
Dedicado ao meu amigo Alfredo Gago da Câmara
Considerada uma das tradições mais significativas dos Açores (Ribeira Seca e Ribeira Grande, São Miguel), tem conhecido ao longo dos anos várias interpretações quanto à sua proveniência. Enquanto alguns autores vêem nesta festividade – única no arquipélago – uma reminiscência do velho teatro popular ou lembranças dos cavaleiros que outrora tomavam parte nos torneios de cavalaria medieval, outros sustentam que representam restos de cerimónias medievais de inspiração bíblica. Outros ainda defendem que a prática secular das Cavalhadas não passa de resquícios das remotas lutas travadas entre mouros e cristãos.
Todavia, se as opiniões se dividem e as dúvidas permanecem, existe um ponto em que todos estão de acordo: a tradição vigora há quatro séculos e aparece ligada ao período das grandes erupções vulcânicas do pico do Sapateiro (actual pico Queimado), que assolaram a ilha de São Miguel, tendo a lava destruído tudo o que encontrava pela frente, particularmente nas freguesias da Ribeira Seca e de Santa Bárbara (na então Vila da Ribeira Grande, hoje cidade e sede do concelho) e Vila Franca do Campo (situada no lado sul da ilha).
Descendo da encosta e galgando o pequeno povoado, a lava, ao atingir o ponto onde se erguia a Capela de São Pedro, na Ribeira Seca, separou-se em duas torrentes, para ladeá-la sem a molestar, e daí correu até ao mar durante três dias e três noites, dividindo assim o areal em dois (um só, até então): o areal de Santa Bárbara da Ribeira Seca e o da Ribeira Grande.
Apercebendo-se o povo da enorme destruição e o facto de nada haver ocorrido à capelinha de São Pedro, tomou, naturalmente, o acontecido como um milagre. Esta calamidade, associada à tradição das Cavalhadas, é contada, popularmente, da seguinte forma: certo fidalgo, senhor de um belo palácio em Vila Franca do Campo, temendo os boatos que então circulavam de que estariam para acontecer novas erupções, ao lembrar-se do milagre da capelinha de São Pedro, receoso pelo seu palácio, pela sua vida e a dos seus, resolveu subir às montanhas da vila, juntamente com os mordomos do Espírito Santo, para rezarem em conjunto, prometendo que se o seu palácio, a sua vida e a da sua família fossem poupados a novos cataclismos faria o voto perpétuo de deslocar-se todos os anos no dia de São Pedro à sua capela, na Ribeira Seca, para louvá-lo e cantar-lhe passagens da vida do próprio santo.
Poupados que foram o palácio e a vida dos seus ocupantes, começou o fidalgo a cumprir todos os anos, no dia 29 de Junho, a sua promessa, sempre com a maior pompa e solenidade, vistosa e ricamente vestido, montado num belo cavalo, fazendo-se acompanhar dos seus vassalos e dos mordomos do Espírito Santo. Partindo de Vila Franca do Campo, dirigia-se primeiro à freguesia de Ribeira Seca e dali para a capela de São Pedro (a dois quilómetros da pequena vila), onde fazia a apresentação da embaixada que o acompanhava e declamava as loas cantadas à porta do templo. De seguida dava sete voltas rituais à ermida, interpretadas como os sete dons do Espírito Santo: sapiência, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor a Deus.
Com o correr dos anos o povo começou a juntar-se na capela de São Pedro para assistir ao ritual, começando também, grato pelos milagres do santo, a homenageá-lo nessa data, enfeitando-lhe o templo com hortênsias azuis e ofertando-lhe as tradicionais «alâmpadas» açorianas, constituídas por arranjos de flores naturais (hortências, agapantos, rosas-de-cacho) misturadas com as «novidades» de cultivo (maçarocas, pepinos, peras, etc.).
Como a devoção aumentava e o cerimonial das Cavalhadas se mantinha, a capela de São Pedro (do século XVI) começou a tornar-se pequena, acabando por construir-se uma nova igreja (séculos XVIII-XIX). Ainda hoje o seu interior continua a ser profusamente ornamentado com as «alâmpadas», a darem um colorido, um perfume e uma beleza especiais ao templo. Estes arranjos florais com frutos terão começado a ser concebidos por altura das primeiras Cavalhadas e do início do culto a São Pedro, constituindo uma oferta votiva do povo ao santo que tão festiva e singularmente se venera na Ribeira Seca.
Por morte do fidalgo, e no desejo de continuar a manter-se o voto perpétuo, o povo da Ribeira Seca chamou a si a devoção em honra do Santo Pescador. Assim, as Cavalhadas de outros tempos, onde desfilavam fidalgos e vassalos, deram lugar aos homens do campo (principalmente), na sua maioria residentes nas freguesias da Ribeira Seca e de Santa Bárbara.
A manter viva a remota e significativa tradição, o desfile (chegando a reunir cento e vinte cavaleiros, embora o seu número seja variável), sai do solar de Mafoma (palacete do século XVIII, onde está instalado o Museu do Chá) para percorrer em colorido cortejo no dia de São Pedro (patrono da Ribeira Seca e feriado municipal na Ribeira Grande) a pequena freguesia e as que lhe são vizinhas. Os cavaleiros desfilam pelas ruas em duas alas, com os trajos a contribuir para a originalidade da festa: camisa branca, calça branca com lista vermelha lateral, gravata vermelha, uma faixa também vermelha em banda sobre o peito, flores e grandes laços de fitas de cores colocados no peito e nos ombros. Na cabeça usam chapes altos pretos, adornados com objectos de ouro (principalmente fios, cordões e pulseiras) e diversos enfeites, entre eles minúsculas florinhas feitas de papel prateado. Numa das mãos levam um pendão vermelho com as letras SP (São Pedro) e na outra as rédeas do animal, enfeitado com uma espécie de xairel branco e laços de diversas cores. As Cavalhadas de São Pedro na Ribeira Seca chamam à localidade muitos dos habitantes de São Miguel e das restantes ilhas açorianas, bem como forasteiros idos um pouco de todo o lado.
Soledade Martinho costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.V
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros

Situada em pleno centro histórico de Alverca do Ribatejo, na sua zona mais elevada, foi edificada em louvor de São Pedro, Padroeiro da Cidade. Ignora-se a data da sua construção, mas sabe-se da sua existência em 1449, quando da Batalha da Alfarrobeira. Igreja de três naves, por diversas vezes foi objecto de restauros. Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755 ficou totalmente danificada. O telhado e a torre sineira abateram, assim como parte das paredes laterais. Ficaram intactas a fachada, a sacristia e o baptistério.
Enquanto durou a recuperação, todo o seu espólio foi transferido para a Igreja da Misericórdia. Do século XVI e XVII poucas peças restaram. Do século XVII subsistiram o portal seiscentista, três pias de água benta, em mármore rosa, a pia baptismal e as duas telas de pintor desconhecido que ladeiam a capela-mor. Dos azulejos do século XVII o realce vai para o painel que representa a libertação de São Pedro pelo Anjo. Do espólio datado do século XVIII (retábulo, pinturas e estuque do tecto), podem ainda observar-se alguns azulejos alusivos à vida de São Pedro.
Segundo a lenda, é na Igreja Matriz de São Pedro que se guardam as «chaves» da cidade de Alverca do Ribatejo.
Outrora, quando a chuva não vinha, certo lavrador, acompanhado por outros lavradores amigos, tinha por costume ir até à Igreja de São Pedro para fazer oscilar a imagem de Nosso Senhor dos Passos – crente de que o seu gesto resolvia a situação. Após isto, o grupo, com a sagrada imagem transportada aos ombros, dava algumas voltas no interior do templo, solicitando, nas suas preces, a bênção da chuva tão necessária às culturas e às pastagens. Segundo dizem, mal os lavradores saíam a porta da igreja, apareciam as primeiras nuvens no céu, sinal de que a chuva não tardava a chegar. O lavrador ajoelhava então sobre a terra, que beijava, e agradecia a Deus a graça concedida.
A imagem, património da paróquia de Alverca do Ribatejo, foi oferecida por D. João V à Igreja do Mártir São Sebastião, templo que o rei mandou edificar na mesma localidade, do qual resta a Capela do senhor dos Passos, localizada no antigo e desactivado cemitério de São Sebastião. Na frente da imagem viam-se, antigamente, duas lanternas de prata, com azeite e pavios acesos pelos devotos, a arder noite e dia.
Soledade Martinho Costa
Foto: Carmen Maria Lopes Movilha

Ajuda-me, mãe
Não conheço estes caminhos
Estas ruas
Estas casas
Estas pessoas
Que se cruzam comigo
Estas vozes
Que chegam aos meus ouvidos.
Onde estou eu, mãe?
Ajuda-me a reencontrar
O local onde sempre vivi
A casa que envelheceu comigo
As paredes que ouviram
Há tanto tempo, mãe
O meu primeiro choro
No dia em que nasci.
Mas agora, mãe
Rodeada desta inquietação
Que me tolhe os passos
Agasalhada neste medo
Nem eu sei de quê
Prisioneira nos meus próprios braços
Que faço eu mãe?
Que faço eu aqui?
Aceitar o que não quero
Perdida neste deserto
Respirar o veneno
Que me invade as veias
Não me reconhecer ao ver-me ao espelho
Obrigada a dizer sim quando quero dizer não
Deitar ao vento os sonhos que sonhei
Estou cansada, mãe
Cansada deste meu cansaço
Desta luta desigual
Deste acordar em vão.
Onde estão as minhas bonecas, mãe
Os meus livros de histórias
A minha carteira da escola
A caixa dos meus bichos-da-seda
Os meus lápis de cor
Como foi que os perdi
Que tudo se perdeu de mim?
Ajuda-me a procurar as minhas coisas, mãe.
Está escuro, tudo está tão escuro
E eu sei que o Sol brilha lá fora
Porquê, mãe
Porquê esta escuridão
Porquê esta distância
Entre aquilo que fui e aquilo que sou
Entre o quente do meu sangue
E o frio nas minhas veias?
Ensina-me outra vez
As primeiras palavras, mãe
Ajuda-me a dar de novo os primeiros passos
Veste-me o vestido de veludo
Penteia-me outra vez os cabelos
Com o pente de prata
Põe-me o laço de seda branco
Preso nos meus caracóis
Tu sabes, mãe, tu podes
Já o fizeste tantas vezes, mãe.
Ajuda-me, dá-me a tua mão
Ensina-me o caminho a seguir
A que sombras me hei-de acolher, mãe?
Diz-me qual o mar de que me devo afastar
Para não molhar os meus pés de tempestade
Que sementes devo deitar à terra
Para que nasçam flores dentro do meu coração.
Ajuda-me a aceitar o que não quero
A ter por companhia quem não conheço
A beber a água salgada que me provoca sede
A comer o pão ázimo que não mata a minha fome
Ajuda-me a descansar, a dormir no teu colo
A olhar os teus olhos que não vejo onde
Ajuda-me a suportar a vida, mãe
Ajuda-me a suportar esta mágoa que me dói
Como fazias quando eu estava doente
E vinhas depor um beijo sobre a minha fronte.
Mas é tão tarde para ambas, mãe
Tão tarde, que a tua ajuda
Mesmo que ma pudesses dar chegava tarde
Tarde demais
Tão tarde, mãe, que não merecia a pena.
Na devida altura estarei a teu lado
Livre, leve, intemporal
A minha mão na tua, mãe
As duas como a sombra do voo de uma ave.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal

― Uf! Que calor! – zune a abelha, pousada num lírio bravo, junto do riacho. – Melhor se deve estar na colmeia!
― Mas só aqui tens a água e o néctar de que precisas! – atalha o lírio, a meter conversa.
― Enquanto dura, amigo Lírio, enquanto dura… Lá para o fim do Verão, o riacho estará seco e eu terei de matar a sede noutro lado.
― Mas haverá ainda flores com abundância, é só escolheres… – comenta o lírio, vestido de lilás.
― Tens razão, flores não vão faltar: campainhas, madressilvas, rosas-bravas, boninas, lírios como tu…
― Por isso trabalhas tanto!
― Sim, sim, não descanso. Eu e as minhas irmãs, as abelhas obreiras…
― E a tua rainha, o que faz ela?
― Toma conta da colmeia. Dita e ensina as leis que nos regem. Põe os ovos para que nasçam outras abelhas-obreiras e outras rainhas...
O lírio bravo confessa:
― Sabes que, por vezes, vos confundo?
― É natural. Somos parecidos: as obreiras, os zângãos e as rainhas. Mas temos tarefas muito diferentes.
― Deve ser engraçada a vida no cortiço. Vocês, as obreiras, trabalham. A rainha dita as leis e põe os ovos. E os zângãos, que fazem eles?
A abelha explica:
― Os zângãos vivem na colmeia e alimentam-se nos nossos favos até chegar a altura de fecundarem a rainha.
E logo o lírio, cheio de vaidade:
― Mas nós, as flores, é que vos damos o néctar!
― Ah, sim! Sem ele não poderíamos fabricar o mel!
A abelha faz um voo circular sobre as pétalas do lírio. Depois volta a sugar o suco doce da flor. Por fim, despede-se:
― Adeus, amigo Lírio Bravo, vou até à colmeia dizer às minhas irmãs obreiras que venham ter contigo.
― E tu, quando voltas?
― Mais logo, prometo. Estamos no início do Verão, os dias ainda são compridos…
― Só tenho pena de não poder visitar o teu cortiço! – queixa-se o lírio.
― Deixa lá, não fiques triste. Venho eu trazer-te novidades e fazer-te companhia!
E, num zumbido, a abelha lá vai, dar o recado. Indicar às irmãs obreiras a morada da flor de quem ficou amiga.
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que o Verão me Contou
Ed. Publicações Europa-América

«Por decisão da autora, esta obra não segue as regras do actual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.»
À semelhança dos anteriores, assim se lerá nas páginas de entrada do meu novo livro, a sair em finais do mês de Julho de 2022.
Soledade Martinho Costa


— Até que enfim, está na hora da ceia! - suspira o noitibó, meio oculto pela vegetação onde improvisa a casa em que mora.
A ele, basta-lhe ajeitar no chão umas ervas, umas folhas secas, e pronto, tem o ninho feito! Mas agora, que a noite chegou, o papinho não lhe dá tréguas. Por isso, ei-lo pelo escuro dentro, à procura dos insectos de que se alimenta. Olhos grandes, bem atentos, bico aberto em pleno voo, disposto a não deixar fugir a gula do petisco. De madrugada regressará ao ninho, de papo cheio, para dormir e refazer-se do esforço da caçada.
Silencioso no bater das asas, não escapa, todavia, ao noitibó um ruído ligeiro: «Quem será que lá vem?», pensa para consigo. E avança o olhar pelo emaranhado dos arbustos. Não tem dúvida de que está acompanhado… À cautela, pousa no galho de uma árvore. De noite, nas sombras, todo o cuidado é pouco. Isto, se pudessem, diriam os insectos que se atravessam na frente do seu bico! E põe-se à espreita. A vigiar o vulto que se aproxima: «Hum… é reboludo...tem a cauda curta...orelhas pequenas...Pois claro! Só podia ser o Texugo!», descobre o noitibó.
O texugo, pois dele se trata, estaca junto ao tronco da árvore onde a ave se ocultou. De longe também não lhe passou despercebido o adejar da ave: «Fez ele bem. - diz de si para si. - Cada qual que tome conta de si!» De seguida, ergue o focinho pontiagudo e cumprimenta, como se nada fosse:
— Boa noite, senhor Noitibó. Muito gosto em vê-lo! - o noitibó responde, confiado de que está seguro no seu poiso:
— Boa noite, senhor Texugo. Bons olhos o vejam! - e acrescenta a corresponder à cordialidade do outro:
— Em busca da ceia, ao que julgo…
— Tem razão. - diz o texugo, fato felpudo, acastanhado e preto – Cá ando, a ver se caço alguma coisa. E o amigo, à cata do mesmo, pelo que vejo…
— Assim é. Enquanto uns descansam, já de papo farto, aqui andamos nós, a palmilhar a noite, em busca de sustento…
O texugo, manchas brancas na cabeça e no rabo, muda o rumo à conversa:
— Ouvi dizer que o amigo chegou, recentemente, de viagem…
— É verdade. – confirma o noitibó – Chego sempre nesta altura do ano e parto no Outono.
— Eu, então, acordei há pouco da sonolência em que fico durante os meses do Outono e do Inverno.
— Nesse caso, deve aproveitar agora, que estamos na Primavera! - aconselha o noitibó, bico curto, no alto do ramo.
— Aproveitar, aproveito. O pior é que, mal acordo, não me falta que fazer. – conta o texugo – Além de alimentar os filhos, ainda pequenos, tenho de renovar as camas de fresco, com ervas e folhas; tenho de escavar novas galerias, que a família é cada vez mais numerosa; tenho de caçar de noite para matar a fome…
— É o que se chama uma vida de trabalho! - comenta o noitibó, cabecinha achatada, a pensar nele próprio, que nem sequer se dá ao incómodo de fazer um ninho que se veja…
— O que me vale – continua o texugo – é que, daqui por diante, não me posso queixar da escassez de alimento. Tubérculos, bolbos e frutos não me vão faltar. Nem caracóis, nem roedores, nem répteis… Isto, sem falar das hortas, das espigas de milho e do mel, a transbordar das colmeias…
— Ó amigo Texugo - espanta-se o noitibó -, e o ferrão das abelhas?!
— Ora, não há perigo. As abelhas não conseguem picar a minha pele!
— Sendo assim, pode encher a barriguinha sem receio…
— É o que faço – confessa o texugo. E prossegue: - Aliás, não sou bicho esquisito; como de tudo. Principalmente, no início do Outono, quando acumulo a gordura que me sustenta enquanto dura o meu sono.
E logo o noitibó, penas castanhas e cinzentas:
— Naturalmente, é por isso que o amigo possui quarenta dentes…
O outro, defende-se:
— Que remédio tenho senão acautelar-me. Ou não sabe que durante os meses em que hiberno não me alimento?!
O noitibó faz-se desentendido. Não responde à pergunta. Mas afirma, olhar a devassar as sombras:
— Pois eu, no Outono, sigo viagem. Vou até África, à procura do calor. Frio não é comigo!
O texugo fareja o ar.
— Bom, meu caro amigo – diz - , a conversa está agradável, mas a barriga é que manda… Acho que vou seguir por aquele atalho…
— Por mim, prefiro ficar por estas bandas. – argumenta o noitibó, peninhas brancas a salpicarem-lhe o fato.
E assim fazem. O texugo duas listas escuras que lhe nascem nos olhos e passam pelas orelhas, embrenha-se pelo matorral ao encontro da caça. O noitibó, asas caladas, a desvendar segredos, também se perde sob o luar da mata.
Soledade Martinho Costa
Do livro Histórias que a Primavera me Contou
Ed. Publicações Europa-América

Quando os olhos de uma mãe choram lágrimas de alegria, os anjos, lá no céu, sorriem.
Parabéns, Dona Dolores.
Soledade Martinho Costa

Há um silêncio de ave à nossa volta
A marcar a cadência aos nossos passos.
Faz-nos falta uma flor
Que os troncos mortos
São vontades ausentes
E a força
Que nos faz chorar de pena
Verdes copas.
Junto de nós
Nos olhos do menino sem jardim
Uma tristeza azul
Que nos importa.
E o peso de uma culpa
Que não temos
Carrega os nossos ombros
Mesmo assim.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua
Ed. Vela Branca
Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas, as ervilhacas roxas e amarelas, as corriolas lilases em forma de sino, o cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido, as calcinhas-de-cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás, e os pregos-de-ouro, amarelos, como o metal precioso
— Quem é a mais bonita? Vamos, digam lá. Quem é a mais bonita?
— Sou eu! Sou eu a mais bonita!
— E a mais perfumada?
— A mais perfumada sou eu!
— E a mais garrida?
— Eu, eu! A mais garrida sou eu!
O vento agita o corpo que não se vê mas que se sente.
— Estouvadas. – resmunga ele. – Muito estouvadas são as flores. E vaidosas? Nunca vi. Passam o tempo todo nesta lengalenga. A quererem saber qual é a mais bonita, a mais perfumada, a mais garrida…Bem gostava eu de não as ouvir. O pior, é que passo por elas constantemente. Que remédio tenho, pois, se não escutar aquilo que dizem. Mas quando me zango…Ah! Quando me zango a sério, sopro nas suas pétalas com tal fúria que todas se calam e estremecem com receio da minha zanga e da minha força!
— Fazes mal. – reponde-lhe, loiro de sol, um campo de trigo. – Não deves zangar-te nem mostrar às flores a tua fúria. Repara que também tu és falador. Raramente te calas. Sou eu quem to diz, pois sou eu quem escuta a tua voz a toda a hora. E estouvado também o és. Porque, sem me pedires licença, fazes ondular o meu corpo de espigas como um mar revolto. Além disso, tens vaidade da tua força. A prova é que dela te ufanas. Tanto, como as flores se orgulham da sua beleza, do seu perfume e da sua cor. Pensa primeiro nos teus próprios defeitos, amigo Vento. Pensa primeiro neles, para melhor saberes compreender e desculpar os defeitos dos outros…
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo torna-se então plana como uma estrada aberta.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que a Primavera me Contou»
Ed. Publicações Europa-América
Ilustração: Elisa Bernardo
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