
Designado, primitivamente, dia de Nossa Senhora dos Mártires, esta data foi celebrada durante mais de dois séculos no dia 13 de Maio com um ofício próprio, enquanto por volta de 737 passa a ser incluída no cânone da missa uma alocução dedicada a todos os santos. Ainda no século XVIII (741), Gregório III manda erigir na Basílica de São Pedro, em Roma, uma capela dedicada ao Divino Salvador, a Sua Santíssima Mãe, aos Apóstolos e a todos os mártires e confessores dando-se assim um maior impulso à Festa de Todos os Santos.
No século IX (835), a data desta festa religiosa é então fixada no dia 1 de Novembro pelo papa Gregório IV, que de há muito vinha pressionando Luís I, o Piedoso, rei de França, de modo a emitir um decreto que oficializasse a celebração. A partir de 837, por decreto real, a data da festividade no dia 1 de Novembro torna-se universal, constituindo uma das maiores solenidades para toda a Igreja Cristã.
No final do século X, Santo Odilão ou Odilon, quarto abade de Cluny (994 – 1048), junta às celebrações em louvor dos santos algumas orações em favor do descanso eterno dos defuntos. Esta introdução levou mais tarde a que se procedesse à separação das duas datas, vindo o dia 1 de Novembro a ser consagrado a todos os santos da Igreja Católica, enquanto o dia 2 passou a ser dedicado, exclusivamente, aos fiéis defuntos. Autores há que defendem constituírem as duas celebrações do dia 1 e dia 2 de Novembro uma única festa, expressa e directamente ligada ao culto dos mortos
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

A festa do Halloween (embora, no que respeita a datas, nem sempre os investigadores sejam convergentes), terá tido a sua origem há mais de 1500 anos a.C., quando o povo Celta da Grã-Bretanha e da Irlanda celebrava no seu calendário, a 31 de Outubro, o final do Verão, as tarefas das últimas colheitas, o aproximar do Inverno e o novo ano céltico que ocorria no dia 1 de Novembro.
A esta festa chamavam os Celtas Samhain (que significa fim do Verão) ou Samhein, La Samon ou a Festa do Sol, constituindo uma data sagrada, onde prestavam, também, homenagem aos que já haviam partido deste mundo e aos deuses, considerados pelos Celtas como seus antepassados. No entender dos Celtas, a noite de 31 de Outubro correspondia, ainda, à data em que o mundo dos vivos e o dos mortos se encontrava em perfeita coexistência.
De acordo com essa tradição, “as almas daqueles que tinham falecido durante esse ano, voltavam para possuir o corpo dos vivos”. Daí, ser costume apagar as fogueiras e as tochas acesas nas casas, de modo a parecer que o local se encontrava desabitado, estabelecendo-se o maior silêncio, para evitar “ser-se possuído por alguma alma errante”. Era igualmente hábito as pessoas vestirem fantasias e colocarem máscaras, desfilando ao redor das habitações, para assustar e afastar os “espíritos que vagueavam para as possuir”. Acreditava-se “que as almas dos mortos regressavam nessa noite ao lugar onde tinham vivido”, visto o deus da Morte permitir aos mortos voltarem à Terra para “prejudicar, atormentar e aterrorizar os vivos”.
Para os Druidas, membros de uma elevada estirpe céltica, que ocupavam lugares de grande relevo e importância (sacerdotes; adivinhos; doutores; magos; médicos; astrónomos, dominando quase todas as áreas do conhecimento humano), o Samhain, a mais relevante das festas célticas, possuía o mesmo significado e simbologia.
Uma vez que, na sua origem, o Halloween nada tinha a ver com as bruxas, supõe-se que o seu vínculo a esta festividade tenha começado na Idade Média, não lhe sendo alheia a Inquisição. Com o passar do tempo, a tradição céltica do Samhain acabou por ser levada para os Estados Unidos por imigrantes Irlandeses no século XIX.
Após a consolidação do Cristianismo, a festividade passou a denominar-se All Hallows Eve ou All Hallow’s Even, sendo, entretanto, encurtada para Halloween (designações, todas elas, com o mesmo significado: Véspera do Dia de Todos os Santos ou Noite de Todos os Santos).
Segundo parece, a designação “Noite das Bruxas” é uma expressão usada apenas na língua portuguesa. Associada a ela, vieram os trajos de “fantasma”, de “bruxa”, de “duende”, de “vampiro”, de “caveira” (e para os menos ousados), as máscaras, os chapéus, as cabeleiras, as vassouras, numa verdadeira mostra de horrores (e de negócio) – que saem em passeio na noite de 31 de Outubro.
Celebrada em muitos países da Europa como na Alemanha, Áustria, Suécia, Inglaterra, França e Espanha, entre outros, o Halloween tem por objectivo o divertimento e não a intenção de instalar o terror. Embora, por cá, já se vá constatando alguns distúrbios provocados por “espíritos” mais “turbulentos”.
Cada vez mais apelativa (e consumista), a festividade da “Noite das Bruxas” – espécie de tradição etnográfica importada, como outras – conta, desde há uns anos, cada vez com mais adeptos entre nós, para isso contribuindo a muita publicidade ao evento e alguns locais que a promovem, privados ou públicos: colectividades de recreio, discotecas, bares, hotéis, teatros, etc.
Em Coimbra, os alunos de todas as escolas do Ensino Básico, acompanhados por adultos, vestidos como esta noite especial exige, saem à rua em grupos a fazerem peditórios de guloseimas, com cânticos alusivos à ocasião e a indispensável abóbora, recortada em forma de rosto, com uma vela acesa no interior.
A praxe do Halloween incluir um peditório efectuado pelas crianças, mascaradas de bruxas ou fantasmas, a baterem à porta de familiares, amigos e conhecidos, para pedirem gulodices, terá tido origem, mais tarde, nos Estados Unidos e no Canadá e logo aceite noutros países. A frase tradicional é o “trick or treat” (doce ou diabruras), que ninguém deixa de oferecer. Caso contrário, a diabrura é mais que certa. Tal costume (sem as partidas dos mais pequenos) é semelhante ao nosso “Pão por Deus”, prática religiosa que se verifica no dia 2 de Novembro (Dia dos Fiéis Defuntos), ainda aqui, com as crianças como protagonistas. Nos Estados Unidos, na noite do Halloween, mantém-se a tradição de os amigos trocarem presentes entre si.
Em diversos países é costume nesta noite colocar-se uma abóbora esculpida e iluminada nas janelas, varandas ou outros locais visíveis das casas (ainda em alusão aos Celtas), com a finalidade de “espantar os espíritos”, enquanto noutros é tradição acender-se apenas uma vela em homenagem aos familiares falecidos.
A abóbora encontra-se associada aos ritos propiciatórios do culto dos mortos, geralmente como máscara usada nas figurações humanas, independentemente das suas variedades: abóbora-botelha (cabaça); abóbora-moganga (menina); abóbora-jerimu (amarela) e abóbora-chila (anã). Os Celtas usavam os nabos, também eles iluminados, sendo estes, no decorrer dos tempos, substituídos pelas abóboras. As máscaras remontam, igualmente, ao tempo do Samhain, “porque as pessoas, nessa noite, não queriam ser reconhecidas pelos fantasmas”.
Para finalizar, e segundo o mito, às sextas-feiras, quando ocorre o pôr-do-sol, costumam as bruxas aplicar no corpo uma untura só delas conhecida, que lhes permite voar a cavalo numa vassoura…
Soledade Martinho Costa
Foto: Celtas

Querido Ronaldo, a intenção destas linhas é juntar-me a todos quantos estão contigo nesta fase um pouco complicada da tua carreira. Fase, diria, pela qual há quem te obrigue a passar. É injusto, é imoral. A agressão visível, a perseguição notória e orquestrada, tem apenas um objectivo: o de te afectar, de provocar em ti um desgaste psicológico e, consequentemente, físico, de modo a que a tua actuação nos relvados se manifeste pela negativa. Essa é a meta principal. Mas aqueles que utilizam esses meios mesquinhos, na tentativa de atentar contra a tua capacidade mental e física, que se desiludam! Tu és o melhor entre os melhores, um caso único, um prodígio, não só como jogador de futebol, idolatrado e amado em todo o mundo, mas como a pessoa forte, que, serenamente, com superior ética e dignidade, saberá controlar, contornar e vencer este combate, que travas contra quem, deliberadamente, te afronta. Tenho confiança no teu sorriso, na tua alegria em campo, nos golos que marcarás ainda. Querido Ronaldo, não precisas de mostrar mais o que vales. És um génio com a bola nos pés. O teu nome já faz parte da História do Futebol Mundial. Se te obrigarem a ficar sentado no banco ou não; se continuares a jogar ou não; se marcares mais golos ou não; a tua carreira, a magia desse dom que Deus te deu, a tua glória, já nem a ti pertencem: pertencem ao Mundo!
No final destas linhas, deixo-te a imagem da autoria de um grande pintor italiano: Giotto. Trata-se de uma horrível figuração, imaginada pelo genial pintor. Tem um nome (Giotto assim a materializou e baptizou): «INVEJA»! O muito do que se tem passado e passa, actualmente, contigo, resume-se, afinal, a esta pequena mas terrível palavra que te persegue pela mão dos medíocres e dos oportunistas.
Da tua amiga virtual (que não percebe nada de futebol, como sabes, mas que percebe o suficiente do comportamento humano) Sol.
(Soledade Martinho Costa)

Ainda o Sol dormia no outro lado do mar, quando no céu uma estrelinha piscou os olhos de espanto. O que seria aquilo lá em baixo na Terra que não se recordava de ter visto antes? Aquela fita, serpenteada e luzente, idêntica à sua própria luz, ao alumiar com as irmãs a cortina da noite? Sim, porque ela bem via, sempre que se mirava no espelho do mar, que brilhava, brilhava, igualzinha àquele ponto que contemplava agora da janela da sua casa. «Só logo, mal volte a escurecer, poderei perguntar à senhora Lua o que se passa ali, naquele sítio da Terra, que do céu costumo alumiar todas as noites», pensou, a lembrar-se do Sol, prestes a despertar. E a estrela teve apenas tempo de saudar a luz do dia, antes de se meter dentro de casa e fechar a janela para ir dormir.
A luz do dia, essa, buscou logo todos os cantos para se instalar. Tudo lhe servia. Na praia, os buracos dos rochedos. Nos jardins, a frescura da terra entre os pés dos crisântemos e dos aloendros. Nas casas, os ninhos nos beirais, vazios de andorinhas. No povoado, os quartos onde os meninos sonhavam sonhos bonitos antes de acordar para seguirem a caminho da escola.
No céu, a estrela que do alto conhecia bem o povoado, mal a noite desceu, pôs-se de novo à janela. E numa voz feita de brilho, não se conteve. Ei-la a chamar a lua, sua companheira de vigília até de madrugada:
― Senhora Lua! Ó senhora Lua!
A lua responde prontamente ao seu chamado:
― O que foi, Estrelinha, alguma novidade? – perguntou ela.
― Oh, sim, gostava de saber o que se passa lá em baixo, naquele ponto da Terra que costumo alumiar todas as noites. Gostava que me dissesse o que vem a ser aquela fita serpenteada e luzente que não me lembro de ter visto antes.
A lua declara, complacente.
― Então, Estrelinha, já esqueceste? Estamos no Outono. O que vês lá em baixo luzente, a copiar a tua luz, é simplesmente o rio, que começa a encher, porque a chuva chegou!
― Ah, senhora Lua, tinha-me esquecido…
E a estrela pergunta desta vez:
― Como é que sabe tantas coisas, senhora Lua sábia?
― Olha, Estrelinha, eu não sou sábia, nem sei tantas coisas como julgas. Nunca o saberei. Mas tento. Sabes, viver é aprender constantemente…
E lá ficam as duas, nessa noite, à conversa no céu. A lua e a estrela curiosa.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Outono me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
Ilustração do livro: Elisa Bernardo

AGUSTINA BESSA-LUÍZ
Amar veredas
Serras
Heras
Fontes.
Beijar o pão
Aspirar o mosto.
Sonhar sob o asfalto
A cor da terra
Enquanto as mãos
Obreiras das palavras
Da raiz dos afectos são o rosto.
Soledade Martinho Costa
Do livro O Nome dos Poemas
Edições Vela Branca

Olha o cuco
Que encucou
Por ter feito uma maldade
Pôs um ovo noutro ninho
Que o seu não tem nem criou
E depois do ovo posto
Logo de lá se esgueirou.
Olha o cuco
Que encucado
Se foi esconder, maroteiro
Bem no alto do copado
Do mais frondoso pinheiro.
Fez uma maldade o cuco
Pôs o ovo noutro ninho
À espera de o ver chocado
Ao calor do seu vizinho.
Com ar de reprovação
Diz de um ramo o melharuco:
― A Carriça, o Rouxinol
O Melro e o Tentilhão
São alguns donos dos ninhos
Onde põe ovos o Cuco!
E logo grita a narceja
A rola e o pintarroxo
E outras aves que povoam
As estradas livres do céu:
― Olha o Cuco, olha o Cuco
Que feio gesto é o seu!
Olha o Cuco, olha o Cuco
Olha o Cuco mandrião
Que deita os filhos ao mundo
Sem lhes dar ninho nem grão!
Soledade Martinho Costa
Do livro «O bico-de-lacre»
(Edição: Fundação Calouste Gulbenkian, fora do mercado)

NOSSA SENHORA DO FADO
Vestiram-se de luto
As cordas das guitarras
Calou-se a tua voz
Companheira de longas caminhadas.
Nossa Senhora do Carmo
A quem pedias
Que te acompanhasse
Em cada palco
Chamou-te um dia a si
E tu partiste
Ao encontro de quem por ti chamava.
Ficou o teu perfume no cristal
Aprisionado na distância e na saudade
Entre o silêncio
E o rolar da lágrima
Como quem espera a vinda sem sinal
De um barco que no mar
Está naufragado.
Lembrar agora as tuas mãos
Em sobressalto
E a solidão do teu olhar
É mais do que saber de ti
Onde tu moras.
É dizer que as rosas
Também choram
Quando lhes falta quem as ame.
Recordo a tua sala
Os sons, a luz
O teu retrato, o teu piano
Os objectos dispersos
Em sítios que a memória traz.
Hoje o teu nome
Como da ave o roçar da asa
Bate diariamente à tua porta.
Sobe os degraus de pedra
E vai procurar-te
Ao lugar onde não estás.
Tu continuas a ser a tua casa.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

O dourado das copas
Desnuda o arvoredo
Hibernam os ouriços
Para dormir um sono.
O frio
Já se apronta
Na hora da chegada.
Outubro vem lembrar
Recados do Outono
Preparam-se os gravetos
Que a lenha está guardada.
Soledade Martinho Costa
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