Sábado, 18 de Agosto de 2007

BORDA-D'ÁGUA - ESPIGUEIROS

 
Soajo, Arcos de Valdevez, Alto Minho.
 
No campo, com a chegada do Verão, são muitas as tarefas a cumprir, que o trabalho não pára nunca.
 
É preciso regar, sachar, mondar. Proceder à cura das vinhas. Fazer as tranças às réstias das cebolas e dos alhos. Colher as favas, as ervilhas e os frutos maduros. Semear legumes: alfaces, rabanetes, couves, feijão… E flores: begónias, prímulas da China… E plantar outras: gladíolos, coroas-de-rei, sécias, zínias, crisântemos…
 
Depois há que preparar os celeiros e o terraço às eiras, que a seguir à ceifa é o tempo da seca e da debulha.
 
Mais para o fim do Verão, começar a vindima dos cachos brancos e tintos. E o varejo das avelãs, das amêndoas e das nozes.  Tantas tarefas, tantas, à espera do saber das mãos e da força dos braços!
 
E porque é altura de colher o milho – de sequeiro, que o de regadio será colhido um pouco mais tarde –, à noite, por essas aldeias fora, aqui e além, ainda se procede, às “desfolhadas”. Mais lá para o Minho, reúnem-se em grupos famílias, vizinhos e amigos. Só depois o milho irá dormir nos espigueiros
 
«Milho-Rei! Milho-Rei!», gritará, então, quem o achar. E a maçaroca de bagos vermelhos, a espreitar da camisa de palha, obrigará aquele que a encontrar a dar um abraço ou a depor um beijo na face dos companheiros. De acordo com o preceito e a tradição.  
 
 
Mas porque as chuvas de Verão, no campo, principalmente em Agosto, nem sempre são desejadas, é uso dizer-se: «Quem debulha em Agosto, já não debulha a seu gosto» …
 
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Verão me Contou”
(Ed. Publicações Europo-América)
 
 
publicado por sarrabal às 23:52
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DANIEL SAMPAIO

 
Semeiem-se as palavras
Quanto o trigo
E a seara amanhece
Faz-se pão.
 
Que venham as crianças
Como asas
Matar a fome
No oiro do seu grão.

Soledade Martinho Costa
 
Do livro "O Nome dos poemas"
publicado por sarrabal às 02:18
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MARIA EUGÉNIA NETO

Ser barco que navega

Em mar de esperança.
 
Na rota um só milagre:
O horizonte.
 
E ser azul no vento
Verde
Norte.
 
Sem mais temores
Que o medo da savana
Nem lágrimas no rosto
Como sorte.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro "O Nome dos Poemas"
 
 
 
 
publicado por sarrabal às 01:45
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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

TRADIÇÃO E FÉ

 

Ícone da Paixão, Igreja de Santo Afonso, Roma 
 
 
São muitas as vezes em que nos interrogamos sobre a razão das datas em que recaem feriados, principalmente nacionais. Aqui fica a explicação para o dia de hoje, 15 de Agosto, que celebra a Morte da Virgem Maria (ou a Assunção de Maria), a que se dá o nome de dormição. Embora não existindo registos históricos sobre a sua morte, desde os primeiros séculos utilizou-se a palavra dormição (dormitio). A partir do século VIII o termo foi substituído por Assunção. Maria terá ressuscitado e subido aos Céus por graça e privilégio concedidos à Mãe de Deus.
 
A Morte da Virgem Maria tem o nome de dormição, uma vez que o seu falecimento não é considerado uma ocorrência triste ou dolorosa. Desde a morte do Amado Filho, que ansiava o reencontro com Aquele que deu à Luz, a quem conduziu enquanto Menino e cuja Paixão, Calvário e Morte prematura lhe causaram a mais pungente dor e agonia. O sofrimento deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua dormição.
 
Depois da Ascensão de seu Filho, junta-se aos apóstolos no Cenáculo, enquanto continua a apontar-se como sua morada nos últimos anos de vida a cidade de Jerusalém. Como disseram São Bernardo e São Francisco de Sales, «estava doente de amor e de saudades». Dela escreveram os dois santos: «…morte que mesmo os anjos desejariam se fossem capazes de morrer».
 
O ano da sua morte terá sido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. A casa foi chamada a primeira Igreja de Santa Maria do Monte Sião. Hoje, numa parte da área que a basílica constantinopolitana ocupou, ergue-se a Igreja da Dormição, consagrada em 1910, que se avista de todos os pontos de Jerusalém. O local, rodeado de vários cemitérios (católico, grego, arménio e protestante anglicano), é escolhido pelos fiéis de todas as congregações cristãs, que buscam ali a sua última morada na Terra.
 
Todos ou grande número de fiéis, incluindo os apóstolos, acompanharam o corpo da Mãe de Deus até ao vale de Josafat, onde lhe foi preparada a sepultura (entre Jerusalém e o monte das Oliveiras, nome que quer dizer Juízo de Deus, e que a doutrina cristã diz ser o sítio em que «os mortos devem achar-se no dia do Juízo Final»), perto de Getsemani (aldeia na qual Jesus passou uma noite de agonia, antes da sua crucificação).
 
Ainda hoje se vê nesse lugar um arruinado frontispício de igreja ogival e uma grande escadaria que leva a uma escura caverna. Bem ao fundo, pode observar-se os restos de uma cripta e um nicho a proteger um banco de pedra alumiado por lâmpadas de cor. Corre um murmúrio de orações e nota-se um forte cheiro a incenso (símbolo da oração dos crentes). Segundo a tradição, ali repousou o corpo da Mãe de Deus.
 
Todavia, desde tempos remotíssimos, que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como Ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégios que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus. Ou seja, «que a Imaculada Sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assumpta em corpo e alma à Glória Celestial».


Soledade Martinho Costa

Do livro "Festas e Tradições Portuguesas", Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 02:05
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MEDITERRÂNICA

 
 
 
Terra arroteada ao calor das veias
Em ti se enrola
O corpo em sobressalto
Preso das ondas
Do vento
Da maresia
Do voo das gaivotas
Em manhãs de espuma.
 
Em ti se acoita
O medo
A lágrima
A agonia
No ventre abrupto e prenhe
Das escarpas e das dunas.
 
Em ti se fala
A língua
Dos vultos embuçados
Da névoa
Dos corais
Dos búzios
E dos limos.
 
Em ti se ausculta
A noite
A morte
E os segredos
Que estalam
Nos chicotes
Que zurzem os destinos.
 
Marco de bruma
Travo de sal
Que a vastidão da raia
Aponta
Descreve
Delimita
Ao canto das sereias
No embrião dos dias.
 
Terra sem nome
Suspensa dos rochedos
Aonde aportam
Insones os fantasmas
A clamar palavras impossíveis
Ante o perfil
Das altas penedias.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “15 Poemas do Sol e da Cal”
(Ed. Editorial presença)
 
publicado por sarrabal às 01:12
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LENÇÓIS DE MEDO

  
José Cid
 
Ai, minha formosa Inês
Ai, minha formosa dama
Que já D. Pedro aqui passou
Vindo dos longes da bruma
A dirigir os seus passos
Para junto dos vossos braços
Livre de tristeza alguma
Ai, minha formosa Inês
Que já D. Pedro aqui passou.
 
Rédeas seguras no pulso
A atalhar rios e matos
Vindo dos longes da bruma
Alheio dos seus temores
Livre de tristeza alguma
Ai, minha formosa Inês
Que já D. Pedro aqui passou.
 
Ai, minha formosa Inês
Urdida foi vossa sorte
Em caminhos de vinhedo
Vosso nome tão escondido
Vosso choro tão sentido
Lá fora o rosto da morte
O sono em lençóis de medo.
 
Ai, minha formosa dama
Minha senhora infeliz
El-rei não vos quis ouvir
Não escutou vossos lamentos
Deu-vos a vida tormentos
Que a própria vida não quis
Ai, minha formosa dama
Minha senhora infeliz.
 
Minha senhora infeliz
Ai, minha formosa Inês
Urdida foi vossa sorte
Lá fora o rosto da morte
O sono em lençóis de medo.

 
Letra: Soledade Martinho Costa 
Música e interpretação: José Cid
 
 
Para assinalar os 650 anos sobre o aniversário da morte de Inês de Castro ( 7 de Janeiro de 1355). 
 
" Inês de Castro ", Columbano Bordalo Pinheiro, Museu Grão Vasco, Viseu.
 
publicado por sarrabal às 01:10
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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

D. DUARTE PIO DE BRAGANÇA

 
Por claustros de fé
E de brasões
Lembrar tiaras
Tronos
Espadas
Reis.
 
Amar os nomes
Cujo sangue corre
Nas veias de quem veio
Em graça e bem
Encher de risos
O eco dos salões.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “O Nome dos Poemas”
  
publicado por sarrabal às 18:14
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CABANEIROS

" Colheita - Ceifeiras ", António Carvalho da Silva Porto, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto

 

Atrás do sonho vão

E perseguindo
O tempo açudado
Que lhes foge
Erguem nas mãos adustas
Um destino
Onde o futuro
Arredio
Não se acolhe.
 
Caminham pelo vento
E no silêncio
Que se faz à passagem
Dos seus passos
Assomam as palavras
Em pedaços
Como pedradas
Na voz do pensamento.
 
São a presença
Da urze e das estevas
Dos tarros
Do poejo
Dos chaparros
Da terra que soluça um fio de água
Das ceifas
Dos rebanhos
Dos montados
Do verde empoeirado dos sobreiros
De Florbela
Eterna nos seus versos
Do barro
Dos safões
Dos medronheiros
Da solidão e do sol
Na cal pousados.
 
E enquanto vão
E levam
Num só corpo
A demora de um sonho
Sem idade
Desenha-se em seus olhos
Cabaneiros
A silhueta hostil
Da cidade.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “15 Poemas do Sol e da Cal”
(Ed. Editorial Presença)
publicado por sarrabal às 02:19
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ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

 
 
 
A manter vivos
Os nomes
E a Casa
Ser o eco da infância.
 
À flor da pele
A ternura
Assumida e assinada.
 
Mas ser também
Vela de seda
Em mastro desfraldada
Num mar de rebeldia
E de coragem.
 
A inverter as regras
Ao recato
Imposto ao bom-nome
Das palavras.
 
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “O Nome dos Poemas”

 

 

publicado por sarrabal às 01:09
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RIO EMIGRADO

 

 

Sobre o líquen dos seixos

Patrício do rumorejo das alfarrobeiras

Um rio avança a solidão do nome.
 
Por entre o tojo
À transparência líquida do corpo
Sua pergunta corre:
 
Onde os olhos nas manhãs das minhas águas?
Onde as vozes nas margens do meu leito?
Respondei os mais não regressados
Quem rompe este silêncio?
 
E segue
Ao rés das rosas-albardeiras
Fantasma de mil segredos
Sem se saber lembrado
Longe
No coração dos homens.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “15 Poemas do Sol e da Cal”
(Ed. Editorial Presença)
 
publicado por sarrabal às 00:23
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