

Falar da noite de 31 de Dezembro é, obrigatoriamente, lembrar praxes, superstições, costumes ligados ao ano que finda, e nos permitem, pela sua vertente profiláctica e intercessora, ter esperança no novo ano que começa. Com essa crença, comem-se passas de uva, fazem-se soar apitos, colocam-se na cabeça chapelinhos coloridos, veste-se uma peça de roupa de cor azul, salta-se para cima de uma mesa ou de uma cadeira, bebe-se uma taça de champanhe, deita-se fora um caco velho. Repetem-se, por escrito ou de viva voz, os votos de «boas saídas», «boas entradas», «prosperidades», «saúde», «paz», «felicidade».
Tudo isto a fazer lembrar remotas sobrevivências de ritos mágico/propiciatórios de purificação, de abundância e de fertilidade, assim como de excomunhão de poderes maléficos ou nocivos.
Comem-se as tradicionais passas de uva, uma por cada uma das doze badaladas da meia-noite, expressando doze pedidos (um por cada passa), «que serão concretizados, segundo a versão popular, um em cada um dos doze meses do ano que começa», ou atiram-se, nessa noite, três pedras para diante, à medida que se caminha, fazendo ao mesmo tempo um voto por cada uma das pedras atiradas (votos que, parece, serão realizados por todo o ano que chega).
O costume de se fazer barulho na noite do ano que começa, terá o sentido popular de «enxotar o velho» (o ano que termina), prática seguida noutros países, em que se fazem ainda grandes fogueiras na Noite de Ano Bom para «queimar o ano velho» e se realizam praxes mágicas com o fim de «expulsar as bruxas e os espíritos maus».
O hábito, antiquíssimo, de atroar os ares com maior ou menor barulheira, utilizando diversos objectos (latas ou tampas de panelas), poderá ter a sua origem em certos países da Europa e noutros onde se procedia ao ritual «de se bater com um pau (ou mangual) no chão de cultivo durante a noite do último dia do ano e nas noites seguintes», com a intenção de «afugentar os espíritos malignos que prejudicavam a renovação do solo, o revigorar das raízes e o germinar das sementeiras».
Também a tradição de «escacar» (partir) loiça já velha constitui uma prática com objectivos mágicos, profilácticos ou propiciatórios, ligados ao sentido de felicidade.
Nas nossas aldeias, em tempos idos (o mesmo acontecendo noutros países), havia o uso de as mulheres irem guardando, durante o ano, a loiça velha, principalmente loiça de barro (cântaros, tachos, bilhas rachadas, sem asas, sem bico), para ser completamente «escaqueirada» na noite de passagem de ano, juntando-se o povo nas ruas para assistir e participar no ritual – ainda aqui simbolizado pelo acto de «deitar fora o ano velho».
Outro costume que se conserva em algumas aldeias portuguesas (como na Beira Baixa e Alentejo), consiste em marcar as portas com farinha na Noite de Ano Bom, para «dar sorte». Chamado, popularmente, «o milagre das portas», conta que «um soldado de Herodes terá descoberto a casa onde Jesus se albergava. Por ser de noite lembrou-se de marcar a porta com farinha. De manhã, quando regressou com outros soldados, todas as portas estavam marcadas do mesmo modo, acabando os perseguidores por desistir da busca. Lenda semelhante vamos encontrá-la pela Páscoa, com as portas assinaladas com ramos de giesta.
A noite de passagem de ano é festejada entre nós, exuberantemente, um pouco por todo o lado, quer em locais de diversão fechados, quer em amplos espaços públicos, sendo imprescindíveis a música e o fogo-de-artifício. Neste contexto, o destaque vai, sem dúvida, um pouco mais longe: para a ilha da Madeira (Funchal), onde se realizam as grandes Festas do Fim do Ano ou de São Silvestre, a oferecer aos naturais e visitantes (turistas nacionais e estrangeiros) um espectáculo de beleza inesquecível e invulgar. Pela música e cantares tradicionais (os «bailinhos»), mas, sobretudo, pelo deslumbrante fogo-de-artifício, saído de cerca de cinquenta pontos distribuídos ao longo de toda a cidade, deitado sobre a baía, a iluminar a esperança dos homens no novo ano prestes a chegar.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

Festividade mais pagã do que litúrgica, apesar do nome, a Festa do Menino Jesus em Vila Chã de Braciosa, «ninguém sabe explicar como começou». Os idosos lembram-se dela «desde sempre», como se lembravam os seus pais e os seus avós. De geração em geração, ei-la que chega, pontualmente, no dia 1 de Janeiro à pequena aldeia de Miranda do Douro, Bragança (Trás-os-Montes e Alto-Douro).
A primeira fase do festejo, a cargo dos «mordomos», por preceito um rapaz e duas raparigas, todos solteiros, tem início no dia de Natal, quando convidam outros jovens para irem cortar a lenha destinada à grande fogueira que será acesa no dia 1 de Janeiro ao início da tarde. Para trazer a carrada de lenha até à aldeia levam um carro de bois, sem os animais, que depois de carregado é puxado à força de braços pelo grupo, a cumprir a praxe, utilizando para isso cordas grossas com pedaços de madeira nas pontas, para facilitar a tarefa.
Durante os dias que se seguem procede-se ao ensaio dos figurantes, três rapazes: a Velha, o Bailador e a Bailadeira, que vão representar, no dia de Ano Novo, as personagens principais da festa.
Pelas seis horas da manhã, tem lugar a alvorada, com foguetes e gaiteiros a darem a volta à aldeia. Pelas nove horas forma-se o grupo: gaiteiros, «mordomos», Velha, Bailador e Bailadeira. É chegada a hora de começar o peditório. As três personagens dançam, então, à porta da igreja e de cada casa a «moda da bicha». Segundo os naturais de Vila Chã, a dança «vem do tempo antes dos celtas quando esses povos faziam sacrifícios em altares de pedra, havendo ainda altares desses por aqui perto».
Há quem ofereça dinheiro, chouriças, partes do porco e vinho. Para o recolher o «mordomo» transporta consigo o «cântaro», que comporta de quinze a vinte litros. As «mordomas» levam sacas ou cestos destinados a recolher outras dádivas. O grupo aceita tudo o que lhe dão, embora a Velha tenha por costume «pedir a chouriça».
Esta personagem veste saia e casaco de pardo com rendas feitas à mão, leva uma «caiata» (bordão de madeira encurvado no cimo), onde estão presas algumas bexigas de porco cheias de ar (que pressiona para que as pessoas façam a oferta), uma cruz de cortiça queimada pendurada ao peito, enfiada num colar de bogalhos (para enfarruscar aqueles que não contribuem com a «chouriça») e um chapéu enfeitado com uma espécie de palmitos. Às costas transporta a «bota» com vinho, feita de cabedal, a lembrar um fole, com um buraco fino por onde esguicha o vinho sob pressão dos dedos, que dá a beber a quem oferece a «esmola» ou a quem lho pede: «dá-me lá uma pinga da tua “bota”!»
Pardo é o nome do tecido, praticamente em desuso, mas utilizado nos trajos dos ranchos folclóricos, feito de lã de ovelha e «batido constantemente nos moinhos de água», dos quais «existe apenas um, numa aldeia próxima, que faz ainda esse trabalho».
O Bailador vai vestido tradicionalmente de pauliteiro: saia feita de lenços dobrados, de várias cores (os «lenços chineses», como lhes chamam), blusa, xaile e chapéu com fita e palmitos. A Bailadeira veste saia preta de pardo, blusa (antigamente muito bordada à mão) e na cabeça um lenço «chinês» e um chapéu também com fita e palmitos. Travestido de mulher, enche os seios com farinha ou farelos.
Sendo uso em Vila Chã de Braciosa, durante a celebração das missas, as mulheres assistirem ao culto ocupando metade do templo a partir da porta, enquanto a parte da frente é reservada aos homens, no dia de missa de festa, a Bailadeira, de acordo com o preceito, vai juntar-se ao grupo das mulheres.
O peditório dura até à hora da missa (treze horas), celebrada na igreja matriz, onde o padre dá então a beijar aos fiéis a imagem do Menino, como acontece na missa dos dias de Natal e de Reis. No final da celebração litúrgica realiza-se o «leilão das chouriças».
Segue-se o almoço feito pelas «mordomas e destinado apenas ao grupo, idêntico ao de todos os habitantes de Vila Chã: o tradicional prato de «feijão com cascas», a ementa cerimonial festiva deste dia. Trata-se de uma sopa confeccionada com feijão seco com casca, isto é, metido nas vagens (semeado principalmente para esta data), cortado em bocados, batatas, cenouras, carnes e orelha de porco e «bocha» ou «bocheira», uma variedade de chouriço onde entram as miudezas do porco: bofe, coração, fígado e algumas gorduras. Depois de pronta junta-se à sopa o «butelo», chamado ainda «bulho», «butilho» ou «butelho», o afamado «chouriço de ossos», cortado aos pedaços, feito com o espinhaço, pontas das costelas e, por vezes, com o rabo do porco «tudo cortado miudinho».
Segue-se o arraial, com o acender da grande fogueira no largo da igreja, que chega a arder dois ou três dias, conforme a lenha, e o bailarico pela noite dentro, enquanto os figurantes continuam a pedir a «esmola» a quem aparece na Festa do Menino.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. I
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros (a «Velha», a «Bailadeira» e o «Bailador», as três personagens principais da festa. Foto do álbum)

Festa da família, da comunhão e da congregação familiar, tempo de reflexão, de concórdia e de amor, o Natal representa também a ausência e a recordação dos familiares que já não se encontram entre nós. Daí, a alegria própria desta quadra ser atenuada por um sentimento de nostalgia, de saudade e tristeza, reconhecido em diversas práticas que têm lugar nesta data, algumas vindas da Antiguidade, a lembrar rituais pagãos efectuados no solstício do Inverno, relacionados com o culto dos mortos, posteriormente perfilhados e integrados no conjunto das celebrações da Igreja Católica em louvor do nascimento de Cristo.
Dessas práticas e costumes, que relacionam a própria ceia da família com anteriores ritos associados ao culto dos defuntos em épocas remotas, ressalta a crença popular, sobretudo em localidades rurais, de que «os mortos da família regressam na noite de Natal à casa que habitaram em vida para participar na reunião familiar e tomarem parte na Consoada».
Em certas localidades do Alto Minho, continua a manter-se o hábito de colocar-se um talher na mesa «destinado à pessoa da família falecida em data mais recente». No Norte, dispunha-se numa outra divisão da casa uma pequena mesa «com a duplicação da ceia, consagrada aos familiares desaparecidos». Outras vezes, deixava-se «do lado de fora da porta da casa, à meia-noite da noite de Natal, um prato com um pouco de tudo de que se compunha a Consoada, levando-se uma luz para que as almas, vindas na figuração de borboletas brancas ou negras – conforme fosse bom ou mau o seu lugar – pudessem ver o que a família lhes destinara».
Ainda há pouco tempo, na região do Barroso, era hábito evocar o nome dos familiares falecidos antes de se dar início à ceia de Natal. Noutras localidades do nosso País – incluindo Lisboa – a mesa da Consoada fica posta, por vezes, desde o Natal até ao Ano Novo. Costume baseado na crença de que «os mortos da família estão presentes durante a quadra natalícia», crença que persiste em Ousilhão, Vinhais. A mesma intenção faz com que em certas regiões «não se levante a mesa da Consoada até à manhã do dia de Natal», ou, no caso de levantar-se, «voltar a colocar-se sobre ela algumas iguarias, para que as almas que apareçam mais tarde encontrem de comer» (numa outra versão «para os Apóstolos virem comer»).
Em diversos países da Europa (Espanha, França, Inglaterra), deixava-se o fogo aceso na noite de Natal e reservava-se um lugar à mesa da Consoada destinado «ao Menino Jesus». Com intenção piedosa colocava-se ainda sobre a mesa leite ou cera destinados às almas e acreditava-se que «nessa noite os fantasmas não deixavam de aparecer».
A convicção de que em certas datas festivas, como o Natal, se deve comer filhoses ou outras espécies alimentares fritas, leva, igualmente, a que entre nós, em diversas localidades, associada a essa crença, se conserve a praxe de fritar nesses dias em azeite «algumas folhas de oliveira, para que as oliveiras fortaleçam», representando esta prática «um ritual mágico de excomunhão dos elementos maléficos ou nocivos que infestam por esta altura as árvores e a natureza.»
Estes princípios poderão, eventualmente, estar relacionados com o facto de a abóbora (com a qual se fazem as filhoses) se encontrar associada aos ritos propiciatórios do culto dos mortos (geralmente como máscara usada nas figurações humanas). Daí, provavelmente, a razão da sua utilização em praxes rituais ligadas aos manjares cerimoniais do Natal e de outras quadras festivas, empregue nas suas diversas variedades: abóbora-botelha (cabaça); abóbora-moganga (menina); abóbora-jerimu (amarela) e abóbora-chila (anã) – quer em doces, papas ou filhoses.
Outra praxe referente ao culto dos mortos (caída em desuso) observava-se, uma vez mais em localidades rurais, no costume de se espalhar palha no chão da sala, principalmente na cozinha, enquanto a lenha ardia na lareira, cobrindo-a depois com mantas sobre as quais se deitavam e dormiam os membros da família até de manhã, deixando, assim, desocupadas as suas camas «para nelas poderem repousar os seus familiares defuntos que tinham vindo de visita a casa».
O ritual da palha – colocada ainda hoje, depois da ceia, junto da lareira, em algumas casas das nossas aldeias (Beira Litoral) – resultará da explicação de «Jesus ter nascido sobre as palhas na manjedoura de Jerusalém» – palha que só deve ser retirada do chão na noite do dia 25. Esta praxe verificava-se noutros países da Europa, como a Suécia e a Dinamarca.
O azevinho, planta alusiva ao Natal, encontra-se, igualmente, ligado ao culto dos mortos, por ser com ele que noutros tempos se enfeitavam as campas na quadra natalícia. Localidades há, onde ainda se visitam as campas dos familiares na véspera de Natal, para nelas deixar um ramo de azevinho.
À noite, quando colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e a «celebração da união da família».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

Um dos rituais que perdura até aos nossos dias, principalmente em Trás-os-Montes, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, mas também no Nordeste Transmontano, sendo menor ou mesmo nula a sua tradição a sul, diz respeito às «fogueiras do Menino», «fogueiras da Consoada» ou «fogueiras do galo».Sob a influência da Igreja, a fogueira profana de adoração solar dos Romanos passou a ser cristianizada e a servir de ritual cristão ao culto divino testemunhado na quadra natalícia a Jesus Cristo – considerado o «verdadeiro símbolo do Sol que vai nascer, para iluminar todo o homem que vem ao Mundo».
Costume que se processa quase sempre durante a noite, cabe ainda hoje às raparigas enfeitar as igrejas para a Missa do Galo, enquanto aos rapazes corresponde a tarefa do roubo ritual do «madeiro», do «cepo» ou do «canhoto» – noutros tempos com os interessados em colaborar a serem chamados por essas aldeias com o auxílio de um búzio e a envolverem as rodas dos carros de bois com «baraços» de palha de modo a evitar o barulho, para que tudo se processasse no maior silêncio. O transporte, conforme a tradição, continua a ser feito, por vezes, em carro roubado ou utilizado sem autorização dos respectivos donos, puxado por animais, ou empurrado pelos próprios rapazes, num específico rito sagrado, embora, actualmente, seja mais vulgar a utilização dos tractores com o respectivo reboque. Noutros casos, a lenha é roubada dias antes do Natal, ou ao longo do ano, leiloada ou oferecida em promessa. Há mesmo quem a deposite à porta de casa, na intenção de que seja «roubada» pelo grupo que chama a si essa tarefa.
Nas fogueiras acesas em casa durante estes dias, verifica-se, na maioria dos casos, idêntico preceito: o de utilizar-se apenas lenha roubada, segundo a crença «para que a lenha assim ardida proteja o lar e a família».
Ateadas ao entardecer da véspera de Natal, as fogueiras ardem, geralmente, até ao dia de Reis, no adro das igrejas, segundo o povo «para aquecer o Menino», ficando todos os habitantes do lugar encarregues de manter o lume sempre aceso.
Em muitas aldeias e lugares do nosso País, as populações continuam a juntar-se ao redor das «fogueiras do Menino» para cantar, dançar e comer filhoses, aproveitando o lume do braseiro para assar as febras do porco e saborear as batatas tostadas (cozidas primeiro em potes de barro), como se fazia (ou faz ainda) no Sabugal (Beira Alta).
O rito das fogueiras de Natal encontra-se espalhado em muitos países da Europa, casos da França, da Itália e da Inglaterra, entre outros. Na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respectiva diminuição gradual do sistema diurno, até culminar no dia menor do ano – o dia de Natal.
Resquícios de festas solsticiais gentílicas, muitas delas acabaram por conservar-se na tradição dos povos, a par das celebrações da liturgia cristã, ocupando um espaço importante que nos foi legado pelas religiões e civilizações antigas, cabendo-nos defendê-lo e preservá-lo, não apenas no que respeita às fogueiras de Natal, mas ainda a outros ritos e festas de carácter etnográfico cíclico, onde se misturam e confundem rituais cristãos e práticas de raiz politeísta e pagã.
Por outro lado, segundo alguns autores, sendo o galo considerado um animal solar, é natural que se dê o nome de «fogueiras do galo» às fogueiras do Natal e a designação de Missa do Galo à primeira missa da noite de 24 para 25 de Dezembro. Ainda assim, e numa forma mais simplicista, se diz também que muitas pessoas se deslocavam de lugares distantes para assistirem à Missa do Galo. De modo a evitar que voltassem a fazer a caminhada de regresso sem grande repouso e porque não tivessem onde pernoitar, acendia-se para elas o «madeiro». Aconchegadas ao seu calor passavam então o resto da noite, quase sempre muito fria, petiscavam, bebiam, cantavam ao Menino Deus e, mal a manhã rompia, voltavam a suas casas.
Simbolicamente, o «madeiro» poderá representar ainda o próprio Inverno, na intenção de aquecer o Menino Jesus; o «madeiro da Cruz de Cristo» ou «o fogo que desceu dos Céus», referente à iluminação dos Apóstolos pelo Espírito Santo, sob a forma de línguas de fogo, depois da elevação de Jesus Cristo aos Céus.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
(Com a grave situação que atravessamos, devido à pandemia, ignoro se esta tradição terá lugar, associada à quadra natalícia. Embora assim, sempre se tem realizado nas localidades atrás mencionadas.)

Este é o meu presépio, que desde há muitos anos monto na minha casa de Alverca do Ribatejo. No mesmo lugar (nicho do hall de entrada), com as figura também nos seus lugares cativos. É com ele que venho desejar a todos os meus amigos do «Sarrabal» os meus votos de Santo e Feliz Natal, cumprindo a tradição de sempre. Todos sabemos que não vai ser um Natal igual aos de anos anteriores, porque atravessamos um período de intranquilidade e de receio, fazendo por cumprir as normas a que a cautela nos obriga. Dentro do possível, que se mantenha o espírito da Consoada e da vinda do Deus-Menino, que esta quadra impõe, celebrado em Família, ou na solidão de quem já a não tem. Que «Deus forte, Deus Santo, Deus imortal», nos conceda a graça da sua protecção divina, perante o medo que se espalhou pelo mundo. Que Jesus pequenino, nesta quadra que exalta o seu nascimento, seja o prenúncio, o portador de melhores dias, mais felizes e tranquilos para todos nós. Estes são os votos que vos deixo com amizade neste Natal de 2021.
Soledade Martinho Costa

«Quando Osvaldo Ventura abandonou o seu país, aos dezanove anos, nunca supôs que, quarenta anos depois, o seu passado o chamasse de volta para lhe revelar que a vida verdadeira não foi só a que viveu, mas a que deixou para trás esquecida na vila de onde era natural. Tudo sublinhado por uma frase que não teve oportunidade de ler:
— É perigoso brincar com os beijos.»
Estas são as palavras da contracapa do livro de António Garcia Barreto, publicado recentemente. Trata-se do romance «É Perigoso Brincar com os Beijos», editado pelas Edições Astrolábio.
Tive o grato prazer de receber o livro, enviado pelo autor (somos amigos há muitos anos) e não perdi tempo: logo no dia em que o recebi, comecei a lê-lo. Em dois dias (ou duas noites, para ser mais exacta) estava lido! Comecei por notar a sensação de uma leitura amena, algo tranquila, numa escrita límpida, mas que, por outro lado, nos desperta uma curiosidade incontida, conforme as folhas vão sendo lidas – sempre à espera de uma surpresa ao voltar da página seguinte. A par dessa tranquilidade, o mistério que adivinhamos (de início não explícito nas palavras), conforme a narrativa vai decorrendo, mais se afirma no pressentimento que o passar das páginas nos dá de que algo estará para acontecer. E, aos poucos, num ritmo que diria sem pressas, as revelações vão surgindo num interessante desfiar de segredos e num bem urdido planeamento literário, transmitidas pelas principais personagens – não mais do que três. Direi que de surpresa em surpresa a história vai sendo contada (e bem) até chegarmos à surpresa maior. Isto é, à conclusão de que as palavras da contracapa do livro estão mais do que certas. Não há dúvida de que «é perigoso brincar com os beijos». Por isso mesmo, ainda bem que António Garcia Barreto nos avisou a partir desta sua obra. Por mim, passei a ficar acautelada. Que muitos outros leitores o fiquem também. Aconselho que leiam o livro. Vão dar-me razão!
Soledade Martinho Costa
BREVE BIBLIOGRAFIA
Do autor, refira-se, entre outros romances e livros de contos: «Um Sorriso para a Eternidade»; «A Mulher da Minha Vida»; «O Homem do Buick Azul»; «A Malta da Rua dos Plátanos» (traduzido em russo, com uma tiragem de 100.000 exemplares, agora em 2ª edição) e «O Cio das Manhãs» (poesia). Publicou ainda o «Dicionário de Literatura Infantil Portuguesa» e os livros infanto/juvenis «Botão Procura Casa» e «A Mitra Desaparecida» (Prémio Adolfo Simões Muller, promovido pela Câmara Municipal de Sintra). Além de diversos prémios atribuídos a poemas e contos, criou e dirigiu durante dois anos (1980/81) a página juvenil «Oficina do Tio Lunetas» do jornal «Notícias da Amadora» (página onde tive o gosto de colaborar)
SMC

Celebrado desde tempos remotos por todo o Ocidente, desde a Trácia até Cádis (toda a faixa europeia do Mediterrâneo), inclui nas suas festividades vários rituais que, segundo alguns autores, poderão representar reminiscências de antigas celebrações ligadas a Mitras, um dos génios do Masdeísmo, ou Espírito da Luz Divina, religião seguida pelos povos da antiga Pérsia – que admitia dois princípios, o do Bem e o do Mal, adoptada por Roma no século I a.C. –, e ao culto dos Politeístas Solares e à sua Festa das Luzes (o Khanu Ka), efectuada no solstício do Inverno. Os Romanos, sob a influência da devoção mitríaca chamavam ao Natal o Natalis Solis Invicti, ou O Dia do Sol, acendendo nesta data grandes fogueiras.
No Egipto, as primeiras comemorações do Natal (Festum Osirid Nati,ou Inventio Osiridis), tinham lugar, tal como as dos politeístas, no dia 6 de Janeiro, data que veio a corresponder à celebração do dia de Reis, quando no ano 54 se separou a Natividade (celebração do nascimento de Cristo) da Epifania, que englobava na sua origem a maior parte das celebrações a Cristo: o seu nascimento, a adoração dos Reis Magos, o seu baptismo, a sua vida e sofrimento na terra e os seus milagres, passando esta a ser consagrada exclusivamente aos reis.
A Igreja Católica decreta, entretanto, por suposição entre os anos 243 e 336, embora se aponte também o ano de 345, a celebração do nascimento de Jesus Cristo para o dia 25 de Dezembro, escolhido sem rigor histórico, devido à incerteza da exactidão da data, misturando-se assim os hábitos e praxes religiosas e profanas. Esta data acabou por ter correlação com o dia 25 de Março, dia da Anunciação do Senhor ou da sua Encarnação, a unir a natureza divina à humana, antecipados que foram no calendário, simbolicamente, os nove meses correspondentes. Celebrado no Oriente antes do ano 446, o dia da Anunciação do Senhor só veio a ser comemorado no Ocidente entre 687 e 701.
Liturgicamente, a festa do Natal é precedida pelo Advento, termo de origem profana, que simbolizava entre os povos pagãos a vinda cíclica do deus ou divindade, cuja imagem era exposta no respectivo templo nas datas que lhe eram consagradas para adoração dos fiéis. Na liturgia romana o Advento tem o seu começo no domingo seguinte ao dia 26 de Novembro, dando assim início ao ciclo religioso do ano eclesiástico. Para os primeiros cristãos o Advento significava a comemoração da aparição de Jesus Cristo na terra, enquanto a partir do século VI passou a representar o período litúrgico e preparatório das quatro semanas que antecedem o Natal, reveladoras da tão aguardada vinda do Messias – a Luz do Mundo.
Algumas das festividades natalícias poderão resultar, igualmente, das Saturnais, festas realizadas em Roma entre o dia 17 e o dia 23 de Dezembro, em louvor de Saturno, importante divindade agrária, quer pelo sentido de bondade e tolerância que as Saturnais implicavam, quer pelas celebrações alimentares conjuntas verificadas nessa data.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas» Vo. VII
Edição Círculo dos Leitores

De pedras
Colmo
Tábuas
Papelão.
Sob telhados de zinco
Ou telha-vã
Eis os estábulos
As grutas
Os abrigos
Onde nascem e dormem
Os meninos nus
Há mais de dois milénios.
Herdeiros de um legado
Instituído por decreto-lei
Réplicas
De outro Menino
Que o Anjo anunciou
Nascido na lapinha de Belém
Não têm a seus pés
Pastores nem reis.
Dormem
Dormem simplesmente
Pelos presépios
Adorados por ninguém.
Nas reservas surdas
Ao apelo das florestas
No fogo das areias
Onde a terra se nutre
Das almas e dos corpos
Nos guetos onde o leite
Nos seios seca
Ao explodir das bombas
Nos bairros marginais
Nos prédios em ruínas
Nos quartos alugados
Nos tugúrios onde não chega
A Estrela Peregrina.
Templos sagrados
Onde as mães
Esvaído o ulo vaginal
Debruçam sobre o ventre as mãos
Cortando aos filhos
Esquecidos
Humilhados
Sem pão
Amparo ou pátria
O cordão umbilical.
Talvez para que fujam
E repetido seja outro milagre
À revelia dos homens como então.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

Uma preocupação constante para mim, mal se aproximava o Natal, era como entravam o Menino Jesus e o Pai Natal pela chaminé. O receio de o Menino se magoar ou de o Pai Natal escorregar e cair no fogão da cozinha – pior ainda se o peru estivesse ao lume. Nos Natais da minha infância, o peru ficava sempre a cozer, enquanto decorria a Consoada. De manhã estava ainda quente, e depois era só continuar a cozinhá-lo para ser servido no almoço do Dia de Natal. Outra coisa, bem diferente, era a minha aversão às filhoses. Por mais que insistissem para que eu as comesse, não havia ninguém que me convencesse a fazê-lo. Penso, mesmo, que tal teimosia era para mim um ponto de honra. A sala grande da avó Maria Estrela apinhada de família, a grande mesa cheia de lugares para tanta gente, as nossas corridas pela sala e pela casa inteira (minhas e dos meus primos), o cheirinho bom, vindo da cozinha, as mãos da minha mãe e das minhas tias enfiadas nos grandes alguidares de barro, mangas arregaçadas, a mexer a farinha, misturada com a abóbora, o fermento e os ovos. Alguidares tapados depois com um pano branco, para que a massa levedasse até chegar a altura de as frigideiras a receberem, colherada a colherada, num ritmo certo, para dançarem de roda no óleo fervente. Deitadas a seguir nas travessas, o açúcar por cima, a canela, o cheirinho no ar, a anunciar uma noite e um dia especiais no calendário dos nossos poucos anos. A expectativa da chegada dos presentes pela manhã na velha chaminé, trazidos pelo Pai Natal ajudado pelo Menino Jesus. A noite sempre agitada, exactamente por isso. Tanta coisa boa e tão longe a dormir o sono da distância quando a casa era habitada pelas vozes das palavras todas. Pelos risos felizes, na comunhão de uma grande família, amiga, unida, fraterna. Mas houve uma solução para a minha teimosa aversão às filhoses. Numa manhã em que nós, as crianças, nos dirigimos à cozinha para ver os presentes, tinha eu no meu sapato, além dos brinquedos, um cartucho de papel pardo (será que existe ainda tal coisa?) cheio de filhoses. Os direitos de autor desta criativa ideia vão inteirinhos para a minha tia Bé. Disse-me ela, perante a minha deslumbrada admiração, que fazia mal em não comer aquelas filhoses, porque não eram iguais às outras. Aquelas «tinham sido feitas no Céu pelo Menino Jesus». Agarrei no cartucho como o presente mais precioso que alguma vez tivesse recebido. E saboreei como coisa divina as filhoses, que as fazia totalmente diferentes das que via amassar na cozinha da avó Maria Estrela. E nunca mais, até hoje, me parece ter comido outras com o mesmo sabor do «logro» da minha infância. Imaginava o Menino Jesus lá no Céu, de manguinhas arregaçadas, às voltas no alguidar com a tarefa de aprontar a massa das filhoses. E fiz com elas o que costumo fazer agora com alguns dos livros que estou a ler e de que muito gosto: fecho o livro e comparo. Quando já li mais páginas do que as que me faltam ler, passo a reduzir o tempo de leitura. Para render. Foi exactamente o que fiz com as filhoses: fui olhando para dentro do cartucho e comparando. Quando já faltavam poucas, dava só uma trincadinha. E assim as fui comendo, até restar apenas o cartucho. Nos Natais seguintes, as «filhoses do Menino Jesus» passaram a ser o presente mais ansiado por mim na manhã do Dia de Natal. Por poucos anos, porque a infância passa depressa. Foi um sonho lindo com cheirinho a canela. Mas como os sonhos se vão perdendo de nós sem nos pedirem licença, também esse se foi afastando de mim ao longo do tempo, até chegar hoje, intacto, a esta página que escrevo.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Edições Vela Branca
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