os mesmos dias calados
Por dizer.
O mesmo voo
Sem asas
Sufocado
As mesmas rosas
Esfolhadas
Por abrir
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
Tela:Duy Huynh

Com o sangue do porco, a escorrer devagar para um tacho, é que se preparam as famosas «papas de moado», doce tradicional do Baixo Mondego, desde Penacova a Buarcos (Figueira da Foz, Beira Litoral). Além do sangue do animal, as papas levam água, um pouco de farinha, açúcar, banha de porco, sal, cominhos, cravinho, casca de limão, pinhões, passas de uva, nozes e canela – mexendo sempre para o mesmo lado, como manda o preceito.
É também com o sangue cozido do porco que se confecciona, principalmente no Norte, o apreciado «sarrabulho», bem condimentado, misturado, por vezes, com papas de milho. Em terras do Minho recheia-se com «sarrabulho» e mel o bucho do porco, assado depois no forno, enquanto nas Beiras o bucho é recheado com a mistura do enchido das morcelas, a que se junta arroz. Em Sarzedas, come-se o sangue cozido, cortado às fatias, temperado com salsa, alho, vinagre e azeite.
Na ilha da Madeira, pelo Natal, após a primeira «Missa do Parto», quando se procede à matança do cevão, madrugada dentro, o sangue é utilizado para o tradicional «sarapatel», com o sangue do porco temperado com sal, ao qual se juntam passas e nozes. As «buchaninhas» (bucho do porco recheado com arroz), costumam ser oferecidas em pratinhos às pessoas mais gradas e aos amigos. Nas ilhas dos Açores, quando se diz «já fiz o meu Natal», significa «já matei o meu porco».
O tão apreciado presunto (cortado da perna), após bem esfregado com sal, alhos e vinho branco, fica em repouso até ao dia seguinte. Nessa altura é completamente introduzido em sal, numa salgadeira bem tapada, onde permanece durante quarenta dias – chegando, na Beira Litoral, a ficar no sal durante dois meses ou mais. Passado esse tempo, lava-se com água ou vinho branco, para retirar o sal, e vai ao fumeiro não mais de uma semana, por vezes metido numa saca de papel grosso para não ficar muito negro e a cheirar a fumo. Por fim, é barrado com uma mistura feita com massa de pimentão, colorau e azeite. O presunto só deve ser comido um ano depois, havendo mesmo quem prolongue esse espaço de tempo – é evidente que nos estamos a referir ao bom presunto. Mas há também quem o coma bem mais cedo.
As várias gorduras retiradas ao porco, destinam-se, depois de derretidas, à feitura da banha, resultando os resíduos nos torresmos. Outra espécie de torresmos, muito apreciada, é feita com a gordura da «barrigueira», à qual se junta pedacinhos de bofe, fígado e coração. A banha mais fina é conseguida com a gordura que envolve o bucho do porco, de aspecto arrendado, a dar pelo nome de «véu», «lencinho», «ressó», «riçol» ou «redenho», conforme as localidades – dizendo o povo ter sido a partir dele «que a mulher teceu a primeira renda».
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas
Ed. Círculo de Leitores, Vol. VIII
Depois dos tradicionais repastos conjuntos para celebrar a matança do porco, dá-se início à tarefa, entregue às mulheres, de lavar as tripas e migar para os alguidares as carnes destinadas aos enchidos: paios, chouriços, linguiças, farinheiras e morcelas grossas e finas, picado esse que, em Aljezur (Faro, Algarve), continua a ser benzido e marcado («sulcado») com uma cruz e depois bem tapado até ao dia seguinte.
Mais recuadamente, por essas aldeias, cada família criava o seu porco para a matança anual e, por vezes, dois suínos. A manter hábitos antigos, de norte a sul do País, muitos dos animais ainda são criados junto da casa dos donos, em pocilgas ou «furdões», e alimentados «à pia»: restos de comida, «farinha da saca» («ração»), a substituir os farelos cozidos (parte grosseira da farinha de milho depois de peneirada, que dá mais gordura ao porco, hoje pouco utilizada), frutos sorvados ou tocados, hortaliças, etc., pois de tudo o suíno se alimenta.
Outra praxe mantida na Beira Baixa, consiste em oferecer aos familiares, amigos e vizinhos, que não estiveram presentes na matança, uma «fritada», constituída por um pedaço de fígado, outro do lombo, uma morcela e outros pedaços de partes do porco, tudo em cru, levado num prato, presente retribuído depois por quem o recebe, quando, por sua vez, mata o seu suíno.
Em Aljezur e noutras localidades do Algarve oferece-se a «moleja», outrora sangue e pedacinhos das miudezas do porco, cozidos em água, a que se juntava arroz, hoje constituída pelos mesmos pedacinhos das miudezas e um naco de carne (crus), uma morcela, uma farinheira e um pouco do caldo onde se cozeram as morcelas, destinado às tradicionais «papas mouras» algarvias, para «serem feitas na casa de cada um».
Outro uso da Beira Baixa, que já não se verifica, consistia na chamada «adua», podendo os animais pertencer a um ou a vários donos. A pastagem principiava no dia 20 de Janeiro (dia de São Sebastião), quando os sobreirais eram «largados» pelos respectivos proprietários, depois de colhida a «lande» (bolota) da azinheira e dos sobreiros, terminando o pastoreio dois meses depois. O pagamento ao guardador fazia-se «por cabeça» (consoante o número de porcos). A prática comunitária deste pastoreio, ou da «adua», exigia que durante esse período de tempo os animais fossem conduzidos apenas pelo mesmo guardador. Por essa época, localidades havia rodeadas de frondosos sobreirais, caso de Alcains. Por isso se cantava: «Sobreiro que dás bolota/Porque não dás coisa boa? /Cada um dá o que tem/Conforme a sua pessoa.»
Também em terras da Beira Baixa, quando um porco está doente, é costume ainda hoje, o dono do animal prometer ao santo da sua devoção (quase sempre a Santo António) um chouriço do comprimento do porco na altura da matança. Daí, em Sarzedas (Castelo Branco), os «chouriços das promessas» serem colocados num andor e vendidos depois num leilão que tem lugar no adro da igreja, com o dinheiro a reverter para melhoramentos no templo – antigamente com os chouriços metidos em cestos e entregues a um rapaz encarregado de os vender pelas ruas no dia da festa do santo.
Prática semelhante verificava-se em Mós (Moncorvo, Trás-os-Montes e Alto Douro), onde, dias antes do Natal, tinha lugar uma romaria à Capela do Menino Deus («hoje restaurada, porque nem sequer um altar possuía») para levar um porco, oferecido em promessa pela população.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas»
Ed. Círculo de Leitores,Vol.VIII
Foto: Fumeiro, Chaves, Fernando Ribeiro

Em diversas zonas do País, a matança do porco simboliza um acontecimento da maior relevância no conjunto das tarefas cíclicas do nosso calendário rural. O seu início – pretexto para a reunião da família, dos amigos e vizinhos e motivo para os repastos conjuntos – pode ir de Novembro até inícios de Fevereiro, beneficiando do tempo mais frio e a constituir, na grande parte das aldeias portuguesas, uma das mais tradicionais celebrações familiares rurais. Na ilha da Madeira a matança começa a partir do dia 8 de Dezembro, sempre de madrugada.
Ocasião festiva e acontecimento que se reveste de particular importância do ponto de vista económico, uma vez que as carnes, os enchidos, o toucinho e a banha representam alimentos fundamentais da família ao longo do ano, a matança do porco encontra-se associada a algumas praxes e rituais mantidos até hoje no seio da comunidade rural.
Ficamos a saber que as mulheres, durante o período menstrual, «não devem aproximar-se da carne», nem mesmo «do lugar onde decorre a matança», segundo o povo «porque podem, sem querer, estragar a carne». Outro costume consiste em colocar sobre a carne, depois de temperada com sal e pimentão, algumas rodelas de laranja «sempre em número ímpar».
Em certas localidades da Beira Baixa, antes do suíno ser agarrado, continua a observar-se a praxe dos donos do porco oferecerem a quem toma parte na matança (ou «matação») figos secos, vinho e aguardente. No Algarve mantém-se a oferta de filhoses, café e aguardente de medronho, oferta que se estende às pessoas conhecidas que passam na rua.
Depois de morto e chamuscado, o porco é pendurado pelo «chambaril» (antigamente um pau curvo, hoje um ferro, que se enfia nos «jarretes», parte posterior da articulação do joelho do animal), num local apropriado, de cabeça para baixo, tarefa nem sempre fácil quando se trata de um cevado de grande porte, ocasião que obriga, na Beira Baixa, a que os presentes digam bem alto: «Porco acima, vinho abaixo!», a dar motivo para se beberem mais uns copos…
Nessa posição é feita a «abertura», ou seja, é aberto pela barriga, sendo-lhe retirada em primeiro lugar a tira de gordura («barrigueira»), com febra no interior (há quem lhe chame toucinho), que vai da parte inferior do pescoço até entre as pernas traseiras, e de seguida as vísceras (miudezas) e as tripas. O toucinho ou entremeada encontra-se agarrado, de lado, à costela baixa.
O sangue do animal é recolhido num alguidar, onde se deitou sal e vinagre (ou vinho), que se vai mexendo com uma colher de pau para não coalhar, só parando esta operação quando o sangue se encontra completamente frio.
O porco fica no «chambaril» até ao dia seguinte, para arrefecer, altura em que a carne é «desmanchada», separando-se as «peças» destinadas ao fumeiro (enchidos) e as que vão ser guardadas nas arcas frigoríficas – outrora nas salgadeiras, embora o toucinho continue a ser conservado no sal.
Os paios, as morcelas, as farinheiras e os chouriços só devem permanecer no fumeiro no máximo oito dias «para não azedarem». Anteriormente os enchidos eram conservados submersos em azeite, dentro de potes de barro, chamados, na aldeia de Bom Velho de Cima (Condeixa, Beira Litoral), «açucareiros».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Valpaços, Vila Real, Trás-os-Montes

Para que a azeitona possa ser comida e saboreada como merece, é necessário prepará-la em várias fases: a primeira consiste em escolhê-la, lavá-la e metê-la em água fria com sal durante «uma noite e um dia», para «sangrar» (retirar-lhe a água escura que contém e também para que fique mais rija).
A operação seguinte serve para dar em cada uma delas três (ou mais) «retalhos» (cortes). Se for para conservar ao longo do ano, metem-se as azeitonas num pote de barro, com água fria e bastante sal, folhas de louro, alhos e algumas ervas, como o «tremantelo» (Beira Litoral), que lhe garante a conservação. Geralmente, permanecem nesta água durante todo o tempo. No caso de ser mudada, «volta-se a colocar-lhe os temperos».
Para ser comida rapidamente, retalha-se depois de «sangrada», tempera-se com alhos e louro e deita-se-lhe por cima água quase a ferver, a que se juntou sal, operação que se repete de manhã e à noite, pelo menos, durante três dias seguidos.
Num processo mais lento, podem juntar-se às azeitonas alhos, louro e orégãos, tendo o cuidado de lhe mudar a água várias vezes na semana ou todos os dias (sempre fria), com um pouco de sal de vez em quando, durante um mês ou mesmo mais. Há quem prefira…
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol VIII
Ed. Círculo de Leitores

A apanha da azeitona, por lugarejos, aldeias e vilas, sobretudo se a safra é pequena, continua, como já foi referido, a processar-se por varejo manual, como antigamente, embora hoje simplificada por acção mecânica. Mas, se do presente pouco há a dizer, do passado não. Por isso se lembra aqui algumas das tradições de outros tempos das quais restam ainda alguns rituais que teimam em sobreviver.
Na Beira Baixa os «azeitoneiros» eram chamados diariamente para a colheita da azeitona pelo toque de búzios. Ao chamamento reuniam-se homens e mulheres munidos dos respectivos apetrechos indispensáveis à safra: escadas; cambos ou cambãos (pau com gancho para apanhar os frutos); joeiras ou cirandas (espécie de peneiras para separar o fruto das folhas); sacos; panais (panos que se estendem junto às oliveiras onde caem as azeitonas) e o varejão (vara grande para varejar as oliveiras), assim se dirigindo para os olivais, levando também os cestos da merenda. A hora do almoço e do jantar tal como o cessar da actividade diária eram, igualmente, anunciados pelo toque do búzio.
Terminada a safra o proprietário do olival ou olivais obsequiava então – como se faz na Beira-Baixa ainda hoje – os ranchos com uma refeição, geralmente uma ceia composta por «uma sopa de feijão grande com hortaliça» (uso que permanece), «caldeirada de bacalhau» (hoje substituída por um guisado de borrego ou de cabrito) e «papas de carolo», nunca faltando «as filhoses e o vinho» – tudo isso mantido actualmente de um modo mais restrito e familiar.
Acabada a refeição, organizava-se uma pequena festa com bailarico, que, por vezes, continua a efectuar-se. Por essa época, finais dos anos sessenta, sempre que aparecia uma visita no olival levada pelo patrão, principalmente quando se tratava de pessoa de certa posição social, uma das raparigas do grupo, escolhida entre as menos tímidas, munia-se de um raminho de oliveira com algumas azeitonas, misturado com flores silvestres e oferecia-o ao recém-chegado, quase sempre acompanhado com uma quadra que lhe dissesse respeito. No caso de a visita aparecer no lagar, acontecia outro preceito: com um pano dirigia-se à pessoa e, simbolicamente, limpava-lhe os sapatos. Usos que já lá vão.
Quer na ida para o olival, quer no regresso, e durante a apanha da azeitona, não faltavam também os descantes – cantigas lembradas e recuperadas hoje pelos ranchos folclóricos. Aqui fica uma delas: «Varejai, varejadores/Apanhai, apanhadeiras/Apanhai bolinhas d’oiro/Que caem das oliveiras». E ainda esta: «A oliveira do adro/Tem a folha revirada/Que lha revirou o vento/Numa manhã de geada» (ambas do Teixoso, Beira Baixa).
Em Ançã (Beira Litoral), onde chamavam «cabras» às azeitonas que caíam fora dos panais de serapilheira, hoje substituídos pelos «panões», feitos de outros materiais – que cobrem a área total ao redor das oliveiras, sendo por isso menor o trabalho das mulheres –, os apanhadores cumpriam o uso de «penhorar» quem passava pelo olival. Uma das raparigas dirigia-se à pessoa levando um raminho de oliveira com algumas azeitonas agarradas e dizia-lhe uma quadra. Esta, no caso de ser um homem: «Aqui vai esta «penhora» /Que da minha mão se oferece/Ela não é como eu quero/Porque o senhor mais merece».
A pessoa respondia por vezes também em verso, não deixando de oferecer algum dinheiro que os apanhadores iam juntando, para no final da safra oferecerem um presente ao patrão. Nesta altura, formava-se um cortejo com música, a rapariga mais bonita do rancho à frente, seguindo até à casa do lavrador. À chegada estalavam os foguetes e oferecia-se o tradicional presente que consistia num cartucho com café, outro com chá, um outro com açúcar, biscoitos, amêndoas e azeitonas, levado num tabuleiro forrado com uma toalha de renda enfeitada com raminhos de oliveira.
Chamava-se ao ritual «penhorar o patrão». Em troca, depois dos abraços, o grupo entrava na casa, sendo-lhe servida uma refeição de sopa, bacalhau com batatas e vinho branco e tinto. Os trabalhadores sentavam-se à mesa, enquanto eram servidos pelos patrões, mulher e marido – a lembrar as Saturnais romanas, quando os escravos eram servidos à mesa pelos seus amos. A festa terminava com um bailarico que durava até altas horas, aberto pelo lavrador que escolhia para seu par uma das raparigas do rancho. Este cerimonial festivo repetia-se noutras localidades.
Uma outra tradição que se mantém, pelo menos na Beira Baixa e na Estremadura, diz respeito às «tibornas», manjar particularmente apreciado na época da safra da azeitona, sobretudo quando os lagares começam a «andar» (trabalhar), recordando a importância cultural e económica que lhes coube por tempos passados, quando grandes lagares de azeite funcionavam em pleno pelas quintas, hoje na sua maioria arruinados, companheiros de desdita de velhos e abandonados moinhos.
As «tibornas» mais não são do que fatias de pão aquecido na própria caldeira do lagar, colocadas num prato, polvilhadas com açúcar e regadas depois com azeite novo. O nome «tiborna» aparece também ligado à doçaria («tibornas» de Vila-Viçosa) ou feitas em casa, quando se coze pão, com este bem quentinho, mal sai do forno, molhado num prato com azeite novo, alhos e sal. Quem gosta junta-lhe um pouco de açúcar.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”,Vol.VIII
Ed. Círculo de Leitores

É geralmente nos inícios de Novembro (por tempos mais recuados em Dezembro) que se procede à apanha da azeitona, a estender-se até ao mês de Janeiro.
Actividade ligada à extracção do azeite, de grande significado no que respeita à parte económica relacionada com o agregado familiar, apresenta-se nos dias actuais com menor relevância no âmbito das pequenas comunidades, devido aos poucos lagares ainda em condições de funcionamento e à redução do número das nossas oliveiras – a trazer à lembrança tempos de grandes olivais, de grande produção de azeite, de grande alegria (apesar do árduo trabalho), manifestada pelos antigos ranchos de «azeitoneiros» ou «apanhadores» de azeitona, chamados na Beira Litoral «branjadores» ou «barejadores» numa derivação popular da palavra «varejar» («barejar» no dizer local).
Por lugarejos, aldeias e vilas continua a tratar-se do pouco que resta, pertença de passados bens, que as mãos e o conhecimento de quem sabe e os herdou teima em não deixar morrer, com alguma fé no futuro e (ainda) nas gerações futuras.
É nesses locais que os dias acordam para realizar a tarefa feita como antigamente – sabendo-a, embora, simplificada por acção mecânica – a repetir ritos e trabalhos, confraternização e risos, nascidos das raízes da tradição de um tempo que não se apaga da memória das gentes.
Utilizando o varejão ou empoleirados nas escadas de muitos degraus, continuam os homens a varejar as oliveiras, enquanto as mulheres, curvadas sobre os panais, vão apanhando as azeitonas com que enchem os poceiros de plástico (a substituir os antigos cestos de verga), levados depois para os atrelados dos tractores (que os carros de bois transportavam por tempos idos).
Quando a safra é pequena, a azeitona colhida, apenas dá para a chamada «troca» feita no lagar, com as azeitonas medidas por poceiros (vasilhas de plástico), outrora na «fanga» (espécie de padiola conduzida por um ou dois homens), de modo a que o seu peso correspondesse ao azeite recebido em troca. Acima de doze poceiros (um «munho» ou «prensada») já o agricultor pode mandar fazer o seu próprio azeite: quantos mais «munhos» entregues no lagar, maior a quantidade de azeite recebido. Conforme as regiões, a azeitona é verde ou preta, miúda ou grande, sendo as mais conhecidas a cordovil, a cordovesa, a bical, a picoal e a curançosa, entre as mais de cinquenta variedades existentes.
Após a sua entrega no lagar, as azeitonas são limpas de impurezas, lavadas e geralmente salgadas com sal grosso. Depois disto, são depostas na «tulha», passando desta para as «galgas» ou «farneiro» (pedras das mós entre as quais é moída) e dali por uma tubagem accionada pelo «sem fim» para a «batedeira» ou «aquecedor» (depósito de forma cilíndrica), de modo a que a massa ou pasta da azeitona seja aquecida em temperatura média, graças à «serpentina» que transporta água quente e reveste o interior do depósito.
A massa cai depois num tabuleiro, sendo levada em «gamelas» ou numa pá até à prensa, onde a pasta da azeitona é espalhada em camadas, cada uma delas tapada com o «capacho» ou «seira» (de esparto ou sisal, de preferência ao material plastificado), para ser calcada e prensada. Nesta operação podem ser utilizados entre quarenta a cinquenta «capachos», alternando com outras tantas camadas de azeitona, cada camada correspondendo, aproximadamente, a dez quilos de pasta de azeitona.
O líquido assim obtido corre da prensa para as pias ou talhas de pedra (designadas, antigamente, na Beira Litoral, por «tarefas»), tomando, a partir daí, o nome de «águas russas». A substância permanece nas pias entre três a quatro horas para efectuar-se a decantação, ou seja, para que o azeite venha ao de cima, enquanto as impurezas ou «almofeira» é escoada pelo «ladrão», uma abertura no fundo da pia, que a leva para um outro depósito, que não se encontra à vista. As impurezas ou subproduto escoado e depositado no «ladrão» é utilizado em várias aplicações: rações para animais, óleos, sabões, etc.
Segue-se o «caldeamento», efectuado com a ajuda das «gravanadas» (regadores com um bico), isto é, junta-se ao azeite cerca de trinta litros de água fervente por pia, ao mesmo tempo que a mistura é mexida e «medida», utilizando-se para isso varas de marmeleiro. Sempre que possível, o azeite permanece nas pias durante vinte e quatro horas, até «assentar» e ser retirado já limpo.
Depois destas voltas, eis a riqueza do fruto transformado em azeite. Convertido no milagre do alimento e da luz. O ouro liquefeito no prato ou na candeia. Ou na lamparina que alumia o sono e também a vigília dos santos.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.VIII
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros

Acontecia de vez em quando. Acontecia quanto menos se esperava. Até que começou a esperar-se que acontecesse.
Inesperadamente, do lado de fora da sala de aula, o rosto do garoto aparecia emoldurado pelo aro da janela. Os alunos ficavam desassossegados, desatentos às palavras da professora. Olhos fitos na janela aguardavam o início das momices, dos esgares, das caretas, das «palhaçadas» que costumavam presenciar, quais espectadores sentados numa plateia diante de um palco onde um único actor, por mímica, era o ponto central de toda uma encenação que os fascinava pela ousadia. Pelo desafio. Pela «arte» de os fazer rir.
Ora escondia o rosto, baixando-se, para logo reaparecer em «cena». Ora entortava os olhos ou fazia súplicas com as mãos olhando o céu. Sempre sem uma palavra. Conforme aparecia, assim desaparecia do recorte da janela.
Mais de uma vez a professora saiu, interrompendo a aula, dirigindo-se ao recreio para onde davam as janelas da sala. Mas nem por uma vez conseguiu apanhar o garoto. Vê-lo, sequer. Ao aperceber-se de que a professora ia no seu encalço, ei-lo a desaparecer como o fumo.
Quem era? Conheciam-no? Era colega? Viam-no no recreio? Pertenceria a outra escola? Que não, que não sabiam. Não o conheciam. No recreio também não o viam. Talvez fosse de outra escola, sim.
Num desses dias de «espectáculo», um dos alunos, sentado mais perto da janela, gritou-lhe: «Macaco!» O outro riu. Fez mais umas momices e, tal como apareceu, desapareceu, lesto na manha, na perspicácia e no atrevimento, como se o chão o tivesse engolido.
A professora fez algumas diligências no sentido de saber quem era o garoto. De nada resultou.
Habituados já à presença do «actor», os alunos, para arrelia da professora, começaram por olhar, de vez em quando, a janela à espera de verem o rosto conhecido. Pouco atentos. Na expectativa. Na esperança de se divertirem. De terem o ansiado momento de pausa sempre apetecida. Mas nem sempre acontecia. Quem sabe se o «actor» não teria agendadas outras actuações?
Aconteceu certa manhã. A janela estava aberta quando o rosto do garoto assomou, repentinamente, por ela. Instalou-se o silêncio entre os alunos. O rosto que viam não era o mesmo. Onde a liberdade do riso? Das momices? Da traquinice?
Desta vez, do lado de fora da janela, o garoto olhou as outras crianças e falou. Pela primeira vez falou. Voz soluçada, molhada de lágrimas na alma e no rosto: «Que querem vocês, hein?! Acabou-se o amendoim, ouviram? Acabou-se o amendoim!»
A turma não riu. Surpresos, olhavam o garoto com fama de engraçado. As coisas tinham mudado. Havia infelicidade naquele rosto e naquelas palavras. A professora levantou-se. Correu para a porta. Tentou chamar a criança. Mas aqueles olhos, brilhantes de lágrimas mal contidas, rápidos, tal como haviam surgido, assim desapareceram do recorte da janela. A professora não conseguiu localizá-los.
Desde esse dia, o «actor» desconhecido não voltou a interromper a aula. Anos volvidos, alguns dos ex-alunos continuam a guardar na memória dos olhos as suas momices e as lágrimas com que se despediu.
Soledade Martinho Costa
Do livro Crónicas de Porcelana
Edições Sarrabal

Associado pela sua miraculosa protecção às grandes pestes e epidemias que grassaram nos séculos XIV e XV até meados do século XVI, uniu-se o povo, em Portugal como noutras partes do Mundo (particularmente em Roma), em promessas conjuntas de apelação ao santo, canonicamente advogado da peste, da fome e da guerra, para que, por sua intercessão junto de Deus, fosse possível a extinção do mal que tão triste e dolorosamente castigava as populações.
Crentes no poder do Mártir São Sebastião, para o santo se voltaram as preces, os votos e a fé do povo. E porque em determinados casos, o povo se sentiu alvo de milagrosa protecção, por ter sido erradicado o pesadelo da peste, eternamente devedor e grato, vai cumprindo ao longo dos séculos as promessas feitas em horas de luto e aflição.
São Sebastião surge, assim, por esse particular motivo (e pela data da sua celebração ocorrer no dia 20 de Janeiro), como um dos santos mais consagrados neste mês em festas e romarias portuguesas, onde a tradição se confina, na maioria das vezes (em analogia aos votos conjuntos feitos pelo povo dessas épocas), à distribuição de manjares cerimoniais, bodos ou leilões de alimentos, em que se torna evidente o sentido de associação das populações em manducações rituais colectivas.
Sem esquecer a fome, outro símbolo do santo protector, dadas as condições geográficas de certas zonas do nosso País, em que uma agricultura de subsistência familiar, já de si débil, era atingida por pragas, dando origem a períodos de enorme carência alimentar, sofrida pelos seus habitantes, ou associada à própria peste, como consequência desta.
A fome, hoje retratada pela abundância de alimento nos banquetes rituais conjuntos celebrados em louvor do Santo Mártir, a honrar a tradição das promessas vindas do passado, apresentam particular relevância nas festividades da Póvoa de Atalaia, Fundão (Festa das Papas); em Santa Maria da Feira (Festa das Fogaceiras); em Atouguia, Alenquer (Festa dos Leilões); em Dornelas, Boticas (Festa de São Sebastião); em Valado de Frades, Nazaré (Festa das Chouriças); em Amiais de Baixo, Santarém (Festa em Honra do Santo Mártir) e em Gondiães e Samão, Cabeceiras de Basto (Festa das Papas). São Sebastião é também o santo que mais capelas possui espalhadas pelo nosso País, onde é celebrado no seu dia ou mesmo noutras datas
Conta-se que quando da peste que assolou Lisboa em 1569, D. Sebastião, em acção de graças, lhe mandou erigir um templo, sendo a primeira pedra lançada pelo rei junto à margem do Tejo, no Terreiro do Paço. Quatro anos depois (1573), a seu pedido e para enriquecimento do templo, o papa envia-lhe de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.
Quando Filipe II de Espanha toma posse do reino de Portugal, desaprova de imediato a construção do templo naquele local. Ao saber que o Mosteiro de São Vicente necessitava de obras, manda que este seja restaurado com a pedraria e materiais do templo de São Sebastião.
Por isso se observa nos capitéis das colunas e no friso da cimalha real da Igreja de São Vicente o ornato, em relevo, de flechas aspadas. Pertenciam à cantaria do templo que o rei D. Sebastião, por voto seu, desejou erguer ao Santo Mártir do seu nome.
SÃO SEBASTIÃO – A VIDA
Nasceu em Narbona (Itália), recebendo o cognome de «Defensor da Igreja» pelos feitos e milagres que realizou em defesa da fé. Humilde, afável, generoso, conhece os favores do imperador Diocleciano, que o nomeia capitão da primeira companhia das guardas. Devido à imunidade que lhe dava esse posto, pode Sebastião proteger e socorrer muitos cristãos, principalmente os que se encontravam encarcerados. Muitos foram também aqueles a quem converteu, contando-se entre eles o primeiro-escrivão do tribunal, o carcereiro e o próprio Cromácio, governador de Roma.
A perseguição aumenta, e muitos dos seus amigos são sacrificados. Fabiano, sucessor de Cromácio, ao descobrir que Sebastião protege e converte os pagãos, não se atrevendo a prendê-lo, informa o imperador. É então que Sebastião tenta converter Diocleciano, dizendo-lhe que só devia adorar e servir «o único e verdadeiro Deus».
Furioso, o imperador romano manda que Sebastião seja amarrado a um poste e atravessado com flechas pelos próprios soldados da sua guarda. A ordem é cruelmente cumprida, mas na manhã seguinte, Sebastião ainda está vivo. Socorrido por uma boa mulher, em poucos dias sara as feridas. Pouco depois, dirige-se ao palácio e volta a falar com o imperador, que se mostra surpreendido ao vê-lo vivo. Sebastião tenta de novo converter Diocleciano do seu erro, mas o imperador manda de imediato executá-lo, desta vez com varas, no meio do maior suplício. Corria o ano 288, tendo o seu corpo sido arrojado a um lugar imundo.
Após a sua morte, diz-se que apareceu a uma cristã de nome Luciana, pedindo-lhe que fosse buscar o seu corpo e o enterrasse no Cemitério de Calisto, em Roma.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol.I
Ed. Círculo de Leitores
«Martírio de São Sebastião», Gregório Lopes, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga

Fui amiga de Eugénio de Andrade. Trocámos correspondência; falávamos por vezes ao telefone; por esses anos, o afilhado, ainda pequeno, mandava-me cartinhas com bonecos; ofereceu-me um poema inédito quando o entrevistei. Um ponto a meu favor porque Eugénio de Andrade não gostava e não dava entrevistas. Entretanto, a entrevista perdeu-se depois de a ter entregue no jornal. Falei com ele. Riu-se e disse-me: «Ah! Isso, agora, só para a próxima encarnação!». Mas deu-me o contacto de um amigo «que lhe guardava tudo» E, sim, tinha uma cópia. A entrevista saiu no jornal e está no meu livro Inquérito ao Livro Infantil. É um dos nomes do meu livro O Nome dos Poemas. Já não viu.
EUGÉNIO DE ANDRADE
Na brancura das rosas
A tua solidão
O fel que macula os dias.
Nos teus olhos
Asas em voos de coragem
Beijos
Desejos
Tentação.
O teu labor preso na folha de papel
Como o sabor do mel sobre o pão.
Soledade Martinho Costa
Do livro O Nome dos Poemas
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