
Enquanto a chuva cai
Num choro manso
Aproveito a luz
Do fim da tarde
Para escrever
Um poema na vidraça
Que nos fale, amor
Do nosso amor.
Inspirado
Na magia do momento
Palavra após palavra
Brandamente
Risco no embaciado
Este poema.
Como um olhar de amantes
De mão dada
Como jura de amor
De madrugada
Como um beijo
No vidro transparente.
Soledade Martinho Costa

O rosto carcomido
A saia preta
O lenço atado à nuca
O ar cansado
A mão que se moldou
Afeita à luta
Que lhe travou o cabo da enxada.
A manta onde se enrola
Feita de trapo
A arca onde guarda o pão do tempo
O chão feito de terra
Aonde acende
O fogo que lhe queima o pensamento.
A bilha negra de barro
Que às vezes mata
A sede que vem da alma nas tardes quentes
Quem sabe que se estilhaça nas noites frias?
E a teima dos sonhos mortos que lhe renascem
Nos campos onde a fadiga cria raízes
Quem sabe que os amortalha todos os dias?
Soledade Martinho Costa
Do livro «A Palavra Nua»
Foto: Paulo Augusto Patoleia

Assim que a casa da aldeia ficou pronta a habitar, comecei a
passar lá alguns meses no ano. Por norma, o Março e o Abril,
seguidos depois pelo Julho e o Agosto. Gostando como gosto de animais, os cães da aldeia depressa se tornaram meus amigos. Na altura em que se passou este episódio tinha eu começado a servir, diariamente, um verdadeiro banquete aos quatro rafeiros que faziam a vigília diurna, mas especialmente nocturna, do lugar. À solta, mas com donos, os animais não estavam muito habituados a
mimos. Talvez porque as pessoas do campo vêem os bichos
com olhos diferentes dos das pessoas da cidade. Ali, os animais
ou são para comer, para vender ou para trabalhar. Neste
caso, a tarefa que competia aos quatro cães era, principalmente,
a de serem os «guardas-nocturnos» do lugar. E como
«cão que ladra, não morde», poderei acrescentar que o ditado
se aplicava em absoluto aos quatro bichos. Morder, não
mordiam, mas lá que assustavam quando se punham, desenfreadamente, a ladrar ao mesmo tempo, lá isso, assustavam.
Para lhes fazer a comida, costumava comprar, num talho da
vila, bofes ou miudezas de frango, que depois cozia com arroz
e pedaços de cenoura. Sempre em quantidade suficiente,
era cozinhada e guardada depois no frigorífico, em recipientes
próprios para esse efeito. Enquanto durava, retirava a
porção necessária, que aquecia no microondas na altura de
servir a refeição aos animais. Poucas pessoas sabiam destes requintes em prol dos quatro rafeiros, habituados a passar
fome ou sede, frio ou calor. Em locais tão pequenos como
uma aldeia, há coisas que devemos calar por prudência. Durante
os meses em que permanecia ali, era essa uma das minhas
tarefas: fazer a comida dos cães – com o grato prazer de lha dar depois. Só deixei essa missão quando comecei a aperceber-me da atitude dos donos: cessava por completo a assistência alimentar aos bichos, que era da sua responsabilidade.
E comecei também a ter consciência de que aquilo que fazia
por amor aos animais estava a tornar-se numa verdadeira
obrigação imposta pelos donos dos rafeiros. Um dia perguntei:
– Então, deixaram de dar comida aos vossos cães? – e logo a
resposta:
– Ora, para quê, a senhora dá. E tão boa que chega a ser pecado.
Aquilo não é comida para cães, é comida para gente!
Ignorei a crítica e prossegui:
– Bom, mas o que fazem à comida que lhes davam antes de
eu chegar?
– Os nossos restos? São para as galinhas e os porcos. Para a
engorda.
Não gostei da resposta. Não gostei mesmo nada. De tal maneira
que, aos poucos, a partir daí, com alguma pena minha,
conquanto continuasse a dar-lhes um ou outro «acepipe»,
deixei de ser a cozinheira dos pobres rafeiros. Antes de tal
acontecer, entrei, certo dia, num outro talho, que não o do
costume. A dona, que estava ao balcão, explicou:
– Aqui não vendo bofe nem miudezas de frango. Mas tenho
outra coisa de que os cães gostam muito: são goelas de borrego;
cartilagens. Já estão embaladas e congeladas. É o que dou
aos meus, e olhe que são cães de raça!
Confiei. Aquisição feita, levei para casa o saco congelado,
sem conseguir verificar, por isso mesmo, o seu conteúdo.
Deixei descongelar e, para meu espanto, descobri que goelas
de borrego havia uma ou duas, se tanto, o resto eram apenas
ossos tão limpos de carne e tão grandes, que nem um leão teria
dentes para eles. Meti tudo no saco e no dia seguinte voltei
ao talho. Coloquei o saco sobre o balcão e disse, calmamente, à senhora que na véspera me tinha atendido:
– Está aqui o saco que levei ontem. Não é um saco de goelas,
como me disse, mas um saco de ossos. Não venho pedir-lhe a
devolução do dinheiro, embora não goste de ser enganada.
Os cães da aldeia, mesmo rafeiros, com pulgas e carraças,
quando comem, enchem a barriga…
E a dona do talho, numa repetição:
– Mas é aquilo que eu dou aos meus cães, e são cães de raça!
– Pois pode dar-lhes estes também, que já estão descongelados
– alvitrei.
No talho, vazio de fregueses, encontrava-se somente um homem
que me pareceu estar apenas à conversa. Volta-se para
ele a dona do talho:
– Ó Senhor João, não é destes sacos que costuma levar para
os seus cães?
Resposta do homem, numa atitude de quem sabe, na altura
própria, estar do lado que mais lhe convém:
– Sim, senhora. É desses mesmo que levo, e os meus cães chamam-lhes um figo!
Saí do talho a sentir-me duplamente ludibriada. Porque o
saco não continha goelas, mas ossos, e porque me pareceu
duvidosa a resposta do homem. Passos andados, dirigi-me ao
talho do costume, onde sempre comprara o bofe ou as miudezas
de frango. À saída, no passeio em frente, vejo o tal Senhor
João. Não me contive. Atravessei a rua e dirigi-me ao homem:
– O senhor desculpe, mas queria só fazer-lhe uma pergunta,
posso? – perguntei com um sorriso, na intenção de obter a
resposta certa.
– Faça favor, minha senhora – respondeu
– É o seguinte: há pouco, ali no talho, disse que costumava
comprar aqueles sacos de ossos para os seus cães…
– Exactamente – confirma o homem.
– Diga-me então uma coisa – continuei –, os seus cães comem
os ossos?
O homem ficou calado por uns momentos, olhou-me depois
com um ar um pouco acanhado e respondeu:
– Bom, comer, comer, eles não comem. Lambem.
– Pronto, Senhor João, fiquei a saber aquilo que já sabia,
obrigada, sim?
Segui o meu caminho, a pensar que os cães da aldeia, apesar
de tudo, eram cães com sorte. E mais: que enganar a fome
dos cães tem os seus preceitos e os seus adeptos. Preceitos e
adeptos a que não escapam nem os cães de raça.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Edições Vela Branca

Sou amigo de São Pedro
Santo António e São João
E a um de cada vez
Dou um dia do meu mês.
Primeiro vem Santo António
Filho amado de Lisboa
Arde a primeira fogueira
Que alvoroça toda a rua.
E porque é mania sua
Que toda a mulher solteira
Não deve ficar para tia
Promete-lhe santamente
Arranjar-lhe pretendente
Um por dia a cada uma.
Entretanto, cá por mim
Vou regar os manjericos
Chamuscar as alcachofras
E dar o meu pé de dança
Em todos os bailaricos.
Mas como sou diligente
Para o trabalho render
Dou conta de outros serviços
Que me compete fazer.
Assim, entre os dois opostos
Diversão e compromissos
Preparo o terraço às eiras
Entranço as réstias dos alhos
Talho enxertos nas roseiras
Tiro a cera dos cortiços.
E enquanto as gordas sardinhas
Aloiram sobre o carvão
Eis que chega São João
E que lindo é o santinho
Traz um ramo de alecrim
Uma cruz presa na mão
E ao colo um cordeirinho.
Eu, lá ando num afã
Ora a lançar os foguetes
Ora a vigiar o vinho.
Sem que à terra falte amanho
O pouco tempo que tenho
É gasto de afogadilho
Colho as favas e as cebolas
Apanho os frutos maduros
Corto o feno e sacho o milho.
Por fim avança São Pedro
Que ao sentir à sua volta
A ternura tão sincera
Da gente humilde do povo
Em troca dessa afeição
Comovido e sorridente
A todos como presente
Oferece entrada no céu
Sem embargo ou distinção.
E pronto, resta-me um dia
Então, cansado e feliz
Ainda cheirando a fumo
Pé ante pé, sem barulho
Digo adeus, vou de jornada
Dou a vez ao mano Julho.
Calendário Religioso - 13 - Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua (por ter vivido e pregado durante muitos anos nesta cidade de Itália), nasceu em Lisboa no dia 15 de Agosto de 1195, de seu nome Fernando de Bulhões. Estudou em Lisboa e Coimbra e seguiu depois para Itália. Religioso franciscano e grande pregador, a fama da sua santidade e sabedoria espalhou-se depressa pelo mundo. Proclamado pelo Papa Pio XI parono da cidade de Lisboa, morre a 13 de Junho de 1231, em Pádua, tendo sido canonizado pouco tempo depois
- 24 - São João Baptista, «O Precursor», filho do sacerdote Zacarias e de Isabel (prima de Nossa Senhora). Baptizou Jesus Cristo nas águas do rio Jordão, na Palestina, apresentando-o ao povo como o Messias. Foi decapitado no ano 31 a pedido de Salomé, princesa judia que solicitou a cabeça do Santo a Herodes Antipas, tetrarca de Galileia, que julgou Jesus Cristo.
- 29 – São Pedro, o primeiro dos Apóstolos e dos Papas, mártir em Roma no reinado de Nero. No momento da Paixão (série de provações e sofrimentos pelos quais passou Jesus Cristo) renegou por três vezes Jesus, que lhe havia vaticinado a sua traição, falta que chorou durante toda a sua vida. É o santo da devoção dos pescadores.
Calendário da Nossa História – 11 – (1890) É inaugurada em Lisboa a Estação Ferroviária do Rossio.
Calendário da História Universal – 28 – (1818) René Laênnec apresenta pela primeira vez publicamente, na Academia de Medicina de Paris, o seu invento: o estetoscópio.
Efemérides – 13 – (1888) Nasce em Lisboa o poeta Fernando Pessoa.
Soledade Martinho Costa
Capa do pintor António Pimentel
Colecção «Os Doze Irmãos»
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