Terça-feira, 16 de Julho de 2019

ALVERCA DO RIBATEJO «CIDADE VERDE» - UM LARANJAL NO MEIO DA CIDADE

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Há já muitos anos, foram plantadas umas dezenas de laranjeiras de laranja amarga num dos passeios da Rua Joaquim Sabino Faria, em Alverca do Ribatejo. A ideia foi a de substituir as árvores ali existentes (de que não sei o nome) e que davam umas flores arroxeadas. Algumas dessas árvores ainda subsistem num passeio ou noutro. Se causavam problemas, era apenas devido à queda das flores, já murchas, que os varredores apanhavam. Com as laranjeiras os problemas duplicaram. Começamos pela flor: um tormento perfumado para quem sofre de renite alérgica, seguido de um manto florido que tudo cobre: rua, passeios e carros. Segue-se o nascer do fruto e o seu desenvolvimento, até que caia de podre e bolorento no empedrado do passeio, na berma da estrada ou em cima do capô de algum carro. São pisadas pelos nossos pés e pelos pneus dos carros, E a dificuldade que dá retirar da sola dos sapatos, sobretudo dos ténis, os restos das laranjas! Mas quem mais se queixa são os empregados da limpeza! Limpam e tornam a limpar, mas os passeios continuam sujos e o aspecto que dá esse desmazelo, essa sujidade, não abona em favor das entidades responsáveis. Uma vez que só é possível estacionar junto ao passeio das laranjeiras (o outro tem os pilaretes), os donos dos carros ficam de mãos atadas. O mais engraçado, é que depois de tudo isto, agora, que chegou o Verão, e com ele as altas temperaturas, e a sombra das laranjeiras se apresentava como a única das benesses por elas oferecidas a quem ali estaciona o seu veículo (os residentes dessa rua), não é que lhes cortaram as copas completamente?! Parece anedota, mas não é! Os carros, agora, são verdadeiros fornos quando se entra neles. Não poderiam ter podado as laranjeiras daqui por uns meses, quando o tempo estivesse mais fresco?! Quanto às laranjas propriamente ditas, tenho uma solução que me parece ser a única para acabar de vez com a estrumeira ao longo de todo o passeio da Sabino Faria. Quando as laranjas estiverem já formadas, cor de laranja, mas ainda esverdeadas, deviam ser colhidas. Em poucas horas, um ou dois homens, fariam o trabalho. Deixávamos de pisar laranjas ao longo de meses e meses e de ver o triste espectáculo de um passeio quase intransitável. As horas que se perdiam na tarefa de colher os frutos, seriam compensadas pelas horas ganhas pelas empregadas da limpeza das ruas. Sem laranjas podres e bolorentas, ficariam com mais tempo para se dedicarem a limpar o que vai ficando adiado em termos de higiene e que precisa da sua atenção. Mas não é apenas a apanha das laranjas que está em causa. É necessário limpar também, de vez em quando, as suas ramas, devido à sujidade que nelas se acumula e que se deposita depois no chão e, consequentemente, sobre os carros, a retirar todo o brilho às suas belas folhas verdes e perenes. Com a eficaz gerência (ou obrigação) da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (responsável por todos estes inconvenientes!) teríamos, isso sim, uma verdadeira Alverca do Ribatejo, «Cidade Verde», mas cuidada, limpa – a merecer o slogan com que a apelidaram.

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 21:03
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Sexta-feira, 12 de Julho de 2019

HOMEM DO MAR

 

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Homem do mar

Estátua de bruma

És rede e barco

Gaivota e marco

De terra e onda.

 

Pedra do sal

Do teu pescado

Corpo casado

Com remo e vento.

 

Rota, farol

Deus, fé e prece

Porque não esquece

Pão, medo e prole.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «Reduto»

publicado por sarrabal às 16:26
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Quinta-feira, 27 de Junho de 2019

SÃO PEDRO - PADROEIRO DE ALVERCA DO RIBATEJO

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As promessas que se fazem e se cumprem aos santos, resultam da fé, da devoção e do culto religioso que o povo presta aos oragos de um lugar, de uma aldeia, de uma vila ou de uma cidade – ou, tão-só, ao titular de uma igreja ou de uma capela.  

Anteriormente ao século VII, as catedrais, igrejas ou localidades não possuíam santos titulares ou padroeiros. Apenas as basílicas e igrejas que conservavam as relíquias de um santo mártir podiam adoptar o seu nome como santo padroeiro ou titular desses lugares sagrados.

A partir desse século quase todas as igrejas começam a organizar-se no sentido de elegerem os seus padroeiros, sendo escolhidos, em primeiro lugar, naturalmente, as figuras do Divino Salvador e da Virgem Maria, seguidas dos Santos Mártires.

Por altura da conquista da Espanha pelos Árabes, já todas as igrejas possuíam um santo padroeiro, a dar o seu nome ao templo e a servir de patrono às comunidades.

Em documentos da Idade Média, é usual o nome das localidades ser antecedido do nome do seu padroeiro, datando dessa época o processo da constituição das paróquias formadas em núcleos sociais, a assinalar a vida comunitária e religiosa das populações.

Reposto o culto cristão após a Reconquista, reatou-se esta tradição cristã (que nunca deixou de manter-se), a englobar capelas, igrejas, mosteiros e lugares, numa reafirmação da religiosidade popular.

Os novos colonos das comunidades, que tomaram para si as terras abandonadas pelos Mouros, no sentido de as povoar e cultivar, acabaram por ser eles próprios a contribuir para devolver às populações as práticas da devoção cristã, incluindo as do culto prestado aos seus santos padroeiros, procedendo à reconstrução ou edificação de capelas e igrejas, entretanto destruídas, de modo a que o povo pudesse praticar os preceitos religiosos da sua devoção em locais sagrados.

À frente dos templos, como responsáveis e orientadores pastorais dessas mesmas comunidades, eram colocados sacerdotes, por esse tempo a designarem os fiéis porfili eclesiae («fregueses»), designação que se estendia à localidade, dando-se-lhe o nome de  «freguesia» - a substituir a anterior denominação, «paróquia», actualmente recuperada, embora de certa forma circunscrita às actividades paroquiais (religiosas) de cada terra.

O processo de reorganização e formação das comunidades rurais, conquanto moroso (vai do século V ao século XI), é retomado a partir de então, agora com a igreja ou a capela sob a invocação dos santos a associar-se, em estreita união com as populações, no sentido de passar a celebrar-se em data fixa o dia dedicado ao orago, escolha a recair no seu dia litúrgico, estipulado pela Igreja Católica, ou em datas ligadas a acontecimentos importantes ocorridos no seio das comunidades e relacionados com a figura do santo.

Por outro lado, a origem das romarias deriva, supostamente, das peregrinações da era apostólica ao túmulo de Jesus, em Jerusalém, às quais se seguiram as peregrinações a Roma, capital da Igreja Católica, com grupos de peregrinos em cumprimento de promessas aos túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo.

Como alguém escreveu, «os crentes iam a Roma, romeavam, eram romeiros», diferindo das grandes peregrinações o facto de as romarias serem realizadas anualmente em caminhadas de menor percurso.

Às peregrinações a Roma e a outros santuários de invocação a Cristo ou à Virgem Maria, associaram-se depois as de veneração aos santos, acrescentando-lhe o povo a parte profana – a diversão –, ou, simplesmente, mantendo-a, vinda de épocas pré-cristãs.

Com o passar do tempo, em certas localidades, alguns dos antigos padroeiros acabaram por ter pouco significado, verificando-se, mesmo, a extinção da sua festa, quer por motivos da ruína dos templos e consequente desinteresse das populações, quer por terem sido ultrapassados, no decorrer dos anos, por uma devoção maior a outro santo.

Símbolo da fé do povo e sinónimo de protecção à comunidade paroquial – a delimitar, por vezes, o próprio território que lhe cabe, como guardião das terras e dos seus respectivos habitantes –, o santo padroeiro significa o amparo e o confidente, o protector, aquele que, por sua intercessão junto de Deus, tem a faculdade e a missão de defender e obter para quem a ele recorre, o louva e nele confia, as graças pedidas em oração e voto de promessa – particularmente, nas alturas mais precisas e difíceis da vida de cada um.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI

Ed. Círculo de Leitores

Tela: «São Pedro», Peter Paul Rubens

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Terça-feira, 25 de Junho de 2019

GAYS - O ETERNO DILEMA

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RESPOSTA A LUCAS VIRIATO (que não conheço) E À FRASE, DE SUA AUTORIA; QUE ACOMPANHA ESTA FOTO: «ISTO É PERFEITAMENTE NORMAL. SE ÉS CONTRA, JÁ SABES O QUE TU ÉS.»

 

Não tenho muito o hábito de partilhar – e muito menos este género de fotos. Hoje, mudei de opinião. Naturalmente, por ser quase impossível ficar indiferente perante estas quatro personagens. Do mural de onde a partilhei, cada comentário era uma pedrada, uma cuspidela para o chão, uma chacota hilariante. Não vejo a foto assim. Vejo antes, quatro pessoas sem norte, à deriva, numa situação quase insustentável. Mas não lhes gabo a atitude! Por detrás do muro invisível que os separa dos seus semelhantes, adivinha-se o cansaço, a tristeza, o isolamento, o sofrimento, a segregação que, hoje conquanto mais atenuada, continua a existir, a afligir, a maltratar, a agredir, por actos e palavras, aqueles que não são e nunca virão a ser pessoas consideradas normais. As outras, as ditas normais, continuam a não se aperceber da sua tentativa quase inumana de sobrevivência. É certo que estes grupos apelam à igualdade. À integração na sociedade. Como iguais. Por isso me espanto quando fazem o contrário! Quando se apresentam desta maneira, contrariando esse seu apelo. Quem vêem eles, assim, pelas ruas onde passeiam e exibem a sua rebuscada excentricidade?! Na sua condição de deficientes – porque o são, sem sombra de dúvida – não compreendo esta sua teima em combater, em rejeitar, em não aceitar a sua condição, que os tornaria em pessoas apostadas em defender a sua dignidade, em vez de optarem por um comportamento que os transforma em seres destituídos de qualquer senso. Deficiente não é só o invisual ou aquele a quem falta um braço ou uma perna. Deficiente é, também, aquele que não mostra a deficiência, embora ela esteja lá, mas não à vista – neste caso, a deficiência do sistema orgânico que afecta a maioria destes grupos. Ou seja, de uma maneira simplista, o excesso de hormonas femininas num homem ou de hormonas masculinas numa mulher. Todavia, tudo bate certo na sua incongruência! Se um homem dito normal tem tendência para se agradar de mulheres; se uma mulher dita normal tem tendência para se agradar de homens, então, é natural que um homem com excesso de hormonas femininas tenha tendência para se agradar de outro homem, ou uma mulher com excesso de hormonas masculinas de se agradar de outra mulher! Lamentável é que se defendam de um erro da natureza, provocando visualmente o próximo, como é o caso dos desfiles gays e desta e de outras fotos similares. Tive, durante muitos anos (até ao seu falecimento) um amigo gay. Vinha frequentemente a Alverca do Ribatejo tratar dos seus negócios. Vivia em Inglaterra e tinha livros de poesia publicados. Em certo ano, estivemos no Algarve, juntamente com o seu companheiro. Não falando dos muitos mais amigos gays que tenho e que se encontram ligados às artes, sobretudo à literatura e ao espectáculo. Não sou racista nem homofóbica! Lamento, isso sim, a vida por vezes complicada destas pessoas. Mesmo assim, não aceito este género de chamada de atenção para os seus problemas (difíceis de resolver). Considero semelhantes atitudes de pouca inteligência. Não será por este meio que receberão mais apoio ou mais aceitação. Não será com todo este exibicionismo gratuito que conseguirão alcançar aquilo que tanto desejam: a igualdade entre sexos. Liberdades, essa, já a têm – embora, continuando a pagar por ela um preço demasiado elevado.

 

Soledade Martinho Costa

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

CALENDÁRIO - MAIO

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Eu sou Maio, o mês das Mães
Mês das rosas, mês dos ninhos
E visto os trabalhos duros
Não me darem ralação
Sou eu quem atesta os vinhos
Apanha os linhos maduros
Limpa a vinha do pulgão.

Quinta-Feira de Ascensão
Apanho um ramo de «Espiga»
Enquanto de Norte a Sul
Volto aos tempos de pagão
Lembrando as «Maias» floridas
Com topázios de giesta
A cumprir praxes e cultos
Que a voz do povo lhe empresta.

Sou eu também quem retira
Das copas das cerejeiras
Até aqui resguardadas
Os abrigos que as protegem
Já sem medo das geadas.

Chego feliz, deslumbrado
Com o afecto profundo
Dos amigos que me esperam
Repartidos pelo mundo.

Por isso, no dia um
Mal aporto de viagem
Eis-me a ditar a mensagem
De Esperança e Fraternidade
Que trago aos trabalhadores.

Presto assim minha homenagem
Ao seu esforço, ao seu labor
À canseira do seu braço.

A todos com meu abraço
De Amor e de Comunhão
Faço ver que trabalhar
É sinónimo de pão.

E desde o homem do campo
Ao homem que anda no mar
Desde o operário ao poeta
Que escreve o que o povo canta
A todos rendo louvor
No grito que me agiganta.

Sou o Primeiro de Maio
Dia do Trabalhador!

E seja lá onde for
Com respeito e gratidão
Deito nas mãos calejadas
Mãos cansadas, mãos amigas
Rosas brancas desfolhadas
A perfumar-lhe as fadigas.

Entretanto, um após outro
Gasto os dias que me restam
Chego ao fim do meu mandato
E à hora da despedida.

Então, fiel, conformado
Cumpro à risca o meu contrato:
Digo adeus, vou de partida.

Quanto às palavras que deixo
Firmadas pelo meu punho
Só peço que as não olvidem.

E lá sigo em retirada
Ainda a tempo de ver
Pontual na chegada
Meu irmão o mês de Junho.

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 17:09
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2019

PASCOELA - ORIGENS E TRADIÇÕES

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Ocorre sete dias depois da Páscoa, correspondendo ao domingo seguinte ao domingo de Páscoa, também denominado Dia da Misericórdia de Deus, oitava da Páscoa ou Quasímodo. Estas duas últimas designações, embora ainda se usem, eram mais utilizadas antigamente, celebrando-se a oitava noutras liturgias importantes da Igreja, prática caída em desuso quando da reforma do calendário religioso após o Concílio do Vaticano II.

A Pascoela simboliza o prolongamento do próprio domingo de Páscoa, numa atitude festiva da Igreja e dos fiéis, podendo dizer-se que representa uma espécie de diminutivo da palavra Páscoa. Recorde-se que o baptismo dos primeiros Cristãos adultos ocorria durante a Vigília Pascal, ritual que continua a manter-se, sendo a quadra da Páscoa a preferida desde os primórdios da religião cristã para se efectuarem os baptismos dos catecúmenos. Daí, chamar-se também – conquanto não já oficialmente – ao domingo de Pascoela o domingo In Albis (domingo branco), devido ao facto dos catecúmenos utilizarem (como hoje) vestimentas brancas no acto do baptismo, celebrado depois, festivamente, por toda a semana que decorria desde o domingo de Páscoa ao domingo de Pascoela.

Nos dias actuais, à semelhança de outrora, os baptismos continuam a realizar-se por toda a semana que medeia estes dois domingos, embora, por tempos idos, apenas nesta época do ano a Igreja procedesse à imposição do baptismo. Hoje já assim não é, mas continua a verificar-se a preferência da quadra pascal para se efectuar o baptismo, sobretudo das crianças.

Na tradição popular, é durante a celebração da missa do Senhor no domingo de Pascoela – quando esta se realiza às três horas da tarde em ponto – que, «ao pedir-se uma graça, ela será atendida».

Soledade Martinho Costa

Do livro  «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III

Ed. Círculo de Leitores

Tela: «Baptismo de Santo Agostinho», Bento Coelho da Silveira, Igreja de São João Baptista, Alhandra (V.F. Xira)

publicado por sarrabal às 12:22
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Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

VIGÍLIA PASCAL - BÊNÇÃO DO LUME NOVO E DA ÁGUA

 

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Diz-se da solenidade religiosa que dá início à Vigília Pascal, quando a igreja, até aí mergulhada na escuridão, se enche progressivamente de luz, irradiada, primeiro, pela chama do círio pascal, e, depois, aos poucos, pela luz das velas dos fiéis, acesas entre si a partir da chama primeira.

A luz assim irradiada – ou, mais exactamente, a chama do círio pascal –, rompendo as trevas e inundando por completo o templo de claridade, simboliza Cristo Ressuscitado, constituindo um dos momentos principais da noite de Vigília de Sábado Maior.

A cerimónia tem lugar no final da tarde ou no começo da noite de Sábado Santo, à entrada da igreja, com o atear de algumas brasas colocadas num fogareiro. É nesta chama que o padre acende o círio pascal, abençoando, seguidamente, o «lume novo».
Com o círio aceso, o celebrante procede depois à bênção dos cinco grãos de incenso, que coloca, com a ajuda de cinco pequeninos pregos, no círio pascal, representando cada um deles as «cinco chagas de Cristo, cujo perfume se difundiu pelo Mundo». Em algumas paróquias, este significativo cerimonial deixou de realizar-se, embora noutras, continue a efectuar-se – caso de Fátima, onde sempre se cumpre.

Enquanto o padre benze os grãos, o acólito deita no turíbulo – vaso suspenso por correntes, destinado a queimar o incenso – dois carvões bentos, juntamente com incenso, e faz três aspersões de água benta sobre os grãos e sobre a chama do «lume novo».

Após a consumação deste ritual, o pároco e os acompanhantes seguem em cortejo até à capela-mor, fazendo no percurso três paragens, nas quais o celebrante pronuncia, em honra da luz, o Lúmen Christie (Luz de Cristo), sempre em crescendo, acabando quase em falsete, enquanto os fiéis respondem Deo Gratia (graças a Deus) a terminar a «bênção do lume novo» – cerimónia já conhecida no século IV –, e após algumas orações do missal, o pároco coloca o círio na coluna, ou peanha, que lhe está reservada, do lado esquerdo do altar, junto do Evangelho, para ser aceso em todas as cerimónias realizadas até ao Pentecostes. A partir dessa data será transferido para o baptistério, ali se mantendo até à Vigília Pascal do ano seguinte.

Outrora acendia-se o círio pascal ao longo do ano, para servir no acto baptismal. Era na sua chama que os pais das crianças acendiam a «vela do baptismo» ou seja, «o primeiro lume» – simbolizando a «chama da fé».

O grande círio pascal, devido ao seu volume e densidade, chega a durar vários anos. Além dos pregos de incenso, ostenta uma cruz (em alusão ao sofrimento de Cristo), a designação do ano em curso, a lembrar que «Jesus é o Senhor do tempo e da eternidade», e as letras do alfabeto grego A (alfa) e O (omega) – expressando o «princípio» e o «fim».

Tal como a luz, a água representa um dos principais elementos glorificados na noite da Vigília Pascal. A cerimónia da sua bênção efectua-se imediatamente após a «bênção do lume novo», sendo realizada com idêntica solenidade. Louva-se, assim, a importância da água desde o princípio do percurso bíblico, como factor basilar do baptismo e símbolo de purificação cristã. Ao «lavar do corpo e do espírito humano todo o pecado», com ela iniciam os crentes, a partir do acto baptismal, o «caminho da fé reforçada em Cristo e nos dogmas da Igreja Católica».

O rito da «bênção da água» decorre quando o celebrante, empunhando de novo o círio pascal, e seguido dos fiéis, se dirige à pia baptismal, repleta de água, que servirá, depois da bênção e durante o ano inteiro, à imposição do baptismo. Nesta ocasião, em certos lugares, é costume os fiéis encherem com ela pequenos recipientes que levam para casa. Com esta água enchem-se também as pias da água benta, onde se molha a ponta dos dedos para fazer o Sinal-da-Cruz, gesto que simboliza «a lembrança do baptismo», e que serve, segundo o povo, para «afugentar o demónio quando se entra nas igrejas».

Em tempos não muito recuados, na cerimónia da «bênção da água», o celebrante mergulhava nela a extremidade do círio pascal, retirava-a, voltava a mergulhá-la mais profundamente, retirava-a de novo, e tornava a mergulhá-la na pia baptismal até ao fundo, significando este ritual «a Morte e a Ressurreição de Cristo».

Depois disto, os fiéis eram aspergidos com a água já benta, enquanto o sacerdote terminava a bênção lançando em cruz, na água, o «santo óleo» ou «óleo sagrado» – azeite benzido pelo bispo na Quinta-Feira Santa –, espalhando-o sobre a água com a mão.

Enquanto decorre a Missa da Vigília Pascal, celebra-se também, embora hoje menos do que antigamente, o baptismo dos catecúmenos, que frequentaram a catequese e se instruíram e prepararam para receber o baptismo, cerimónia que nos remete aos primórdios do cristianismo, quando os baptismos começaram a ser efectuados na noite da Vigília Maior ou madrugada da Ressurreição.

Soledade Martinho Costa

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.III
Ed. Círculo de Leitores

publicado por sarrabal às 00:24
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Quarta-feira, 27 de Março de 2019

A HORA EXACTA

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Não gostava de morrer
Nos braços da madrugada
Antes de o Sol nascer
A debruar com um beijo
O nome desta cidade.

A morte devia chegar de noite
De preferência quando o silêncio é total
E há corpos que desistiram de sorver o ar
Quando há cansaços e lágrimas
No desamparo dos minutos
E uma espera infinda que acompanha
O desfiar dos dias.

Depois do florir das rosas
Quando as aves calaram o canto
E adormeceram sem nada esperarem
A não ser que a vida
Lhes conceda a trajectória
De outro voo
Seria a hora exacta de deixar
Que os meus olhos se fechassem também.

Sem palavras, sem um gesto
Apenas reclinada na minha sombra
A sonhar com um lugar distante
A pontuar aqui e além
No meu tear de afectos
Todos os nomes vindos da infância.

A esperança a incidir sobre o meu rosto
Como uma estrela verde
A segredar que sim, que não me engano
Que sigo ao encontro de quem espero
Sem ter pelo meio o vidro dos retratos.

E de mão dada com vultos que são anjos
Seguirei na rota desejada
A deixar para trás o que foi meu
Talvez com um pouco de saudade
Mas limpa de remorsos ou de culpas
Testemunhado na minúcia dos meus actos.

Soledade Martinho Costa

(Inédito)

Tela: Christian Chloe

publicado por sarrabal às 18:56
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2019

SEGREDOS

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Dobaram-se nos anos das marés
Sem outra condição
Outro provir
Que das areias
Das conchas
E dos limos
Serem a hora exacta
O sal onde se afogam
As palavras
Que a voz
Deu aos sentidos.

Os nomes e os sinos
Que se escutam
A percutir de frio
Nos ouvidos
São a tormenta
O poema que se afunda
Nos dias que se arrastam
Pelas sombras
A dar ao coração
Maior vazio.

São mistérios
São ritos
São cristais
São lágrimas
São esperas
Emoções
Ou espadas
No recato de seus gumes.

Temporais
Onde o mar
Busca nas ondas
Bruxedos 
Que os corais
Escondem na espuma
Roubados dos abismos
E das brumas
Que o Sol não atravessa
Com seus lumes.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Ed. Sarrabal/ Lunadil Lda

 

publicado por sarrabal às 16:01
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Domingo, 30 de Dezembro de 2018

ANO NOVO!

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PARA TODOS OS LEITORES DO «SARRABAL» VÃO OS VOTOS DE UM BOM NOVO ANO 2019!

SMC

publicado por sarrabal às 14:47
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