Terça-feira, 29 de Novembro de 2022

AS QUATRO SEMANAS DO ADVENTO

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Têm início no primeiro domingo que antecede as 4 semanas do Advento. Este ano é celebrado de 27 de Novembro a 24 de Dezembro.

Do latim Adventus (chegada), representa, para os fiéis, o período de preparação e de reflexão, na antecipação da alegria pelo Nascimento de Jesus Cristo. Significa ainda, tempo de fraternidade e de paz.
 
A simbologia da Coroa do Advento:
 
A forma circular, sem princípio nem fim, lembra o amor de Deus e a união e a aliança entre Deus e os crentes.
 
Os ramos verdes indicam a cor da esperança. A crença de que Deus nos conceda a sua graça, o seu perdão e a glória da vida eterna no final das nossas vidas.
 
As quatro velas traduzem, cada uma delas, uma das quatro semanas do Advento. A primeira vela deve ser acesa na primeira semana, e, assim, uma a uma, simbolizando, com o acender da ultima, a chegada de Jesus, Luz do Mundo, que dissipa toda a escuridão.
 
Em casa, a Coroa deverá ficar exposta num lugar destacado e visível, se possível abençoada pelo pároco.
 
A Liturgia da Coroa do Advento deverá ser feita em família, com os membros colocados ao seu redor, cabendo a cada um deles uma função: a de acender a vela que corresponde à semana; a leitura de uma passagem da Bíblia, própria do tempo do Advento; algumas orações em conjunto e meditação.
 
A Liturgia deve ser efectuada nos domingos de Advento.
 
 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 22:32
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2022

NUNCA É DEMAIS FALAR DE CRISTIANO RONALDO

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As gerações vindouras irão ouvir falar de ti, Cristiano Ronaldo. como de uma lenda, de um fenómeno, de um atleta exímio na arte do futebol, cujos dotes quase não se acredita que possam habitar num corpo humano. Alguém que tem na bola a sua grande paixão, desde sempre correspondida. Gerações que vão ficar deslumbradas perante os vídeos que hão-de passar sob os seus olhos e surpreender-se com muitas imagens como esta. Nem pareces real! Exerces um domínio absoluto sobre a bola, numa técnica e estilo só teus: entre o querer e a vontade, o conhecimento adquirido e o dom que te foi, misteriosamente, concedido. Não houve nem haverá outro jogador igual. Gerações que terão inveja da nossa geração afortunada, que teve a sorte de acompanhar a tua carreira. De assistir ao prodígio insuperável da tua alegria contagiante em campo, da tua postura, onde exibes a tua faceta, tão própria e pessoal, de acrobata circence, ginasta e dançarino! Em jogo, és o centro de todos os olhares. De todas as emoções. Da admiração de todos os povos, rendidos perante as tuas prodigiosas actuações por esses relvados. Foi bom e uma sorte para todos nós, teus admiradores, estarmos por cá nestas décadas e assistir ao teu apogeu. Obrigada, Cristiano Ronaldo por teres proporcionado ao mundo momentos de jogo quase irreais - que te custaram muita dedicação, muito trabalho, muito esforço. E muita glória! Deus continuará a acompanhar-te na tua carreira como futebolista, mas, também, como o ser humano em cujo coração a bondade fez morada.

 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 06:10
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Sábado, 19 de Novembro de 2022

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - OUTONO

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O lusco-fusco instala-se. Batem novas badaladas na torre da igreja. Os homens e as mulheres regressam da faina do campo. Das chaminés, começa a sair o fumo que anuncia a ceia. Os pastores, chegam com os seus rebanhos e encaminham-se para o redil. Amanhã será um outro dia de trabalho. Agora, é preciso comer e repousar. E que bem sabe a sopa, a broa, o queijo e as azeitonas! Mas as tarefas lá estão, do lado de fora das paredes que os abrigam, à espera das mãos, dos braços, do esforço e do suor. Porque a terra necessita de amanho, as árvores de cuidados, as plantas e os animais do zelo que os fará medrar. E enquanto os filhos já dormem, os homens e as mulheres falam dos afazeres que os aguardam durante os meses do Outono. Do lavrar da terra para nela semearem o trigo e a cevada. Do mel e da cera que terão de recolher das colmeias. Da vinha, a precisar de ser escavada e estrumada. Do cortar das canas e dos ramos secos e apodrecidos das árvores. Do feno, na altura de ser guardado, para servir de sustento ao gado no Inverno. Da apanha da castanha e das nozes. Dos vinhos, na fase de serem vigiados nas adegas. Da horta, onde irão semear as couves, as ervilhas e as favas. Dos cravos, dos goivos e da alfazema, que vão semear e plantar nos canteiros, para alegrar e perfumar a entrada das casas.»

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Histórias que o Outono me Contou

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 01:31
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Domingo, 13 de Novembro de 2022

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - OS GANSOS

42795969_1893144077440149_5769443815123320832_n.jpO galo, na capoeira, suspira de cansaço: «Até que enfim! Há que tempos estou eu para aqui, farto de cantar, e sem conseguir acordar estes dorminhocos. Por mais que me esforce, só a luz do dia consegue fazer esse prodígio. De que me serve a mim ser o primeiro a acordar, se não tenho quem me faça companhia?!» E o galo, de crista à banda, em cima do poleiro, olha, meio terno, meio desiludido, o despertar da capoeira.

A galinha castanha, seguida da ninhada, é a primeira a sair para a frescura da manhã. E ei-la, sem preguiça, a esgaravatar a terra, tão castanha como ela, à procura de alimento para os seus pintainhos.

Cá-cá! Cá-cá! Meninos, atenção! – cacareja ela. – Façam como eu, vejam. Aprendam a procurar a comida que vos fará crescer. Cá-cá! Cá-cá! Vamos, vamos. A manhã chegou e é preciso aproveitar o dia!

E os pintainhos, piu-piu, piu-piu, para cá e para lá, num afã, debicando aqui, esgaravatando acolá, imitando a mãe, parecem aprender bem a lição

 

Caminhando apressado, o dia percorre a manhã. E como são largos os seus passos! Quem o diz é o Sol quase no pino do meio-dia, a deixar cair centelhas de oiro sobre o povoado. «Não há dúvida de que prefiro o Verão. Acordo cedo, e estou muito mais tempo junto das coisas de que gosto. Mas, deixá-lo! As horas passam e os dias correm. Depressa hão-de voltar as tardes longas, longas, que me agradam tanto. Nessa altura, não serei obrigado a deitar-me tão cedo!» E, mais conformado, o Sol estende os raios num abraço até onde o seu calor alcança. «Daqui em diante – torna ele – terei mais vezes a Chuva para me acompanhar nas minhas brincadeiras atrás das suas gotas pelo céu fora. Que venha! Que venha! Aborreço-me tanto aqui sozinho! »

 

Cá-cá! Cá-cá! Vamos meninos! – ouve-se, num cacareio, a galinha castanha. – Voltemos, voltemos para o nosso caixotinho na capoeira. Está na hora de dormir. E ouvi, ouvi ao longe, meus pintainhos, o ribombar do trovão. É o sinal de que a chuva vai voltar a cair. Vem fecundar a terra. Estamos no Outono, e a chuva é uma bênção dos céus!

E os pintainhos, piu-piu, piu-piu, atrás da mãe, aprendem uma nova lição.

 

Dentro da capoeira, o galo acolhe-se no poleiro. Ao mais alto, pois é ele o rei da casa! Vigia a entrada dos habitantes. Uns atrás dos outros, regressam todos. Os últimos a chegar foram os gansos. Ainda conseguiram apanhar as primeiras gotinhas de chuva sobre as penas. «Amanhã estará maior o charco. Que bom vai ser o nosso banho!» – dizem, satisfeitos.

No alto do poleiro, o galo começa a piscar os olhos, sonolento. E recolhe a cabeça debaixo da asa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Histórias que o Outono me Contou»

Ed, Publicações Europa- América

 

Ilustração do livro: Elisa Bernardo

publicado por sarrabal às 16:38
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2022

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - O ARCO ÍRIS

 

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Não me apanhas! Não me apanhas! – ouve-se, de repente, o pingar da chuva, numa cantilena, sobre o povoado.

Não foste pontual! – resmunga o Sol, a fazer-se rogado à brincadeira.

Ontem chegaste mais cedo. Hoje, já quase não tenho tempo para brincar…

Anda, vamos, que tens tempo, sim. Para quê ficares zangado? Não vês, ainda é dia!

O Sol decide-se. Vontade não lhe falta. E lá vão os dois: a chuva à frente, o Sol atrás. A persegui-la por entre as gotas que correm em fio.

Daqui a pouco, vou fazer um arco-íris, queres? – pergunta ele.

Um arco-íris? Acho bem. Acho bem! – entusiasma-se a chuva. – Os meninos gostam de ver no céu o arco-íris, e eu também. Que boa ideia a tua! – e logo ufana, a orgulhar-se: - Sem mim, amigo Sol, não podias tu fazer um tal milagre.

É verdade, amiga Chuva, sem ti, onde iria eu buscar as minhas sete cores? – responde-lhe o Sol. E riem, riem os dois, um atrás do outro pelo céu fora.

De regresso da escola, os meninos que vivem no povoado, param a meio do caminho, olhinhos extasiados.

Olha, olha, o arco-íris! Que lindo, que lindo!

Quem o pintará no céu? – pergunta um deles.

Talvez um pássaro. – responde um companheiro.

Talvez um anjo. – arrisca outro.

Talvez a Natureza. – murmura outro ainda.

O Sol e a chuva sossegam as suas estouvadas brincadeiras e ficam, enlevados, a ver os olhos das crianças. Tão lindos, tão lindos, como o arco-íris!

 

Sim, lá estão, no céu, as sete cores do arco-íris. Num semicírculo, deslumbram o olhar. É difícil saber onde começa uma e acaba a outra, de tal modo se encontram abraçadas. Trata-se de um segredo que o Sol e a chuva guardam bem guardado…

 

O vermelho: cor das papoilas que salpicam as searas pelo mês de Maio. Das cerejas e dos morangos aninhados nas suas camas de folhas. Do sangue e dos rubis. Mas a quem chamam rubro no crepitar das chamas, púrpura nas vestes dos cardeais e encarnado nas talhadas das melancias.

 

O laranja: cor do pijama que o Sol veste, por vezes, quando vai dormir. Das cenouras, a esconderem o rosto na fresquidão da terra. Das tangerinas e das laranjas de gomos a fazerem roda debaixo da casca. Mas também do coral e dos caranguejos que se arriscam nas redes dos pescadores.

 

O amarelo: cor do milho nas maçarocas, ansioso por se transformar em pão. Das ameixas, que gostam que lhes chamem rainhas-cláudias. Da giesta, a enfeitar os dias dos pastores. Dos narcisos, nos alegretes dos quintais. Mas também dos topázios e dos girassóis, altos, de cara redonda.

 

O verde: cor do mar quando está zangado. Do trevo dos prados. Dos lagartos, dos sapos e das rãs. Das avencas, que crescem nos sítios húmidos e discretos. Das palmeiras, das peras e das pinhas novas. Mas também das esmeraldas e da esperança, que nasce todos os dias no coração dos homens.

 

O azul: cor do céu, onde passeiam nuvens que lembram cavalos em galopes sem fim, ou navios que transportam tesoiros. Das miosótis. Dos mirtilos, a oferecerem-se nas árvores quando chega o Verão. Mas também das safiras e dos olhos dos meninos com cabelos de oiro.

 

O anil: cor das alcachofras que despontam nos campos. Das campânulas a treparem pelas paredes das casas. Entre o azul e o lilás, lá o temos nas opalas e nas pinceladas das pétalas das violetas brancas. Mas também nos cambiantes da madrepérola e nas hortênsias, que aguardam a Primavera para florir.

 

O roxo: cor das vestes do Senhor nas procissões da Páscoa. Dos jacintos, que emprestam o seu nome às pedras preciosas. Das beringelas, dos gerânios, e dos amores-perfeitos. Mas também das ametistas e da capa dos figos a escorrerem lágrimas de mel por entre as folhas das figueiras.

 

São as cores do arco-íris, a ligar o céu e a Terra, suspensas sobre a folha de papel onde escrevo.

 

Soledade Martinho Costa

 

 

Do livro "Histórias que o Outono me Contou"

(Ed. Publicações Europa-América)

 

publicado por sarrabal às 18:52
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Domingo, 6 de Novembro de 2022

A MINHA MANEIRA DE LEMBRAR SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO (6 DE NOVEMBRO DE 1919)

 

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O seu nome merece toda a admiração que lhe é, obrigatoriamente, devida. Admiração e respeito. Como mulher. como escritora e, principalmente, como poetisa. Mas nem sempre assim foi. A importância, o mérito, o destaque que lhe são hoje tributados, a si e à sua obra, deviam ter chegado bem mais cedo.

 

No meio literário, como noutros meios, há coisas que ficam apenas nos bastidores, comentadas por meia dúzia de pessoas, embora outras prefiram o silêncio – sobretudo, as que foram responsáveis por tais arbitrariedades. Movem-se cordelinhos, fazem-se alguns telefonemas entre comadres e compadres (a que não são alheios jornais e jornalistas), abafa-se o caso, e assim fica, no segredo dos deuses, o que deveria ser do conhecimento público. Sophia de Mello Breyner Andresen faria hoje, dia 6 de Novembro, 103 anos. Para celebrar essa efeméride, lembrei-me, neste dia, de homenagear Sophia à minha maneira. Não se trata de «destilar veneno» (como alguns poderão dizer ou pensar), mas, sim, de fazer justiça a um nome que sempre foi grande e que nos dias actuais continua a ser dos maiores da poesia portuguesa. Refiro-me a um artigo que publiquei em 1986 no extinto «Diário Popular, com o título:

 

PRÉMIOS GULBENKIAN DE LIVROS PARA CRIANÇAS – UM NOME POSTO Á MARGEM

Assim:

«Se uma pequenina esperança pairava e resistia, teimosa, no íntimo de muitos de nós, isto é, no espírito daqueles que por estas coisas se interessam, ou a elas estão de algum modo ligadas, essa esperança, dizia eu, extinguiu-se, irremediavelmente, ao ser revelada a atribuição dos prémios Gulbenkian de Literatura para Crianças referentes a este ano. Só não sabemos qual terá sido a decisão de cada um dos elementos do respectivo júri, porque da acta do seu voto ninguém, a não ser o próprio júri, tem conhecimento. Impunha-se, para debelar qualquer dúvida, que a acta destes prémios fosse divulgada e não confinado o seu teor apenas às quatro paredes de um gabinete. Impõe-se, repito, que as actas referentes a prémios literários importantes, como é o caso, sejam tornadas públicas.

Mas porque se extinguiu essa tal esperança que refiro acima? Porque mais uma vez um nome foi, escandalosamente, posto à margem: o de Sophia de Mello Breyner – de há muito merecedora incontestável do Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças pelo Conjunto da sua Obra. Posto à margem o nome de uma autora cujos livros para crianças são já clássicos da Literatura Portuguesa para a Infância!

Vulto dos mais prestigiados da Poesia Portuguesa Contemporânea, os livros de Sophia destinados às crianças perfazem, em reedições, um número que nenhum outro autor português conseguiu igualar. De todos os seus títulos são feitas reedições anuais. Maior se torna a injustiça se considerarmos que nenhum outro vulto actual das nossas Letras contribuiu, como Sophia de Mello Breyner, pela sua obra de grande beleza e rigorosa qualidade literária, para o enriquecimento da Literatura Portuguesa para a Infância.

Sabemos que as opiniões dos elementos do júri não têm sido coincidentes. Sabemos que relativamente aos prémios deste ano as opiniões divergiram de novo. Por tudo isto, é tempo de as actas do júri serem tornadas públicas. Num país como o nosso, onde se vive em democracia, é uma regra que se impõe.

De salientar o facto de os primeiros Grandes Prémios Gulbenkian de Literatura para Crianças terem sido atribuídos exaequo. Nessa circunstância, receberam-no Matilde Rosa Araújo e Ricardo Alberty, em 1980, e Adolfo Simões Muller e José de Lemos em 1982. Nenhum deles merecia a afronta de dividir entre si um galardão de tal envergadura. Por aquilo que representa devia, obrigatoriamente, ter sido atribuído a cada um destes escritores individualmente. Qualquer deles o merecia. O que se ganhou foi tempo e que outros usufruam agora de prémios individuais, facto bem mais prestigiante. As «fadas madrinhas» não esquecem os «afilhados». A pressa com que se «despacharam» prémios «exaequo» faz adivinhar o objectivo de se chegar mais rapidamente à «meta».

Escandalosa ainda a decisão do júri ao recomendar uma colecção de contos tradicionais de António Torrado (que já vai longa) e um outro título do mesmo autor e da mesma editora, salientando «embora não se ajustando propriamente às condições regulamentares da atribuição destes prémios». Isto, quando em 1983, o mesmo júri, apesar dos pedidos que lhe foram feitos, não permitir, precisamente «por não ser possível alterar as condições regulamentares dos prémios», a atribuição do Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças à escritora Alice Gomes (indiscutível candidata a este galardão), sabendo, embora, que à autora restavam apenas algumas semanas de vida. Alice Gomes viria a falecer em Outubro desse mesmo ano vítima de doença incurável.»

SMC

A atribuição do Grande Prémio a Sophia de Mello Breyner, pelo Conjunto da sua Obra, só veio a verificar-se em 1994. Isto é, 14 anos depois de ter sido atribuído pela primeira vez! Sophia não compareceu na Gulbenkian para recebê-lo.

 

A verdade – e ela sentiu-a –, é que Sophia de Mello Breyner só foi distinguida com este prémio quando muitos outros autores de menor gabarito o tinham recebido já em anos anteriores. Sophia sentiu-se magoada e com razão.

Tempo antes tinha falado neste assunto a José Hermano Saraiva, à época um dos elementos do júri deste prémio, que me disse: «Eu tenho insistido. O prémio já devia ter sido entregue à Sophia. Mas a resposta que ouvi foi a de que tinha poucos livros para crianças publicados, imagine!». Juntei a minha indignação à de José Hermano Saraiva. Quando se mede a quantidade pela qualidade, é normal que outros autores tenham arrecadado o prémio primeiramente. Mas este facto nem sequer corresponde à verdade. Sophia de Mello Breyner conta na sua bibliografia com 13 títulos publicados na área da literatura infanto/juvenil: O Rapaz de Bronze; A Menina do Mar; A Fada Oriana; Noite de Natal; Contos Exemplares; O Cavaleiro da Dinamarca; Os Três Reis do Oriente; A Floresta; Tesouro; Contos; Histórias da Terra e do Mar; A Árvore e Era uma Vez uma Praia Lusitana.

Durante mais de uma década, a partir de 1976, Sophia esteve representada nas bibliotecas das escolas do Ensino Básico apenas com uma das suas obras, enquanto autores menores estavam representados com todos os seus livros, alguns somando mais de 30 títulos.

No caso do Prémio Gulbenkian, nem José Hermano Saraiva teria força, por muitos argumentos apontados, para que Sophia fosse galardoada entre os primeiros. Estava sozinho e o compadrio político possuía toda a força do mundo. Ainda hoje o possui. O nome de Sophia só foi indigitado quando o bodo já estava devidamente distribuído. Daí a sua recusa em apresentar-se na Gulbenkian.

Mas não é só. Certo dia telefonou-me para me perguntar: «Soledade, diga-me, conhece jornais ou revistas que tenham publicado críticas ou recensões sobre alguns dos meus livros?» Respondi que não, que não conhecia. Sofia, então, esclareceu-me: «Sabe, há um editor japonês que quer editar um livro meu e pediu-me para lhe enviar algumas críticas. Mas só encontro as que a Soledade publicou, não encontro mais nada. E não me parece bem enviar-lhe só as suas, não acha? Ignoro como terá, Sophia, resolvido este assunto. Sei que sempre fiz referência aos seus livros, quer tratando-se de um título novo ou de uma reedição, nos vários anos em que desempenhei essa função no Expresso e no extinto Diário Popular (neste, semanalmente, durante cinco anos).

Numa outra ocasião, em conversa, Sofia também me confessou a sua mágoa pelo facto de o seu livro “A Menina do Mar” ter sido utilizado para um belíssimo espectáculo para crianças, que passou num dos canais televisivos de Itália. «Aqui em Portugal nunca fizeram nada e a comunicação social ignorou por completo este trabalho dos italianos. Nem sequer a Televisão Portuguesa se mostrou interessada em passá-lo no nosso país» – desabafou

Palavras sentidas de quem tem apenas a seu (des)favor a grande qualidade literária da sua obra destinada aos mais pequenos. A mediocridade não aceita comparações. Não gosta de perder. Só os medíocres rivalizam entre si. Dá menos nas vistas. A sua mediania torna-se menos evidente. A qualidade faz-lhes sombra e mostra, com mais evidência, as limitações dissimuladas de cada um.

 

Sim, passaram muitos anos. Mas há «segredos» que é preferível deixar por cá, em vez de os levar-mos connosco – embora não nos pesem sobre os ombros.

SMC

 

SOPHIA DE MELLO BREYNER

Na voragem do tempo
Em ti resiste
O mar e a liberdade que cantaste.

Teu velo de oiro
Sem mácula
Sem sinal de abandono.

Mas não partiste
Numa praia só tua
Adormeceste
Vestida de conchas e de búzios
Enquanto as ondas velam pelo teu sono.

Soledade Martinho Costa

Do livro O Nome dos Poemas

Edições Vela Branca

publicado por sarrabal às 01:22
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2022

CALENDÁRIO - NOVEMBRO

 

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O céu

Retém ainda

O voo das cegonhas.

 

Acendem-se braseiras

De histórias

E de mosto

Regressam as castanhas

No bico do capuz.

 

Há bruxas

Que povoam

As noites de Novembro

No oiro das laranjas

Pousa o luar em cruz.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 01:27
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2022

DIA DOS FIÉIS DEFUNTOS - CATACUMBAS E COLUMBÁRIOS )excerto)

 

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Nas celebrações do Dia dos Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, no dia 2 de Novembro, são evidentes os vestígios dos antigos rituais dos mortos efectuados pelas associações funerárias de Roma – as Columbaria – (de entre as quais, mais tarde, se formou a Igreja), que tinham a seu cargo os «columbários», locais subterrâneos guarnecidos de nichos, onde os romanos colocavam as urnas funerárias que continham as cinzas das pessoas incineradas, uma vez que na Antiguidade, Gregos e Romanos, queimavam os corpos dos falecidos, somente deles conservando as cinzas. Ao contrário, os primeiros cristãos, começaram por enterrar os seus mortos, segundo os princípios da nova fé, continuando uma tradição antiga vinda do Oriente e seguida pelos Etruscos.
Com as constantes execuções dos cristãos (que se recusavam adorar os deuses da religião pagã grega e romana), e não possuindo estes condições para adquirir terrenos destinados aos cemitérios, foram-lhes cedidos campos por ricos proprietários também eles cristãos. Mas nem assim foram suficientes esses vastos cemitérios. Daí, começarem a ser utilizadas as catacumbas (de início pedreiras abandonadas), que depressa se transformaram em cemitérios subterrâneos, mantidos até à vigência do imperador Constantino. Ali se escondiam os primeiros cristãos, junto dos seus mártires, tornando-se esses lugares, principalmente a partir do século II, locais onde se efectuavam os ritos religiosos e fúnebres e enterravam os mortos. Era também nas catacumbas (do grego katá – para baixo – e tumbos – tumba, túmulo) que os primeiros diáconos procediam ao baptismo, difundiam a nova religião, entoavam os seus cânticos e relembravam a Ceia de Jesus Cristo e dos Apóstolos.
Escavados na rocha, com nichos nas paredes (os loculi) a diferentes alturas, ali eram deitados os corpos, com a entrada de cada nicho fechada hermeticamente com uma pedra. Nela se inscrevia o nome do morto, a idade e uma breve alusão. Um «M» na pedra queria dizer que a pessoa tinha sido martirizada, enquanto os grandes mártires apresentavam a palavra por extenso.
Perseguidos, mortos e presos, com os próprios papas a serem decapitados, os cristãos continuaram a ser vítimas dos povos bárbaros que invadiram Roma. Nessa altura, as sepulturas das catacumbas foram violadas, circunstância que deu motivo aos papas para mandarem distribuir as relíquias dos corpos santos por toda a Cristandade. Sem os seus mortos e mártires, as catacumbas foram abandonadas no século V, tendo caído, entretanto, no esquecimento – se bem que redescobertas no século XVI, segundo parece sem grande relevo para tão significativo achado. Apesar dos estragos do tempo, podem ainda observar-se nelas as primeiras pinturas de arte cristã, com as inscrições que as acompanham feitas em grego. As mais antigas (século I) apresentam, principalmente, símbolos: o pão, a pomba, a cruz, a âncora (símbolo da vida eterna) e o peixe, que representa Cristo.
O culto dos mortos no dia que lhes é dedicado, traduzido em ritos diversos, com a romagem aos cemitérios, a oferta de flores e a colocação de velas sobre as campas, é comum a todas as épocas e povos, sendo prática corrente e actual tais celebrações, costumes e crenças em todos os países da Europa, onde se acredita, embora com variantes locais, que «no dia consagrado aos mortos as suas almas, isoladas ou em grupo, visitam na terra os lugares que habitaram em vida».
O chamado «altar das almas», é representado nas igrejas pelo altar de São Miguel Arcanjo (ou apenas com a sua imagem), tendo como símbolo a «balança das almas», que o Príncipe da Milícia Celeste segura na mão. Também as flores foram apenas introduzidas nos funerais provavelmente a partir do século XVIII. Até aí, somente eram permitidas nos esquifes das crianças com idade não superior a sete anos.
Soledade Martinho Costa

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

Tela: «Dia de Finados», Aurélia de Sousa 

publicado por sarrabal às 18:28
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2022

«PÃO POR DEUS» - O MANJAR DAS ALMAS - ORIGENS (Excerto)

 

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As comemorações do Dia de Finados ou dos Fiéis Defuntos, no dia 2 de Novembro, continuam a comportar, além das cerimónias fúnebres religiosas relacionadas com o culto dos mortos, algumas celebrações alimentares próprias desta quadra, representadas, sobretudo, pelos bolos específicos, pão e frutos secos – principalmente, pela castanha. No entanto, quer as cerimónias religiosas fúnebres actuais, quer as refeições rituais próprias deste dia (incluindo os «magustos de castanhas» ou «magustos dos santos»), mais não são do que sobrevivências de antiquíssimas práticas rituais, identificadas com o culto dos mortos em épocas passadas, na forma de manjares, repastos ou dádivas, directamente destinadas aos defuntos, consagradas por intermédio dos vivos seus familiares.
Como representantes dos mortos, continuamos a encontrar, um pouco por todo o país, no Dia dos Fiéis Defuntos (e, mesmo, no Dia de Todos os Santos), as crianças (mais recuadamente também os pobres) a pedirem de porta em porta o «pão por Deus». Isto é, os manjares cerimoniais que lhe são oferecidos nesta data, afirmando o povo que, «por cada bolo por elas comido, há uma alma que se livra do Purgatório».
As crianças representam, assim, as almas dos mortos que «neste dia erram pelo Mundo», simbolizando a oferta do «pão por Deus» a esmola que se dá por intenção dos defuntos ou uma dádiva feita às próprias almas.
Sem a adesão de outrora, tanto em aldeias como em vilas e até cidades, continuam a ver-se grupos de crianças (na maioria não necessitadas) a pedir de porta em porta «o pão por Deus», recebendo em troca romãs, nozes, figos, pêros, maçãs, pinhões, rebuçados, bolachas ou pequenos pãezinhos próprios desta data, que guardam num saco destinado aos donativos.
Anos atrás, tão enraizada estava entre nós a oferta, neste dia, do repasto e donativos em favor dos mortos que, em certas localidades, cumprindo a crença, era enviado «o pão por Deus» a familiares e amigos.
Quanto à simbologia do pão – o «pão de Deus» – (chamado darum pelos mitriacistas e mamphula pelos Romanos), resulta da sua apropriação e transformação pelos Antigos na oferta alimentar de significado cristão.
Os bolinhos, ainda hoje confeccionados em diversas localidades, para oferecer às crianças, tomam nomes diferentes de lugar para lugar: «santoros» ou «santórios» (Trás-os-Montes); «santóruns» (Beira Alta); «broinhas dos santos» (Beira Baixa); «merendeiras», «bolos dos santos», «santorinhos» ou «bolinhos bolinhós» (Beira Litoral) e «broas dos santos», «broinhas», «merendeiras dos santos» ou «brindeirinhas» (Ribatejo e Estremadura).

Soledade Martinho Costa

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas». Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
Foto do livro: Jorge Barros

Nota – E porque a tradição ainda perdura, dou como exemplo um facto curioso que aconteceu agora mesmo e que não quero deixar de vos transmitir. Estava, precisamente, para publicar este texto, quando a campainha da minha porta tocou. Pelo intercomunicador perguntei quem era. Respondeu-me uma voz de criança: «É o Pão por Deus!» E a minha pronta resposta: «Abro já!» Seriam 22 horas. Em Alverca do Ribatejo (embora um bocadinho mais cedo) cumpria-se a tradição! O mais interessante é que se tratava de uma menina, aí pelos 10 anitos, acompanhada pela mãe (jovem e bonita) e pela avó (mãe da mãe).Com um grupinho de 3 ou 4 crianças, não é o primeiro ano em que tal acontece, mas não com a representação de três gerações! É evidente que conversámos e, na verdade, pouco sabiam das lendárias razões desta tradição. Sim, claro, ficaram a saber. A criança, encantada, a meter na bolsinha (não os bolinhos tradicionais) mas as bolachas, os rebuçados e as amendoas (do Algarve, que me chegam já sem casca). Resumindo: uma surpresa agradável para quem tem escrito tanto, mas tanto, sobre as nossas tradições – eu!

SMC

publicado por sarrabal às 02:25
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