
Dobaram-se nos anos das marés
Sem outra condição
Outro provir
Que das areias
Das conchas
E dos limos
Serem a hora exacta
O sal onde se afogam
As palavras
Que a voz
Deu aos sentidos.
Os nomes e os sinos
Que se escutam
A percutir de frio
Nos ouvidos
São a tormenta
O poema que se afunda
Nos dias que se arrastam
Pelas sombras
A dar ao coração
Maior vazio.
São mistérios
São ritos
São cristais
São lágrimas
São esperas
Emoções
Ou espadas
No recato de seus gumes.
Temporais
Onde o mar
Busca nas ondas
Bruxedos
Que os corais
Escondem na espuma
Roubados dos abismos
E das brumas
Que o Sol não atravessa
Com seus lumes.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

Nasceu na Arménia por volta do século III. Médico de profissão, a sua fama de santo espalhou-se, rapidamente, entre a comunidade cristã de Sebaste, da qual foi pastor por morte do antigo bispo. Por sua decisão, não aceitou o palácio episcopal, continuando a habitar a gruta que lhe servia de casa, no monte Argeu. Num trabalho constante em favor dos pobres e dos enfermos, apenas descia à cidade quando as obrigações humanas e o zelo pastoral o reclamavam.
Na altura da perseguição aos cristãos em 323, São Brás, conhecido pela sua extrema bondade, santidade e milagres, é preso pelo anticristão Agrícola, que governava a Capadócia e a Arménia, e obrigado a adorar os deuses pagãos. Negou-se São Brás. Foi açoitado, posto no acúleo (cavalete de tortura), submetido aos «garfos» com puas de ferro e lançado a um lago de água gelada, sendo, por fim, degolado.
O corpo, recolhido pelos cristãos, terá sido colocado numa pequena igreja em Sebaste. Mais tarde, as suas relíquias foram trasladadas para a actual basílica, cuja localização recebeu o nome de Monte São Brás. É considerado o protector contra as doenças de garganta porque, segundo as actas da sua vida, salvou da morte um menino em cuja garganta se alojara uma espinha.
Até ao século XI São Brás não entra no calendário litúrgico romano. A partir daí, começa a ter lugar nele pela grande devoção que passou a ser-lhe dedicada em Roma, onde lhe erigiram trinta e cinco igrejas. As actas da sua vida e martírio datam do século IX. Por muitos se contam também os milagres que operou nos animais. Os cardadores invocam-no como seu patrono, devido a ter sido martirizado com os «pentes» de ferro, objectos que utilizam na sua profissão. Figura entre os catorze santos auxiliadores.
Entre nós, as práticas associadas ao dia de São Brás, além das cerimónias litúrgicas e dos festejos, assentam, principalmente, no cumprimento de promessas e na bênção dos animais, levados às muitas igrejas e capelas erigidas ao santo, em cidades, vilas e aldeias portuguesas. Assim acontece, entre outras localidades, em Gomide, Santa Cruz do Bispo, São Jorge de Selho, Montes de São Brás, Serpins, Évora, Arco da Calheta e Campanário (Madeira).
À semelhança do dia de S. Sebastião (20 de Janeiro) e dia de São Vicente (22 de Janeiro ), o dia de São Brás representa, ainda, em certos locais, a proximidade da quadra carnavalesca. Casos de Lousada (Porto ), com o «atirar dos brilhantes» (papelinhos de Carnaval) e da Nazaré, com a tradicional romaria anual à capela do santo, no monte de São Brás, em ranchos de «ensaiados» (designação que se dá ali aos mascarados).
Já na aldeia de Mourilhe (Montalegre), a manter a antiga praxe, o pároco procede à bênção do pão e da água, o primeiro levado pelos devotos, a segunda oferecida na igreja, mas a ser transportada depois pelos fiéis para casa, juntamente com o pão, para servirem a fins profilácticos.
Manda o preceito que após a bênção os devotos comam um pedacinho de pão e bebam um pouco de água, terminando o ritual com o pároco a colocar duas velas bentas apagadas, postas em cruz, sobre as gargantas dos devotos, enquanto é feita uma oração de invocação ao santo.
Cada crente leva também no regresso a casa, uma vela benta para ser acesa quando há tempestades ou alguém está doente. Neste caso, toca-se a pessoa apenas com a vela, costume que se aplica, igualmente, aos animais. Esta prática, assenta na tradição popular de que «a mãe da criança a quem o santo salvou a vida, lhe terá levado velas, quando São Brás esteve encarcerado».
Regista-se ainda em Mourilhe o uso de «beijar as relíquias de São Brás» – uma antiga cruz de prata com pequeninos relicários embutidos na base (ritual, como é suposto, agora abolido devido à pandemia).
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores

Representa a cerimónia litúrgica celebrada no dia 2 de Fevereiro (também chamada Festa de Nossa Senhora das Candeias, de Nossa Senhora da Piedade, de Nossa Senhora da Luz ou Festa da Fevereirinha), em que a Igreja comemora a Purificação de Nossa Senhora, quarenta dias após o nascimento de seu Divino Filho, quando se apresentou no templo do Senhor, cumprindo uma das duas leis – em obediência à lei moisaica (de Moisés) – que Deus impôs no Antigo Testamento.
A primeira lei obrigava a mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino a ficar privada de entrar no Templo durante quarenta dias a seguir ao parto. No caso de se tratar de uma menina, seriam oitenta os dias necessários à purificação da mãe.
Passado esse tempo, em que esteve recolhida e impura, deveria a mulher apresentar-se no Templo e oferecer, simbolicamente, um cordeiro e duas rolas (ou dois pombinhos) ao sacerdote, pedindo-lhe para rezar em seu favor. Após este ritual, a mulher voltava a ser aceite na comunhão dos fiéis, da qual havia sido excluída devido ao parto.
A segunda lei impunha que todos os pais da tribo de Levi dedicassem o filho primogénito ao serviço de Deus, enquanto os pais das crianças que não pertenciam a essa tribo ficavam obrigados ao pagamento de um tributo. (Levi foi o terceiro filho do patriarca hebreu Jacob e de Lia, cujos doze filhos fundaram as doze tribos de Israel).
A Virgem sujeitou-se com humildade à lei, conquanto a sua maternidade fosse, sob todos os aspectos, diferente da maternidade das outras mulheres, facto que, legalmente, não a obrigava ao seu cumprimento. Todavia, ela apresenta-se no Templo, sendo ainda de origem nobre, como directa descendente de David, rei de todo o povo Judeu, que fundou Jerusalém no século X a. C. (sagrado por Samuel, juiz de Israel, sucedendo a seu sogro Saul, primeiro rei dos Israelitas, deposto por ter desobedecido às leis de Jeová – nome de Deus na língua hebraica).
A Virgem apresenta-se no Templo de Jerusalém levando consigo dois pombinhos e seu filho (transportado pelo velho Simeão, judeu que, segundo São Lucas, entoou no Templo, em louvor do Messias, o cântico Nunc dimittis), e sujeita-O à lei da circuncisão
Em memória e veneração deste acto da Mãe de Deus, em obediência às leis do seu povo, reservava a Igreja católica, outrora, uma bênção especial às parturientes que se apresentavam neste dia nos templos acompanhadas dos filhos.
Era também na Festa da Candelária que, antigamente, nas igrejas, antes da celebração da missa, se procedia à «bênção das candeias», levadas depois em procissão.
Em comemoração do sagrado acontecimento, continuam a ser organizadas nesta data, um pouco por todo o mundo cristão, procissões solenes em que são levadas velas acesas, simbolizando Jesus Cristo «como a Verdadeira Luz, que veio para iluminar os povos» – conforme as palavras de Simeão.
A Candelarum (Festa das Candeias) terá começado no Oriente, primeiramente celebrada em Constantinopla e depois em Jerusalém e Antioquia, embora este género de procissão de velas fosse comum às restantes festividades litúrgicas (vigílias e procissões nocturnas em honra de Nossa Senhora).
Posteriormente adoptada em Roma, instituída pelo papa Gelásio I no ano 492, a Candelária, em louvor da Purificação da Virgem, impõe aos Romanos, para que pudessem beneficiar das importantes indulgências pontifícias, que se constituíssem numa longa procissão, levando candeias, mais tarde substituídas por velas
No final da cerimónia, as extremidades das velas não consumidas eram preciosamente guardadas pelos devotos, visto, de acordo com a crença popular, possuírem poderes para «preservar a casa do infortúnio e proporcionar boa saúde e prosperidade material até ao ano imediato».
Supostamente, Gelásio I terá instituído esta festa da Igreja para substituir as Lupercais, efectuadas pelos pagãos nos primeiros dias de Fevereiro, dedicadas a Luperco, deus protector dos rebanhos contra os lobos, festas suprimidas por completo no século V pelo mesmo papa.
Já na antiga Roma tinham lugar, nos primeiros doze dias de Fevereiro, várias cerimónias fúnebres, em que os Romanos, em memória dos familiares falecidos, acendiam fogos e velas ao redor das sepulturas.
Durante esses dias o dia 1 de Fevereiro era particularmente comemorado pelos Romanos com a Festa da Purificação, associada ao final do Inverno, embora de igual modo, dedicada aos mortos.
Também os Celtas, nas Festas do Imbloc (realizadas na chamada «estação fria») celebravam no dia 1 de Fevereiro a Festa da Purificação do Inverno, que relacionavam com o nascimento e lactação do gado lanígero, cerimonial substituído depois (já na era cristã) pela Festa de Santa Brígida, à qual se seguiu, entretanto, a Festa da Senhora das Candeias.
Os Celtas constituíam um povo de raça indo-germânica, espalhado em grandes migrações nos tempos pré-históricos, particularmente na Europa-Central, depois na Gália, na Península Ibérica e nas ilhas Britânicas. Anexados pelos Romanos, conservam-se deles, ainda hoje, os costumes e a velha linguagem (na Bretanha, País de Gales e Irlanda), sendo muitos os sinais célticos que nos indicam a presença das suas reminiscências culturais em Portugal.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores
Tela: Philippe Champaigne

As festas de Nossa Senhora da Salvação, em Arruda dos Vinhos (a dois passos de Alverca do Ribatejo), remontam aos finais do século VI, no reinado de D. Manuel I. Por essa época, um enorme surto de peste grassou em Lisboa e arredores, provocando grande mortandade. O facto de o rei ter conhecimento de que na vila de Arruda dos Vinhos não havia sinal de peste, levou D. Manuel I e a sua corte a refugiarem-se naquela localidade. Segundo a tradição, prometeu o rei, que se todos fossem protegidos, mandaria restaurar e ampliar a Igreja Matriz, assim como alindar a imagem de Nossa Senhora de Arruda, ali venerada, mudando-lhe o nome para Nossa Senhora da Salvação. A vila e os seus habitantes foram poupados à peste, e o rei mandou dar início à sua promessa. As obras decorreram de 1525 a 1531, tendo sido dadas por concluídas já no reinado de D. João III. Desde essa data e todos os anos, até hoje (a 15 de Agosto), realizam-se ali as festividades em Arruda, antecedidas por uma novena de oração, pregação e louvor, que finaliza sempre com o hino em louvor da Senhora, e culmina com a procissão, apenas com o andor de Nossa Senhora da Salvação, como voto perpétuo de agradecimento do rei D. Manuel I. A imagem constitui uma peça valiosíssima em talha dourada de ouro fino do século VIII. A Senhora possui um pequeno tesouro composto por diversas peças de ourivesaria: brincos, anéis, pulseiras, fios, etc., provenientes das promessas dos fiéis. Actualmente, as ofertas em ouro somam apenas dois ou três objectos por ano. As restantes, constituem-se por velas e dinheiro colocado no andor ou pregado com alfinetes no manto da Virgem. A imagem deixou entretanto de ostentar o seu ouro, optando-se pela sua exposição, nos dias da festa, em vitrinas colocadas para esse efeito na Igreja Matriz.
Uma das tradição que se mantém ali, consiste em, pelo menos uma vez na vida, as crianças nascidas das famílias de Arruda, participarem na procissão vestidas de anjinho. Por outro lado, representando as espigas de trigo e os cachos de uvas, o pão e o vinho – Jesus Cristo na Última Ceia simbolizou no pão a representação do Seu corpo e no vinho a do Seu sangue – , é natural que os belíssimos mantos da Senhora da Salvação se apresentem ricamente bordados com cachos e espigas de trigo, a lembrar o ambiente rural de Arruda, particularmente as suas vinhas, das quais provém o seu apreciado vinho.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Edição Círculo de Leitores
Foto: Igreja Matriz de Nossa Senhora da Salvação de Arruda dos Vinhos
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