
Pela sua importância no contexto das cerimónias litúrgicas que ocorrem um pouco de norte a sul de Portugal durante a Semana Santa, não podem deixar de registar-se as que têm lugar em Braga, onde o conjunto impressionante e único das procissões, particularmente as nocturnas, faz acorrer àquela cidade milhares de fiéis vindos de todo o país, mas também peregrinos oriundos de Espanha e de outras partes do Mundo.
Assim acontece na Quinta-Feira Santa com a Procissão do Senhor Ecce Homo, popularmente designada por Procissão do Senhor da Cana Verde, a lembrar as palavras proferidas por Pôncio Pilatos aos Judeus: «Eis o homem», quando lhes mostrou Jesus Cristo coroado de espinhos, com uma cana verde nas mãos a servir-lhe de ceptro. Nesta procissão incorporam-se, obrigatoriamente, todos os irmãos da Irmandade da Misericórdia.
À frente, descalços e encapuçados, caminham os «farricocos», vestidos com túnicas negras até meio da perna (os «balandraus»), uma corda atada à cintura, outra a cingir-lhes a testa e a cabeça, sobre uma espécie de capuz com dois buracos para os olhos. Chamados, igualmente, «os homens dos fogaréus», transportam um cabo de madeira, altíssimo, na ponta do qual balança uma bacia de cobre contendo pinhas a arder em chama viva. São acompanhados por outros «farricocos» com cestas cheias de pinhas destinadas a alimentar os fogaréus.
Em tempos recuados competia aos «farricocos» a tarefa incómoda de «lançar as pulhas», ou seja, de divulgar ou caluniar publicamente os mais íntimos segredos de cada família, a coberto da escuridão e do disfarce, atingindo, indistintamente, quem calhava. Outras vezes, após a procissão, espalhavam-se pelas ruas, noite dentro, causando medo a quem com eles se cruzava. Havia também os «farricocos» que se limitavam a fazer soar as «matráculas», após o silenciamento dos sinos, na intenção de chamar os fiéis ao culto ou a lembrar-lhes a confissão e a penitência – tal como se faz ainda hoje em Braga e noutras localidades durante o dia de Quinta-Feira Santa.
Na sua origem pagã, estes homens tinham por missão anunciar às pessoas, pelas ruas, utilizando as «matráculas», a passagem dos condenados, relatando os crimes por eles cometidos. Posteriormente cristianizados, os «farricocos», associados depois ao relato das «pulhas», limitam-se, actualmente, a tocar as «matráculas», mantendo a tradição litúrgica, e a fazer parte dos cortejos processionais desta quadra.
Na cidade de Braga, destaca-se ainda, na Sexta-Feira Santa, a Procissão do Enterro do Senhor, instituída em Portugal desde os finais do século XV. Tocante manifestação de fé e recolhimento, nela seguem os irmãos da Misericórdia e de Santa Cruz, encapuçados, a arrastar compridas varas; os cónegos, levando na mão uma tocha acesa e envergando os respectivos mantos negros, com caudas de três metros (seguras por «caudatários», garotos que não conseguem impedir que parte do manto arraste pelo empedrado das ruas) e crianças, umas vestidas de anjos, (transportando símbolos alusivos à Paixão: cruzes, cálices, coroas de espinhos, lanças, cordeiros), outras representando figuras de santos, caso de Nossa Senhora das Dores com as sete espadas cravadas no peito. Nesta procissão as «matráculas» vão caladas e os fogaréus apagados, assentes no ombro dos «farricocos», sempre descalços e encapuçados. O impressionante silêncio que se verifica à passagem do cortejo contribui, decisivamente, para pôr em evidência este desfile humano, sentido e penitente, interrompido apenas, a espaços, por uma voz que se destaca a entoar, perante o recolhimento da multidão: «A el libitum lamentabile»;«Heu, heu, Domine,heu, Salvator Noster!».
A Procissão Teofórica – nome que provém de Teofania, designação antiga da Epifania dos cristãos – faz igualmente parte do ritual litúrgico bracarense desta quadra. Efectua-se na Sexta-Feira Santa no interior da Sé (e só ali), ao redor das naves, onde uma hóstia consagrada e a bíblia são metidas num caixão, levado aos ombros pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro, assinalando o final da Paixão de Jesus Cristo, cerimónia acompanhada por cânticos medievais. Neste cerimonial, os cónego vestem paramentos negros e cobrem a cabeça com os amictos, em sinal de luto. Trata-se de um pano rectangular de linho, com uma cruz no meio e fitas em duas pontas, que serve para cobrir também os ombros e o pescoço do sacerdote. O amicto começou a ser usado no século VIII, sobre a alva (vestimenta de pano branco), sendo utilizado em certas ocasiões para com ele o sacerdote cobrir a cabeça quando ia ou vinha do altar. Hoje, é a primeira veste sagrada e fica por baixo da alva. Significa a fé, base e fundamento das virtudes que devem guindar o sacerdote.
As procissões da Semana Santa foram introduzidas no arciprestado de Braga entre 1500 e 1510.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
(Com a situação da pandemia, ignoro as alterações aplicadas às celebrações que descrevo.)

Espaço de tempo considerado dos mais importantes de todo o ano litúrgico e que abrange, exactamente, os três últimos dias da Semana Maior: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado Santo. As celebrações eclesiásticas iniciam-se na Quinta-Feira Santa – também chamada Dia do Perdão, da Indulgência ou das Endoenças – com a Missa da Ceia do Senhor (à tarde ou à noite), onde se recordam os derradeiros instantes da vida de Cristo.
A última ceia com os apóstolos, considerada um dos principais momentos, assinala a instituição da Eucaristia, ou seja, a primeira e única missa celebrada por Jesus Cristo na presença dos discípulos, com o pedido de que a ministrassem e difundissem depois, em Sua memória, como lembrança da ceia conjunta.
«E Jesus tomou o pão e disse: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de Mim.” E tomou também o cálice dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança do Meu sangue; todas as vezes que beberdes dele, fazei-o em memória de Mim.”»
As comemorações litúrgicas prosseguem na Sexta-Feira Santa – dia do aniversário da morte de Cristo, em que não há missa – com a celebração da Paixão do Senhor (às três horas da tarde sempre que possível), que inclui três significativos momentos: a Liturgia da Palavra (ou Leitura da Paixão do Senhor) a Adoração da Cruz, o mais relevante dos três, que significa a redenção da humanidade operada por Cristo na Cruz, e a Comunhão.
O tríduo termina no Sábado Santo com a Vigília Pascal, efectuada à noite, e que finda sempre antes de romper a manhã. Neste dia também não se realiza missa, uma vez que ele se constitui como o «dia do silêncio», em que a Igreja permanece de luto, calada, junto ao túmulo do Senhor, após a longa noite de interrogatórios, sofrimento e morte de Cristo de Sexta-Feira Santa para Sábado Maior.
Tendo Jesus ressuscitado na noite de sábado para domingo, esta vigília é reconhecida como «a mãe de todas as santas vigílias, na qual a Igreja espera a Ressurreição de Cristo e a celebra nos sacramentos». Considera-se, pois, incorrecto dar ao sábado o nome de sábado de Aleluia. Repare-se que durante a Quaresma a Igreja deixa de pronunciar a palavra «aleluia», para só voltar a proferi-la a meio da Missa da Vigília Pascal, no momento da Glória – versículo que se reza ou canta após os salmos, que significa Glória ao Pai –, altura em que se faz ouvir o repicar dos sinos em todas as igrejas e em que no seu interior as campainhas soam transportadas, por vezes, pela mão das crianças do coro, em voltas rituais ao redor do espaço litúrgico.
O «aleluia» continuará a ouvir-se ainda, falado ou cantado de forma especial, isto é, de um modo particularmente exultante e festivo, durante o período que medeia a Ressurreição e o Pentecostes. Registe-se, por isso, o costume que tem lugar na Igreja Matriz de Idanha-a-Nova – e noutros pontos do País, para além da Beira Baixa –, de os rapazes dentro do templo, quando o sino toca as «aleluias», agitarem ramos no ar, utilizarem chocalhos e apitos e baterem com os pés e as mãos fazendo o maior barulho possível, associando-se assim à alegria da Ressurreição de Cristo.
As mulheres, por seu turno, ao som do adufe cantam as «alvíssaras» – cantares tradicionais festivos ou regionais, por vezes com quadras improvisadas, neste caso alusivas à Ressurreição. Forma-se depois um cortejo, com centenas de participantes, que percorre as ruas da vila, sempre no meio da mais alegre e contagiante barulheira de apitos e chocalhos, acompanhados pela banda filarmónica.
O ritual termina com a «apanha das amêndoas», arremessadas pelo padre, oferecidas em sinal festivo à população que se reúne no adro da igreja.
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas, Vol. III
Ed. Círculo de Leitores

(Ou o ciclo da água, para os mais pequenos)
– Pobre de mim
Morro de sede
Chora a flor no seu canteiro
Como tarda
Como tarda o jardineiro!
A nuvem
Lá no céu
Ouviu a flor chorar
E prometeu:
– Espera um pouco Flor
Aí vou eu
Para te ajudar!
E chamou:
– Vento, Vento!
Vem depressa
Que não tenho tempo
A Flor está a murchar!
E o vento
Que é o ar em movimento
E andava pelo espaço
A passear
Veio logo
Prontamente
A assobiar.
Aqueceu o sopro
Que não se vê
Mas que se sente
E num abraço
Rodeou a nuvem
Que esperava impaciente.
Depois
Foi só descer
Descer rapidamente.
– Obrigada, Chuva!
Agradece a flor
Agora, sim
Estou bem
Matei a sede!
– Então
Fico feliz
Diz-lhe a gotinha de água.
E acrescenta:
– Qualquer dia
Hei-de voltar
Voltar lá para cima.
– Sabes, Flor
Nunca sei bem
Se é lá
Ou cá o meu lugar
Passo a vida
De cá para lá
A viajar
Num vai e vem…
E a cintilar
Sobre as pétalas da flor
A gotinha de chuva repetiu:
– Sim, hei-de voltar
Levada pelo Sol
Para tornar a ser
Outra vez nuvem
Além, no céu azul!
Soledade Martinho Costa
(EXCERTO)
«A missa de domingo de Ramos – durante a qual se faz referência à Paixão e Morte de Jesus – foi chamada, em tempos, Missa Seca. Segundo uns, missa sem música (órgão e cânticos), na versão de outros, celebração em que não há comunhão (consagração do pão e do vinho).
Uma das tradições deste dia, das mais populares entre nós, consiste na «bênção dos ramos» ou dos «palmitos», prática comum a todos os povos católicos, relacionada com os vários aspectos das comemorações da quadra pascal.
Ao dar início à Semana Santa, neste domingo se recorda e reconstitui um dos episódios mais marcantes da vida de Jesus Cristo: a sua entrada messiânica em Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica, tendo sido recebido, conforme se lê no Evangelho, «com gritos de alegria e o maior entusiasmo da multidão», que buscou folhas de palmeira para com elas O aclamarem.
Atados, por vezes, com fitas de cores e compostos por folhas de palmeira, alecrim, oliveira, loureiro, rosmaninho e mimosas, os ramos, benzidos antes da missa (ou de véspera, na missa da tarde), guardam-se depois em casa durante todo o ano. Nas vilas e aldeias continuam a ser pendurados na cozinha ou à cabeceira da cama para «proteger dos maus ares». É também costume colocar-se o ramo na sala, na altura da visita pascal (o «compasso»), ao lado de uma imagem religiosa ou pendente de um crucifixo.
Na Beira Baixa leva-se à Igreja, juntamente com o ramo, um pão para ser benzido antes da missa, conferindo-lhe a crença popular «poderes divinos e profilácticos». Em diversas localidades eram os «mordomos» que ofereciam ao padre um «palmito», sempre maior e mais enfeitado do que os outros, que o pároco, por sua vez, oferecia, simbolicamente, depositando-o sobre o altar.
Outras vezes é colocado à porta ou no meio da igreja um enorme ramo de oliveira, enfeitado com fitas, flores e alecrim, que o padre benze na ocasião em que procede à bênção dos «palmitos».
Havia ainda o preceito de utilizar-se um ramo de oliveira, ornamentado apenas com um laço de seda, entregue ao pároco pelo sacristão ou pelas «mordomas». Após benzido o ramo era dividido em pequenos ramos e distribuído aos fiéis pelo padre, prosseguindo o ritual com os devotos a desfolharem, ao redor da igreja, um galho do ramo oferecido, rezando um pai-nosso e uma ave-maria por cada uma das suas folhinhas. Prática caída em desuso, continua, mesmo assim, a verificar-se em determinadas localidades.
O que sobrava deste ramo, o grande ramo de oliveira, o próprio ramo do padre e as palmas que enfeitavam a igreja eram guardadas nas sacristias até à quarta-feira de Cinzas do ano seguinte. Ainda hoje as palmas e os ramos que ficam nas igrejas são queimados neste dia, servindo as suas cinzas para impor o Sinal-da-Cruz na fronte dos fiéis que comparecem à Missa das Cinzas.»
Soledade Martinho Costa
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
Foto do livro: Jorge Barros

Rodou nos gonzos
O ranger antigo
A sentir na mão a faca apetecida
Com que rasgou o oiro do Outono
E a repelir silêncios reprimidos
Sorveu como da fonte a brisa à madrugada.
Deu passos ao acaso
Como um tonto
Passou as mãos pelos olhos
Não sonhava.
Então
Ergueu a fronte
Endireitou os ombros
E agradou-se dos cardos
Das urtigas
Das paredes de pedra
Do postigo
Da casa mutilada
Denegrida
E assobiou aos melros e aos pardais.
Depois
Transfigurou os traços do seu rosto
Experimentou a força dos seus braços
E a olhar os campos e os montes
Sorriu de manso à terra adormecida
A imaginar os pastos e os trigais.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Poemas do Sol e da Cal»
Ed. Editorial Presença
Foto: Luantes Luís Antunes

(Para os mais pequenos)
Pezinhos de lã
Chega a madrugada
E o galo cantor
Lá do seu poleiro
Cocoró-cocó!
Canta a alvorada.
― Salta lá, pastor
Da cama para fora
Vamos ao trabalho
Que já está na hora!
E enquanto o rebanho
Solta no redil
Um balido manso
O galo cantor
Canta sem descanso:
― Cocoró-cocó!
Que vagar o teu
Acaso não viste
Que o dia nasceu?
E pronto, lá vão
Pastor e rebanho
Mais o cão rafeiro
Por pedras e mato
Caminho do pasto
Passinho ligeiro.
Pezinhos de lã
A tarde pousou
Tremeluzem estrelas
No manto de anil.
Cucurica o galo
Baixo, no poleiro:
― Lá vem o rebanho
De volta ao redil
Já ouço o rafeiro
E a voz do pastor
Regressam a casa
A lida acabou.
E muito lampeiro
Ajeita a cabeça
Debaixo da asa:
― Por hoje me calo
Diz o senhor galo
A noite chegou!
Soledade Martinho Costa
Do livro «O Bico-de-Lacre»
Edições Vela Branca

Neste dia de versos e poetas
Quer se tenha ou não
Condão e jeito
A todos louvo.
Num verso ou num poema
Despe-se a alma
Por gosto e por direito.
Se a poesia é o pão
Que mata a nossa fome
A sede que se sente e nos consome
É dizer que a palavra é o sustento
É a frescura que veste o nosso corpo
E o espelho onde se lê o pensamento.
Ser poeta é procurar no sonho a perfeição
Olhar, com olhos de ver, a realidade
E transformá-la em denúncia, revelá-la
A bem da justiça e da verdade.
Ser poeta é desnudar-se no poema
É este modo de nascer assim
Sem se chegar a adivinhar porquê
É respirar e morrer neste segredo
Neste reduto perfeito ou imperfeito
Neste casulo que envolve a nossa mão.
É ser a voz dos outros
Dizer o que outros calam
É ser a arma, o fogo, a força da razão
Desafio, desejo, desabafo.
Por vezes berço, telha, tecto, casa
Saudade, mágoa, temor ou ilusão
Mas ter nos olhos o voo de uma asa
Que se desenha no azul do céu.
É ser o vento que sopra a nossa fala
O rio que leva no seu leito
O amor, um sorriso, a nostalgia, um beijo
A revolta, a renúncia ou um desejo.
Ser poeta
É saber as mil e uma coisas que nos fazem
Ter um caminho diferente em nossa estrada
É olhar bem no fundo das palavras
E torná-las com o brilho das estrelas
O fio de uma espada.
É respirar a certeza que sentimos
De voltar à vida se morremos
Ao escrever um poema ou um só verso.
Neste dilema discorde e controverso
Salva-nos a ilusão em que vivemos
Não sei se por virtude ou por defeito
De sermos os donos da palavra
Com a Primavera a florir em cada peito.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»
Ed. Sarrabal


Meu pai biológico, Lino António, que partiu com 24 anos, e meu pai Rafael (pai do coração), que veio tomar o seu lugar cinco anos depois.
EXCERTO
«(…) até aos 6 anos só ouvia falar do meu pai Lino António apenas por conversas, coisas que me eram contadas, e conhecia-o dos retratos. Achava-o bonito. E era. Agora tinha outro pai. Mas no meu entender de criança não era a mesma coisa. Aquele não era o meu verdadeiro pai. Mais tarde, aos poucos e poucos, fui compreendendo que este pai devia ter sido escolhido pelo outro. Só podia. Hoje tenho a certeza absoluta que a escolha foi sua. Escolheu o melhor para o substituir. O melhor dos pais – como ele decerto o teria sido, se tivesse vivido o tempo suficiente para me ver crescer. Mas a vida só lhe permitiu ficar comigo até eu perfazer apenas 1 ano de idade. Se pudesse escrever-lhe uma carta, dizia-lhe: «Não me lembro das tuas feições, do carinho das tuas mãos, da tua voz. Mas conheço-te, pai. Desde sempre. A mãe falava-me muito de ti. Sei muitas coisas a teu respeito. Da tua vida vivida durante tão pouco tempo, vinte e quatro anos. Conheço-te, ainda, pelas tuas fotografias. Uma delas, a que tenho na parede da sala. Eras um jovem muito bonito. O sorriso tão leve. que mal escondia a seriedade quase permanente do teu rosto, segundo diziam. Ao lado dessa foto está a da mãe noutra moldura. São as fotografias que trocaram com dedicatórias de amor quando ficaram noivos, lembras-te, pai? Sei que cantavas bem. Que tocavas viola. Que escrevias poemas. Que te interessavas por política e odiavas o Estado Novo. Herdei de ti muitas coisas. (…) Costumavam dizer que os meus olhos e o meu sorriso eram os teus. Pelo que me contavam, eu sei e sinto que o meu próprio carácter, o modo de olhar os outros e o mundo tem muito de ti. Tenho a certeza de que foste tu quem escolheu depois o meu outro pai. Aquele que, passados cinco anos, veio ocupar o teu lugar. Que acompanhou o meu crescimento: o pai Rafael. Sabes tão bem como eu que tu, se vivesses, não poderias dar-me mais amor do que o amor que ele me deu. Mais atenção. Mais mimo. Era ele quem, pelo Natal, punha os brinquedos no meu sapato. Era ele quem me comprava os livros que lhe pedia. Que leu com enlevo os primeiros e incipientes poemas que escrevi. Junto da mãe era ele o meu intercessor. Foi ele, até hoje, o avô adorado pelos teus netos e a quem adorava. A tua neta pôs ao seu primeiro filho o seu nome: Rafael. Quando o teu neto foi pai pela primeira vez, se tivesse sido um menino, teria sido Lino António – mas nasceu uma menina, a quem pôs o meu nome. Acredito que devam andar por aí, não sei onde, os dois juntos, os meus dois pais, porque devem ser grandes amigos. Os teus netos e bisnetos gostam de ti. Os teus bisnetos olham os vossos retratos e o teu bisneto Rafael, com 5 anos (hoje tem 22), perguntou-me: «Vó, é bom ter dois pais? É que eu só tenho um!» Respondi: «É melhor ter só um, meu querido. Mas se tivermos a sorte de ter dois pais, iguaizinhos, que nos dêem muito amor, então, Rafa, é capaz de ser melhor ter dois!»
Era assim que eu escrevia a carta.»
Soledade Martinho Costa
Do livro «Uma Estátua no Meu Coração»
Ed. Sarrabal

Hei-de voltar um dia
Ao Alentejo
Que de saudades
Eu não posso mais
Para sentir no rosto
O beijo quente
Do vento quando volta
Dos trigais.
Hei-de voltar um dia
Ao Alentejo
Ao canto das cigarras
Pelo Verão
Ao vulto dos pastores
Que se demoram
À procura da sombra
Pelo chão.
Hei-de voltar um dia
Eu sei que volto
Para rever os meus
E a minha casa
A minha terra amiga
Como brasa
Aonde a espiga
Se transforma em pão.
Alentejo da urze e das estevas
Dos safões, do poejo
Dos chaparros
Das ceifas, dos rebanhos
Dos montados
Do silêncio e do sol
Na cal pousados.
Meu Alentejo
De giestas e de sede
De cânticos dolentes
Ancestrais
Meu Alentejo
Meu país sem medo
Que de saudades
Eu não posso mais.
Soledade Martinho Costa
(Do livro «O Tempo (en)Cantado», incluído no CD «Contra a Corrente», com música de José Cid e interpretação de Jorge Goes)

Menino
Que mostra o luto
No rosto enxuto
Por sua mão
E pensa
Em seu juízo
No paraíso
Que não lhe dão.
Menino
Que esconde o medo
Atrás das estrelas
Do seu olhar
Dizer-te
Ai, quem pudera
Que hás-de ter tempo
Para sonhar.
Menino
Que se alimenta
No Sol das horas
Que o dia tem
Menino
De chocolate
Sem ter o colo
De sua mãe.
Menino
Que nos indica
Que a esperança fica
Para lá do fundo
E pensa
Em seu juízo
Que era preciso
Mudar o Mundo.
Menino
Que conta ao vento
O sofrimento
É meu irmão
Menino
Tecto de lata
Que a guerra mata
Sem ter razão.
Menino
Que esconde o medo
Atrás das estrelas
Do seu olhar
Dizer-te
Ai, quem pudera
Que hás-de ter tempo
Para sonhar.
Soledade Martinho Costa
Do livro «O Tempo (En)cantado»)
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