
Não é a primeira vez que venho falar contigo Cristiano Ronaldo, e sempre por motivos que me fazem respeitar-te e admirar-te cada vez mais. Desta vez, temos a polémica da tua marquise. Mas vou passar adiante. Não pertenço ao grupo que, por palavras e acções, te persegue. Esses comportamentos só têm uma palavra para os definir e tu sabes tão bem como eu qual delas é. Venho, sim, falar-te da tua benemérita, e tão solidária quanto humana atitude: a de custeares no Hospital de Santa Maria a Unidade de Cuidados Intensivos, com 25 camas, num total de 3,4 milhões, considerada uma das melhores e mais bem equipadas do nosso País. Graças a ti, por tua decisão e vontade. No dia da inauguração não esqueceste uma palavra de louvor e agradecimento ao pessoal hospitalar. Um belo «remate», sem teres uma bola nos pés! E escrevi isto:
«PARA MIM, COMO JÁ TE DISSE, SÃO ESTES OS TEUS FANTÁSTICOS GOLOS, CRISTIANO RONALDO. ESTOU DE ACORDO COM A TUA IRMÃ KÁTIA AVEIRO (TÃO CRITICADA DE MANEIRA INSULTUOSA NO FB) POR TER DITO «SERÁ QUE NÓS PORTUGUESES TE MERECEMOS?». PENSO O MESMO E TENHO PENA PORQUE SOU PORTUGUESA. A INVEJA MALDOSA E MESQUINHA NÃO PERDOA E FAZ-SE SENTIR DA MANEIRA MAIS REPUGNANTE. EU TE SAÚDO CRISTIANO RONALDO E TE AGRADEÇO EM NOME DOS QUE NÃO QUEREM ADMITIR A TUA SUPERIORIDADE ENQUANTO SER HUMANO, TÃO ALTRUISTA QUE A BONDADE TRANSBORDA DO TEU CORAÇÃO. DEUS CONTINUE A DAR-TE SAÚDE, A PROTEGER-TE E À TUA BONITA FAMÍLIA.»
Soledade Martinho Costa

Na manhã
Galopam cascos
De cavalos mansos.
Nas tuas mãos
Sepulto
O fuso
Herança
Reflectida
No luto
Dos teus olhos.
Rés ao fio
Calosos
Os teus dedos
Ciciam
Antepassados
Jeitos.
Impune
Desço ao poço da memória.
Asas fechadas
De recurvos bicos
Há pássaros azuis
Pousados nos lambris.
Quem dera
A vara de condão
O príncipe da história.
Consciente
Rejeito em mim
O peso das palavras.
Só os Invernos
Passaram por aqui.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Poemas do Sol e da Cal»
Editorial Presença
Tela: «Velha Fiando» (1909), José Malhoa
Encontrava-me a passar uns tempos na minha casa da aldeia, na Beira Litoral, quando entrei no Centro de Saúde de Condeixa-a-Nova, na intenção de falar com a médica, directora do Centro e, também, por essa altura, vereadora do pelouro da Cultura na Câmara Municipal, sobre certo assunto de ordem cultural em que ambas estávamos interessadas. Ao entrar, informei a funcionária de que não pretendia interromper o andamento das consultas. Que não tinha pressa. Que podia esperar. A doutora que me atendesse quando tivesse oportunidade. Decidi aguardar na sala de espera. Cá fora, pareceu-me ter ouvido o choro de uma criança. Não me enganei. Na sala, várias pessoas aguardavam a vez de ser atendidas. Sentado numa das cadeiras, um rapazinho de quatro a cinco anos, lavado em lágrimas. Misturado com o choro, um pedido dirigido à mãe, sentada a seu lado:
– Eu não quero levar um «pica», mãe! Não quero! Ouviste, mãe?
E a resposta:
– Cala-te, Nuno!
Calcitas de ganga, as mangas da camisa com vestígios de quem a elas se assoou e limpou as lágrimas, a choradeira continuava, com o pedido repetido em lengalenga:
– Mãe, eu não quero levar um «pica», 'tás a ouvir, mãe?
De vez em quando levantava os olhos para a mãe, numa súplica; depois olhava os circunstantes, para logo fixar o olhar na ponta dos ténis, que já teriam tido cor, mas, agora, sem ela. E de novo a cantilena soluçada:
– Eu não quero levar um «pica»!
E outra vez a mãe, num aviso, parecendo acordar de um sono de olhos abertos:
– 'tá calado, Nuno, que já 'tou farta de te ouvir!
De nada serviu o aviso. As lágrimas e o pedido continuavam. Aos pés da mãe, os sacos com os «avios». Isto é, as compras, principalmente de mercearia, feitas às terças e sextas-feiras, dias de mercado e feira em Condeixa. Nesses dias, não apenas as pessoas da vila, mas outras, vindas de lugarejos ou de aldeias em redor, fazem as «mercas» e aproveitam para assistir à missa, ir ao Centro de Saúde e tratar de demais assuntos. Depois, a maioria lá segue, na carreira. Ainda há poucos anos, com o mercado e a feira situados numa das ruas principais da vila, era diferente. A emprestar-lhe toda a azáfama e colorido, como se de um dia de festa se tratasse. A rua, a praça e a feira eram locais de encontro, de conversa, de ditos soltos, de beijos e abraços, de novidades contadas e recontadas, de encontrões com pedidos de desculpa, num fervilhar de gente ataviada de sacos onde as «mercas» espreitavam, indiscretas. As peixeiras com o «rico» peixe vindo da Nazaré, de São Martinho e, sobretudo, da Figueira da Foz. O silêncio dos coelhos ao despique com o cacarejar dos frangos e das galinhas. Muita bugiganga, muita loiça de barro, muita roupa, muitos sapatos, muitos ciganos entregues ao seu negócio. Mas o mercado e a feira mudaram de local para uma das partes novas de Condeixa, um pouco distante para quem tem de se deslocar a pé. Numa vila rural, valem os atrelados dos tractores e os carrinhos de mão com rodas de pneu. Era evidente que a mãe do menino tinha ido às «mercas». Pacientes tinham sido atendidos, outros haviam chegado, e a cantilena prosseguia no mesmo ritmo. «Nem sempre os adultos (ou as mães) são coerentes, de modo a acalmarem os mais pequenos dos seus medos, dos seus receios», pensava eu. «De nada custava sossegar o garoto», continuava no meu raciocínio. Num determinado momento em que o meu olhar se cruzou com o da criança, pisquei-lhe o olho e abanei a cabeça num aceno negativo. Esta espécie de mensagem telepática teve efeitos negativos: o choro quase redobrou. Julgo que não tenha sido por minha culpa, mas acontece que nesse preciso momento a paciência da mãe chegou ao fim. Levanta-se da cadeira, coloca as mãos sobre os ombros do filho e afirma, sem margem para dúvidas:
– Eu avisei-te, Nuno! Se teimas em continuar a chorar, chamo imediatamente o coveiro e enterro-te já aqui!
Resultado? As lágrimas pela carita do garoto deixaram de correr. Limpou os olhos, assoou o nariz às mangas da camisita, recostou-se melhor na cadeira e calou-se. Não me perguntem como é que uma criança tão pequena sabia o que era um coveiro. Para mim, será sempre um mistério. Foi nessa altura que me chamaram. A doutora estava à minha espera.
Por um triz, ia perdendo a oportunidade de aprender com aquela mãe como se põe termo ao choro de um filho que tem medo de levar um «pica».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Ed. Vela Branca

Apetecia-me dizer-te
Que penso em ti demasiadas vezes
Embora
Não as vezes necessárias.
A distância que nos separa
Deixou de ter qualquer significado;
Sempre que desejo
Corro a ver-te.
Conheço-te
Desconhecendo a cor dos teus olhos
Entendo as tuas palavras
Sem falar a tua fala
A tua angústia
Corre nas minhas veias
Os passos que escutas nos teus ouvidos
Soam atrás da minha porta.
A tua solidão
É a minha solidão inundada de Sol
No meio de risos
Os teus temores
Os meus temores nas alvoradas
Dos dias sem história
Os teus sonhos
Os meus sonhos sem freio
Esclarecidos.
As tuas chagas
Os teus gritos
A minha impotência
A minha ânsia
De poder dizer-te:
Estou contigo.
Sim, contigo
Olhando pela mesma janela
A mesma nesga de segredo
Contigo
A comer a mesma côdea de pão
Que mata a tua fome.
A dormir o mesmo receio
Nas horas que deslizam
Orladas de suor
Pela sujidade engordurada das paredes.
Contigo
A tecer as mesmas madrugadas prisioneiras
Abraçada ao mesmo destemor
E ao mesmo perigo.
Apetecia-me dizer-te
Que penso em ti demasiadas vezes
Embora
Não as vezes necessárias.
Soledade Martinho Costa
Do livro "A Palavra Nua"
Ed. Vela Branca
Tela: Luís Ralha
CRÓNICA
Viviam os seis na mesma casa. Tinham vindo do Norte. Coisas de negócios, falências, necessidades, originaram a sua vinda para o Sul. Objectivo? Reorganizarem a vida, que dinheiro já tinha havido com fartura. Marido e mulher, dois filhos, na casa dos vinte e poucos anos, e os pais do primeiro. Laurinda, a mulher do Saraiva, com quarenta e três anos, bonita, vistosa, cabelo negro, curtíssimo, olhos grandes, da mesma cor, rosto com traços a fazerem a inveja de muita mulher. Arranjada, decotada, moderna, sexi. Como tinha aptidão para a cozinha, arranjou trabalho num hotel como cozinheira. O Saraiva, que fora empreiteiro nos bons tempos, acabou por conseguir trabalho no mesmo ramo. O filho acompanhou-o. A filha casou logo depois, e o problema dela ficou resolvido. Voltou para o Norte. O pai do Saraiva, casado pela segunda vez, estava aposentado. Laurinda, apanhado o jeito de conversar comigo, fazia-me confidências, sempre que vinha, nas folgas, limpar as escadas e os patamares do meu apartamento. O casamento estava por um triz. Durava há vinte e cinco anos. Já não aguentava mais. Os problemas tinham surgido logo após o casamento: o marido, eram noitadas, mulheres, dinheiro esbanjado, copos, injúrias. Maus tratos físicos, isso, não. Psicológicos, muitos. Tinha ciúmes da Laurinda, criticava-lhe o vestir, o calçado, as pinturas. No Algarve, as coisas não melhoraram. Pelo contrário. Laurinda chegava a sair de casa a meio da noite, em pijama, para ir acabar o sono (se é que o tinha começado) em casa de uma pessoa amiga.
– É uma tristeza, a minha vida! – dizia-me. E acrescentava, decidida:
– Vou deixá-lo. Arranjo casa e vou-me embora. E já o devia ter feito há muito tempo!
O Saraiva sabia dos propósitos da mulher. Junto de quem tinha paciência para escutá-lo, chorava. Chorava e dava pena. A Laurinda era a mulher da sua vida. Nunca tinha amado outra mulher daquela maneira.
– Se ela me deixar, mato-me, pode ter a certeza! – confessou-me certa vez. Impressionaram-me as suas palavras e as suas lágrimas. Implorou-me que intercedesse por ele junto da Laurinda. Falei com ela. Respondeu-me:
– É o costume. Ele faz sempre a mesma coisa. Chora, diz que se mata, mas é mentira. Gosta agora de mim! Se gostasse, não me fazia a vida num inferno. Ajudava nos gastos da casa e não se embebedava!
Fiquei confusa. Tantas tinham sido já as suas confidências, que acreditei na Laurinda. Certo dia contou-me que tinha arranjado casa:
– Finalmente, vou ter uma vida descansada! – afirmou.
O filho foi com ela. Na casa que deixou, ficaram os sogros e o marido. Tempo depois, os sogros voltaram para o Norte, e o Saraiva ficou sozinho. Nas conversas que tinha, dizia que deixara de beber. Chegou a oferecer a um dos seus amigos duas garrafas de aguardente de medronho, «porque já não fazia sentido tê-las em casa». Homem de olhos tão verdes como nunca vi, começou a andar mais aprumado. Volta não volta, afirmava: – A bebida é que me fez perder a mulher. Por isso, acabou-se! Com um pé dentro, outro fora do desemprego, habituado durante anos a ser patrão, o Saraiva não tinha grande vocação para empregado. Por esta altura, foi fazer um certo trabalho numa propriedade em Monchique. Chegada a hora do almoço, a pessoa que o contratou convidou-o a acompanhá-lo ao restaurante. Conhecedor da situação do Saraiva no que respeitava a bebida, mandou vir uma garrafa de água e, outra, pequena de vinho. E logo o Saraiva: – Ó Senhor Engenheiro, mande vir antes uma garrafa grande, de litro. É que dias, não são dias! E enquanto o Senhor Engenheiro bebeu metade de um copo de vinho tinto, o Saraiva bebeu a garrafa inteira. Ao saber disto, pensei: «Lá se foram as boas intenções do Saraiva». Com efeito, ninguém o via a cair de embriagado, mas que tinha sérios problemas com a bebida, isso tinha. Coisa que vinha de longe. Ainda que afirmasse (como é costume em casos semelhantes), «não ser um alcoólico». Noutra ocasião em que encontrei o Saraiva, diz-me ele, para meu espanto:
– Hoje vou almoçar a casa da Laurinda!
Dias volvidos anuncia-me, alegre que nem um passarinho:
– Esta noite não dormi em casa. Fiquei em casa da Laurinda!
«Será possível?», perguntei a mim própria. Só tive resposta quando a Laurinda me confirmou que sim.
– Mas, então… – argumentei.
Diz a Laurinda a rir:
– Mas há lá pessoa mais maluca do que eu? Não há! Pois é. Vai lá comer e tem direito a sobremesa e a café! Já me apareceu com a roupa para eu dar um jeito, e esta parva que está aqui tratou-lhe de tudo. É uma autêntica carraça. Está bem como bem. Melhor do que nunca! – concordei.
Entretanto, o Saraiva acabou por deixar a casa onde habitava sozinho. Tempo depois voltei a falar com a Laurinda. Confirmou novamente:
– Ah, pois, agora almoça, janta e dorme lá em casa! É o que eu digo, não tenho juízo! Mas que hei-de fazer? Apareceu-me com a mala da roupa e mais uns sacos. O meu filho cedeu-lhe a cama, e tem lá dormido. E não me dá um tostão. Na outra casa, ainda pagava uma parte da renda, agora nem isso. Eu sempre sou muito parva! Mas já lhe disse a ele: olha que é por pouco tempo. Trata da tua vidinha, porque qualquer dia ponho-te a tralha toda na rua. Já o avisei!
Cá para mim, devem ser os olhos verdes, verdes, do marido – ainda que não seja propriamente um «gato». E também os vinte e cinco anos de casamento. E também os filhos. E também o neto que vai chegar por um destes dias. E também o amor, quem sabe, o afecto, que liga ainda a Laurinda ao Saraiva, por mais que ela diga que não. Se o Saraiva não sair de casa da Laurinda, como parece ser sua intenção, a Laurinda só tem uma hipótese: começar de novo à procura de casa. O problema está em que o Saraiva costuma dizer: – Eu, por aquela mulher, vou até ao fim do mundo! Dadas as circunstâncias, acredito. Assim como acredito que deve haver poucos casos como este. Mais. Supondo que a Laurinda arranje uma casa «no fim do mundo», com a prática que o marido tem em «falar-lhe ao coração», quando a Laurinda lá chegar, já o Saraiva lá está, à espera dela!
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no meu Coração»
Edições Vela Branca

Parti da minha terra
Um dia
Deixando para trás
Deitado na paisagem
O Sol do meu país
E o azul do céu em português.
Parti
Na esperança de encontrar
Em parte incerta
A minha vez
O meu lugar
O rumo dos meus passos
Uma janela aberta.
Na bagagem
A distância que se faz saudade
E o desejo de voltar
Ao meu país de gaivotas
Na proa dos barcos
Sobre o Tejo.
Mas a vida
Nem sempre nos oferece
A chave da porta certa
Para entrar.
Sem princípio nem fim
Como o pássaro lendário
Renascido das cinzas
Basta-me, agora
A minha música
Os meus poemas
As canções que ofereço
E a verdade de ser o que hoje canto
Na força das palavras que conheço.
Soledade Martinho Costa
(Do CD «Renascer», com música de Vitor Rocha e interpretação de Nuno Custódio)

O pisco-ferreiro, pousado no rebordo do telhado, observa a casa onde mora. Sua esposa, a ferreirinha, no vestido castanho com penas ruivas no leque do rabinho, repousa no côncavo do ninho. Debaixo do corpo, num aconchego de folhas secas, palhas e tronquinhos, esconde os quatro filhos, cobertos ainda de penugem. Mas repousa apenas por momentos, que já levanta voo na quietude estremunhada da manhã, para matar a fome aos seus rebentos. Quatro bicos abertos, como uma estrela de ouro, que lhe pedem carinho, vigília e alimento.
Mas outras aves andam na mesma agitação. No mesmo cansaço. Na mesma alegria nesta época do ano. A construírem os ninhos. A chocarem os ovos. A alimentarem os filhos. São as carriças, os chapins, as lavandiscas, os estorninhos, os pintarroxos, as alvéolas, os verdilhões, os melros, os bicos-de-lacre, as toutinegras, as milheirinhas os pintassilgos e muitas, muitas mais. Como as rolas, os noitibós e as cotovias, que regressam de países distantes, para onde tornam, mal pressentem que o Outono está de volta para se instalar.
Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas; as ervilhacas roxas e amarelas; as corriolas lilases, em forma de sino; O cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido; as calcinhas de cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás e os pregos de ouro, amarelos, como o metal precioso.
O dia está agora prestes a abalar. Na sua frente, o tempo foge e grita: «Anda, agarra-me se fores capaz!» O dia, porém, em vez de correr atrás do tempo, faz o contrário; encurta o passo, com pena de partir. Mas a noite já espreita no azul-escuro lá do céu, à espera de estender sobre a Terra a sua capa negra de cetim. Então, o dia acede e parte – a pensar que há-de voltar no primeiro raiozinho da manhã.
— Bonita noite de Primavera, compadre Ralo! – comenta o grilo, à porta da toca.
— Mas talvez ainda um pouco fresca… – contrapõe o ralo, lá do seu buraco.
— Ora, ora, para mim, está excelente! – exclama o insecto saltador.
— Quer dizer que vamos ter serenata… – insinua o outro.
O grilo levanta as asas.
— Claro! Ou até uma desgarrada! – e logo, temeroso:
— Não me diga que quer ficar de fora!
— Não, não! Por mim, estou pronto para cantar a qualquer hora!
— Antes assim. – diz o grilo.
E ficam, o grilo e o ralo, a afinar o canto no canto do jardim à volta das suas casas.
— Que fragrância tão rara a tua, formosa madressilva! – elogia o luar a descer lá do céu.
— Sim, de noite torna-se mais intenso o meu aroma. – responde, à voz da Lua, a flor silvestre. – É nele que as borboletas nocturnas se perfumam, quando pousam nos meus ramos, sob a luz prateada do teu manto…
— Comparável ao teu – sussurra a medo, a sombra do pinhal –, só o perfume branco da resina…
— Ah, sim! – concorda a Lua. – Tens razão. Da resina que corre do tronco dos teus pinheiros, a perfumar o vento, as aves e as mãos!
Crac-crac, crac-crac, No silêncio da noite que veste o povoado, a ferreirinha repartindo o calor do corpo pelo corpo dos filhos, canta baixinho: Crac-crac, crac-crac, como se cantasse uma canção de embalar, para adormecer os seus meninos. E as pessoas da casa onde fez o ninho, que a conhecem e lhe querem bem, ao escutarem o canto maternal da ave, pedem que a noite a guarde e adormecem também.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que a Primavera me Contou»
Ed. Publicaçõs Europa-América
Ilustração: Elisa Bernardo

Roubaram o sorriso
da face dos nossos mais Velhos.
Amortalharam
os seus últimos sonhos
que permaneciam
no fundo dos seus olhos
levados para lugares distantes
onde a memória fez morada.
No labirinto em que as rugas
e os sulcos a cinzel talhados
abrigavam lembranças
de longínquos esponsais
e recordavam beijos, devaneios
noites a perdurar no coração
envoltos na penumbra
de perdidos rituais.
Hoje os olhares revelam
Não reconhecer
Os vultos que se cruzam
E volteiam na sua frente
Nem aceitar dos lábios
Palavras que não entendem
Como pedaços de cansaço
Na exaustão do tempo.
Na clausura das horas
Num abandono crucificado
As mãos dormem no regaço
Um sono onde a realidade
Rejeita o acordar dos dias.
Nem sequer já correm lágrimas
Nesse espaço a que chamamos rosto
Nem os nomes amados têm som
Soterrados na mudez das vozes.
Só as madrugadas teimam em romper
A cortina que esconde o susurrar do pranto
Sem impedir que a noite permaneça
Intemporal para além do horizonte.
Na espera se confia
A cada segundo o coração estremece:
Que a morte não viesse de mão certeira e fria.
Soledade Martinho Costa
(Dezembro/2020)

AINDA A PROPÓSITO DE AVES PRESAS EM GAIOLAS
Já adulta, tive diversas experiências (marcadas a lágrimas) com animais. Animais que os meus filhos traziam para casa – depois de muitos pedidos para eu consentir, e das muitas promessas de que iriam tomar conta deles. Promessas rapidamente esquecidas. Passados os primeiros tempos de novidade e entusiasmo, acabava sempre por ser eu a adoptá-los. Além de um gato e de um cão, trouxeram um peixinho vermelho e duas tartarugas minúsculas.
O último bichinho a ser adoptado por mim foi um periquito. Ofereceram-no à minha filha no dia do aniversário. Veio ainda bebé, lindo, azul e de raça pequenina. Fez-me companhia durante dez anos, limite de idade ou idade máxima para um periquito. Tinha uma gaiola branca, de porta sempre aberta, e a casa toda ao dispor das suas asas. Não dizia uma palavra, mas percebia tudo o que lhe dizíamos, e nós, tudo o que constituía a sua fala. Se queria beber água da torneira (adorava), pousava nela em jeito de equilibrista. Se queria coentros ou alface (que deve dar-se pouca aos periquitos), voava para cima do frigorífico, cabecita à banda, a olhar a pega da porta. Se queria brincar comigo às escondidas, no alto do roupeirinho do hall, ou às corridas, no chão, a correr a meu lado, chamava-me em altos grasnados. Com o bico abria a porta do chuveiro quando se apercebia que alguém ia tomar banho. Fazia-me companhia quando estava ao computador, saltando para o teclado e batendo repetidamente com uma das patitas nas teclas. Surpreendente, inteligente, lindo, uma graça, o meu Pim-Pim (nome do título de um livro da minha amiga, a escritora Adriana da Cruz Guimarãe: «Pim-Pim,o Peixinho Prateado»). Conhecia os nossos passos na escada, e nós, da escada, a ouvirmos o seu palrado vindo do hall, à espera da nossa chegada. Depois um esvoaçar desenfreado à nossa volta, um pousar nos nossos ombros, como a dizer: – Demoraram tanto, tive medo que se esquecessem de mim! Ia buscar a chave ao lugar dela para pegar-lhe com o bico e arrastá-la até atirá-la ao chão, numa atitude de quem pensa: – «A culpa só pode ser tua». Quando saía por uns dias, levava-o comigo. A minha entrada, por exemplo, de gaiola na mão, em qualquer hotel que se orgulhava das estrelas postadas à porta a fazerem companhia ao porteiro, fazia sempre um sucesso. Mas os anos passavam. Sem eu dar por isso, o Pim-Pim ia envelhecendo. Começou a cair do poleiro quando entrava na gaiola para dormir um sono. Uma vez, muitas vezes. Reparei, mas sem associar as coisas. Falei então com um veterinário especialista em periquitos, um estudioso destas aves: –Tem de habituar-se à ideia, o seu periquito começa a ter falhas de coração. Essas quedas são desmaios. Aí teve início a minha preocupação. À noite comecei a ter o cuidado de o levar para outra dependência da casa, com a gaiola tapada, onde não chegasse a luz, o barulho das vozes, o som da televisão. Nem as pessoas sabem o mal que tudo isso faz às pobres das aves. Havia uma coisa que o Pim-Pim detestava. Acho mesmo que odiava: que o agarrassem. Mesmo comendo à nossa mesa, a debicar no nosso pão, a provar a nossa ementa da beirinha do nosso prato (gostava de tudo, principalmente de sopa), a beber empoleirado no rebordo dos nossos copos, mesmo com toda esta familiaridade, apanhá-lo, só à falsa-fé. Metia a mão, devagarinho, pela porta da gaiola, que nunca se fechava, e ele numa gritaria, a dar-me bicadas (o ingrato) na vã tentativa de escapar-se. Mas era tanta a minha vontade de fazer-lhe festinhas (sempre a custo), que não resistia à tentação, mesmo antevendo o burburinho e a sua irritação. De manhã ia buscar a gaiola, destapava-a e colocava-a na cozinha, sobre a pedra mármore, junto da janela, que tinha rede. Era a hora de o Sol fazer companhia ao Pim-Pim. E lá vinha o banho, umas vezes apenas com a cabecita enfiada na tina, outras, num pulinho ágil, patitas dentro da água, num banho completo, espanejado, num palreio. Numa dessas manhãs, ao transportar a gaiola para o lugar do costume, no trajecto entre a divisão onde dormia o Pim-Pim e a sala, até chegar à cozinha, caiu do poleiro. Mas dessa vez não se levantou. Não se ergueu para depois, ajudado pelo bico, voltar a trepar, como era seu costume, para ajeitar-se no poleiro. O meu coração bateu mais apressado (ele que raramente bate menos do que noventa pulsações). Pousei a gaiola. Meti a mão, a medo, pela porta. Docilmente, deixou-se apanhar. Nem um grasnado nem uma recusa. Deitado na palma da minha mão, olhinhos postos por uns escassos momentos nos meus, fechou os dele. Ainda senti o coraçãozito a bater. Depois, mais nada. Morreu na minha mão, ele que durante dez anos não se deixou apanhar. Foi como se me pedisse desculpa. Por isso esperou que eu acordasse, que o fosse buscar para se despedir de mim, na minha mão, porque sabia quanto eu gostava de sentir nela o seu corpo pequenino e macio. Chorei dias a fio. Sonho muitas vezes com ele, sempre alegre, sempre a esvoaçar. Às vezes, de manhã, esvoaçava pela casa e vinha pousar-me na dobra do lençól. Ama-se um animal como se ama uma pessoa? Num choro igual? Num desgosto igual? Ficou enterrado num canteiro da piscina, no Algarve. Do Algarve veio como presente, dez anos antes, e ao Algarve voltou. Escrevi um poema: Canto Azul. E choveram os conselhos: – Se fosse a ti, comprava outro, passava-te mais depressa o desgosto. Achei que talvez, quem sabe? Tempos depois, o dono de uma loja de animais, foi pôr-me em casa outro periquito. Verde. Antipatizei logo com ele, coitado do bicho. Certamente pelo facto de vê-lo vivo na gaiola do meu Pim-Pim. Devolvi-o ao fim de três dias. Enquanto o Pim-Pim viveu, volta não volta, ia guardando as suas penas azuis, quando lhe caíam, porque eram realmente lindas. Uma a uma, dentro de uma latinha pequena com uns arabescos dourados. Estava cheia e guardei-a dentro do cofre da minha escrivaninha, bem lá ao fundo, como se fosse um tesouro. Depois da sua morte, de tempos a tempos dava comigo a abri-la, numa recordação feita daquela tristeza que parece não ter fim. Foi quando alguém me disse: – Não é nada bom guardar penas em casa. Fiquei a pensar. Pelo sim pelo não, certo dia abri a janela, abri também a latinha e soprei-as, lancei-as ao vento. Como se faz no mar, com a cinza dos defuntos. No pensamento, palavras do meu poema: «[…] a certeza de não querer repetir o amor».
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Edições Vela Branca

A PROPÓSITO DE AVES PRESAS EM GAIOLAS
Mais
Do que saber
Que os gestos matinais
Não se repetem
Na manhã de amanhã
Nem nas outras manhãs.
O abrir da porta
As palavras todas
O transportar na mão
O retiro
O ninho
Que abrigava o teu corpo
Tão sem peso
Tão sem mácula
Como pétala
Que alimenta o coração.
O correr
O vidro da janela
Para oferecer-te
O ar
A luz
O Sol
Que te faziam procurar
A limpidez da água.
Mais
Do que saber
Um segredo
Enterrado num canteiro
Entre violetas
Sob o canto das cigarras.
Mais
Do que saber
Que as outras aves
Te fazem companhia.
Que os lagartos
Se vão esconder
Na tua sombra
E os camaleões
Tomam a cor da tristeza
Para matar a sede
Junto a ti.
O que mais dói
É o silêncio.
O silêncio do voo
Na liberdade da casa
A ausência do canto
A falta do espreguiçar das asas
A anunciar o sono.
O que mais dói
É esta mágoa
Esta saudade que se instalou
Na fatia do tempo.
Esta certeza
De não querer repetir o amor.
O canto azul das aves
Também morre.
Soledade Martinho Costa
(Julho/1996
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