
Olhar-te devagar
Reter as tuas mãos
Dizer teu nome
Beber das palavras
Com que fazes
Mudar em madrugadas
O sol-posto
Toda a distância
Incenso, timbre, gosto.
Olhar-te devagar
Como quem reza
Se ajuíza
Desnuda
Se compara
Ao bailado da folha
Sobre a terra
Na dádiva total
Do Outono.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal

Despem as árvores
As folhas no Outono
Fecham-se as borboletas nos casulos
Renovam-se nos rios
Os cardumes
Sucedem-se no ventre
As gerações.
Perpétua mutação.
O vento
A Lua
O mar
As Estações.
Só não mudam as bocas
Defendidas por muralhas
Nem os corações parados
No âmago do mundo.
Quem foi mandante
Quem ousou amortalhar
Os sonhos em flor?
À ordem de quem
De quê
De que tutela
De que lei?
Feitos de assombro
Escutam-se os nomes na distância
Onde as palavras duvidam
Do seu próprio som.
A preencher os espaços
Fica o vazio que mora nas cidades
E as mãos que teimam
Em acender as velas.
Na persistência dos seus passos
Ficam as mães de Pequim
Perfis de sentinelas
A guardar no peito um grito
Na Praça Tiananmen.
Soledade Martinho Costa
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal

O dia da Ascensão ou dia da Ascensão do Senhor, tem lugar quarenta dias após o domingo de Páscoa. Designado, popularmente, por quinta-feira de Espiga, comporta praxes e tradições que assumem carácter universal. A mais comum está ligada ao ramo de espiga, com «poderes de virtude benfazeja», que se colhe neste dia pelos campos, constituído por espigas de trigo (abundância de pão), tronquinhos de oliveira (que simbolizam a paz), papoilas (a alegria), malmequeres brancos (a prata) e malmequeres amarelos (o ouro) – sempre em número ímpar em relação a cada um destes elementos.
Colhido o ramo, de preferência entre o meio-dia e a uma hora, devem rezar-se, conforme manda o preceito, três ave-marias e três pais-nossos (Beira Litoral). Em certas zonas do Alentejo, respeitando-se o sacralismo desse momento, considerado o espaço mais benéfico, colhem-se cinco espigas de trigo, cinco folhas de oliveira e o maior número possível de flores silvestres brancas e amarelas. Enquanto se procede à recolha, rezam-se cinco ave-marias, cinco pais-nossos e cinco gloria patri, «para nesse ano haver em casa trigo, azeite, ouro e prata».
Em Orca (Beira Baixa) e nas localidades ao redor, o dia da Espiga leva também o nome de dia da Marcela ou dia da Marcelada. Por isso se canta: «Eu venho da Marcelada/ venho de colher marcela/ lá dos campos da Idanha/ daquela mais amarela.»
O ramo de espiga guarda-se dentro de casa, na cozinha ou na sala, por vezes atrás da porta ou junto de uma imagem religiosa, aí se conservando, servindo de talismã, com «virtudes de protecção e esconjuro», até ao ano seguinte, altura em que é substituído por um novo ramo.
No Ribatejo, o dia da Espiga é declarado feriado, por ser «o dia mais santo do ano». Também em Évora (Alto Alentejo), da parte da tarde de quinta-feira de Ascensão, algum comércio e serviços encerram as portas, de modo a que os seus funcionários possam cumprir a tradição de colher «o raminho protector e apelativo da abundância».
À semelhança de outras cerimónias, manifestações e ritos associados às diferentes festas agrárias anuais, o acto de colher o ramo de espiga – simbolizando ao mesmo tempo um elemento favorecedor da conservação e coesão do lar e do fortalecimento da família – poderá, supostamente, remeter-nos a épocas remotas. Particularmente, quando na Grécia Antiga se efectuavam as celebrações (estabelecidas pelos deuses da Antiguidade) em louvor de Deméter ( a Ceres dos Romanos), deusa da agricultura e das searas, e de sua filha Perséfone (em Roma Prosérpina), deusa do trigo, da germinação, dos rebentos e das folhas. As Festas Demétrias, ou Grandes Eleusínias, realizadas na Primavera na cidade de Elêusis, representavam a subida de Perséfone à Terra, correspondendo à época das colheitas, vestindo-se o solo de verdura e de flores para a receber. As Pequenas Eleusínias, celebradas no Outono, expressavam a descida da deusa ao Inferno, retratando a introdução das sementes na terra.
O cerimonial do pão – simbolizado no ramo pelas espigas de trigo, em analogia a Cristo – aparece em certos lugares (embora já raramente) substituído pelo ritual do leite. Caso de Atouguia, ou Atouguia das Cabras (Ribatejo), por ter sido aldeia de muitos rebanhos. Nessas localidades o dia da Espiga tomava a designação de dia do Leite, sendo hábito, outrora, os lavradores oferecerem o leite das suas vacas, cabras e ovelhas, ordenhado na quinta-feira de Ascensão, «aos mais necessitados, ao padre ou a quem lho pedisse», acreditando-se que essa dádiva «protegia o gado da sarna». A crença estendia-se ao queijo fabricado com o leite ordenhado nesse dia crendo-se que tinha o poder de «curar as sezões» (febres causadas por emanações de águas pantanosas).
Por tudo isto, verificava-se, antigamente, em Nisa (Alto Alentejo) a praxe de a mãe do noivo, antes do casamento, oferecer à noiva, no dia da Ascensão, um requeijão de «canado» (nome que se dá ali ao tradicional tarro de cortiça). A noiva partia o requeijão ao meio, devolvia uma das partes à futura sogra e distribuía a outra pelas pessoas amigas. Já em Belmonte (Beira Baixa), não se fazia queijo na Quinta-feira de Ascensão, mas comia-se a «coalhada» (leite espesso com açúcar), que se levava para o campo e se distribuía pelos familiares. Se, por acaso, algum membro da família andava desavindo, era a altura de fazer as pazes oferecendo-lhe a «coalhada», em sinal de reconciliação.
Tradições já passadas, outras ainda vivas, a verdade é que resquícios de festas e praxes remotas continuam a perdurar no calendário. Era em Maio que os Romanos efectuavam as comemorações em louvor da ninfa Maia, ou Bona Dea. Aí residindo, eventualmente, a razão de noutros tempos se dar em Nisa, ao dia de Ascensão, o nome de Maia do Coração, sendo tradição antiga nesta data os noivos oferecerem às noivas a «Maia do Coração» – presente constituído por um objecto de ouro ou peça de vestuário».
Nesta data, crenças e praxes continuam a subsistir entre a comunidade rural, ao contrário do que acontece nas grandes cidades, onde se vai perdendo dia a dia o contacto com os rituais que nos ligam ao passado, como suporte da nossa própria identidade, manifestada na fé, no respeito e no valor das coisas que nos foram legadas.
Por isso, é sempre com surpresa acrescentada que deparamos, nos estabelecimentos e nas ruas das grandes cidades (mesmo na capital), com alguém que nos oferece, na quinta-feira de Ascensão (a troco de algumas moedas), o «raminho de espiga benfazejo».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV
Ed. Círculo de Leitores

Estava na minha casa da aldeia apenas há uns dias quando apareceu por lá um cão desconhecido. Acontece muitas vezes. São cães abandonados, que fogem ou que se perdem por entre o matorral e os atalhos, a encurtar caminhos pelas matas ou vinhedos, que levam às aldeias. Alguns acabam por regressar ao ponto de partida, outros, perdido o faro e a orientação, vão ficando por aqui ou por ali, entregues ao abandono e à fome.
Com um pouco de sorte, juntam-se aos demais cães que tomam conta das aldeias e, mais um menos um, não dá grande ralação aos habitantes desses lugares perdidos entre serras, montes e vales. Onde não come um, podem comer dois, esta é a verdade. Felizes aqueles que encontram mão amiga para os socorrer. Aí, é certo e sabido que esquecem o lugar de onde vieram, dispostos a viver uma nova vida.
Foi assim que o tal cão por ali ficou, aceite pelos outros rafeiros residentes, mais rosnadela, menos rosnadela. Ainda arredio, olhava-me de longe. Não se aproximava nem quando lhe colocava o prato com a comida. O rabo, trazia-o ele entre as pernas, tão escondido que mal se via. Sinal da sua tristeza e do seu medo. Todo preto, e tão feio de corpo e de focinho, como eu nunca vira outro cão igual. Nem cheguei a ver depois.
De início, eu acabava por retirar a comida sem que o animal nela tivesse tocado. Permanecia parado, a uns acautelados metros, com a fome estampada no focinho. Mesmo assim, sem se aproximar. De vez em quando estalava uma zaragata com os outros cães, mas ele, embora assustado, não arredava pata.
Um dia, finalmente, aproximou-se da comida e o prato ficou limpo. Achei que tinha ganho um ponto a meu favor. Baptizei-o sem originalidade: «Preto», por ser totalmente preto o seu pelo. Assim passei a chamá-lo e assim passou a ser conhecido na aldeia. Começou, então, a seguir-me os passos, embora a uns metros, poucos. Começava a habituar-se às pessoas e ao ambiente da aldeia.
Um dia, uma habitante do lugar, ali nascida e criada, já bastante idosa, viu o «Preto». Ao olhá-lo, a senhora Mabília, benzeu-se, como era seu hábito em diversas ocasiões, cruzou depois as mãos sobre o ventre e disse sem o desfitar:
— Credo! É um pobre de um penitente. Mas tão feio…Dê-lhe carinho, minha senhora, dê-lhe carinho, que está a fazer uma esmola.
Fiquei impressionada com as suas palavras. Nas aldeias é assim.
O tempo foi passando e o «Preto» começou a vir comer juntamente com os outros cães. Sentados à espera da comida, sem brigas, sem ladrar, comia um de cada vez, mantendo-se os restantes, ordeira e pacientemente à espera da refeição. Assim os habituei.
Por opção minha, o «Preto» era o primeiro a ser servido. Deixava quase sempre um resto de comida no prato. Acostumado que estava a passar fome, comia sempre menos do que os outros. Por esta altura já o «Preto» abanava o rabo quando me via, facto que veio marcar mais uns pontos a meu favor. Mais pontos marquei quando uma tarde se deitou no chão, a meus pés, barriga para cima, rebolando-se na terra, à espera de uma festa. Tinha sido desparasitado, tomado um banho e mão amiga tirara-lhe as carraças, tipo piercing, que lhe enfeitavam as orelhas. Continuava feio, muito feio, mas o pelo baço apresentava agora um semi-brilho.
Fiz-lhe uma cama num velho palheiro abandonado, onde dormia as sestas e à noite. Mas bastava pressentir-me ou ouvir a minha voz, para o «Preto» aparecer de imediato. Se o chamava, corria na minha direcção, vindo quase sempre do palheiro. Diziam-me algumas pessoas que «o animal era já muito velho». Coisa de que não duvidei.
Passou entretanto o tempo da minha permanência na aldeia. Perto de três meses, pelas minhas contas. Tinha chegado a altura do regresso. Comecei a preocupar-me com o «Preto». Foi então que pedi às pessoas que residem mais perto de mim, que não deixassem de lhe dar água e algum alimento. Que sim, «ficasse eu descansada», assim fariam.
No dia da partida, o «ti» António Maçarico diz-me, com um certo à-vontade, lá da porta:
— Atão, porque é que a senhora não leva o cão consigo?
— Ora, senhor António – respondi. – Porque se eu quisesse um cão já o tinha arranjado.
— Mas a senhora dá tanto mimo ao «Preto», dá-lhe comida, fez-lhe casa no palheiro… – continuou.
— Pois sim. Mas o cão não é meu. Apareceu por aqui e limitei-me a tratá-lo. Não me sinto na obrigação de o levar comigo. Agora é a vossa vez de ajudarem o animal. – rematei.
Foi com pena que deixei o «Preto». Já no Algarve pensava muitas vezes nele. Continuava preocupada, confesso. E com razão. Passara pouco mais de um mês quando telefonei para a aldeia. E logo a notícia: o «Preto» tinha morrido. Deram com ele morto dentro do palheiro. O «Preto» descansara do seu fadário. Fora feliz por uns escassos três meses. Com a minha ausência, imagino que tivesse passado fome e sede. Imagino que não tivesse voltado a ouvir uma palavra de carinho. Imagino (porque não?) que lhe tivesse faltado a minha presença, a minha voz, os meus cuidados. O «Preto» poderá ter morrido debilitado por falta de alimento. Acredito. Mas ninguém me convence que não terá morrido de saudades. Mais do que a falta de alimento (ele até já estava habituado), foram elas, as saudades, que mataram o «Preto».
Soledade Martinho Costa
Do livro Crónicas de Porcelana
Edições Sarrabal

O convite surgiu da Câmara Municipal de Loures, com a qual vinha colaborando no âmbito das escolas do Ensino Básico do Concelho e também com a Biblioteca Municipal, efectuando sessões de animação de leitura.
Fomentar nos mais jovens o gosto pela leitura era, e continua a ser, uma prioridade. Dessa vez, teria de me deslocar à Biblioteca Municipal D. Dinis, situada na Pontinha, (freguesia, actualmente, pertencente a Odivelas). Nela me aguardariam as crianças de determinada escola para assistir à sessão. Não conhecia a Pontinha. Calhou-me um bairro a que hoje se dá o nome de «problemático». Um bairro da periferia, de casas e quarteirões rigorosamente idênticos, ou seja, um bairro de características sociais.
Não sou medrosa. Nunca fui. O que me assusta, assenta no poder inimaginável da Natureza: muita chuva, muito vento, muito nevoeiro, muita trovoada, muito frio, muito calor. A isto, junto os sismos, o mar e o fogo. Sempre me conheci a recear que a Natureza, sem aviso prévio – como é seu costume –, agudize a sua força. Aí, pobres de nós! Estou bem recordada das grandes cheias da noite de 24 para 25 de Novembro de 1967, que devastaram Alverca do Ribatejo, terra onde tenho a minha casa principal: enxurradas de lama a invadirem as casas e as ruas, dezenas de mortos. Muitas lágrimas, muito luto, a tristeza e a saudade, apesar dos muitos anos decorridos, coladas, ainda, à lembrança e às recordações.
Na minha ida à Pontinha, deixei o carro no início da rua onde se situava a biblioteca. Gosto de andar a pé. Uns metros à frente, um grupo de jovens a rondarem os 16, 20 anos. Alguns sentados sobre um muro, outros de pé. Seriam, talvez, uns sete ou oito. Na rua deserta, fácil foi darem pela minha aproximação. Ao passar-lhes ao lado, ouvi palavras pouco lisonjeiras. Vi hostilidade nos seus rostos. Agressividade e desafio nos seus olhos. A atitude provocatória de cuspirem no chão, várias vezes repetida, não dava margem para dúvidas. Não senti receio – mas duvidei, depois, se deveria tê-lo tido ou não…
Chegada à porta da biblioteca, um edifício novo, reparei que muitas crianças, de diferentes idades, andavam por ali. Ao verem-me, cochichos segredados, risos, agitação. Entrei e subi ao primeiro andar. Recebida pela bibliotecária, apercebi-me, de imediato, da sua atrapalhação, do seu nervosismo quando me viu. «É a senhora escritora Soledade Martinho Costa, não é?» – perguntou, voz trémula, as mãos enroladas uma na outra. «Sim, sou eu!» – respondi. E logo o motivo de tanto nervosismo: «Eu nem sei como dizer-lhe, escritora, nem como pedir-lhe desculpa, mas as crianças da escola que deviam vir à sessão, dizem que não querem assistir!». Um pouco surpreendida, como é natural, sosseguei-a: «Não se preocupe. Se não querem assistir ninguém as vai obrigar. Eu estou aqui, foi isso que combinei com a Câmara, o resto, logo se vê…». A jovem ainda esclareceu: «Sabe, algumas das crianças são repetentes na escola. Duma maneira geral, são consideradas difíceis!». Repeti: «Eu vou ficar aqui durante duas horas. O tempo, exactamente, que deve durar a sessão. E não se preocupe, já lidei com outros problemas. Vou dando uma vista de olhos aos livros…». Pareceu mais calma. Entretanto, na escada não parava o rebuliço, os risos, as vozes. Por vezes, mesmo, um rápido fechar e abrir da porta. Mas uma voz, a de um garoto mais crescidinho, 12, 13 anos, a destacar-se, provocatória, das outras: «Eu não entro. Não quero assistir à sessão!».
Escolhi alguns livros e sentei-me na cadeira que me estava reservada. Na frente, uma pequena mesa e um ramo de flores. Uma atenção bonita, perfumada e colorida. Defronte, algumas filas de cadeiras vazias.
Lembrei-me de um outro episódio, passado na Biblioteca Municipal de Loures. Um professor aproximou-se de mim, também ele algo receoso, para me dizer quase de lágrimas nos olhos: «A senhora desculpe, sim, mas a minha turma, é considerada a pior da escola. Estou preocupado com a sessão. Ainda esta manhã, um dos alunos, ao passar por mim num dos corredores, me cuspiu na cara!». Fiquei horrorizada. Sobretudo, fiquei com muita pena daquele pobre professor. Tão infeliz, tão impotente, perante o desamor, a agressividade dos seus alunos. Talvez não tivesse sido descabido da minha parte perguntar-lhe se, em alguma ocasião, teria tentado falar com os alunos um de cada vez, a sós, sem os assustar, sem os obrigar, como se faz quando os amigos que moram no nosso coração precisam de ajuda ou de ouvir uma palavra de compreensão e de afecto. Mas não houve tempo. A sessão estava prestes a começar – e nem sei se me atreveria a dar conselhos a quem me parecia estar cansado, ou ter esgotado todos os seus argumentos. Afinal, como por magia, a sessão correu normalmente. Falaram mais os alunos do que eu. Que me lembre, li apenas um brevíssimo texto.
E aqui estávamos, eu a mirar os livros, a bibliotecária a passear entre as estantes, organizadíssimas, diga-se de passagem. É por esta altura (uns 15 minutos passados), que a porta abre devagarinho e assoma por ela a cabeça de uma menina. Por cima do seu ombro a cabeça de outra menina. A indecisão, o receio no olhar de ambas. Outras cabeças, lá para trás, espreitavam também. Achei por bem falar: «Se querem entrar, tenho muito gosto em recebê-las. Podem sentar-se!». Assim fizeram.
Minutos depois, entraram mais duas ou três crianças. Sentaram-se junto das primeiras. Risinhos, falas segredadas entre si. Mas bem comportados, todos eles. E entraram mais. Só uma voz sobressaía das restantes: a do rapazinho que teimava em afirmar, no patamar da escada, junto à porta: «Eu não entro. Não quero assistir à sessão!».
Aos poucos, as filas de cadeiras foram ficando ocupadas. Quando a «assistência» estava composta, coloquei os livros de parte e informei, olhando o meu relógio de pulso: «Fico contente por ter, finalmente, audiência para poder dar início à sessão de animação de leitura que me trouxe até aqui, à Pontinha. Mas tenho a dizer-vos que perderam algum tempo…Já não tenho as duas horas previstas para conversar com vocês; e a culpa não é minha, como sabem…». Nesta altura, o tal garoto, agora sozinho, abre a porta e interrompe: «Eu é que não entro. Não quero!». Levantei-me e dirigi-me a ele: «Muito bem. Não queres entrar, não entras. Mas não tornas a importunar os teus colegas. Tens um minuto para te decidires: ou entras ou não voltas a abrir esta porta!». Não entrou. Não entrou nesse minuto. Entrou no minuto seguinte. Fechou a porta e foi sentar-se na última fila das cadeiras.
Dei início à sessão, sem utilizar livros – principalmente os meus. Preferi (como sempre, aliás) conversar com os garotos. Há tanto para indagar, há tanto para saber, há tanto para ouvir, há tanto para dizer! E gerou-se uma conversa entre amigos, um clima onde a cumplicidade faz, de repente, surgir a simpatia (ou a empatia), a camaradagem, o à-vontade, o interesse comum, o afecto, a necessidade de comunicar, de saber perguntar, de saber responder, de ser ouvido e de saber ouvir. Conversas cruzadas, assuntos vários, projectos, desejos, sonhos…
Aquelas crianças, reconciliadas consigo próprias, estavam ali, na minha frente, animadas, atentas, faladoras. Ouvi-las era escutar o bater do seu próprio coração. Mas aquelas crianças precisavam de aprender algo que perdurasse nas suas recordações. Que lhes fosse útil para a vida. Foi por isso que interrompi a conversa para olhar, uma vez mais, o meu relógio. Disse apenas: «Acabou a sessão. Já perfiz as minhas duas horas. Vocês sabem que a culpa não é minha, mas vossa. Perderam muito tempo e fizeram-me perder o meu. Está na hora de terminar!». Não encontro palavras para descrever o que se passou a seguir: «Não, não vá ainda!»; «Por favor, fique mais um bocadinho, fique!»; «Senhora escritora converse mais com a gente, não vá embora!» E veio a liçãozinha de moral: «Bom, eu fico. Mas reparem: vocês não queriam assistir à sessão sem haver uma razão que o justificasse. Afinal, gostaram. Para a próxima vez, quando outro autor vier aqui à Biblioteca, não voltem a fazer o mesmo…»
A conversa continuou – e sempre acabei por ler um dos meus textos. Agora, sim, a sessão tinha finalizado. Foi nessa altura que aconteceu uma coisa inesperada, especial, genuína, linda, linda, até hoje e para sempre inesquecível, que encheu o meu coração de ternura e de uma comoção sem limites: num impulso, como se de um só corpo se tratasse, todas aquelas crianças apelidadas de difíceis, de «problemáticas», se ergueram e, de pé, ofereceram-me a mais generosa, a mais sincera e comovente salva de palmas que alguma vez recebi (e já recebi algumas)!
Não voltei à Pontinha. Mas nunca mais vou esquecer aquela quase aventura, aquelas crianças que me deram um momento inolvidável na minha vida de autora para a infância. É sempre com alguma emoção que recordo este episódio, que tem já alguns anos. Foi o mais significativo, o mais bonito de quantos aplausos já me dedicaram – e nunca comparável aos já recebidos ou àqueles que, eventualmente, venha, ainda, a receber!
Soledade Martinho Costa
Do livro Crónicas de Porcelana
Edições Sarrabal

Enigma
Que faz do negro claridade
Nada mais há
Além de ti e do teu canto.
Feito de sons
Tecidos no teu peito
Em que as palavras
São fonte dos poemas
Que sobram dos teus gestos
Do teu jeito.
Mais leve
Do que a espuma das marés
Fazes da tua voz
O mar e o barco
Onde nos levas ao lugar perfeito.
Soledade Martinho Costa
Do livro O Nome dos Poemas
Ed. Vela Branca

As mágoas e os sonhos
Nos teus pulsos
São as palavras dos versos
Que deixaste.
A tua vida
Um fósforo num palheiro
Com a certeza
Que a dúvida confirma
De seres um poeta por inteiro.
Assim o foste
Sem rédeas nos impulsos
Levando a vida tão livre como o vento
Num galope que de ti fez
Corcel e cavaleiro.
Soledade Martinho Costa
Do livro O Nome dos Poemas
Edições Vela Branca

Na altura em que escrevia a colectânea Festas e Tradições Portuguesas, para o Círculo de Leitores, sei que precisei de confirmar uma informação relacionada com uma festividade realizada numa recôndita e pequena aldeia minhota. A pessoa indicada para me dar esse esclarecimento seria o presidente da Junta de Freguesia. Conforme acontece em muitas outras localidades, a Junta de Freguesia funcionava na casa do próprio presidente e sem funcionários. Em lugares pequenos a opção costuma ser esta. O horário de atendimento ao público varia, consoante os afazeres pessoais de cada presidente.
Eis-me, portanto, a efectuar o respectivo telefonema. Do lado de lá da linha alguém indaga antes que eu me adiante:
— Tá lá, quem fala? – a voz de uma mulher.
— Bom dia, minha senhora, poderei falar com o senhor presidente da Junta? – perguntei.
E logo a voz num tom em que se vislumbrava algum incómodo:
— Ele não está.
— E sabe dizer-me quando é que ele está? – insisti.
Uma pequena pausa e a informação:
— Tralmente lá prá hora do almoço.
— E a hora do almoço, é quando? Trata-se de um assunto importante… – acrescentei.
— Lá prá uma. – O som do clique a informar-me de que havia desligado.
A voz não era simpática, mas a interessada era eu.
Por volta da uma hora repeti a chamada. A resposta veio, seca como a anterior:
— Ele não está.
— Mas a senhora disse-me para ligar a esta hora… Então, quando é que poderei ligar novamente?
— Lá prá hora do jantar.
A igual economia de palavras e a minha pergunta, semelhante à anterior:
— E a hora de jantar, é quando?
— Lá prás oito.
O clique outra vez a dar por findo o breve diálogo.
O dia tinha passado e a confirmação sobre a informação pretendida tardava, a atrasar o meu trabalho. Mas às oito em ponto estava eu ao telefone. A mesma voz e a mesma rudeza:
— Tá lá!
— Sim, minha senhora. O senhor presidente está? É a pessoa que precisa da informação…
De repente, como se o chão se abrisse num buraco sem fundo a tragar-me por inteiro, o espanto que não nos deixa sequer abrir a boca para dizer um ai. E ouvi, bem alto, uma voz alterada, iracunda, indescritível, vinda lá dos confins daquela aldeia minhota:
— Olhe cá, não tem mais nada que fazer, não, do que andar atrás dos homens? Ora vá mas é trabalhar, ouviu, e deixe os maridos das outras em paz!
Fiquei atónita. A custar-me a acreditar nas palavras inesperadas que escutava. Mas eis a gargalhada. Num impulso. Irreprimível, sonora, completamente incontrolável, a soltar-se, a quebrar a inicial mudez do meu espanto, da minha primeira reacção, da minha perplexidade. E a voz da mulher, escandalizada:
— E ainda se ri, é?
No meio do riso apenas consegui dizer:
— Que grandessíssimo disparate o seu!
Do outro lado o clique. A criatura tinha desligado.
Depois do riso, que não parava – à mistura com algum nervosismo - , veio ao cimo o meu amor-próprio, a dimensão da injúria, da afronta de que tinha sido alvo. Ainda por cima, a informação que pretendia tinha ficado sem resposta.
Sendo impensável ligar de novo para casa do presidente da Junta, no dia seguinte obtive pela PT o número de telefone do único estabelecimento da aldeia. Desta vez, uma voz de homem, amável. Perante as minhas desculpas pelo incómodo, a resposta:
— Olhe, minha senhora, eu aqui vendo de tudo. Desde bacalhau a sapatos. E ainda sirvo umas «bicas». Mas também cá estou para ajudar naquilo que puder!
Sem grandes pormenores, perguntei se me sabia dizer como poderia entrar em contacto com o presidente da Junta de Freguesia. Em vez da resposta, a pergunta com uma indesmentível nota de indignação:
— A senhora não me diga que houve problemas com a mulher?!
Fiquei calada e quem cala consente. E o dono do estabelecimento a adiantar, a mostrar que sabia muito mais do que eu própria:
— Aquela mulher é o diabo. Coitado do homem…Olhe que é uma jóia de pessoa. Não há nada que se lhe aponte. Mas a mulher faz-lhe a vida negra com os ciúmes!
«Ora aí está!», pensei, a relacionar os factos.
E o meu interlocutor, desta vez:
— Olhe, minha senhora, está com sorte. O senhor presidente parou agora mesmo aqui defronte da loja. Não desligue, não desligue, que eu vou já chamá-lo. É só um momento!
E foi assim que cheguei à fala com o presidente da Junta de Freguesia da pequena aldeia perdida lá pelo Minho.
Postos os pontos nos «is» (assim teve que ser), o desabafo do homem feito de constrangimento:
— A senhora desculpe, sim, desculpe. A minha mulher só me faz passar vergonhas! – E numa confissão sincera, um tudo-nada ingénua: - Ainda a semana passada, numa reunião de Câmara com os presidentes das Juntas de Freguesia do concelho, me foi dito que as coisas não podem continuar assim. Há queixas, sabe? Até sugeriram que a minha mulher está a precisar é de uma boa lição!
Não perguntei qual seria a lição prevista, mas fiquei a pensar se haveria lição capaz de acabar com os ciúmes da mulher do presidente da Junta. Tive dúvidas.
Quanto ao assunto que me levou a efectuar o telefonema, a informação fora obtida. Mas não digo que não me senti solidária com o homem que se mostrava tão fragilizado, impotente e infeliz perante o comportamento e os dislates da esposa. Pelo contrário.
Dias depois recebia uma carta em que me apresentava, uma vez mais, as suas desculpas. Dizia-me também que a mulher estava «arrependida e envergonhada» pelo ocorrido. Num impulso, pensei fazer-lhe um telefonema. Pedagógico. Mas controlei-me. Não o fiz. Talvez porque o meu amor-próprio falou mais alto. Há coisas difíceis de aceitar. Mesmo com a minha gargalhada e o meu riso – à mistura com o nervosismo –, as palavras que nunca havia escutado na minha vida e que me foram dirigidas, impunemente afrontosas, soavam ainda aos meus ouvidos. Poderia entendê-las como uma espécie de anedota, uma leviandade, uma brincadeira de mau gosto. Mas não consegui. Os ciúmes não podem desculpar tudo.
Na dita aldeia, passados estes anos, já deviam ter mudado de presidente. Mas, por essa altura, era aquela a mulher do presidente da Junta.
Soledade Martinho Costa
Do livro Uma Estátua no Meu Coração (crónica)
Edições Vela Branca
N. - O livro encontra-se dividido em «memórias» e «crónicas».

Não me lembro do ano em que voltei à casa da minha avó. Nem vou voltar nunca mais (prefiro assim), embora a casa continue lá. Quando voltei, tinham passado muitos anos, tinham emudecido todas as vozes. O silêncio, tão grande! Ao contrário do espaço, muito mais pequeno, revisitado agora com os meus olhos adultos. Mas lembro-me de todos os recantos da casa, de muitos objectos, dos móveis: na sala de jantar, do armário, muito antigo, de madeira avermelhada e polida, alto, quase a tocar o tecto, com duas largas portas envidraçadas. Pertencia à minha tia Maria Eduarda. E eu a pedir, sempre que ia de visita a casa da avó Maria Estrela:
–Tia Maria Eduarda, posso ir ao armário? - e a minha tia, a sorrir, a dizer-me logo que sim, mas a avisar:
– Olha que não tenho lá nada de jeito, filha!
Mas tinha. Tinha sempre: um pedacinho de bolo, um frasquinho de mel, um naco de marmelada, doce de tomate, uns biscoitos. E eu, que não era gulosa, a saber-me tão bem comer um bocadinho de qualquer coisa que a tia guardasse. Havia outro louceiro (naquela altura chamado «aparador»), o da tia Bé, despido de qualquer gulodice. Menos antigo, mas também com diversos encantos para mim: um aquário que nunca viu sequer um peixe, colocado sobre a pedra mármore, com duas aves de asas abertas, pousadas no rebordo de vidro, e um arlequim de loiça vestido de preto e branco a tocar um harmónio. Na parte de cima, chávenas de chá muito ordenadas na sua fila, penduradas nos grampos, a estremecerem quando o soalho, ao peso dos passos ou das nossas correrias de criança, as fazia baloiçar, levemente, num pendular gracioso, ao som do tilintar dos copos – que não eram de cristal. Em baixo, as duas portas onde o meu tio Zé guardava alguns livros e revistas, principalmente, as revistas do tempo da guerra, a mostrar ao nosso olhar da infância (sempre que, por descuido, as portas ficavam abertas) os horrores dessa época, imagens de homens, mulheres, crianças, soldados, aviões em chamas – aviões em chamas que, passados tantos anos, guardo ainda na memória dos meus olhos. E o cheiro da tinta dessas revistas. […] Na cozinha, vejo um armário pintado de cinzento, arredondado nas partes laterais. Sobre ele, bugigangas diversas, mas aquela que retenho mais viva, é a de um objecto feito de pedra de sabão, […] antigo, rendilhado, com um macaquinho num dos lados, no jeito de trepar. O focinho a olhar para cima, tinha atrás um pequeno recipiente onde a minha avó colocava o raminho da salsa. Em vez de saltar de liana em liana, o macaquinho vivia preso à pedra de sabão sem saber o que era a liberdade… [...] E as janelas, tantas janelas na casa! […] Noutras dependências, muitas, muitas outras coisas, de que me recordo. De que me vou recordar sempre. Porque será que a infância e o que a ela está ligado nunca se separa de nós? Quanto mais o tempo passa, mais se vive do passado. Isto é, quanto mais envelhecemos, mais nos aproximamos da infância. Dessa infância que se agarra à nossa pele, aos nossos olhos, ao nosso coração. Muito mais, na casa vazia e no silêncio, os rostos e as vozes daqueles que já cá não estão, e nos amaram, nos fazem companhia, nos falam e nos escutam nas palavras que não dizemos.
Soledade Martinho Costa
Do livro Uma Estátua no Meu Coração
Edições Vela Branca
Algumas das livrarias onde o livro foi distribuido (proximamente, referirei outras):
Wook (online)
Livraria Ferin (Lisboa)
Livraria Barata (Lisboa
Livraria Distopia (Lisboa)
C. C. Fonte Nova (Lisboa
Livraria Tantos Livros (Lisboa – antiga livraria Europa-América)
Livraria Tantos Livros (Parede – antiga livraria Europa-América)
Livraria Minho (Braga)
Desde os inícios do covid, numa coincidência desastrosa, fiquei sem distribuidora. Motivo de falência, embora se tratasse de uma distribuidora conhecida no mercado livreiro. O resto das edições dos meus livros para adultos ficaram, assim, em «repouso» forçado. Disposição para tratar de qualquer assunto relacionado com essa situação, nenhuma. Vontade de resolver o que precisava de ser resolvido, nenhuma. Interesse por projectos e trabalhos agendados, nenhum. Diariamente, surgiam outras prioridades: vírus, confinamento, vacinas, medo. Só há uns meses, retomei a minha actividade (quase) em pleno. Nova distribuidora (a conselho da Bertrand) e eis-me de novo envolvida com os afazeres que vão para além da própria escrita. Não sou muito dada a publicitar os meus livros para adultos, no que respeita às imagens das capas e, mesmo, aos seus textos. Dou muito mais atenção aos meus livros para crianças, embora a maior parte deles esteja esgotada (desde a falência da minha editora, as Publicações Europa-América). Para comerciante não tenho grande tendência nem habilidade, está provado. Publicitar livros esgotados é o que mais faço. Ora, os meus livros para adultos (4) andam por aí, novamente, nas livrarias. Não dei notícia, mas estou a dá-la agora. Por uma simples razão: a distribuidora (Dinalivro) chamou-me a atenção para essa minha falta. Seria bom informar que o resto das edições voltaram a ser distribuídas. Seria útil dar também o nome de algumas das livrarias onde se encontram as obras, porque, «os autores devem ajudar à divulgação dos seus livros junto do grande público, sobretudo, aqueles que o podem fazer nas redes sociais virtuais». Prometi colaborar, e aqui fica a divulgação. Seria óptimo acabar com o resto das edições, até porque decidi colocar um preço extremamente baixo, diferente daquele que tiveram anteriormente. Muitos dos livros que se publicam mantêm preços altos e as bolsas dos portugueses continuam pouco abonadas, principalmente, nos tempos que correm. Livro a livro, a partir de amanhã, irei publicar a capa e um texto de cada livro, com a indicação do nome de algumas das livrarias onde foram distribuídos – para já, o da Wook, evidentemente. (Satisfeita, Paula Amaro?)
Soledade Martinho Costa
. SEGREDOS
. HOJE
. LEZÍRIA
. RÁCICO
. 3 DE FEVEREIRO - SÃO BRÁS...
. 2 DE FEVEREIRO - FESTA DA...
. 20 DE JANEIRO - SÃO SEBAS...
. 6 DE JANEIRO - DIA DE REI...
. FESTA DO MENINO - 1 DE JA...
. TRADIÇÕES - AS «JANEIRAS»...
. PORTUGAL DESCONHECIDO - A...
. TRADIÇÕES DO NATAL - AS F...
. A QUARTA SEMANA DO ADVENT...
. PORTUGAL DESCONHECIDO - T...
. TALVEZ
. BLOGUES A VISITAR