Sábado, 12 de Abril de 2008

SEGREDOS - SAUDADES DO FUTURO

 
Às vezes sentia até acanhamento. Custava-me dizê-lo e só o confessava a quem me merecia total confiança. Há coisas que nem todas as pessoas entendem. Escusava-me a falar do assunto, não fossem ficar a pensar: «Esquisita» ou «Tem a mania». Preferia ficar calada.
 
Na verdade, algo de estranho se passava comigo. Desde há muito tempo. Pelo menos, desde o tempo considerado suficiente para “isto” acontecer a qualquer pessoa. Ou seja, a alguém com mais de quarenta ou cinquenta anos. Ou até menos. Mas “isto” tem um nome. Chama-se saudades.
 
Podem não acreditar, mas não conseguia ter saudades fosse do que fosse. Ao contrário dos outros, que têm saudades de tudo, eu não tinha saudades de nada. Aflitivo! As minhas amigas, por exemplo, vivem cheias de saudades e fartam-se de me dizer: «Lembras-te? Era tão engraçado. Foi tão bonito. Ai, que saudades quando eu tinha essa idade!» – geralmente, referem-se aos vinte e poucos anos – «E quando…E quando…Lembras-te?», repetem. São as saudades no feminino. Circunscritas à área da idade.
 
Lembrar, bom, lembrar eu lembro. Mas ficava impassível. Não alinhava. Ouvia, mas o meu coração não dava sinal. Limitava-me, obedientemente, a concordar. Numa preocupação solidária de amizade, porque, meu Deus, mal parecia! Mas por mais que fizesse, por mais que tentasse, saudades, nem vê-las. Nem sequer saudades da minha infância, que foi agradável. Nem da minha adolescência, que foi mais agradável ainda. Nem da minha juventude, que foi agradabilíssima. A minha falta de saudades chegava ao ponto de nem sequer sentir saudades da infância dos meus próprios filhos, imagine-se! De quando eram pequeninos ou suficientemente pequenos. Uma coisa atroz. Nem saudades também dos sítios onde vivi ou passei. Nem das casas, nem das coisas, nem dos outros. Nem de mim.
 
Por vezes, perguntava-me se “isto” seria natural. Digo perguntava-me porque já não pergunto. Finalmente, a resposta a este meu problema – sempre achei “isto” um problema – surgiu há uns anos atrás para descanso da minha consciência. Fiquei a saber pelo Rui Machado, (ex da Teresa Salgueiro), que, ao contrário daquilo que supunha, afinal, eu sempre sentia saudades. Por outras palavras: fiquei a saber que sou uma pessoa absolutamente normal.
 
«As suas saudades, Soledade, estão, simplesmente, viradas para o futuro. Estão projectadas para a frente e não para trás.» Disse-me ele. Fiquei banzada. Então, não é que é isso mesmo? Que o Rui acertou em cheio!?
 
E pus-me a pensar. Realmente, tudo aquilo que se passou até hoje na minha vida, está ainda tão perto, foi tudo tão ontem, está tudo tão vivo, é tudo tão nítido. Cada pormenor, cada gesto, cada palavra, cada sítio. Os nomes, os rostos, as vozes. Os acontecimentos, os sentimentos. Está tudo tão claro nos meus olhos e tão nítido nos meus ouvidos, como se todas as coisas tivessem acontecido neste preciso momento. Como posso eu sentir saudades do que não passou, não me dizem? De tudo aquilo que permanece vivo a meu lado, na minha frente?
 
Recordações, memórias, isso tenho, sim. São outra coisa. Ter recordações ou memórias não quer dizer sentir saudades. Recordo os meus pais, os meus familiares, os meus amigos que já não estão comigo. Recordo a infância dos meus filhos. A minha vida. As coisas que tive. Os locais que conheci. Mas saudades, como disse o Rui, as minhas saudades, essas, estão, efectivamente, viradas para o Futuro.
 
Para o tempo que não vivi ainda, nem vou viver, por me faltar o tempo. Para os muitos projectos, que já não vou poder realizar. Para os meus filhos, que amo, e que vou ser obrigada a deixar um dia. Para os meus bisnetos e trinetos, que não vou conhecer. Para as paisagens, que um dia vão deixar de maravilhar-me. Para os animais e as flores. Para o mar. Para a casa da aldeia e para as nogueiras que lhe fazem sombra, e que terei de abandonar. Para os meus afectos, que não esgotei. Para os outros, que nem sequer vão saber que existi. Essas, sim, são as saudades que sinto. As saudades por um amanhã que não me vai encontrar, porque as minhas saudades, não são saudades daquilo que tive, mas daquilo que não vou ter.
 
Tempos antes da minha descoberta, contei “isto” de não sentir saudades ao Dias Lourenço, pelo telefone. Tim-tim por tim-tim, confessei-lhe esta minha estranheza por não ser invadida por esse sentimento tão nosso, tão luso, tão obrigatório de se ter. Respondeu-me: «Interessante, curioso…», enquanto, coitado, me escutava.
 
Compreendi – pelo menos, pareceu-me – que ele, sim, tinha saudades do Passado. Apesar de tudo. Embora eu pense que, no caso dele, talvez fosse melhor sentir saudades do Futuro. Como eu.
 
Soledade Martinho Costa
 
   
 
P.S. Dias Lourenço passa, neste momento, pelo inimaginável desgosto de ter perdido uma filha. Mas não volte a falar-me em «rampa de lançamento», combinado?
Abraço afectuoso.
 
S.M.C.
publicado por sarrabal às 00:17
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

PROMESSA

  
Alimentar na chama
A luz do tempo
E repartir a lua e as estrelas
Mesmo a saber
Que o céu não nos pertence.
 
Nem a vida, sequer
Que sendo nossa
Se desvanece aos poucos
Nos devora.
 
Confiados, embora
Na promessa
De que talvez
Quem sabe
Em certa hora
Seja afinal
Do fim que se começa.
  
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 14:18
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

"O MEU MENINO É DE OIRO" - A LENDA DO VELHO BOSQUE

  
Era uma vez uma menina com olhos azuis e cabelos loiros, era bonita, tinha a face com sardas que pareciam pepitas de oiro. Tinha o nariz arrebitado e uns lábios tão vermelhos como o sangue. Era muito magrita e tinha umas mãos tão suaves que quando agarrava nas coisas, elas pareciam ter vida. Tinha umas pernas de modelo e era branquinha como a neve. Era querida, doce, ternurenta e ajudava sempre os outros. Os seus olhos eram alegres como uma festa em movimento.
 
Um dia a sua mãe abandonou-a num velho bosque onde as árvores, os arbustos e as ervas formavam um tom de verde nunca antes visto. Havia muitos eucaliptos e pinheiros; havia arbustos com bagas, como amoras e fambroesas; também havia flores, como tulipas, rosas, margaridas e girassóis. Tudo isto formava uma beleza incomparável e um perfume maravilhoso, uma mistura de celestial com um cheiro forte. No bosque havia uma ribeirinha com água transparente e cristalina. Os peixes que lá nadavam eram coloridos e animados, havia rochas reluzentes que brilhavam com o Sol.
 
Na noite em que a mãe da menina de olhos azuis, que era assim que se chamava porque não tinha nome, a deixou no bosque estava a chover e ela ainda tinha oito anos. Ficou abrigada no único carvalho que havia no bosque.
 
De manhã estava uma brisa matinal que despertava as flores com um toque musical. Mas mesmo assim, estava uma atmosfera triste porque a menina de olhos azuis estava a chorar. Os poucos veados, os coelhos e os rouxinóis tentavam animá-la com festinhas na face com sardas. A menina de olhos azuis animou-se e construiu uma casinha com madeira. Comia bagas, bebia água da ribeirinha e tinha a companhia dos animaizinhos. Vivia feliz e assim viveu durante dez anos.
 
Num dia de Sol, a menina de olhos azuis viu uma velha. Esfregou os olhos para ver melhor, mas a velha tinha desaparecido. A menina de olhos azuis foi ver o sítio e foi engolida pelo chão. Depois perdeu os sentidos.
 
Quando a menina de olhos azuis acordou estava num templo: uma sala espaçosa com grandes pinturas nas paredes de guerreiros e deuses. Os desenhos tinham cores fortes e havia um toque dourado que dava magia à sala. De repente a porta abriu-se e dois homens corpulentos com máscaras e pinturas na cara, atiraram a velha para a sala e depois fecharam a porta com estrondo. A menina de olhos azuis perguntou à velha:
- Quem é você?
- Isso agora não interessa, temos que sair daqui. Há um buraco ali ao canto. Vamos!
A menina de olhos azuis e a velha foram de cócoras e passaram pelo buraco. Mas a menina de olhos azuis tinha uma sensação esquisita, ela sabia que já conhecia aquela cara. Quando já iam a fugir, os dois homens apareceram e disseram:
- Vocês estão…
Mas quando olharam aqueles olhos azuis da cor do mar, eles começaram a prestar vassalagem à menina de olhos azuis e a velha disse:
- Ah! Já me esquecia que tu tinhas olhos azuis.
- O quê? Alguém me explica o que se está a passar?
- Não me reconheces?
- Mãe! – Gritou.
- Filha! – Gritou também.
Abraçaram-se carinhosamente e depois a mãe disse:
- Vamos para o templo e comemos algumas especiarias enquanto eu te conto o que aconteceu.
Entraram no templo e comeram ervas com chá e a mãe da menina de olhos azuis disse:
- Eu meti-te neste bosque porque não conseguia tratar-te bem. Quando eu fui embora eu fui sugada pelo chão e fui dar a este templo. Estes dois homens disseram que me iam condenar à morte se eu não lhes procurasse comida. Por isso é que me viste no bosque. Com os dez anos que foram passando eu aprendi a língua deles e as lendas. Havia uma lenda que um dia uma menina de olhos azuis os iam salvar da fome e tem graça que eles davam um nome igual ao que eu te queria dar! Evolet. Percebes agora, minha querida filha?
- Sim. Evolet…Que bonito nome!
A partir daí Evolet e a sua mãe viveram felizes no velho bosque e Evolet trazia sempre comida para os dois amigos do templo.
Isto é uma lenda: a lenda da menina dos olhos azuis.
 
Rafael, o escritor (9 anos) – texto não corrigido.
 
 
publicado por sarrabal às 00:36
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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

DULCE PONTES

 

Parabéns, Dulce, pelo dia de hoje - ficam estas rosas e um grande beijinho!

 

 

Soledade Martinho Costa 

 

publicado por sarrabal às 01:44
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

O LIVRO

          
(Com muito amor para o Rafa, a Teka e a Soli)
 
O livro
É a chave
Da caixa das surpresas
A magia
Feita do som
Ou do silêncio das palavras
O espelho
Onde se lê o Futuro
A estrada onde o Passado
Deixou a marca dos seus passos.
 
O livro
É um amigo
Um companheiro
O melhor professor
As mil e uma histórias
Do Saber
O herói aventureiro
Que se oferece
Para contigo viajar
Sonhar e aprender.
 
O livro
É um poeta e um poema
É um operário
Na construção de um verso
É um músico
No ritmo da rima.
 
O livro
É o tempo que foi
O tempo que passa
O tempo que vem
É um segredo
Um retrato
É brincadeira
E riso
E talvez
Uma lágrima também.
 
O livro
É um pintor
Que te mostra a paisagem
A cor do mar
Do céu
Das aves
É a saudade
A coragem
A emoção
A verdade ou a imaginação.
 
O livro
É a distância
Que separa
A escuridão da luz
É a sede
Que se transforma em fonte
A seiva
Que percorre a alma
O Sol
Que amadurece os frutos.
 
É a terra de semeio
Onde floresce o Amor
O Conhecimento
A Fé
A Esperança
O Entendimento.
 
O livro
É a mais bela flor
Nas mãos de uma criança.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
publicado por sarrabal às 21:34
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Domingo, 6 de Abril de 2008

COISAS DA TERESINHA - O BOLO DE ANIVERSÁRIO

  
Nesse ano a Teresinha fazia cinco anos. Dia de festa. Embora Agosto não seja um bom mês para uma menina fazer cinco anos. Porquê? Porque Agosto é o mês das férias grandes. As famílias vão para a praia, para o campo, para o estrangeiro…Sobram os que ficam em casa. Por motivos económicos, ou outros.
 
É sempre complicado fazer convites aos mais pequeninos para a festa de aniversário da Teresinha – e do irmão, que nasceu em Julho. A Teresinha já contava com isso. As suas melhores amigas não podiam estar presentes. Mesmo assim, entre primos já adolescentes e meia dúzia de crianças, a festa prometia ser de arromba. A mãe, principalmente a mãe, havia de providenciar para que o dia dos anos da Teresinha fosse um sucesso. E foi.
 
A sala estava enfeitada com montes de balões coloridos e a mesa provida daquelas coisas que as crianças gostam – mas nada de batatas fritas de pacote, de doces ou guloseimas com corantes, nem refrigerantes. A mãe da Teresinha sabe o que faz.
 
Ainda não tinha chegado a «hora da festa», isto é, da chegada dos convidados, quando a mãe da Teresinha disse: «Vou buscar o bolo da menina», encomendado de véspera. Logo a Teresinha se aprontou: «Eu também vou contigo, mãe, posso?». A mãe anuiu.
 
Chegadas à pastelaria, e enquanto não eram atendidas, viram logo no expositor o bolo de aniversário da Teresinha. «Olha, disse a mãe, aquele é o teu bolo». «É lindo!», foi a resposta da Teresinha. A mãe leu: «Parabéns, Teresinha», com letras caprichadas a chocolate. Daí em diante, aos empregados que passavam perto, a Teresinha oferecia, com um sorriso do tamanho do Mundo, o seu «Obrigada!» – ao qual os empregados, meio surpresos, respondiam: «Olá!», «Linda menina!», «Não tens de quê!».
 
Pago e recebido o bolo, saíram ambas da pastelaria. Foi quando a Teresinha, puxando o braço da mãe, perguntou: «Mãe, como é que eles sabiam que eu fazia anos hoje?» Está aí a razão do seu deslumbrado agradecimento!
 
O que a Teresinha não soube, foi o preço que a mãe pagou por um bolo de aniversário com cinco velinhas.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
publicado por sarrabal às 18:09
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RAIZ DE UM VERSO

Lisboa, Castelo de São Jorge.
   
Era uma vez
Um português
Ausente.
 
Uma saudade
A liberdade
Presente.
 
Era uma vez
Um português
Contente.
 
Uma verdade
Uma cidade
Diferente.
 
Era um País
Que a gente quis
Somente
Poder amar
Com um amor
Ardente.
 
Era um País
Virado ao mar
Dolente.
 
Aonde a dor
No chão se fez
Semente.
 
Era um país
Onde a raiz
De um verso
Tinha o refrão
De uma canção
Urgente.
 
Era um País
Que a gente quis
Somente
 
Poder amar
Assim.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
publicado por sarrabal às 17:30
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Sábado, 5 de Abril de 2008

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - A PRIMAVERA

  
De mansinho, como só ele sabe, o dia acorda a Primavera no azul da manhã. Mira-se ao espelho, no cristal das gotas do orvalho que a madrugada lhe deixou, e estende os olhos pelos campos sem fim. Verdes, tão verdes, assim, reflectidos no seu olhar de luz!
 
Mas como o dia tem de aproveitar o tempo, ei-lo a bater à porta das casas da aldeia, atento aos passos e às vozes; a saltar os muros de pedras sobrepostas, onde espreitam os tufos de conchelos e erva-moleirinha; a subir ao topo das serras, entre veredas de murta, verbenas e boninas; a descer ao areal da praia, por falésias e rochedos, para escutar os búzios, de corpo nacarado, e as ondas, que lhe contam segredos na sua voz de renda.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro “Histórias que a Primavera me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
 
publicado por sarrabal às 18:17
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

ABRE-LATAS - É AQUI QUE SE MORRE?

 
A minha amiga chama-se Maria Augusta. Nasceu e vive em Alverca do Ribatejo. O hospital que lhe calha em rifa é, por conseguinte, e para azar dela, o de Vila Franca de Xira.
 
O que vou relatar – e que gostaria de ter publicado aqui, ontem, dia 2 de Abril – passou-se há umas três semanas, sabendo eu do caso pela boca da própria, precisamente ontem. Por casualidade, tomei conhecimento da reportagem ou notícia (não li) também ontem publicada no “24 Horas” versando as “anomalias” verificadas no hospital de Vila Franca de Xira. Casualidade ainda o post de um outro blogue que nos conta um traumático episódio passado no mesmo hospital.
 
Voltando à minha amiga, sentiu-se mal: falta de ar, extremo cansaço, opressão no peito. O marido meteu-a no carro e ei-los a caminho do Hospital de Vila Franca de Xira. Chegaram às urgências às 16 horas e 30 minutos. Maria Augusta foi atendida por um médico, que apenas sabe chamar-se Luís e ser deficiente de uma das mãos. Ouviu-lhe as queixas e, mesmo ali, tirou-lhe o sangue e providenciou um electrocardiograma.
«A senhora traz acompanhante?», perguntou. «Sim, o meu marido», respondeu a custo a minha amiga. «Então, vá para a sala de espera». Foram as ordens secas do clínico.
 
Pois é. “Sala de Espera”. Nunca um nome assentou tão bem numa sala!
Maria Augusta e o marido viram o tempo passar. Eram 11 horas da noite e o marido dirigiu-se às Informações. O conselho que lhe deram foi que Maria Augusta «fosse entrando, para ver se descobria o médico que a tinha assistido». Seguindo o conselho, a minha amiga avançou, a sentir-se cada vez pior. Acercou-se de um médico que tinha feito paragem por ali, a conversar com uma colega, e perguntou pelo tal dr.Luís. Que não sabia, respondeu, mas que aguardasse até o colega aparecer. «O melhor é sentar-se um pouco», sugeriu. Maria Augusta sentou-se. Mas não aqueceu o lugar. O mesmo médico solicita: «Olhe, se não se importa, sente-se antes ali», e apontou, sabe-se lá porquê, outra cadeira. Mas também desta vez o médico achou que a minha amiga não estaria na cadeira certa: «Oiça, pode sentar-se antes aqui?», e nova cadeira foi apontada pelo médico. Maria Augusta lembrou-se do “jogo das cadeiras”, em versão diferente, mas lá voltou a mudar de lugar. Por esta altura, eis que avista o médico Luís. Daí à pergunta, foram uns passos (vacilantes, é certo): «Então, doutor, estou aqui há tantas horas, tão mal e sem saber de nada…», queixou-se. A resposta foi cortante, desabrida, arrogante: «A senhora não tem nada. Pode ir embora». A minha amiga ainda arriscou um tímido: «Mas, doutor…». De nada lhe serviu. A resposta veio, repetida, no mesmo tom.
 
A coisa não era bonita se ficasse por aqui. Mas ficou ainda mais feia. Quando uma outra médica se acercou e apontando com o polegar para a minha amiga, deixa sair este mimo: «Esta, é daquelas que anda nos consultórios particulares e quando não tem dinheiro vem ao hospital»!
Bom, só vos digo: ainda bem que a doente era a minha amiga. Olha se calha ser eu?!
 
Indignada, mas sem dizer palavra – não teve energia para tanto – a minha amiga acabou dentro do carro com o marido a ligar pelo telemóvel para o hospital Inglês. Era tarde, mas o médico cardiologista esperou que chegassem a Lisboa. Observada, novo electrocardiograma e o resultado foi «um complicado e grave problema de coração». Veio já medicada e com exames marcados, que fará de imediato.
 
Maria Augusta: ainda bem minha amiga, que tens possibilidades económicas para seres atendida em consultórios e hospitais particulares. Não é «quando te falta o dinheiro que recorres ao hospital de Vila Franca de Xira». A “outra” desconhece a tua conta bancária. Daí, que a impertinência não tenha passado de «um erro médico»! No entanto, deixo uma pergunta dirigida ao director do citado hospital: são mesmo médicos a exercer, aí, no hospital que dirige? Acredito que haja excepções no comportamento dos seus clínicos, mas a maioria deixa muito a desejar, sabia?
 
Costumo dizer que tudo na vida corria melhor se as pessoas fossem mais solidárias, simpáticas, competentes, humanas. Muito daquilo que se passa no nosso país, do que se critica, que nos confrange, atemoriza, revolta e indigna, nem sempre é culpa dos ministérios, dos ministros, do(s) governo(s). É, também, o espelho daquilo que somos. Em relação ao nosso semelhante. Ao nosso comportamento para com os outros. Será que os culpados, afinal, somos nós próprios? Não tenho dúvidas de que parte das nossas preocupações, enquanto sociedade, resulta dos ventos que semeamos.
 
Não sei se a história é recente, mas foi-me contada por pessoa credível. No badaladíssimo hospital de Vila Franca de Xira, encontrava-se, há horas, na sala de espera, um indivíduo de etnia cigana com um familiar doente. Não encontrou outra saída, coitado: às tantas, saca da pistola e ei-lo por ali dentro. Não me perguntem se foi atendido. Todos temos a certeza que sim.
 
P.S. Prezadíssima amiga Rosinha (presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira): há muito que não nos encontramos. Mas é triste ser “obrigada” a escrever este post.
 
Antes do tal hospital novo (?), porque não “reciclar” o velho? Mais exactamente, corrigir e melhorar o aspecto humano ou humanitário, a formação que deve presidir aos clínicos que nele trabalham com o dever de servir aqueles que dele necessitam, se não já com competência médica, pelo menos, com o respeito devido a qualquer pessoa que procure os serviços do hospital de Vila Franca de Xira?
                                                                 
Soledade Martinho Costa
                           
 
      
 
publicado por sarrabal às 18:11
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Terça-feira, 1 de Abril de 2008

CALENDÁRIO - ABRIL

 
           
Ensaia a asa
O grilo
Na lura onde se esconde.
 
No vento correm novas
De mel e de colheitas
Oferecem as giestas
A cor ao alecrim.
 
Há cravos que despertam
Rubor nos alegretes
 
À promessa dos frutos
Abril diz que sim.
   
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 00:03
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