
Batem três badaladas na torre da igreja.
— Que tarde já, e eu tão atrasada! – lamenta-se a formiga, a arrastar um cestinho por um carreiro ao longo da relva. Uma abelha, que segue rumo à colmeia, ao ouvir o seu desabafo, pousa sobre uma flor.— E onde vai de passeio? Qual é a pressa? Posso ajudá-la, dona Formiga? – pergunta, prestável e intrigada, ante aquela força num corpo tão pequenino.
— Não preciso, dona Abelha, obrigada! Vou perto. A casa da Cigarra, levar-lhe esta encomenda. Estamos no Outono, sabe, e qualquer dia meto-me na minha despensa. Depois vem o frio e a geada e ainda é pior. Enfim, é a Natureza…E, aqui para nós, coitada da Cigarra; nada tem. Mas canta. Canta tão bem! E ajuda-me a trabalhar com a sua cantoria. Se não fosse a Cigarra, os meus dias eram menos felizes. Bem merece que reparta com ela o que guardei na minha despensa, se ela comigo divide a sua alegria…


Sob um céu sem cor onde o azul


Vestido vermelho, de pintinhas pretas, dona joaninha apronta-se para o seu passeio.
― Vou até à aldeia. – diz para a cigarra, que anda por perto.
― E faz muito bem. – responde-lhe esta, interrompendo a cegarrega do seu canto. – Não há nada melhor do que um belo passeio e uma boa cantoria!
― Modos de ver, dona Cigarra, modos de ver…
― Não me diga que também me critica porque passo a vida a cantar!?
E a joaninha, pouco à-vontade:
― Criticar, não critico. Apenas reparo que nem só passear e cantar é importante. Há outras coisas a fazer. Outras tarefas a cumprir. Enfim, quero eu dizer…
A cigarra atalha, a pôr fim ao embaraço da vizinha:
― Ora, ora, dona Joaninha. O meu trabalho é cantar. É o que mais gosto de fazer. E depois, não acredito que não alegre os vizinhos com o meu canto!
― Lá isso, alegra, que gosto bem de a ouvir! – confessa a joaninha. – O que me preocupa é ouvi-la cantar sem cuidar da sua despensa…
― Tem razão. Realmente, sou bastante descuidada. Ponho-me na minha cantoria e pronto, esqueço-me de tudo. Mas nasci para cantar, sabe? E melhor ou pior, cá me vou governando. O que me vale é que tenho uma boa amiga que não me deixa desamparada no Inverno…
― Ah, sim? – interessa-se a joaninha, atenta à confissão.
― Sim, sim. É a dona Formiga, com a qual andei zangada noutros tempos.
― Grande novidade! – comenta num pasmo a joaninha.
― Pois é. Fizemos as pazes. Eu alegro os seus dias de trabalho com o meu canto, e ela, em troca, divide comigo o que junta, lá no seu celeiro bem provido...
― Muito me alegro, dona Cigarra, muito me alegro. Na verdade, já era tempo de acabarem com essas inimizades! – exclama a joaninha. E acrescenta: - Bom, agora despeço-me. Vou ao meu passeio. A tarde está uma beleza e o dia ainda vai a meio. Até logo, dona Cigarra!
E parte, asinhas abertas, na direcção da aldeia.
Soledade Martinho Costa
Do livro "Histórias que o Verão me Contou"
Ed. Publicações Europa-América


― Se não me engano, é a raposa que lá vem, mais os seus raposecos. Caminha à surrelfa, a manhosa, por entre o matagal! – diz a aranha, de atalaia, no alto da teia onde vive.
― Nesse caso, o melhor é esconder-me! – comenta, precavido, o ouriço-cacheiro, olhar míope, na distância do mato.
― Nem os espinhos lhe valem, compadre Ouriço? – zomba a aranha, agora presa no fiozinho da teia.
― Valerem, sempre valem, ora essa! Mas com a Raposa, nunca fiando…
― A mim, não me apoquenta ela. – torna a aranha.
― E de que valia à Raposa apoquentá-la?! Não lhe servia nem para a cova de um dente!
― À falta de melhor, quem sabe? – replica a aranha, sem se dar por vencida.
― A mim, sim. A mim ferrava ela o dente, se pudesse. Eu é que lhe troco as voltas...
― A esconder-se, não? – troça a aranha sob a teia, em equilíbrios de trapezista.
E logo o outro, a mostrar ofensa:
― A senhora Aranha sabe muito bem que não sou medroso. Sou asseado, trabalhador, e não gosto de zaragata. Medroso, não! Quanto muito, sou prudente...
― Tem razão, senhor Ouriço-Cacheiro, tem razão. Pronto, não se zangue, eu só estava a brincar...
― Pois, mas há coisas com as quais não se brinca. O que tenho é motivos para me esconder da Raposa, só isso.
E a aranha, curiosa, suspensa da teia:
― Motivos? Que motivos? Ora conte, senhor Ouriço-Cacheiro, conte lá que sou toda ouvidos!
E o ouriço, que destrói os ratos e os insectos, e à noitinha trabalha nas hortas, a limpá-las das lesmas e dos caracóis, não se faz rogado e põe-se a contar:
― É assim: quando a Raposa quer apanhar um Ouriço, e ele se enrola numa bola de espinhos, para defender-se, tem o feio costume de lhe fazer chichi em cima. Enojado, o Ouriço desenrola-se, e ela ferra-lhe o dente aqui, na parte inferior do corpo, onde os Ouriços não têm picos. – e mostra a zona do corpito, desprovida de cerdas.
― E era uma vez um Ouriço, calculo! – exclama a aranha, arrepiada, na pontinha da teia.
― Nem mais. – remata o ouriço-cacheiro.
― Então, é melhor esconder-se e depressa, ó senhor Ouriço. Olhe que a Raposa não tarda aí!
― Como estamos no final do Verão, segue com os filhotes a caminho das searas. Antes ou depois da ceifa, no restolho, não lhe vão faltar ratos, arganazes e passarada com fartura. Por isso, muda de covil, a espertalhona…
E o ouriço-cacheiro, numa pressa, enrola-se, bolinha de picos, bem escondido dos olhos da raposa matreira. A aranha, essa, lá fica, oito patitas a tecer a teia, sem motivo para alarme.
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que o Verão me Contou
Ed. Publicações Europa-América



― O mais certo, é vir por aí forte trovoada. No Verão, é sempre assim. Chuva e trovoada quanto menos se espera – resmunga a toupeira, olhinhos piscos, cabeça fora do buraco, a remover detritos e entulho, num asseio.
As nuvens parecem galopar sobre o dorso de cavalos invisíveis. Aos poucos, juntam-se e colocam uma cortina cinzenta sobre o vestido azul que a manhã vestiu. Quem disse que a toupeira se engana? Ela, que mora debaixo da terra, sabe muito bem o que se passa no céu!
As cerejas, que se mostram nos ramos desde Maio, lembram brincos de princesa numa história de fadas. A oferecerem-se nos ramos, baloiçam, pezinhos juntos, por entre a folhagem, ao sabor do vento, que de repente se levantou. Esperam a chuva que vai restituir à sua polpa de rubi o brilho acetinado que a poeira lhe roubou. Caem os primeiros pingos sobre as folhas da figueira. Está tão carregada de figos lampos, que a passarada lhe passa ao largo, farta da doçura do seu mel. Os vindimos, só vão aparecer nos ramos no início do Outono.
Mas a chuva não é boa para os figos, que secam na esteira, à quentura do Sol. Nem para as alfarrobas já colhidas. Corpinho castanho-escuro, a esconderem no bojo o chocalhar das sementes, companheiras do oiro das moiras encantadas.
Há que recolher ambos sem demora. E enquanto as mãos abrigam os frutos, as andorinhas, sabendo dos insectos que voam baixo, quando a trovoada se aproxima, lançam-se em sua perseguição.
Voo picado a rasar a terra, num rebuliço de asas, aproveitando a fartura de que se alimentam: «Que grande caçada!», gritam umas para as outras, numa algazarra feita de chilreios.
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que o Verão me Contou
Ed. Publicações Europa-América



A raposa põe o nariz fora da toca. Fareja o ar. Arrebita as orelhas. Cautelosa, avança. Coloca uma das patas dianteiras sobre as folhas secas que ocultam a entrada da sua casa. Logo a seguir, a outra. Já com o corpo fora do buraco, olha à sua roda, focinho levantado.
– Que rico tempo! – exclama, a bocejar, saindo para a mornez da tarde.
Espreguiça-se. Dá meia volta. Não. Não há sinal de perigo. Volta a meter a cabeça na toca e chama:
– Vamos, meus raposinhos, são horas. O dia está no fim. Vamos, toca a levantar!
Entra de novo no covil. Com o focinho põe-se a empurrar o corpo felpudo dos raposinhos, ainda enroscados no torpor do sono. E logo torna:
– Vamos, vamos, preguiçosos, não ouviram chamar? São horas, raposinhos. Não há tempo a perder!
Uma raposinha e dois raposinhos levantam-se de um salto.
– Preparem-se para viajar. – Anuncia a dona raposa.
– Viajar?! – repetem, num espanto, a raposinha e os raposinhos.
– Sim, vamos mudar de casa. – explica a mãe. – Estamos no Verão, vamos passar algum tempo mais perto das searas.
Quando os filhos nasceram, na Primavera, a mãe raposa teve um trabalhão para os alimentar. E também para os ensinar a serem prudentes. Agora, com três meses feitos, espigadotes, estão capazes de enfrentar a vida e os seus perigos. Pois se até já aprenderam a caçar! Mas a raposa sabe que os raposinhos só irão abandoná-la lá pela chegada do Outono. Nessa altura, voltará a casa o seu marido, o senhor raposão.
Mãe e filhos saem de casa numa restolhada. Ao porco-espinho não escapam os preparativos da partida.
– Outra vez de abalada, comadre Raposa? – pergunta, curioso, à entrada da toca.
– É verdade, senhor Porco-Espinho. Chegou a hora de descansar um pouco, que a minha vida, nos últimos meses, não tem sido um regalo!
– Diz bem, comadre diz bem! - responde o outro numa aprovação. – Alimentar e cuidar desses diabretes não é tarefa fácil, não senhor. E para onde é a ida? Para o sítio do costume, não?
– Claro! Nesta altura do ano, com o trigo, o milho, a cevada e o centeio que há por aí, não vai faltar passarada nem roedores. Isto, sem falar nos cordeiros… Os meus raposinhos vão encher a barriguinha à vontade, e eu vou poder descansar desta lufa-lufa que me traz derreada!
Só então o porco-espinho repara na magreza da comadre raposa. Coitada, está a pele e o osso. Por isso, recomenda:
– E veja se engorda um pouco lá por essas bandas, que bem precisa.
A raposa lança sobre si um olhar atento.
– Estou magrita, estou. – e acrescenta, os olhos agora embevecidos pousados nos filhotes: - Também, não admira. Além de os amamentar, fartei-me de andar por aí, esfalfada, em busca do melhor para matar a fome aos meus raposecos!
E logo, bisbilhoteiro, o senhor porco-espinho:
– Muitas visitas às capoeiras, naturalmente…
E a raposa, atrevida, num desafio feito de queixas:
– Pois, então. E que havia eu de fazer? Deixá-los morrer de fome, aos meus raposinhos?!
O porco-espinho, bicho nocturno como ela, concorda, num aceno.
E de novo a raposa, toda espevitada:
– Bem faz o compadre, que se empanturra antes de chegar o Inverno.
– Ora, comadre, bem sabe que sou obrigado a hibernar! – atalha, a justificar-se, o porco-espinho. – Por isso alimento-me o mais que posso de raízes, de tubérculos e de cascas macias de ramos.
– Tem sorte, é o que é. Come daquilo que gosta. Enquanto eu, no Inverno, ando sempre de olho em tudo que me encha a barriga. Não posso ser esquisita no que respeita ao alimento.
Quanta verdade nas palavras da raposa. Com efeito, no Inverno e no início da Primavera, a pobre vê-se aflita para arranjar sustento. A caça é pouca, muitos animais hibernam ou fogem ao frio, agasalhados nos seus esconderijos. E a raposa, ou se afoita a assaltar alguma capoeira, ou, então, não tem outro remédio senão alimentar-se do que encontra: ovos, frutos, répteis, insectos…Ainda que, no Verão, não rejeite uma saltada à vinha para comer um bom cacho de uva moscatel. Ou ao meloal, em busca de melão ou de alguma abóbora madura.
E logo, cheia de pressa, a raposa prepara-se para a partida.
– E agora, adeus, senhor Porco-Espinho. Até à vista. Passe bem. Vou aproveitar o Verão enquanto dura! – regouga ela.
– Boa viajem, comadre Raposa. Saudinha é o que eu lhe desejo! – responde o porco-espinho, a pensar que são horas de ir em busca da ceia.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que o Verão me Contou»
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