
De que servem os versos
Perante a força bruta?
De que servem os poemas
Quando o Inferno
Decidiu abrir as suas portas?
Voltou para trás o calendário
E o Futuro fugiu para parte incerta.
Não passou de um sonho cúmplice
O tempo percorrido.
Entre sombras e leis enlouquecidas
Os corações deixaram de bater
Mas continuam vivos
À flor da sorte.
O pesadelo
Apenas se encontrava adormecido.
Extinguiu-se a luz que abraça os corpos
Somente as orações insistem
Murmuradas sob os mantos
A regeitar a religião do mal
Os dogmas do senhor das trevas
A violação dos direitos humanos
O luto, a dor e a morte.
Há mães escondidas do olhar dos filhos
E filhos que julgam ter perdido as mães
E aquelas que por temor ao inimigo
Os entregam em mão alheia
Na esperança que advém do perigo.
Os céus adensam a penumbra
E cada vez é maior a escuridão
A impotência de calar a dor
Neste reino governado pelo terror
Onde as mulheres teimam em viver
Embora enterradas num caixão.
O mundo
Não tem armas contra o medo.
Correm sem destino os gritos
Que não acordam os ouvidos mudos
Pelas praças, ruas e vielas
Como o canto de pássaros aflitos
Em busca da liberdade proibida
Enquanto o resto do mundo
parece não escutar o pranto
que vem
da dignidade perdida e ofendida
refém
atrás dos vidros opacos que vestem as janelas.
Soledade Martinho Costa
(29/8/2021)

Foi como se dois lagos
Inundassem os teus olhos
Num romper de descobertas
A revelar-se sem palavras
Que mal ainda entendes
Mas que o teu coração
Se reservou o direito de sentir.
Que transformaste depois em lava
A deslizar pela seda da tua face.
Estendi os braços
E apaguei-a com as minhas mãos
Cada vez mais vazias de sorrisos e de afectos
E mais cheias de ausências e cansaços
Num eterno desacerto
Das horas que nos devoram
Desde as águas do primeiro instante
Onde o sonho principia.
Onde a ilusão
Num enredo de segredos
É apenas a construção inicial
Do que nunca se dá por concluído.
Mistério que nos envolve
Que nos alimenta como seiva
Mas que não nos deixa criar raízes.
Antes nos aproxima
Em prazo estabelecido
Do último poema
No verso final.
Hoje um anjo ofereceu-me uma flor
O seu olhar
E as suas lágrimas.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

Quer na praia, quer no monte
quer beba água da fonte
ou passeie à beira-mar
Cá por mim, chego esperançado
à espera do tempo bom:
o que quero é descansar.
De resto, pouco mais faço
e tudo o mais que fizer
hei-de fazê-lo por gosto
ou eu não me chame Agosto.
E porque gosto do povo
e da sua tradição
enfio o meu fato novo
e com adufe e farnel
subo às capelas dos santos
em peregrina oração.
A transbordar de alegria
vou à feira, à romaria
compro gado, cumpro votos
canto, danço, bebo, como
sou romeiro e sou devoto.
Mas a quebrar o lazer
destes dias prazenteiros
apanho amêndoas e nozes
espreito a lida nas colmeias
limpo o resto das searas
ponho na sombra os craveiros.
E continua o descanso
sem parar dias inteiros.
Meto os pés dentro dos rios
pesco trutas, salmonetes
passo tardes no pinhal
entre filas de formigas
a ouvir pelo transístor
o futebol e as cantigas.
Apanho pó, vento e Sol
e as bichas longas paradas
nas serpentinas das estradas
e as picadas dos mosquitos
e das melgas venenosas.
Subo ao alto das colinas
desço às grutas misteriosas.
Frente às pedras e ruínas
dos templos e fortalezas
fico atento e pensativo
a pensar como a beleza
se oferece no tempo ido.
E vou, sem fazer ruído
pelas salas dos castelos
a ouvir na voz dos guias
os feitos, as profecias
os milagres e os amores
dos reis e mais das rainhas.
Jogo ténis, vou à lota
nas tascas como sardinhas
caldeiradas, peixe frito
dou mergulhos nas piscinas
de água azul e poluída.
Levo os meninos à praia
ao baloiço e ao escorrega
e fico na esplanada
sentado, sem fazer nada.
Mas a morrer de desejos
ao ver a cor das santolas
no prato dos estrangeiros
enquanto eu como pevides
tremoços e caranguejos.
Ponho a saudade na voz
e nos olhos dos velhotes
a mirar à sua volta
mini saias e decotes.
Besunto a cara e o corpo
com o creme protector
fico a ver a maré-cheia
depois deito-me no turco
da toalha colorida
na sujidade da areia.
E já farto do ripanço
que nunca me deu descanso
volto estafado para casa.
Mas no dia da chegada
lá começo sem demora
a carregar trouxas e cestos
sacos, malas e malotes
escada acima, escada abaixo
quase de língua de fora.
No meio da barafunda
quase nem dou por Setembro
que ao ver-me nestes apuros
de bagagens e stress
me diz num tom de voz manso:
— Ai, mano, que grande estafa
tu precisas é de férias
dou-te um ano de descanso!
Soledade Martinho Costa
Do livro «Agosto – os 12 Irmãos»
Capa do pintor António Pimentel
( Assim viam os Antigos, figurativamente, o mês de Agosto)
DATAS
CALENDÁRIO RELIGIOSO – 15 - «Dormição de Nossa Senhora».
A morte da Virgem Maria terá ocorrido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita, quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. O sofrimento da Virgem desde a morte de seu Amado Filho, deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua morte (a que se dá o nome de Dormição). Desde tempos remotíssimos que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégio que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus.
A definição dogmática da Assunção Corpórea de Maria ao Céu foi proclamada em 1950.
CALENDÁRIO DA NOSSA HISTÓRIA – 14 (1385) D. João I de Portugal e o Condestável D. Nuno Álvares Pereira ganham a Batalha de Aljubarrota, travada com o rei D. João I de Castela. A batalha tem lugar no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça. Como agradecimento pela vitória, o rei vai a pé, em romagem, dar graças a Nossa Senhora da Oliveira, santa da sua devoção, à sua capela em Guimarães, depositando sobre o altar as armas e o loudel (veste militar usada durante as batalhas). Para celebrar o triunfo, manda o monarca erigir um sumptuoso mosteiro à Virgem, dando-lhe o nome de Nossa Senhora da Vitória (vulgarmente conhecido por Mosteiro da Batalha). Dele costumava sair uma procissão, com banda de música, que ia colocar no Padrão de Nossa Senhora da Vitória a lança e o pelote do rei. A procissão depois de percorrer as ruas voltava ao mesmo local e ali (onde se tinha levantado um altar) era celebrada uma missa de acção de graças, regressando em seguida ao Mosteiro. A função terminava com um responso pela alma de D. João I de Portugal e por todos quantos pereceram na Batalha. A construção do mosteiro começou em 1387, tendo sido nessa altura convidados alguns arquitectos estrangeiros. A obra acaba, todavia, por ser entregue ao arquitecto português Afonso Domingues. Consta que foi mandado erigir como cumprimento de promessa feita por D. João I à Virgem antes do confrontamento.
CALENDÁRIO DA HISTÓRIA UNIVERSAL – 6 (1945) Os Americanos lançam a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, no Japão, destruindo a cidade. Hiroshima, cidade industrial e importante porto militar e de armazenagem de abastecimentos, situada em Honshu, a principal ilha do Japão, encontrava-se em plena actividade. É considerado um dos episódios mais horrível e pungente da II Guerra Mundial.
EFEMÉRIDES – 2 (1929) Nasce em Aveiro Zeca Afonso, cantor e compositor, para sempre associado à música de intervenção. «Grândola Vila Morena», com música e letra de sua autoria, é considerado o Hino do 25 de Abril.

Olho em redor
Mal desperta
O dia acordou mais cedo do que eu.
Pela cortina entreaberta da janela
Vejo o céu
Onde as nuvens galopam
Sem dimensão nem tempo.
Navego os olhos
Pelo branco das paredes
E paro a imaginar-me
Estrela-do-mar ou búzio
Quando os meus olhos se perdem
Nas imagens
Por detrás dos vidros
Onde alguém pintou esse prodígio.
E logo os pensamentos
Num tropel
Invadem o meu espaço
O meu refúgio
Como se fosse um mar em tempestade
A inundar de pranto o areal.
Visto-me então da força que resiste
Faço o retorno dos sonhos que são idos
E assim fico sem bússola, sem norte
Sem farol que me oriente os passos
A suster com o coração o temporal.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Edições Sarrabal

Hoje
Vi um poema em tamanho natural
Numa rua da cidade.
Desta cidade
Que teima em ser jardim
E se corrói
Cansada de ruído
Entre ondas de tédio e desamor.
Estava estendido de bruços na calçada
Coração batendo contra as pedras
Dormia
Aconchegado ao frio de Dezembro
Às quatro horas da tarde poluída.
Era um poema pequeno
Um quase nada
Aí para os cinco anos de idade
A dar, por certo
Pelo nome de Luís ou de João.
Criança-flor
Murchando no vazio
De um quarto fechado
Sem janelas.
Criança-flor-poema
Composto em carne viva
Com hora marcada no destino
Desta cidade de Sol e de colinas.
Poema genial
Grito nas trevas
A acolher-se o pobre
Por inteiro
À vigilância triste dos poetas
Ante o olhar desatento e citadino.
Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»
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