Domingo, 29 de Agosto de 2021

SEM TÍTULO

mulheres-refugiados-acnur-afeganistao-20111227-ori

De que servem os versos

Perante a força bruta?

De que servem os poemas

Quando o Inferno

Decidiu abrir as suas portas?

 

Voltou para trás o calendário

E o Futuro fugiu para parte incerta.

 

Não passou de um sonho cúmplice

O tempo percorrido.

 

Entre sombras e leis enlouquecidas

Os corações deixaram de bater

Mas continuam vivos

À flor da sorte.

 

O pesadelo

Apenas se encontrava adormecido.

 

Extinguiu-se a luz que abraça os corpos

Somente as orações insistem

Murmuradas sob os mantos

A regeitar a religião do mal

Os dogmas do senhor das trevas

A violação dos direitos humanos

O luto, a dor e a morte.

 

Há mães escondidas do olhar dos filhos

E filhos que julgam ter perdido as mães

E aquelas que por temor ao inimigo

Os entregam em mão alheia

Na esperança que advém do perigo.

 

Os céus adensam a penumbra

E cada vez é maior a escuridão

A impotência de calar a dor

Neste reino governado pelo terror

Onde as mulheres teimam em viver

Embora enterradas num caixão.

 

O mundo

Não tem armas contra o medo.

 

Correm sem destino os gritos

Que não acordam os ouvidos mudos

Pelas praças, ruas e vielas

Como o canto de pássaros aflitos

Em busca da liberdade proibida

 

Enquanto o resto do mundo

parece não escutar o pranto

que vem

da dignidade perdida e ofendida

refém

atrás dos vidros opacos que vestem as janelas.

 

Soledade Martinho Costa

(29/8/2021)

publicado por sarrabal às 16:47
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Terça-feira, 10 de Agosto de 2021

DÁDIVA

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Foi como se dois lagos
Inundassem os teus olhos 
Num romper de descobertas
A revelar-se sem palavras
Que mal ainda entendes
Mas que o teu coração
Se reservou o direito de sentir.


Que transformaste depois em lava
A deslizar pela seda da tua face.


Estendi os braços
E apaguei-a com as minhas mãos 
Cada vez mais vazias de sorrisos e de afectos 
E mais cheias de ausências e cansaços
Num eterno desacerto
Das horas que nos devoram
Desde as águas do primeiro instante
Onde o sonho principia.


Onde a ilusão 
Num enredo de segredos 
É apenas a construção inicial
Do que nunca se dá por concluído.


Mistério que nos envolve
Que nos alimenta como seiva
Mas que não nos deixa criar raízes.


Antes nos aproxima
Em prazo estabelecido
Do último poema
No verso final.


Hoje um anjo ofereceu-me uma flor
O seu olhar
E as suas lágrimas.


Soledade Martinho Costa


Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 00:26
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Domingo, 8 de Agosto de 2021

CAENDÁRIO - AGOSTO

 

AGOSTO.jpg

Quer na praia, quer no monte

quer beba água da fonte

ou passeie à beira-mar

Cá por mim, chego esperançado

à espera do tempo bom:

o que quero é descansar.

 

De resto, pouco mais faço

e tudo o mais que fizer

hei-de fazê-lo por gosto

ou eu não me chame Agosto.

 

E porque gosto do povo

e da sua tradição

enfio o meu fato novo

e com adufe e farnel

subo às capelas dos santos

em peregrina oração.

 

A transbordar de alegria

vou à feira, à romaria

compro gado, cumpro votos

canto, danço, bebo, como

sou romeiro e sou devoto.

 

Mas a quebrar o lazer

destes dias prazenteiros

apanho amêndoas e nozes

espreito a lida nas colmeias

limpo o resto das searas

ponho na sombra os craveiros.

 

E continua o descanso

sem parar dias inteiros.

 

Meto os pés dentro dos rios

pesco trutas, salmonetes

passo tardes no pinhal

entre filas de formigas

a ouvir pelo transístor

o futebol e as cantigas.

 

Apanho pó, vento e Sol

e as bichas longas paradas

nas serpentinas das estradas

e as picadas dos mosquitos

e das melgas venenosas.

 

Subo ao alto das colinas

desço às grutas misteriosas.

 

Frente às pedras e ruínas

dos templos e fortalezas

fico atento e pensativo

a pensar como a beleza

se oferece no tempo ido.

 

E vou, sem fazer ruído

pelas salas dos castelos

a ouvir na voz dos guias

os feitos, as profecias

os milagres e os amores

dos reis e mais das rainhas.

 

Jogo ténis, vou à lota

nas tascas como sardinhas

caldeiradas, peixe frito

dou mergulhos nas piscinas

de água azul e poluída.

 

Levo os meninos à praia

ao baloiço e ao escorrega

e fico na esplanada

sentado, sem fazer nada.

Mas a morrer de desejos

ao ver a cor das santolas

no prato dos estrangeiros

enquanto eu como pevides

tremoços e caranguejos.

 

Ponho a saudade na voz

e nos olhos dos velhotes

a mirar à sua volta

mini saias e decotes.

 

Besunto a cara e o corpo

com o creme protector

fico a ver a maré-cheia

depois deito-me no turco

da toalha colorida

na sujidade da areia.

 

E já farto do ripanço

que nunca me deu descanso

volto estafado para casa.

 

Mas no dia da chegada

lá começo sem demora

a carregar trouxas e cestos

sacos, malas e malotes

escada acima, escada abaixo

quase de língua de fora.

 

No meio da barafunda

quase nem dou por Setembro

que ao ver-me nestes apuros

de bagagens e stress

me diz num tom de voz manso:

 

Ai, mano, que grande estafa

tu precisas é de férias

dou-te um ano de descanso!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Agosto – os 12 Irmãos»

 

Capa do pintor António Pimentel

( Assim viam os Antigos, figurativamente, o mês de Agosto)

 

DATAS

 

CALENDÁRIO RELIGIOSO – 15 - «Dormição de Nossa Senhora».

A morte da Virgem Maria terá ocorrido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita, quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. O sofrimento da Virgem desde a morte de seu Amado Filho, deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua morte (a que se dá o nome de Dormição). Desde tempos remotíssimos que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégio que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus.

A definição dogmática da Assunção Corpórea de Maria ao Céu foi proclamada em 1950.

 

CALENDÁRIO DA NOSSA HISTÓRIA – 14 (1385) D. João I de Portugal e o Condestável D. Nuno Álvares Pereira ganham a Batalha de Aljubarrota, travada com o rei D. João I de Castela. A batalha tem lugar no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça. Como agradecimento pela vitória, o rei vai a pé, em romagem, dar graças a Nossa Senhora da Oliveira, santa da sua devoção, à sua capela em Guimarães, depositando sobre o altar as armas e o loudel (veste militar usada durante as batalhas). Para celebrar o triunfo, manda o monarca erigir um sumptuoso mosteiro à Virgem, dando-lhe o nome de Nossa Senhora da Vitória (vulgarmente conhecido por Mosteiro da Batalha). Dele costumava sair uma procissão, com banda de música, que ia colocar no Padrão de Nossa Senhora da Vitória a lança e o pelote do rei. A procissão depois de percorrer as ruas voltava ao mesmo local e ali (onde se tinha levantado um altar) era celebrada uma missa de acção de graças, regressando em seguida ao Mosteiro. A função terminava com um responso pela alma de D. João I de Portugal e por todos quantos pereceram na Batalha. A construção do mosteiro começou em 1387, tendo sido nessa altura convidados alguns arquitectos estrangeiros. A obra acaba, todavia, por ser entregue ao arquitecto português Afonso Domingues. Consta que foi mandado erigir como cumprimento de promessa feita por D. João I à Virgem antes do confrontamento.

 

CALENDÁRIO DA HISTÓRIA UNIVERSAL – 6 (1945) Os Americanos lançam a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, no Japão, destruindo a cidade. Hiroshima, cidade industrial e importante porto militar e de armazenagem de abastecimentos, situada em Honshu, a principal ilha do Japão, encontrava-se em plena actividade. É considerado um dos episódios mais horrível e pungente da II Guerra Mundial.

 

EFEMÉRIDES – 2 (1929) Nasce em Aveiro Zeca Afonso, cantor e compositor, para sempre associado à música de intervenção. «Grândola Vila Morena», com música e letra de sua autoria, é considerado o Hino do 25 de Abril.

 

publicado por sarrabal às 21:08
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Quinta-feira, 5 de Agosto de 2021

REALIDADE

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Olho em redor

Mal desperta

O dia acordou mais cedo do que eu.

 

Pela cortina entreaberta da janela

Vejo o céu

Onde as nuvens galopam

Sem dimensão nem tempo.

 

Navego os olhos

Pelo branco das paredes

E paro a imaginar-me

Estrela-do-mar ou búzio

Quando os meus olhos se perdem

Nas imagens

Por detrás dos vidros

Onde alguém pintou esse prodígio.

 

E logo os pensamentos

Num tropel

Invadem o meu espaço

O meu refúgio

Como se fosse um mar em tempestade

A inundar de pranto o areal.

 

Visto-me então da força que resiste

Faço o retorno dos sonhos que são idos

E assim fico sem bússola, sem norte

Sem farol que me oriente os passos

A suster com o coração o temporal.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

 

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 19:58
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2021

POEMA EM TAMANHO NATURAL

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Hoje
Vi um poema em tamanho natural
Numa rua da cidade.

Desta cidade
Que teima em ser jardim
E se corrói
Cansada de ruído
Entre ondas de tédio e desamor.

Estava estendido de bruços na calçada
Coração batendo contra as pedras
Dormia
Aconchegado ao frio de Dezembro
Às quatro horas da tarde poluída.

Era um poema pequeno
Um quase nada
Aí para os cinco anos de idade
A dar, por certo
Pelo nome de Luís ou de João.

Criança-flor
Murchando no vazio
De um quarto fechado
Sem janelas.

Criança-flor-poema
Composto em carne viva
Com hora marcada no destino
Desta cidade de Sol e de colinas.

Poema genial
Grito nas trevas
A acolher-se o pobre
Por inteiro
À vigilância triste dos poetas
Ante o olhar desatento e citadino.

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua» 

publicado por sarrabal às 23:53
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