Quarta-feira, 29 de Setembro de 2021

MAIS UM AMIGO QUE PARTE

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Têm sido uns tempos de muita tristeza. Ainda mal nos estamos a recuperar de um abalo, logo se lhe segue um outro. Durante e depois do covid, por sua directa intervenção ou por causas distintas, muitas figuras públicas, tanto mundias como nacionais, nos têm dito adeus. Mas as que maior mágoa nos deixam, têm sido os amigos. São já tantos os nomes, que me parece não haver um só dia em que uma triste notícia destas não nos bata à porta e nos abale. Ontem, vim dar uma volta ao meu Blog Sarrabal. Não venho aqui todos os dias, mas há 14 anos que o mantenho e continuo a fazer as minhas publicações. Ultimamente, até com maior assiduidade. Continuo também a ter leitores que fazem comentários. Um deles, meu amigo da juventude, nascido em Alverca do Ribatejo, mas que muito jovem emigrou para Toronto (Canadá) e por lá ficou, hoje um conceituado empresário. Era o leitor e divulgador assíduo do meu blog em Toronto. Um amigo que se deslocava muitas vezes a Portugal e o primeiro telefonema, a avisar que vinha, era para nós. E a primeira visita que fazia, era a nossa casa. A amizade de uma vida inteira. Passava dias connosco, ora no Algarve, ora na aldeia, ora em Alverca do Ribatejo. Há dias, ao aceder ao blog, lá estava a notícia: «O Vergílio Pires partiu ontem». Assim, de chofre. Ainda mal posso acreditar. Tínhamos uma série de projectos para concretizar, um deles ligado a uma grande e líndíssima propriedade que possuía na serra de Monchique, no Algarve; a compra de uma casa em Alverca do Ribatejo, para onde viria em breve… Sonhos que o espaço de uma vida inteira não deixa e não chega para concretizar. Estou muito triste, muito abalada. Os verdadeiros amigos são a maior riqueza que temos neste mundo. Que descanses eternamente em paz, querido Vergílio Pires, amigo de uma vida toda. Que Deus te receba e encontres o teu caminho de luz.

Com todo o meu carinho e a minha saudade.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 20:03
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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2021

HISTORINHA - O VENTO SUDOESTE (Para os mais pequenos)

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A Rã Verdinha andava preocupada. O charco onde vivia estava tão seco que receava a todo o momento não conseguir ficar submersa, quando mergulhava para refrescar a pele.

«Isto vai mal. Vai mesmo muito mal!» – pensava, de olhinhos presos na linha do horizonte à espera de ver no céu prenúncio de chuva.

O Verão tinha chegado há já algum tempo e tão seco se mantinha como a Primavera, que havia sido, também ela, avara de dias chuvosos.

A mim, não me faz grande diferença! – costumava dizer o Lagarto Verdoso. – Sem chuva e com este calor, faço ricas sestas deitado ao sol. Mas que reparo na sua preocupação, dona Rã, lá isso, reparo.

E não é para reparar, amigo Lagarto? Se o charco seca de vez, que será de mim?!

Temos de arranjar uma solução! – disse, certo dia, o lagarto na sua voz pausada.

Mas qual solução, compadre Lagarto? – perguntou a rã, numa grande ansiedade.

Sei lá, ir por aí fora. Talvez à procura do Vento Sudoeste!

Vento Sudoeste?! E quem iria oferecer-se para fazer uma tão grande viagem?!

Realmente, é uma viagem longa e arriscada. – concordou o lagarto. – Mas se descobrirmos alguém, tínhamos o caso arrumado. O Vento traria a chuva que encheria o charco!

O melhor é pensarmos bem no assunto. Pode ser que nos ocorra o nome de alguém que se preste a fazer esse grande favor… – suspirou a rã.

E seguiu, aos saltinhos, para dentro do charco, enquanto o lagarto se meteu na toca.

Assim se passaram alguns dias, até que, certa manhã, a rã se acercou do muro onde morava o lagarto.

Eh, amigo Lagarto Verdoso, já descobri! – gritou ela, muito animada. – Já sei a quem pedir para ir buscar o Vento Sudoeste!

O lagarto esticou logo a cabecinha pelo buraco da toca.

E quem é o escolhido, dona Rã? – perguntou ele.

Então, quem havia de ser, compadre?! O Gafanhoto Verde, já se vê!

Tem razão. O Gafanhoto Verde é viajado, novo, robusto, rápido…Assim aceite a proposta! – disse o lagarto.

E lá foram, à procura do gafanhoto, que ouviu os dois vizinhos com muita atenção.

Fiquem descansados. Hoje mesmo irei procurar o Vento Sudoeste! – prometeu ele. – Sim, porque os amigos são para os bons e os maus momentos, não é verdade?

E com estas palavras, sábias e sensatas, o gafanhoto pouco depois, seguiu viagem.

Cheio de pressa, pois não havia tempo a perder, subiu montes, desceu montes, voltou a subir, voltou a descer, sempre a perguntar:

Alguém sabe dizer-me onde posso encontrar o Vento Sudoeste? Alguém sabe dizer-me onde posso encontrar o Vento Sudoeste?

O pior, é que os dias iam passando e ninguém sabia responder à sua pergunta.

Mas o gafanhoto não desanimava, continuava a perguntar aos insectos como ele, às aves, às flores, às estrelas, à Lua Cheia, às nuvens que viajavam pelo céu:

Alguém sabe dizer-me onde posso encontrar o Vento Sudoeste?

Sempre à procura, atravessou aldeias, vilas e cidades, até que um dia, no cimo de uma montanha, uma pequena ave de linda plumagem verde respondeu, finalmente, à sua pergunta:

O Vento Sudoeste chega hoje de viagem. Ao fim da tarde já podes falar com ele!

Assim foi. Horas depois, o sol escondeu-se por detrás de grandes nuvens, e o vento sudoeste fez ouvir a sua voz, forte e assobiada, tão subitamente que o gafanhoto verde teve apenas tempo para se abrigar no tronco de uma árvore.

És tu, Vento Sudoeste, aquele que traz a chuva? – gritou ele, o mais alto que pôde.

Sou eu, sim. Que me queres? – perguntou o vento.

Venho pedir-te ajuda! – gritou outra vez o gafanhoto. – Venho pedir-te ajuda para a Rã Verdinha, que é minha amiga, e vive num charco que está quase a secar!

E para me fazeres esse pedido vieste de muito longe, suponho.

Oh! Sim! De muito longe! – confirmou o gafanhoto.

És um bom amigo. – disse o vento. – Podes regressar tranquilo. Amanhã mesmo, meto-me a caminho. Só tens de me dizer onde fica o charco da Rã Verdinha.

Depois de dar todas as informações e de agradecer ao vento sudoeste, o gafanhoto verde repousou um pouco e só no dia seguinte iniciou a viagem de regresso.

O vento sudoeste, entretanto, já levava grande avanço, Quando chegou ao sítio que lhe pareceu indicado, soprou com toda a força, empurrou as nuvens no céu, e não tardou que uma chuva de pingos grossos viesse refrescar e alimentar a terra e as plantas, dar de beber aos animais, encher os rios, os riachos, as lagoas e os charcos.

Durante alguns dias o lagarto, de cabecinha fora da toca, pensava satisfeito: «Não há dúvida que o Gafanhoto Verde falou com o Vento Sudoeste!»

A rã, por seu lado, regalada a olhar o charco a encher-se de água, pensava também:

«Esta chuva é a prova de que o amigo Gafanhoto pediu ajuda ao Vento Sudoeste!»

Quanto ao gafanhoto verde, só dias depois regressou ao prado. Reparou, imediatamente, que o vento sudoeste cumprira a sua promessa. As flores, as árvores e as plantas estavam viçosas e bonitas. A terra cheirava ainda a terra molhada e respirava-se uma grande frescura. Ao longe, por entre as canas e os juncos, o charco da rã brilhava na luz doirada da tarde como se fosse um grande espelho. Sobre a pedra do muro, o lagarto verdoso apanhava o último raiozinho de sol. À beira do charco, a rã verdinha, a coaxar alegremente, preparava-se para dar mais um mergulho.

«Irei visitá-los ainda hoje!» – pensou o gafanhoto, a imaginar a alegria do reencontro. Saudoso e feliz voltou a olhar o prado. Nesse dia, a sua cor de gafanhoto verde confundia-se ainda mais com a cor verde da Natureza.

 

Soledade Martinho Costa

 

Pintura de António Pimentel

 

Do livro «6 Histórias numa História de Todas as Cores»

Ed. Fundação CEBI

 

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Terça-feira, 21 de Setembro de 2021

HISTORINHA - CONVERSA DE POMBOS (Para os mais pequenos)

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Olha, lá vem a Pomba-Torcaz! Volta de férias no Norte da Europa. Que sorte! Eu, então, só conheço os arredores deste pombal… – lastima-se a senhora pomba-de-leque.

O senhor pombo-gravatinha dá a sua opinião:

Cá por mim, não me queixo. Acho lindo o nosso povoado! Além disso, não tenho de me ralar sempre a fazer as malas. Uns regressam, outros vão-se embora. É o Outono, e está tudo dito. Partiram as Andorinhas, as Cotovias e os Rouxinóis. Estão de abalada os Cucos, os Melros e os Noitibó. Mas temos de volta os Patos-Bravos, as Rolas e as Narcejas. Calculo, senhora Pomba-de-Leque, as coisas interessantes que trazem para nos contar…

Pois sim. Mas eu também gostava de viajar, de conhecer outros lugares… – responde a pomba, numa confissão.

O pombo-de-papo mete-se na conversa:

Sabe, senhora Pomba, nós não somos aves migratórias. Somos pombos domésticos. Aí tem a diferença. – diz ele, a confortá-la. E acrescenta:

Um destes dias, vou convidá-la a acompanhar-me num passeio à cidade. Verá os jardins onde as flores só brotam da terra graças às mãos dos jardineiros. As pessoas apressadas, que já nem sabem dizer bom-dia. E os prédios altos, mais altos do que as ondas do mar quando se enfurece. Verá também os carros barulhentos que poluem de cinzento a atmosfera. E as ruas estreias, tão estreitas, que o Sol, por mais voltas que dê, não consegue lá entrar. Quando regressarmos, tenho a certeza de que vai achar muito mais bonita a praia, lá em baixo, e os arredores do nosso pombal!

A senhora pomba, olhinhos redondos como missanga, arrulha, num enleio:

É capaz de ter razão…

E aninham-se os três, a senhora pomba-de-leque, o senhor pombo-gravatinha e o senhor pombo-de-papo, fora do pombal, a ouvir o mar, ao longe, para além do sítio onde fica a sua casa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Histórias que o Outono me Contou»

Ed. Publicações Europa-América

 

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Domingo, 19 de Setembro de 2021

UMA PINTURA DE DEUS

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(excerto)
 
«[…] Há uns anos, no Algarve, em tempo que havia mais árvores em redor da minha casa, alfarrobeiras, oliveiras, amendoeiras, figueiras, mato e flores silvestres, num espraiar que se alongava para além do visível, ao final da tarde começou a chuviscar, a tal chuvinha miúda. Vinha uma neblina, a subir do mar, que se juntava à chuva e a ela se abraçava como dois corpos unidos, cúmplices, amantes. O silêncio era total. O sortilégio, também. Os tons de verde matizados da paisagem tomaram cores irreais. Aliás, tudo se tornou irreal naquele panorama singular onde a mão da natureza é única e é mestra. Fui colocar-me na ponta do patamar, lá ao fundo, onde o olhar vai mais longe, a admirar, a deslumbrar-me, a extasiar-me com aquele momento. Sozinha, num silêncio que nada nem ninguém quebrou. Sem querer, chorei. De mansinho. De emoção. Segura de que passava por qualquer coisa única na minha vida. E acertei. Senti Deus diante de mim com paleta e pincel. Foi sublime, inesquecível. Naquele instante, soube que a magia não iria repetir-se. E nunca mais se repetiu. Continua no meu olhar esse momento divino. Para sempre. Não tive dúvidas: tinha perante os meus olhos uma pintura de Deus.»
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Edições Vela Branca
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Sexta-feira, 10 de Setembro de 2021

LEMBRAR AFONSO PRAÇA - UM TRANSMONTANO EM LISBOA

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Foi Alice Gomes, minha querida e saudosa amiga, escritora e pedagoga, que me apresentou Afonso Praça. Baixo, gorducho, sereno, sorriso pronto, sotaque da província que o viu nascer: Trás-os-Montes, mais propriamente, em Felgar, Moncorvo. Dois beijinhos, «muito prazer», e foi assim que conheci o director do saudoso «O Jornal da Educação», onde Alice Gomes, na altura, era colaboradora. Depois, fomo-nos encontrando, aqui e ali, em diversos eventos: no Restaurante Brazuca (Bairro Alto), num jantar organizado pela Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, jantar onde Afonso Praça (sempre com modéstia) animou os convivas, a mostrar a sua erudição e os seus famosos dotes de contador de histórias. Entre diversos encontros, lembro um outro jantar no Hotel Tivoli, oferecido pelas Publicações Europa-América, a minha editora.

Recordo-me, particularmente, dessa noite. À saída, ficámos os dois à conversa no átrio do hotel. Para dizer a verdade, foi mais o Afonso Praça que ficou à conversa comigo. Acontece que eu tinha estreado nesse dia uns elegantes sapatos pretos de verniz. Salto altíssimo, como eu gosto (ou gostava), mas que, por terem sido calçados pela primeira vez, me causavam um mal-estar indescritível. Afonso Praça, ignorando o facto, falava, falava, falava, e eu, sinceramente, quase nem o ouvia. Estávamos de pé (não sei por que razão). Aguentei quanto pude. Até argumentar, como derradeiro recurso, que o meu carro havia chegado (o que não era, de todo, verdade). É feio mentir, eu sei, mas não achei outra solução, ante a ideia de confessar que não aguentava os sapatos. Sim, coisas de mulher. Foi a forma que encontrei para pôr fim à conversa – que noutra situação me teria deliciado. Nunca lhe contei esta mentira.

E fomos ficando amigos. Um dia disse-me: «Quando a Soledade quiser colaborar no «Jornal da Educação», é só dizer.» Fiquei a pensar no assunto. Tempos depois apresentei-lhe uma proposta: ir à procura de figuras públicas, de quem há muito nada se sabia. Nomes esquecidos por uns, ignorados por outros e, até, desconhecidos para grande parte do público. Que seria feito desses nomes, dessas pessoas? Continuariam na sua actividade ou tê-la-iam posto de parte? Que teriam para dizer-nos? Escritores, historiadores, músicos, cantores, nomes da Televisão e outras figuras públicas de há muito sem delas haver notícias? Afonso Praça achou o projecto interessante e a ideia avançou. Assim nasceu o ciclo «Nomes a Recordar».

Umas vezes a página inteira, outras com um pouco mais de espaço, entrevistei Noémia Setembro (escritora cujos livros li na infância e que possuo ainda); Alexandre Cabral (escritor que dedicou parte da sua actividade à investigação, sobretudo à obra e vida de Camilo Castelo Branco, considerado um dos nossos mais importantes camilianistas); a pintora Sarah Affonso (mulher de Almada Negreiros); a musicóloga Fracine Benoit; a escritora Eugénia Neto (viúva do presidente Agostinho Neto, de Angola); Margarida Macedo Silva (directora das bibliotecas da Madeira) e o escritor Adolfo Simões Muller, entre outros.

Visitava muitas vezes Afonso Praça na redacção do jornal, umas vezes para lhe entregar trabalho, outras apenas para conversar. Num desses encontros dei-lhe uma novidade: tinha descoberto que um dos seus filhos, o Tiago, era colega da minha filha Maria João. Concluídos os respectivos cursos, alguns jovens tinham alugado um velho palacete, para os lados de Belém. Com a renda paga por todos, dividiram o espaço e cada um dispunha de área suficiente para pôr em prática o que tinha aprendido. A minha filha trabalhava em restauro de madeiras (complemento do curso do ISLA, de guia interprete nacional, e de História de Arte). O Tiago em cerâmica, com peças muito interessantes criadas por ele. O resto do grupo dividia-se por diversas artes como a fotografia e os metais. Ao ter conhecimento desta ligação, Afonso Praça contou-me, então, que se deslocava muitas vezes ao atelier. Gabou o jeito do filho (com razão), mas nunca pensou que aquela Maria João, que conhecia bem, era minha filha. Salientou que tinha reparado no entusiasmo e empenhamento que dedicava ao restauro e recuperação de peças de mobiliário antigo, umas vindas do Palácio de Sintra (onde trabalhou durante meses no restauro da cama de D. Sebastião e noutras peças), outras pertencentes a particulares. O companheirismo entre os nossos filhos foi mais um elo a reforçar a nossa amizade.

Quando o «Jornal da Educação» acabou, começámos a ver-nos mais espaçadamente. Cada um de nós com o seu trabalho, o tempo foi passando. Até que aconteceu o inesperado. Ao assistir pela TV a uma entrevista a Afonso Praça, ouço, pela primeira vez, falar na sua doença, que vinha de há uns meses atrás: doença oncológica. Na sua maneira simples e directa revelou o seu estado como de uma coisa sem importância se tratasse. Com serenidade e com esperança. No dia seguinte estava eu a telefonar-lhe. A dizer-lhe do meu desconhecimento em relação à sua doença, embora sem demonstrar a minha preocupação. Trocámos mais umas palavras, a saber de nós, e logo a promessa cheia de esperança, tal como na véspera tinha ressaltado da entrevista a que assisti: «Amanhã vou fazer mais uns exames. Depois disso, telefono-lhe para nos encontrarmos e pôr a conversa em dia.» Não voltei a ligar, com receio de causar incómodo, mas esse dia nunca chegou. Pouco tempo passado, a triste (e esperada) notícia do seu falecimento.

Filho único, licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o primeiro presidente do Sindicato dos Jornalistas depois do 25 de Abril. Jornalista e escritor foi também  autor de programas televisivos: «Portugal de Faca e Garfo»; «Memórias de um Povo»; «Faz de Conta» «Quem conta um Conto», entre outros. Escreveu o «Novo Dicionário do Calão» e os dois belíssimos álbuns «Saberes e Sabores», de parceria com Maria de Lourdes Modesto. Foi ainda um dos fundadores de «O Jornal»; director do «Jornal Se7e»; do «Bisnau» (semanário humorístico) e redactor da revista «Visão».

Afonso Praça faleceu a 3 de Maio de 2001 aos 62 anos. Muito havia a esperar da sua actividade e do seu saber. E também do sabor das suas deliciosas conversas que a todos encantava. Ficaram as muitas ruas com o seu nome: em Cascais, no Estoril, em Oeiras,  em Algés, em Setúbal.

São estas simples palavras que deixo aqui para recordar um grande amigo, um companheiro, que amava as palavras, escritas ou faladas. Fica também a saudade nesta singela homenagem, a recordar um grande homem que sempre soube ser um homem simples – mas sábio.

 

Soledade Martinho Costa


Do livro «Crónicas de Porcelana»

Edições Sarrabal

 

publicado por sarrabal às 17:27
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2021

A JUVENTUDE E AS NOVAS TECNOLOGIAS

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Excerto copiado da página do meu amigo Dr. Fernando Carvalho Araújo.

Cláudia Benitez Fois

«O jornalista e acadêmico uruguaio Leonardo Haberkorn desistiu de continuar dando aulas na carreira de Comunicação na Universidade ORT de Montevidéu, por meio desta carta que comoveu o mundo da Educação:

 

′′ Depois de muitos anos, hoje dei aula na faculdade pela última vez. Cansei de lutar contra celulares, contra WhatsApp e Facebook. Eles me venceram. Eu desisto. Deitei a toalha fora. Cansei de falar de assuntos que me apaixonam perante rapazes que não conseguem descolar a vista de um telefone que não cessa de receber selfies.

′′ Claro, é verdade, nem todo mundo é assim. Mas eles são cada vez mais Até três ou quatro anos atrás, a exortação a deixar o telefone de lado por 90 minutos - mesmo que fosse só para não ser rude - ainda tinha algum efeito. (...)

E aí vê que esses garotos - que continuam a ter a inteligência, a simpatia e o aconchego de sempre - os enganaram, que a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a absorção não lhes nasceram sozinhos (...) O que eu faço, sempre gostei de fazer direito. O melhor possível. E não suporto desinteresse diante de cada pergunta que faço e responde-se com o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. ′′ Eles queriam que a aula terminasse.

Eu também ".

 

Comentário:

Não pude ficar indiferente perante este dramático desabafo. Mas é esta a nossa realidade. Uma triste realidade. Por vezes pergunto-me como desempenharão estes jovens, quando adultos, os seus cargos profissionais e familiares. Como pais, como mães. Responsáveis por uma casa de família, que irão criar, que tem de ser orientada, gerida, cuidada. Há excepções, é certo, mas a maioria procede como esta sentida carta de renúncia revela. Ainda se criticam os mais velhos quando dizem «no meu tempo...» Pois este é o tempo que vai ficar a demonstrar o comportamento desta geração. Mas não podem repetir a conhecida frase. Porque nada têm para assinalar. Nada para comparar. Sem cultura, sem interesse por coisa alguma, vulgares, todos iguais nos gostos e nas opções, que não os levam a qualquer parte. Faz falta uma disciplina que se imponha, em casa e na escola. O accionamento de regras que tenham de ser cumpridas, ditadas pelos pais e pelos professores. Não pudemos desistir desta juventude, quando ela desistiu de se elevar. Sentir a força dos adultos, a sua autoridade, alguma severidade e disciplina, nunca fez mal a ninguém. Tenho pena de tudo quanto perdem de maravilhoso, sem eles próprios darem por isso. A «intoxicação» das novas técnologias destruiu os nossos jovens. Acredito que nem sonhar sabem. A não ser com um novo modelo, o último grito de um telemóvel, ou com novas funcionalidades do whatsApp. A grande «máquina» está a roubar-nos os nossos filhos, os nossos netos, a nossa juventude. Agora já é assim. Como será depois?! Ainda bem que já cá não estarei para ver o resultado.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 19:36
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REINÍCIO

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Tocar os teus cabelos

Os teus ombros

E deslizar

Tão lesta

E sabiamente

Por entre os dias todos

Que perfazem

Dos anos o avesso

No meu gesto

Que o tempo

Ao saber-te

Tão amado

Avance no passado

E o presente

Em vez de caminhar

Rumo ao futuro

Seja o trilho

De novo palmilhado

Agora do limite

Ao recomeço.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

Tela: Christian Schloe

 

publicado por sarrabal às 01:05
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