Domingo, 15 de Março de 2020

SÃO ROQUE - ADVOGADO CONTRA A PESTE

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(só para quem é crente)

Breve oração para pedir a intercessão de São Roque:

 

São Roque, peregrino na Europa, 

infectado, encarcerado, 

tu que curastes os corpos 

e levastes homens a Deus, 

intercede por nós 

e salva-nos das misérias

do corpo e da alma. 

Amém

 

publicado por sarrabal às 17:06
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Quinta-feira, 12 de Março de 2020

(IN)CONFIDÊNCIAS

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Responde: FRANCISCO MOITA FLORES

 

DESABAFO: Será que os meus bisnetos conseguirão ver o meu Sporting ganhar um campeonato nacional?

SUGESTÃO: Uma viagem pelo Alentejo e pela sua memória. O reencontro com Fernando Namora ou com Manuel da Fonseca, com a alvura das paredes e a tranquilidade das ruas. A redescoberta de Évora, de Estremoz, de Arraiolos, O olhar sobre Espanha com os olhos de Jeromenha, o peixe frito de Mértola, a caldeirada de barbos de Moura, o cabrito à pastora de Beja, o caldo de cação de Serpa, regado com as reservas da Vidigueira, de Borba e Portalegre, com passagem pelo Redondo. Depois, cantar em coro pelas ruas de Aljustrel ou nas tabernas de Pias e acabar em Barrancos, em sapateados e cantigas, quando as vozes já começam a mudar de cor.

DISPARATE: Todas as guerras.

ESCÂNDALO: Qual? Quais? Não conheço, logo não existem.

APLAUSO: O mandato de prestígio como Presidente da República que foi feito por Jorge Sampaio, a Expo’98, o Prémio Nobel da Literatura para Saramago.

EXPECTATIVA: Sempre aguardei que José Saramago escrevesse muito e falasse pouco. Quando escrevia aproximava-nos, quando falava, afastava-nos.

PREOCUPAÇÃO: Devia responder que estou preocupado com a paz e essas coisas. Mas neste momento a principal preocupação é terminar o livro que tenho agora em mãos. É um acto de paixão demasiado grande que me preocupa até à insónia.

EMOÇÃO: A audição do Requiem de Mozart no Carnegie Hall, em Nova Iorque.

AMOR: São Francisco d’Assis. Amo-te, meu irmão pássaro, minha irmã árvore, minha irmã mulher, minha irmã criança, minha irmã água.

SAUDADE: Sobretudo do futuro e das coisas não vividas e que mereciam ter sido vividas e dos meus tempos de menino a brincar ao pião e às escondidas no maior recreio do mundo — o pátio da minha escola cravado no meio do Alentejo com os montes ao longe a murar a ilusão do limite.

SONHO: De uma noite de Verão, representada no Barbican Theatre no sempre desejado retorno ao encontro mágico com Shakespeare.

MEDO: A emoção mais inteligente que sentem todos os homens corajosos.

INTIMIDADE: O encontro com o espelho depois de me levantar. Barba por fazer, cabelo desgrenhado, olhos inchados e o espelho a gozar: Eh pá, és feio p’ra caraças!

FIGURA PÚBLICA MAIS: O Bispo resignatário de Setúbal, D. Manuel Martins (falecido em 2017).

FIGURA PÚBLICA MENOS: As figurinhas medíocres e pequeninas da política, da arte, do espectáculo, que estão na moda tão relampejantes e efémeras quanto a própria moda.

CALENDÁRIO: Não tenho. Às vezes descubro espantado que é domingo, outras vezes fico surpreendido quando me apercebo que ontem foi domingo.

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA

Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 15:59
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(IN)CONFIDÊNCIAS

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Responde: MARIA EUGÉNIA NETO

 

DESABAFO: Camões, o mal-amado, o estouvado do seu tempo, criou uma figura simbólica – o Velho do Restelo – , plena de sabedoria, que continua actual, e nos deveria ajudar antes de darmos certos passos na vida.
Os Descobridores, portadores de uma filosofia hebraica – nós somos os escolhidos, o nosso Deus é o verdadeiro – , em nome desse Deus ultrajaram, precisamente, a obra do Criador. Por isso, pergunto-me como teriam evoluído os povos de outros continentes sem o contacto com essa gente que chegava? O que seria hoje o Continente, dito Americano, e o Africano, se as suas civilizações, as suas gentes, continuassem a avançar de per si ? O Mundo seria outro. Mais avançado? Mais atrasado? Uma coisa é certa, as gerações europeias presentes e futuras não carregariam na alma os fantasmas da escravatura e a destruição de civilizações e povos inteiros, da fauna e da flora.
É preciso não repetir os erros do passado, uma vez que não podemos corrigir o que foi feito. Todavia, aquilo que se faça, que não seja feito também de maneira paternalista, desculpando erros graves e até crimes, mas aceitando a diferença como uma realidade do nosso mundo, e ajudar, realmente, lá, onde o destino nos chamar a colaborar.

SUGESTÃO: Que pode sugerir, um simples mortal, neste mundo de hoje? Que fechem as fábricas de armamento? Que se dê prioridade, na educação, às crianças e aos jovens? Que todos tenham as mesmas oportunidades pelo seu valor e não pelo extracto social a que pertencem? Que a vida não seja uma competitividade desenfreada com vista apenas ao lucro, ficando pelo caminho muitos que, intimidados – ou por falta de padrinhos – acabam por não nos dar um contributo fantástico?

DISPARATE: Por exemplo: mostrar que o cigarro faz mal e continuar a fazer a sua propaganda na televisão, no cinema, etc.., Com spots de gente elegante ou como símbolo de liberdade na mulher ou machismo no homem.

ESCÂNDALO: Quando Agostinho Neto em 1956, esteve preso no Porto, com mais de cinquenta portugueses, o seu advogado, Dr. António Macedo, para o defender, invocou a figura de Jesus. Também Jesus não tinha falado nos interrogatórios, quer dos Romanos, quer dos judeus. Há muita semelhança nestas duas personagens. Os Fariseus, os Sandoussiens, etc., etc., pseudo defensores da Lei, juntaram-se para o perder. Hoje, Agostinho Neto está morto, mas existem «confrarias» de pseudo-homens de bem que tentam imputar-lhe os seus próprios crimes – crimes de diversa ordem. A História, porém, não os deixará impunes. Dirá quem foram. Reduziram Angola a pó. Agora, querem também aviltar o espírito e o nome de Agostinho Neto. Mas ele sairá vencedor de mais esta batalha e com ele o povo Angolano.

APLAUSO: O meu aplauso vai para aqueles que, desinteressadamente, ajudam os outros: os doentes de sida, os velhos, os solitários, as crianças. Hoje em dia é muito raro encontrar alguém que queira ajudar sem receber nada em troca. Aplaudo também os ecologistas, os homens de ciência, os antropólogos, os arqueólogos, os botânicos, os físicos, todos os que contribuem para se entender o nosso mundo e o universo na busca da harmonia e da verdade.

EXPECTATIVA: Há paz ou não há paz em Angola? Calam-se ou não se calam as armas? As gerações futuras terão ou não terão uma Pátria digna? Conseguir-se-á construir uma Pátria em que cada homem tenha voz igual, ou esta angústia será para sempre?

PREOCUPAÇÃO: Preocupo-me muito quando assisto ao espezinhamento dos valores que herdámos. Refiro-me aos que são válidos ainda hoje e que o serão sempre, enquanto a Humanidade existir. A solidariedade, por exemplo, são tão poucos aqueles que a praticam, que faz medo.

EMOÇÃO: Quando não podemos controlar a vida! Quando o organismo humano continua um mistério; quando pode bastar apenas um salto mais ousado de um electrão no mundo planetário do átomo para desencadear na célula, no tecido e no corpo humano, reacções e danos ainda não palpáveis à Ciência. Quando o milagre da Vida se afirma no crescimento de uma criança e se verifica que «na primeira semente estavam todas as árvores».

AMOR: O que o Homem não pode fazer quando é movido por este sentimento tão belo! Quantos políticos, quantos cientistas, quantos religiosos, tudo deram por amor sem pedir contrapartidas. Quando agimos por amor, mesmo o sofrimento e as dificuldades são vencidos. Sentimo-nos fortes como uma muralha.

SAUDADE: Tenho saudades da minha mãe, da minha avó… A minha avó é sempre a figura querida que surge no mais profundo de mim. Mas tenho outras saudades. Tão profundas, de que nem quero falar.

SONHO: É sempre o sonho que alimenta a vida. O sonho anda de mãos dadas com a esperança. É ele que faz as transformações sociais. É ele que nos leva a aprender a matéria. Foi ele que nos levou ao Cosmos. Sem sonho não há progresso. Já nos levou à desintegração do átomo e à engenharia genética…

MEDO: Medo das alturas. Medo das profundidades. Medo da morte. A morte é o fim?

INTIMIDADE: Em casa, procuro fazer parte do Cosmos para não me sentir tão sozinha.

FIGURA PÚBLICA MAIS: Agostinho Neto, por ter sido um político e ter sabido ser um homem verdadeiro. Ele será a fonte pura onde terão de beber as gerações futuras. Nem todas as «mezinhas» impedirão que tal não aconteça, tenho a certeza disso. A História mostrará toda a verdade e julgará a trama criminosa de que ele foi e está a ser vítima. Agostinho Neto amou com um amor extraordinário o seu povo e quem ama não mata. Não são precisos os diamantes das Lundas, para que ele — mesmo no seu mausoléu — continue a irradiar amor, inteligência e bondade.

FIGURA PÚBLICA MENOS: Hitler.

CALENDÁRIO: Tenho poemas inéditos e comecei um livrinho infanto/juvenil. Tudo sem calendário e dependendo das possibilidades da inspiração e das possibilidades da publicação. Espero recomeçar a estar activa.

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA
Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 15:49
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(IN)CONFIDÊNCIAS

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Responde: DANIEL SAMPAIO

 

DESABAFO: Esperar que este pequeno texto não seja salientado, na sua publicação, pelos seus aspectos de consumo mais imediato, género aquilo que eu gosto e não gosto às quintas-feiras… É que falta a reflexão na sociedade portuguesa e cada vez estamos mais atentos aos pequenos acontecimentos virtuais!

SUGESTÃO: No seguimento do desabafo anterior, sugiro aos nossos analistas mediáticos que se desloquem para junto dos problemas, antes de os comentarem apenas pelo que ouvem dizer.
Se falarem da escola, sentem-se algumas horas a falar com os miúdos e a ouvir o que eles têm para dizer; se falarem da violência urbana, é bom tentarem entrar nos subúrbios de Lisboa e Porto e verem para crer.

DISPARATE: Pensar que a Televisão é a responsável por tudo o que de mau acontece. É passar um atestado de incompetência à capacidade de visionamento dos portugueses, à sua possibilidade de «filtrar» o bom e o mau e ao seu espírito criativo. Quem somos nós para definir o que todos devem ver?

ESCÂNDALO: Falar-se da importância da família sem uma política de habitação. Como pode haver bem-estar se as pessoas não têm casa? Que interessa dar dispensa nos empregos para os pais irem à escola se a família vive numa barraca? A política justa para a família é a justa política para a habitação.

APLAUSO: Para o Ministério da Educação em proporcionar mais autonomia às escolas básicas e secundárias. Se a escola não tem autonomia para se auto-organizar, não pode progredir.

EXPECTATIVA: Face a um Prémio Nobel para outro português, para que Egas Moniz, Ramos Horta, Ximenes Bello e José Saramago não permaneçam exemplares únicos. António Damásio nas Ciências e António Lobo Antunes nas Letras são os meus próximos candidatos.

PREOCUPAÇÃO: Sem dúvida a droga. Crescem sinais evidentes do aumento do seu consumo e do fracasso das políticas tradicionais. É urgente despenalizar o consumo e fornecer substitutos químicos aos utilizadores crónicos. E atacar com força um outro problema: o uso recreativo das drogas. Acabou o tempo das flores no cabelo e das drogas como contestação da sociedade. Hoje os consumidores assim se tornaram porque se perderam no seu trajecto existencial ou porque se recriaram perigosamente com as novas drogas sintéticas.

EMOÇÃO: A música clássica: as sonatas para cravo e viola de gamba de Bach e a ópera Dido e Eneias, de Purcell.

AMOR: Sempre. O amor-paixão, o amor da amizade, o amor pais-filhos e vice-versa, o amor da coragem e do saber pensar.

SAUDADE: Permanente, do mar. Do mar da Praia Grande e do mar da ilha do Faial.

SONHO: Tornar a Faculdade de Medicina de Lisboa numa instituição livre, com produção científica de valor e a formar médicos (e não engenheiros da Medicina).

MEDO: Julgo que só tenho um, aliás pouco original: medo de morrer. O que significa, no limite, que adoro viver, mesmo depois dos cinquenta anos!

INTIMIDADE: O que gosto mais de fazer: ouvir música clássica, reler Faulkner, com a família e os gatos bem perto.

FIGURA PÚPLICA MAIS: Não tenho o culto das figuras públicas.

CALENDÁRIO: O Verão, o pôr-do-sol na Praia Grande, o calor, o tempo para estar sem pressas com as pessoas de quem gosto.

 

Coordenação:SOLEDADE MARTINHO COSTA
Foto: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 15:40
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(IN)CONFIDÊNCIAS

 

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Responde: MARIA DO CÉU GUERRA

 

DESABAFO: Que má é a crítica teatral em Portugal!

SUGESTÃO: Uma coisa que já foi feita noutros países. As pessoas disciplinarem-se e um dia na semana não ligarem a televisão. Um dia qualquer, em que não haja um programa que lhes seja particularmente estimulante. Há muitos dias em que os programas não prestam para nada. Num desses dias, desliguem a televisão. Experimentem viver sem ela.

DISPARATE: Aquilo em que se transformou a vida do futebol português. Com a aquiescência e o entusiasmo de toda a gente. Negócio de massas, em que se tornou o que era apenas mais um desporto interessantíssimo da vida desportiva portuguesa.

ESCÂNDALO: O mundo tomar por normal que se faça uma guerra humanitária – que é coisa extraordinária, fazer-se uma guerra humanitária - , que depois se auto denomina como cirúrgica, porque os aparelhos de detecção do que se deve atingir são infalíveis. À pala disso, vai-se matando a torto e a direito quem se quer, vai-se acertando sem critério aparente (mas quem sabe se há um critério?), e se vem ao microfone e à janela do mundo, que é a Televisão, dizer: houve um efeito colateral, afinal, acertámos num hospital ou houve um efeito colateral, afinal matámos uma caravana de pessoas. Tudo isto, a partir de uma suposta boa consciência que é: há um senhor que é mau, que está a fazer mal a pessoas muito boazinhas e a gente tem de reordenar as coisas e tirar a esse senhor mau as hipóteses de continuar a ser mau. Então, tiramos-lhes – ele está-se bem nas tintas para isso – e, ao mesmo tempo, a um povo inteiro, com direito a viver, a comunicar, a ter luz, a ter sossego. Porque há um tirano que em vez de ser deposto, de ser afastado, arrasta consigo a dèbâcle de um país. Para mim é um verdadeiro escândalo.

APLAUSO: Duas das coisas que me apeteceu aplaudir foram a minha querida amiga e colega Fernanda Montenegro, pelo maravilhoso papel na Central do Brasil, e a minha querida amiga Margarida Gil, pelo filme «O Anjo da Guarda».

EXPECTATIVA: Para um actor é sempre o espectáculo seguinte. O espectáculo do dia seguinte. O minuto seguinte em cena. Para nós, está muito ligada a isso. De qualquer maneira não queria tornar umbiguista esta resposta. Reduzi-la ao meu trabalho e à minha função de actriz. Tenho, tenho uma expectativa, mas no sentido negativo. Pode-se ter uma expectativa negativa, não pode? Positiva? Ora deixa ver… Só me passam pela cabeça coisas que me dão vontade de rir. Olha, depois digo. Por agora, ficamos na expectativa.

PREOCUPAÇÃO: É muita a preocupação e, ao mesmo tempo, muita a curiosidade. O que é que vai acontecer com estas experiências de colonagem e de bio-intervenções genéticas? O que é que vai dar como transformação no mundo e na vida das pessoas? Não quero dizer que seja uma coisa que me obriga a pensar nela todos os dias, mas quando se fala em preocupações, penso nisso.

EMOÇÃO: São os outros. É o mundo, as pessoas. É uma sala cheia de gente a gostar daquilo que nós acabámos de fazer ou estamos a fazer. São os filhos que pusemos cá, neste mundo, a crescer, a serem homens, a serem mulheres… É isso tudo.

AMOR: É um grande estímulo para a minha vida. Tem sido sempre um grande estímulo. É o lugar onde se deposita toda a nossa generosidade, ou muita da nossa generosidade, do nosso entusiasmo. É toda a vontade de dar um presente, de dar uma gargalhada, de estar bem. Para além disso, de amar, o amor como sentimento abstracto, não sei, nunca experimentei. Acho que o amor tem muito a ver com a vivência do amor. Para mim, é um lugar onde me deposito.

SAUDADE: É um estado de espírito difuso, vago. No meu caso, quase nunca objectivado. Nunca tenho o espírito da saudade de uma pessoa, de uma coisa, de um sítio. Mas lembro-me de estar com saudades como quem tem sede ou como quem está a passar um fim de tarde bonito ou muito dorido. É sempre muito impreciso, indefinível…

SONHO: Sonho que o que faço e o que sou seja bem entendido e bem recebido pelos outros. Não ser aplaudida, mas compreendida. Ao longo da minha vida, tive sempre o sentimento de que havia, relativamente a mim, muito mais aplauso do que entendimento. Quando era pequena, lembro-me de sonhar que morria e que só tinha duas ou três pessoas no meu enterro. Era horrível. Vivia em Cascais e quando morriam pessoas mais pobres e mais isoladas via passar o carro funerário para o cemitério da Guia, seguido, a pé, por dois ou três velhotes, de chapéu na mão, e uma ou duas mulheres de escuro, com lenço. E pensava: «Que horror!» E sonhava muitas vezes o pavor de um dia morrer e ter um funeral assim. Este sonho mau representa o pânico da solidão, do isolamento em que se vive. Está na base da minha necessidade de comunicar com os outros — necessito, absolutamente, dos outros. Mas esse pavor não pode ter como contrapartida o sonho da comunicação a qualquer preço. Sempre sonhei com uma comunicação que não me desfigurasse, que não obrigasse as pessoas a fazerem juízos apressados sobre mim. O que é complicado. As pessoas têm tendência para não perderem muito tempo com os juízos que fazem. E um actor corre mais riscos. A minha presença na vida faz-se através de personagens. Não me olhem pelo que eu não sou. Que a notoriedade não me desfigure ao ponto de não deixar rasto nenhum neste mundo. Aquela parte de nós próprios, do valor exacto daquilo que se está a propor. Essa coisa ao pé da pele, ao pé da verdade. É o grande sonho que sempre tive.

MEDO: Há muitas formas de ter medo. No imediato, aquele que me lembra é o medo físico. É assustador. Uma pessoa com medo físico, é uma coisa aterradora. Outra vertente é o medo paralizante, que pode ser psicológico ou social. Mais parecido com falta de coragem, que reconhecemos melhor nos outros do que em nós próprios. Por outro lado, há grandes afirmações de coragem que são grandes provas de medo. E não estou a falar do medo que faz heróis, mas de grandes agressividades que, por vezes são espelhos de grandes sustos, de grandes medos. Tem vertentes interessantes. O medo da morte, por exemplo, é o que nos faz criar, reproduzirmo-nos, sonhar… Sem esse medo, não havia gente, aspirações ou as aspirações eram pequeninas.

INTIMIDADE: Para um actor é uma fasquia muito pequena da sua vida. A fímbria de intimidade, e não estou a falar da casinha, da familiazinha, mas da intimidade maior, situa-se, quase sempre, entre uma frase que se diz em cena a um colega e o tempo da resposta. É quase a privacidade que nos resta em termos de intimidade. É um momento só nosso. Fica muito pouco na vida de um actor como reserva íntima. Mas acho que é interessante cultivá-la como uma flor de estufa…

FIGURA PÚBLICA MAIS: Jorge Sampaio. Seria injusto não o citar. Ainda não se tinha feito o exercício ético da Função política. E também Paula Rego. É uma figura de estarrecer em termos de qualidade como pintora. Consegue personificar a nossa maneira de sermos portugueses. Pinta no feminino, absolutamente. Representa os nossos mitos, os nossos sonhos, os nossos períodos complicados. Todo o imaginário feminino português está ali. Para mim é uma figura mítica.

FIGURA PÚBLICA MENOS: Não gostava há muito tempo tão pouco de uma figura política como de Cavaco Silva.

CALENDÁRIO: São as Estações do ano, coisa que só descobri quando comecei a ser adulta. Pouco a pouco, vamos percebendo que o tempo é rápido, subjectivo. Como a marcação da nossa caminhada é inexorável. Mas, para mim, que vivo na cidade, as árvores da cidade são as páginas do calendário.

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA
Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 15:26
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(IN)CONFIDÊNCIAS

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Responde: ISABEL SILVESTRE

 

DESABAFO: É a válvula de escape das nossas emoções mais profundas e das nossas mais angustiantes inquietações ou revoltas. O desabafo permite que, às vezes, revelemos a nós próprios sentimentos que desconhecíamos existirem portas adentro. Outras vezes, com o desabafo, soltamos e revelamos a outros estados de alma que não gostaríamos de mostrar.

SUGESTÃO: Todos nós, quase todos nós estamos disponíveis para dar sugestões. Gostamos de provocar ou fazer nascer no espírito de terceiros modos de agir que pensamos ser os mais próprios, ou no seu interesse, ou actuando menos linearmente, no nosso interesse, ou no interesse dos nossos.

DISPARATE: Cada um tem à sua conta um número maior ou menor de disparates, de despropósitos, de tolices, de desatinos, de extravagâncias sem razão. Porque acontecem? Será o que nos rodeia que nos força ou o tal «destino» que cada um deve cumprir? O disparate será um produto das nossas contradições? Há que relativizar a palavra, porque não há desacertos absolutos. Às vezes, no fundo do disparate, há algo que não é disparatado. Como na raiz de todos os acertos, nem sempre tudo nasceu acertado.

ESCÂNDALO: É algo que ofende, que causa indignação, origina melindres ou vergonha. Quantas vezes o progresso, o avanço da Humanidade, não começa com escândalos? Pode-se até dizer que certos escândalos geraram santidades. Há escândalos que, com o tempo, deixam de o ser. É tudo uma questão de tempo e de lugar. Na aldeia onde nasci, ainda hoje são «escandolas» comportamentos que, fora dela, são condutas normais.

APLAUSO: É o que resulta do acto ou efeito de aplaudir. Deveria ser sempre algo de consciente. O momento de grande verdade. Quem aplaude com leviandade um artista, um poeta ou um político, torna-se cúmplice de muitos erros, de muita involoção. Um aplauso exprime um sentimento de voto. Para quem os recebe, como artista, em palco, e sente neles autenticidade, vive momentos mágicos. Estabelece uma ligação, uma comunhão quase divina, com tudo o que o rodeia.

EXPECTATIVA: A esperança é a última coisa que deve morrer no coração do homem. E, sobretudo, da mulher, consabido que esta é mais resistente… A Igreja Católica deu-nos e consagrou, até, como modelo, a Nossa Senhora da Expectação! Uma grande parte do nosso ser e da nossa existência assenta na expectação. A esperança que não morre nos tidos como «desesperados» é que faz avançar o Mundo. Deixamos de ser gente quando perdemos a esperança.

PREOCUPAÇÃO: Sentimento triste, envolto em desassossego. Ninguém vive sem preocupações. Nunca podem estar ausentes de nós. A preocupação pode tomar conta, de forma angustiante e avassaladora, da nossa alma, se não confiarmos nas nossas capacidades e, pelo menos, um pouco na capacidade dos outros. Preocupar-se é ocupar-se duas vezes: antes e depois de se ocupar. Preocupo-me com aquilo de que me não quero ocupar.

EMOÇÃO: É um estado de alma de tonalidade afectiva intensa, mas não permanente. Pode comover-nos, abalar-nos, gerar enternecimento, pesar, até alegria na dor. O pôr-do-sol na minha terra. O afogamento do «Poço Negro» executado pela mini-hídrica, em Manhouce. Os cantares da Serra. O passado e as pedras da minha aldeia… Que emoções provocam! Como é bom vivê-las, mesmo contraditórias, capazes, até, de gerarem ódios…

AMOR: Sentimento grandioso que nos faz comunicar com a vida e com tudo o que desconhecemos para além dela. Paixão, afecto, inclinação… Há o amor possessivo. Há o amor que se dedica a outrem Há, até, o amor que devemos ter para connosco. Sem liberdade não há amor. Um Santo proclamou: «Ama e depois podes fazer tudo quanto quiseres». Para os que acreditam em Deus, Deus é amor. Importa recordar que não é verdade que o primeiro amor seja para sempre o grande amor da nossa vida…

SAUDADE: Palavra que costuma vir associada à ideia de Portugal. «Saudade gosto amargo de infelizes, doce pungir de acerbo espinho», disse o poeta. Sentimos saudade com a ausência ou desaparecimento de pessoas que amamos. Mas também com o afastamento de coisas, com estados de alma, ou até de acções. Quem não tem saudades de glórias passadas?

SONHO: «O sonho comanda a vida», diz-nos o poeta. O verdadeiro sonho, não é o que se manifesta durante o sono. É o que se tem com os olhos abertos. A mulher e o homem, no seu caminhar até Deus, já teriam desistido se não sonhassem. Partindo de o princípio que Deus quer que «só quando o homem sonha a obra nasce», o mundo sem sonho seria um descampado.

MEDO: Sentimento de inquietação perante um perigo real ou aparente. Às vezes, temos medo do que somos e do que podemos fazer de nós. Há que vencer todos os medos. Os medos que desde a origem do mundo transportamos. A angústia é a primeira percepção do nada que somos e valemos, do nada de onde viemos e do tudo onde estamos integrados.

INTIMIDADE: Há sempre algo de nós que só a nós pertence. Quem não for capaz de preservá-lo perde resistências, torna-se vulnerável. Não deixar devassar a alma não é não é manter distâncias para com os outros. É, por vezes, na altura própria, estar em condições de pôr essas «reservas» ao serviço de si próprio e dos outros. Nada mais doloroso que suportar os que não respeitam a nossa privacidade

FIGURA PÚBLICA MAIS: General Ramalho Eanes. As suas origens, a dignidade com que desempenhou as suas funções como Presidente da República, a sua identificação com o povo de onde emergiu, o papel que desenvolveu em momentos difíceis da vida do nosso país, fizeram com que tenhamos por ele especial consideração. Melhor que ninguém sabia expressar afecto e apreço pelos valores culturais autênticos, portugueses, manifestando por eles, sempre, a sua estima, como o fez na visita que realizou, como Chefe do Estado, à minha aldeia. Serviu Portugal. E serve-o hoje com discrição.

FIGURA PÚBLICA MENOS: Um autarca da nossa região que não soube nunca compreender o amor dos outros à sua terra e a forma como procuravam servi-la. As terras e as pessoas não valerão mais que os votos? Cada um, porém, como se diz na minha aldeia «é cum santo i u é» (é consoante é).

CALENDÁRIO: O tempo e o ser andam a par. Zero tempo é igual a zero ser. Calendarizar é criar condições para fazer nascer as coisas. Deixar algo «para as calendas gregas» é admitir que nunca se fará algo. O tempo tudo faz e tudo devora. Tudo é e deixa de ser, em função do tempo. Ou, como dizia Camilo: «O tempo chega sempre, mas às vezes não chega a tempo». Mas olhar o calendário faz-nos meditar. Existiremos para além do calendário? E se alcançarmos a eternidade, como vamos passar o tempo nela?

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA :
Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 14:47
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Quarta-feira, 11 de Março de 2020

(IN)CONFIDÊNCIAS

 

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Responde: JOÃO DE MELO

 

DESABAFO: A voz inclina-se sobre a atenção compassiva de quem ouve. Nunca digas nada que os outros não possam ou não devam dizer de ti. Alternativa: abre uma pequena cova na terra, murmura aos ouvidos da terra aquilo que só ela sabe ouvir.

SUGESTÃO: O caminho mais curto entre a hipótese e a vontade de ir e chegar seja onde for.

DISPARATE: Quando um político diz: «Não, não é verdade, eu nunca disse isso» – comete-o em duplo; ele mente acerca da mentira dita, disparata sobre um disparate por si cometido e assim sucessivamente.

ESCÂNDALO: Em certos casos e para certas pessoas, resulta de uma simples inversão entre os vícios privados e as públicas virtudes. Noutros casos e para outras pessoas, o escândalo é uma forma natural e até um modo de vida aparentemente honesto.

APLAUSO: Costuma ser o reconhecimento público de um mérito; se o reconhecimento é interesseiro, o aplauso torna-se letal como um veneno doce que, em vez de animar, leva consigo a alma do aplaudido.

EXPECTATIVA: Menos grave do que uma doença chamada ansiedade, por sua vez menor do que a doença da angústia – sendo esta a única expectativa de quem não sabe o que o espera, nem o que o desespera.

PREOCUPAÇÃO: Espécie de enxaqueca provocada por um estado de vigília, de vigia e algo que nos aflige.

EMOÇÃO: Imagem sobre alguém ou alguma coisa que idealizamos, como forma de sublimar a oposição entre o objecto do desejo e a realidade de que ele emana.

AMOR: Um arco que se eleva dentro de nós, um sistema de vasos comunicantes que provoca a ascensão dos nossos fluidos até ao olhar comovido por um rigoroso sentido da alma.

SAUDADE: Momento de pausa que serve para reconhecer a existência do tempo, para evocar o que nele deixámos suspenso, e depois vir de regresso a tudo o que no tempo não se repete.

SONHO: Pequena utopia que, ao contrário desta, não se destina a mudar o mundo dos outros, mas sobretudo o nosso.

MEDO: Nada é maior em nós do que a ideia e o facto da morte. Com fé ou sem esperança, a morte é a evidência suprema do homem. Mesmo o santo, porque crê, tem esse difuso mas absoluto medo dela. A fé não depende da inteligência, mas não passa de um acto inteligente que em si disfarça aquilo que nos confunde na morte. Ela é o fim, mas não a finalidade da vida.

INTIMIDADE: A parte carnal dos sentidos embalados no sentimento e no segredo do outro — do outro que faz parte de nós, daquilo que em nós e nele é eterno à medida de ambos.

FIGURA PÚBLICA MAIS: Há uma coragem específica e uma grandeza natural na pessoa pública de sentido positivo. As pessoas não sabem nem sequer imaginam o que essa coragem lhes exige.

FIGURA PÚBLICA MENOS: Pode ser definida exactamente como a anterior, com excepção da responsabilidade ética e moral que a tal coragem impõe. Sentido negativo da figura pública: pior do que a inutilidade, o senso ilegítimo, o desmerecimento, a injustiça que premeia a figura — sem que ela mesma saiba porquê, para quê.

CALENDÁRIO: Alguém pensou que o tempo, sem esta medida da sua própria fragmentação, seria um caos, uma desordem. O calendário prova não só que o tempo existe como prova que, sem uma ordem de medida, seria eterno, estranho e nunca possuído pelo homem.

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA
Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 00:13
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Sexta-feira, 6 de Março de 2020

(IN)CONFIDÊNCIAS

9 de janeiro de 2020 003.jpg

Responde: OLGA PRATS

 

DESABAFO: Pode ser um acto de desespero ou de puro egoísmo. Muitas vezes despejamos para cima das «vítimas» inocentes coisas que não conseguimos resolver ou vomitamos outras que não chegámos a digerir. Para um escorpião como eu, é um alívio que tem de ser resolvido rápido, senão pode-se transformar em algo de perigoso, que leva anos bem escondido cá no fundo e é expelido quando menos se espera. E nem sempre na altura certa!

SUGESTÃO: Gostaria de ter a sabedoria que observo tantas vezes nas pessoas que conseguem dar uma ordem mascarada de «sugestão». É uma palavra dúbia, que abre caminho para outros fazerem o que nós não sabemos ou não queremos arriscar. Tem o lado positivo de dar ideias a quem as não tem ou, pura e simplesmente, as mantém adormecidas.

DISPARATE: Basta ligar o televisor e ouvimos logo uma série deles. O pior, é que têm imagem! É uma palavra rica em diversificação de significado. Há os divertidos, os comprometidos, os sem graça, os com graça, os inteligentes, os positivos, os negativos e também os que são só disparates.

ESCÂNDALO: Não queria estar metida em nenhum. Envolve muita maledicência, falta de privacidade, invasão dos recantos íntimos das vidas de cada um. Para me tornar conhecida ou badalada, não, decididamente, não gostaria que me empurrassem para um escândalo

APLAUSO: Quantas vezes sou surpreendida em plena concentração, num sinal de difícil execução, pelo ruído dos aplausos. Pode e é muito agradável ser-se aplaudido, mas, às vezes, são extemporâneos. Capazes, até, de estragar uma boa «performance». O aplauso silencioso é dos mais agradáveis. O sentir a atenção respeitosa da assistência (se possível, quanto mais silenciosa melhor) é das coisas gratificantes que um artista aprecia e retribui partilhando o prazer e também o esforço que representa pisar um palco.

EXPECTATIVA: É linda a expectativa de uma grávida a imaginar como será a criança que se está a formar dentro dela! Expectativa hoje estragada pelas ecografias. Mas ainda há mães que, ao fazê-las, pedem que não lhes seja divulgado qual o sexo. Recordo-me da escolha prematura dos nomes: se for menina, se for rapaz…

PREOCUPAÇÃO: É delas (preocupações) que se formam e desenvolvem as depressões, que provocam a ingestão de medicamentos, muitas vezes, para quê? Conheço pessoas que as inventam para terem com o que se ocupar. É um sentimento muito inquietante, às vezes verdadeiro e até razoável, outro, perfeitamente inútil. À partida, não tem solução. Ou melhor, tem uma de que ninguém gosta: esperar.

EMOÇÃO: Confundo-a muito com a sensibilidade, que está sempre a ser estimulada pela minha profissão de músico. Há emoções fortíssimas ligadas à dor e à alegria, ao prazer e ao sofrimento, partilhadas, ou, simplesmente, vividas individualmente, mais introvertidas, mas não menos sentidas. Gosto de ser emotiva, digo-o sem vergonha nem pudor.

AMOR: Luís de Camões cantou-o, que mais posso acrescentar? Palavra tão cruelmente tratada! Conheço poucas que tanto pontapé e más interpretações tenham tido como esta e outras derivadas: amada, amante, amantizada, etc., etc.

SAUDADE: Palavra nossa, Portuguesa, sem tradução possível Acompanha-me sempre que saio do meu país. Persegue-me em sonhos. A maior parte das vezes não se refere a pessoas, mas a situações: o pôr-do-sol visto da minha varanda, a cor do mar no Outono, o riso dos meus netos, o som do meu piano, o conforto da minha cama. Ligada pela sua «repetição» ao fado, de que gosto quando a poesia serve a música e vice-versa, principalmente quando as duas são ainda melhoradas pela interpretação de quem o canta e cito: Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Vicente da Câmara. Com eles, a saudade liga bem com o fado, e o fado não é prejudicado pela sua velha versão das vielas e dos amores não correspondidos.

SONHO: Gosto do «Sonho de uma Noite de Verão», de Mendelssohn, e gosto muito dos sonhos quando são bem fofinhos, com pouca gordura e pouco açúcar. Sonhar é outra coisa. Com os olhos fechados é um tema que levaria horas a desenvolver, mas isso é para os especialistas. Com os olhos abertos gosto mais, mas a vida já me ensinou que sonhar pode ser perigoso se não se tem os pés bem assentes no chão. Hoje, porém, com tantos fenómenos estranhos a ocorrerem na Terra, o chão já não é firme para ninguém… Por isso, é melhor fazer só alguns projectos. Mesmo assim, a curto prazo.

MEDO: Quando sinto um arrepio frio na espinha, um zumbido nos ouvidos e uma sensação de vertigem… pode ser medo. A falta de segurança dentro da própria casa, na rua, nos transportes, pode provocar o que descrevi mais vezes do que seria para desejar. Existe ainda um outro tipo de medo: o de falhar. É humano, eu sei, mas não gosto e quanto mais envelheço, ou antes amadureço, mais receio tenho que me aconteçam percalços, que às vezes acontecem im- previsivelmente. Como professora, também tenho medo. Ensinar é terrivelmente importante e difícil. Está muitas vezes nas nossas palavras e até nos nossos actos e atitudes o destino de jovens que confiam em nós. É complicado ter-se o sentido da responsabilidade… Dá um medo!

INTIMIDADE: Se pudesse enfiava-me numa armadura, mas não de ferro! Preservo muito a minha intimidade e sou suficientemente pouco curiosa para respeitar a dos outros. Era incapaz de ter uma profissão que tivesse a ver com a vida privada de cada um. No entanto, não posso negar que desligue o telefone quando me vêm contar «fofocas», um brasileirismo muito em voga que descreve bem a palavra portuguesa «bisbilhotice»…

FIGURA PÚBLICA MAIS: Se for política, passa mais depressa de moda e de 1ª página, do que a figura pública de alguém que dedicou a sua vida a produzir uma obra que seja intemporal e que vingue através dos tempos. Para mim, são os génios que coexistem connosco e nos ajudam a acreditar que o que é realmente bom, alguma vez vai ser reconhecido. Infelizmente, muitas vezes só postumamente são consagrados.

FIGURA PÚBLICA MENOS: A meteórica, com êxitos fáceis, mas efémeros.

CALENDÁRIO: Desde que me lembro, tenho vivido dependente de um calendário: o mês dos meus anos — sempre mais um —, os dos anos dos meus filhos, dos netos, familiares e amigos; as Festas; Natal, Páscoa, de Família — cada vez mais comerciais e menos familiares —, as datas dolorosas, que sempre se repetem também, e algumas nem com o tempo se diluem, e o dia, o dia inexorável, das épocas das aulas, dos exames, das reuniões, das audições a que, no meu caso, ainda se juntam as dos concertos — que raramente são definitivas —, as das viagens, as das férias — que de ano para ano vão encurtando —, um nunca acabar de situações que fazem passar a grande velocidade as folhas do calendário.

 

Coordenação:SOLEDADE MARTINHO COSTA

Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 21:07
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(IN)CONFIDÊNCIAS

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Responde: RUY DE CARVALHO

 

DESABAFO: Tenho alguns desabafos. Não percebo porque é que os homens se digladiam, se matam, se destroem. Não sabem conversar, deixaram de dialogar. Os tempos evoluem, há muito mais possibilidades de saberem o que fazem. Interesso-me pelo bem-estar do meu semelhante e fico muito desiludido com a Humanidade. Quando se acusa, ainda, uma juventude que se droga, verificamos que a maioria procurou a felicidade. Se entrarem numa «droga boa», que é a Cultura, do tratamento espiritual, de ler, ir aos espectáculos, a palavra desabafo deixou de ter o sentido que lhe dou neste momento: o de um desabafo triste. Mas sou optimista. Tenho muita esperança.

SUGESTÃO: Peço ao povo português que cultive e fomente mais as coisas do espírito. A riqueza verdadeira de cada país, é aquilo que foi ficando da sua própria cultura. Sugiro também que o afecto seja uma realidade. Que toda a gente se saiba beijar com afecto. Há muita gente que nunca deu um beijo de amor. Há filhos que não dão beijos aos pais. Sugiro às pessoas que tratem, que reguem o jardim maravilhoso do afecto. Tudo se resolve com afecto, com simpatia, com um bom sorriso. É uma sugestão…

DISPARATE: No nosso país é um disparate a nossa Cultura não ser apoiada, desde a mais simples, artesanal, até à erudita. A arca do tesouro de cada país é a sua cultura. Um país que busca o sentido espiritual é, com certeza, muito rico no sentido material. É disparate não apoiar aquilo que vale a pena. E «tudo vale a pena, quando a alma não é pequena». Disparate é quando a alma começa a ser pequena e não apoia o que é grande, porque julga que é pequeno…

ESCÂNDALO: Nunca procurei o escândalo. Perdemos imenso tempo tendo coisas tão importantes no mundo para tratar. Escândalo é isso: tratar do que não interessa.

APLAUSO: Para o actor, o aplauso é fundamental. Tem a ver com a nossa vida. É a minha recompensa. Tenho sentido muito esse aplauso. Na cara, porque me têm beijado muito. Fiz o meu trabalho com modéstia, por amor. Diz o povo: «quem corre por gosto, não cansa». Canso, canso, mas com muito gosto!

EXPECTATIVA: Há qualquer coisa que se desenha no nosso futuro. Não gostava de me ir embora desta vida para a outra – onde tenho muitos amigos –, sem ver algumas das minhas expectativas realizadas. No final do século  podemos atingir os 120 anos! E estamos com reformas aos 65… Um homem e uma mulher, não podem reformar-se com essa idade. Que se reformem quando disserem «não posso mais», mesmo que seja aos 90! E há muita gente com 90 anos ainda útil.

PREOCUPAÇÃO: Uma preocupação em relação às pessoas idosas é o isolamento, a solidão, o suicídio. Tem algo a ver com  uma grande actriz que se chama Eunice Munõz. Ela que deu tudo na vida, não só ao Teatro como à família. É uma mulher de uma generosidade espantosa. Não é fácil. É uma pessoa muito exigente profissionalmente. E nós, em Portugal, estamos pouco habituados a uma disciplina de trabalho à procura da qualidade. Mas tem muitos amigos, a Eunice. Ela é que se calhar não sabe. Tem gente que a estima muito.

EMOÇÃO: Emociono-me bastante. Qualquer coisa, põe-me lágrimas nos olhos. Estou muito sensível. Quando vejo uma criança com fome, fico muito preocupado. E tento convencer o meu neto a não deixar a comida no prato. Há meninos que eram capazes de comer a espinha que ele deixa. Comiam-na! E ele deixa uma espinha cheia de peixe. Há milhões de pessoas neste Mundo que nada têm e que nós esquecemos todos os dias sem querer. Um colega de quem era muito amigo, o Curado Ribeiro, dizia-me poucos anos antes de partir: «sabes, emociono-me muito, choro muito, comovo-me muito. As coisas im- pressionam-me. A desumanidade, a frieza com que nos tratamos uns aos outros…» Mas também me emociono nos momentos felizes. Nesses, a lágrima vem, mas o sorriso fica na cara…

AMOR: Está no meu coração. Está em tudo em mim. Não quer dizer que às vezes não peque, e não faça juízos da minha falta de amor. Quando não sou capaz de dar dinheiro aos arrumadores de carros, por exemplo.  Se der, talvez esteja a ajudar a matá-los. O discurso do «coveiro» no Hamlet, ainda hoje se mantém. Aquelas perguntas que o «coveiro» faz à «caveira». Aquele pensamento é sublime. E uma ajuda amorosa aos homens. Sem o amor, não se vive.

SAUDADE: Sou um homem de saudades, mas não sou um saudosista. Tenho muitas saudades de muita gente, de muitas coisas. Dos meus pais. De todos os meus queridos que já partiram. Saudades de África. Das gentes de África. Dos cheiros. Dos sítios por onde andei. Saudades dos meus colegas — espero encontrar uma Companhia lá em cima, para fazermos depois o Teatro que gostamos. Quando sinto saudades de um amigo, de um familiar, trago-o à memória e mato saudades.

SONHO: É o que diz o nosso querido Gedeão: «sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança». Misturou o sonho com as coisas materiais e chamou-lhe «pedra filosofal». Devemos manter o sonho vivo e sonhar todos os dias. Até ao último momento. Principalmente, os sonhos que o acordar nos oferece, que são muitos.

MEDO: Quanto mais conhecemos a vida, mais medo temos. Às vezes não por nós, mas pelos outros. Há vários tipos de medo. O medo profissional, também tenho. É um medo por respeito às pessoas. Medo de falhar, de ser ridículo. Sobretudo, tenho sempre medo de prejudicar alguém. O nosso povo começa a ter medo de andar na rua, de sair à noite, ir ao teatro, ao cinema… temos de dominar o medo. Com medo que as coisas piorem.

INTIMIDADE: As pessoas não me privam da minha intimidade. Ando na rua sem perder a minha intimidade. Tenho «passe» para andar no Metro, no eléctrico, no autocarro… Sou um cidadão normalíssimo. Não fujo ao encontro com as pessoas. Vivo com os outros, preciso deles. Mas prezo muito a minha intimidade familiar.

FIGURA PÚBLICA MAIS: Gorbatchev. Tenho uma grande admiração por ele. Um verdadeiro democrata com ideias socialistas. Um homem que deu uma volta no mundo. Que pôs a palavra democracia no sentido certo que ela tem: o respeito pelos outros. Que deitou abaixo um muro que dividia os homens. Nas suas ideias, não há divisões de ideias, há comunhão de ideias. É o homem que me marcou.

FIGURA PÚBLICA MENOS: O Ayatollah Khomeyni. Um radicalista horroroso. Sou um homem religioso, sou cristão. Tenho muita honra nisso, sigo Cristo, sou um católico assim-assim, mas radicalismos religiosos, em nenhuma religião admito. Não se pode perseguir um escritor, só porque discorda de nós! Foi uma sombra no mundo e deixou as suas sombras. O seu espírito infernal ficou.

CALENDÁRIO: Agradeço todos os dias que vão passando. Espero que os futuros sejam melhores, sempre. Não sou um homem do passado. De efemérides. Se não fosse a minha família, não guardava nada de mim. Tempo? deixo passar, deixo passar…

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA

Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 20:32
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(IN)CONFIDÊNCIAS

Foto Raúl Cruz.jpg

Responde: EUNICE MUNÔZ

 

DESABAFO: Por vezes, traz-nos problemas. Tem de ter sempre uma direcção certa. Quando assim é, torna-se fundamental, porque quem desabafa liberta-se de um peso grande. Passa a ser comprometedor se for parar a ouvidos que não tenham por esse desabafo o respeito que ele merece.

SUGESTÃO: Todos nós temos tendência para dar sugestões. Pessoalmente, não as dou muito. Não faz parte da minha maneira de ser. Fico sempre um pouco intimidada. Quem sabe, até, por uma questão de vaidade. Se a minha sugestão não resultar, posso ficar numa situação difícil…

DISPARATE: Todos fazemos disparates na vida. Penso que ninguém se atreverá a dizer que nunca os fez. A maior parte das vezes, somos nós próprios que fabricamos os disparates. Podia encher uma folha com todos os meus disparates – e os dos outros.

ESCÂNDALO: Já Jesus falava no escândalo. São situações muito difíceis. Qualquer um de nós pode vir a estar metido num escândalo. Às vezes, nem sequer nos passa pela cabeça que determinada coisa possa tornar-se num escândalo. Tudo depende dos ouvidos que ouvem, dos preconceitos, da pouca humanidade que existe nas pessoas que o comentam e naquelas que, por vezes, o fabricam.

APLAUSO: Tenho de dar graças a Deus pela minha vida profissional ter sido sempre rodeada disso mesmo: de aplausos. Estreei-me muito pequena, com treze anos, no D. Maria. A partir dessa altura, tive logo a meu lado uma mulher extraordinária, que se chamava Amélia Rey Colaço. Que me protegeu sempre, que me deu sempre muita da sua ternura, do seu afecto. Que sempre me entusiasmou a fazer as coisas e que sempre me foi aplaudir, ao longo da minha carreira. Os aplausos dela são inesquecíveis para mim. Do público, sempre tive também essa ternura e essa estima através do aplauso. Lembro-me de uma história bonita. Quando fiz a Joana d’Arc, apercebi-me de que um homem – sempre o mesmo – descia pela coxia central, ia à beira do palco, e dizia os seus «bravos». Ao longo de muitos anos ele fez exactamente assim, e repetia sempre: «Bravo, Joana d’Arc, bravo!» Um dia, suponho que pela ordem natural das coisas, desapareceu, partiu. Eu tinha vinte e sete anos quando fiz a Joana d’Arc, e já então ele era um senhor de meia idade…

EXPECTATIVA: A partir de certa idade não se está em situação – nunca se está – de perder tempo. O tempo é precioso. Estou, pois, na expectativa…

PREOCUPAÇÃO: É aquilo que nos faz acordar de noite e a partir daí ter muita dificuldade em voltar a adormecer. Tenho muitas preocupações. Mas não dizem respeito ao meu trabalho. O meu trabalho é a forma de lutar contra elas. Quem tem, como eu, seis filhos, netos, fatalmente, tem de ter muitas preocupações. As minhas cingem-se à minha vida familiar. Aí, sim, são permanentes. Mas vou lutando contra elas. Sempre fui uma mulher forte e uma lutadora em relação a muitas coisas da minha vida. Entretanto, faço o que toda a gente faz: viver com as preocupações sem permitir que elas nos destruam completamente.

EMOÇÃO: É uma das coisas mais belas da vida. Deus deu-nos esse prazer imenso e não há palavras para Lhe agradecer essa dádiva. É das coisas grandes da vida. Das coisas boas da vida. É aquilo que fica depois de já ter passado muita coisa. São momentos da nossa vida e não são tantos assim. Mas são tão fortes, tão belos, tão extraordinários, tão únicos, que ficam em nós para sempre. E são as emoções que nos dão esses momentos inesquecíveis.

AMOR: É a grande palavra. É a chave do mundo. É indispensável na nossa existência. Todo o amor é fundamental. Sem o amor, como é que nós conseguíamos viver? E é tão difícil, tão triste, quando pensamos ou começamos a perceber que não nos têm tanto amor como gostaríamos. O que fará viver sem ele! Há pessoas – e temos de nos lembrar sempre disto – que não têm essas hipóteses. Pessoas que vivem rodeadas de muito pouco ou nenhum amor.

SAUDADE: É tudo aquilo que Camões diz, não é? É difícil definir o que é a saudade. É tão indefinível, tão especial… É portuguesa! Os poetas é que são capazes de a explicar. No que me diz respeito, não sou uma pessoa saudosa. Não vivo da saudade do que ficou para trás. Não faz parte da minha natureza. Nunca fico agarrada ao passado. Não quero dizer que ao longo da minha vida não tenham existido coisas muito belas. Existiram, graças a Deus! E é muito bom lembrá-las, recordá-las. Mas não acompanhadas desse sentimento. O passado é o passado, está lá, lá ficou. A saudade que me dói é feita de coisas diferentes. Da energia que tinha há vinte anos, por exemplo. Isso, sim, dessa energia, desse entusiasmo de ser capaz de suportar as coisas com outra segurança, com outra força, com essa outra coragem, disso sim, tenho saudades. Disso é que eu tenho saudades.

SONHO: Há sempre uma tendência para se dizer disto ou daquilo «é, realmente, um verdadeiro sonho!». Sonhar é bom. Eu gosto de sonhar. Mas sonho pouco. Sempre tive os pés bem agarrados à terra. Sempre fui uma criatura telúrica. Nunca sonho com coisas que não posso realizar. Não vale a pena. Os meus sonhos vão só até onde eu possa concretizá-los. Sempre deitei fora as coisas irrealizáveis.

MEDO: Seríamos diferentes se não tivéssemos medo. É o grande inimigo de todos nós. O maior de todos. Cria-nos problemas constantemente. É uma coisa terrível. Altera tudo em nós. Altera, até, a nossa própria personalidade. Assusta-nos. Ficamos diminuídos com o medo. Mesmo com aquele medo muito simples, o da timidez. Até aí, o medo, é sempre o nosso inimigo.

INTIMIDADE: É a minha casa, os meus objectos, as minhas velhas coisas, as minhas histórias, que cada uma delas tem. É a minha ligação com os meus filhos, com os homens da minha vida, alguns deles que me deram os meus filhos. É qualquer coisa de muito precioso para mim. É como uma pérola. Mas não ofereço a minha intimidade a muita gente. Sempre fui assim. Muito fechada. Tenho amigos, felizmente, mas são poucos, muito poucos. Aqueles que recebo na minha casa e a casa de quem vou, são muito poucos também. Tudo o que possa perturbar a minha intimidade, deixa-me nervosa. Com vontade de afastar determinadas pessoas, com as quais sei que não posso ter intimidade.

FIGURA PÚBLICA MAIS: Há pessoas que admiro muito. Uma delas é a Maria João Pires. Por tudo o que ela é. Pela generosidade extraordinária que tem para com o seu semelhante. A Maria João é comovente. Uma mãe extremosa. A sua grande inquietação são os seus filhos, os seus netos. É uma pessoa inesquecível. Tão caritativa, tão natural, que me deixa comovida. Não tem um gesto, uma palavra, que não sejam espontâneos. É incapaz de ter uma pose. Rendo-lhe toda a minha admiração.

FIGURA PÚBLICA MENOS: Não vou falar de ninguém em especial. Há figuras públicas menos, mas será que as razões porque elas o são estão todas certas? Com que direito falamos dessas pessoas por quem temos menos admiração ou menos respeito? O que conhecemos delas chegará para as colocarmos de lado? No fundo, sabemos tão pouco uns dos outros…

CALENDÁRIO: O meu deu-me uma bisneta, chama-se Sara. É um segundo bisneto. O primeiro, filho do meu neto mais velho, chama-se Lucas e é um amor. O meu calendário, aí está bem preenchido…

 

Coordenação: SOLEDADE MARTINHO COSTA

Fotografia: RAÚL CRUZ

(Publicado pela primeira vez na revista Notícias/Magazine do Diário de Notícias)

publicado por sarrabal às 19:58
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