Sexta-feira, 10 de Setembro de 2021

LEMBRAR AFONSO PRAÇA - UM TRANSMONTANO EM LISBOA

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Foi Alice Gomes, minha querida e saudosa amiga, escritora e pedagoga, que me apresentou Afonso Praça. Baixo, gorducho, sereno, sorriso pronto, sotaque da província que o viu nascer: Trás-os-Montes, mais propriamente, em Felgar, Moncorvo. Dois beijinhos, «muito prazer», e foi assim que conheci o director do saudoso «O Jornal da Educação», onde Alice Gomes, na altura, era colaboradora. Depois, fomo-nos encontrando, aqui e ali, em diversos eventos: no Restaurante Brazuca (Bairro Alto), num jantar organizado pela Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, jantar onde Afonso Praça (sempre com modéstia) animou os convivas, a mostrar a sua erudição e os seus famosos dotes de contador de histórias. Entre diversos encontros, lembro um outro jantar no Hotel Tivoli, oferecido pelas Publicações Europa-América, a minha editora.

Recordo-me, particularmente, dessa noite. À saída, ficámos os dois à conversa no átrio do hotel. Para dizer a verdade, foi mais o Afonso Praça que ficou à conversa comigo. Acontece que eu tinha estreado nesse dia uns elegantes sapatos pretos de verniz. Salto altíssimo, como eu gosto (ou gostava), mas que, por terem sido calçados pela primeira vez, me causavam um mal-estar indescritível. Afonso Praça, ignorando o facto, falava, falava, falava, e eu, sinceramente, quase nem o ouvia. Estávamos de pé (não sei por que razão). Aguentei quanto pude. Até argumentar, como derradeiro recurso, que o meu carro havia chegado (o que não era, de todo, verdade). É feio mentir, eu sei, mas não achei outra solução, ante a ideia de confessar que não aguentava os sapatos. Sim, coisas de mulher. Foi a forma que encontrei para pôr fim à conversa – que noutra situação me teria deliciado. Nunca lhe contei esta mentira.

E fomos ficando amigos. Um dia disse-me: «Quando a Soledade quiser colaborar no «Jornal da Educação», é só dizer.» Fiquei a pensar no assunto. Tempos depois apresentei-lhe uma proposta: ir à procura de figuras públicas, de quem há muito nada se sabia. Nomes esquecidos por uns, ignorados por outros e, até, desconhecidos para grande parte do público. Que seria feito desses nomes, dessas pessoas? Continuariam na sua actividade ou tê-la-iam posto de parte? Que teriam para dizer-nos? Escritores, historiadores, músicos, cantores, nomes da Televisão e outras figuras públicas de há muito sem delas haver notícias? Afonso Praça achou o projecto interessante e a ideia avançou. Assim nasceu o ciclo «Nomes a Recordar».

Umas vezes a página inteira, outras com um pouco mais de espaço, entrevistei Noémia Setembro (escritora cujos livros li na infância e que possuo ainda); Alexandre Cabral (escritor que dedicou parte da sua actividade à investigação, sobretudo à obra e vida de Camilo Castelo Branco, considerado um dos nossos mais importantes camilianistas); a pintora Sarah Affonso (mulher de Almada Negreiros); a musicóloga Fracine Benoit; a escritora Eugénia Neto (viúva do presidente Agostinho Neto, de Angola); Margarida Macedo Silva (directora das bibliotecas da Madeira) e o escritor Adolfo Simões Muller, entre outros.

Visitava muitas vezes Afonso Praça na redacção do jornal, umas vezes para lhe entregar trabalho, outras apenas para conversar. Num desses encontros dei-lhe uma novidade: tinha descoberto que um dos seus filhos, o Tiago, era colega da minha filha Maria João. Concluídos os respectivos cursos, alguns jovens tinham alugado um velho palacete, para os lados de Belém. Com a renda paga por todos, dividiram o espaço e cada um dispunha de área suficiente para pôr em prática o que tinha aprendido. A minha filha trabalhava em restauro de madeiras (complemento do curso do ISLA, de guia interprete nacional, e de História de Arte). O Tiago em cerâmica, com peças muito interessantes criadas por ele. O resto do grupo dividia-se por diversas artes como a fotografia e os metais. Ao ter conhecimento desta ligação, Afonso Praça contou-me, então, que se deslocava muitas vezes ao atelier. Gabou o jeito do filho (com razão), mas nunca pensou que aquela Maria João, que conhecia bem, era minha filha. Salientou que tinha reparado no entusiasmo e empenhamento que dedicava ao restauro e recuperação de peças de mobiliário antigo, umas vindas do Palácio de Sintra (onde trabalhou durante meses no restauro da cama de D. Sebastião e noutras peças), outras pertencentes a particulares. O companheirismo entre os nossos filhos foi mais um elo a reforçar a nossa amizade.

Quando o «Jornal da Educação» acabou, começámos a ver-nos mais espaçadamente. Cada um de nós com o seu trabalho, o tempo foi passando. Até que aconteceu o inesperado. Ao assistir pela TV a uma entrevista a Afonso Praça, ouço, pela primeira vez, falar na sua doença, que vinha de há uns meses atrás: doença oncológica. Na sua maneira simples e directa revelou o seu estado como de uma coisa sem importância se tratasse. Com serenidade e com esperança. No dia seguinte estava eu a telefonar-lhe. A dizer-lhe do meu desconhecimento em relação à sua doença, embora sem demonstrar a minha preocupação. Trocámos mais umas palavras, a saber de nós, e logo a promessa cheia de esperança, tal como na véspera tinha ressaltado da entrevista a que assisti: «Amanhã vou fazer mais uns exames. Depois disso, telefono-lhe para nos encontrarmos e pôr a conversa em dia.» Não voltei a ligar, com receio de causar incómodo, mas esse dia nunca chegou. Pouco tempo passado, a triste (e esperada) notícia do seu falecimento.

Filho único, licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o primeiro presidente do Sindicato dos Jornalistas depois do 25 de Abril. Jornalista e escritor foi também  autor de programas televisivos: «Portugal de Faca e Garfo»; «Memórias de um Povo»; «Faz de Conta» «Quem conta um Conto», entre outros. Escreveu o «Novo Dicionário do Calão» e os dois belíssimos álbuns «Saberes e Sabores», de parceria com Maria de Lourdes Modesto. Foi ainda um dos fundadores de «O Jornal»; director do «Jornal Se7e»; do «Bisnau» (semanário humorístico) e redactor da revista «Visão».

Afonso Praça faleceu a 3 de Maio de 2001 aos 62 anos. Muito havia a esperar da sua actividade e do seu saber. E também do sabor das suas deliciosas conversas que a todos encantava. Ficaram as muitas ruas com o seu nome: em Cascais, no Estoril, em Oeiras,  em Algés, em Setúbal.

São estas simples palavras que deixo aqui para recordar um grande amigo, um companheiro, que amava as palavras, escritas ou faladas. Fica também a saudade nesta singela homenagem, a recordar um grande homem que sempre soube ser um homem simples – mas sábio.

 

Soledade Martinho Costa


Do livro «Crónicas de Porcelana»

Edições Sarrabal

 

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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2021

A JUVENTUDE E AS NOVAS TECNOLOGIAS

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Excerto copiado da página do meu amigo Dr. Fernando Carvalho Araújo.

Cláudia Benitez Fois

«O jornalista e acadêmico uruguaio Leonardo Haberkorn desistiu de continuar dando aulas na carreira de Comunicação na Universidade ORT de Montevidéu, por meio desta carta que comoveu o mundo da Educação:

 

′′ Depois de muitos anos, hoje dei aula na faculdade pela última vez. Cansei de lutar contra celulares, contra WhatsApp e Facebook. Eles me venceram. Eu desisto. Deitei a toalha fora. Cansei de falar de assuntos que me apaixonam perante rapazes que não conseguem descolar a vista de um telefone que não cessa de receber selfies.

′′ Claro, é verdade, nem todo mundo é assim. Mas eles são cada vez mais Até três ou quatro anos atrás, a exortação a deixar o telefone de lado por 90 minutos - mesmo que fosse só para não ser rude - ainda tinha algum efeito. (...)

E aí vê que esses garotos - que continuam a ter a inteligência, a simpatia e o aconchego de sempre - os enganaram, que a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a absorção não lhes nasceram sozinhos (...) O que eu faço, sempre gostei de fazer direito. O melhor possível. E não suporto desinteresse diante de cada pergunta que faço e responde-se com o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. ′′ Eles queriam que a aula terminasse.

Eu também ".

 

Comentário:

Não pude ficar indiferente perante este dramático desabafo. Mas é esta a nossa realidade. Uma triste realidade. Por vezes pergunto-me como desempenharão estes jovens, quando adultos, os seus cargos profissionais e familiares. Como pais, como mães. Responsáveis por uma casa de família, que irão criar, que tem de ser orientada, gerida, cuidada. Há excepções, é certo, mas a maioria procede como esta sentida carta de renúncia revela. Ainda se criticam os mais velhos quando dizem «no meu tempo...» Pois este é o tempo que vai ficar a demonstrar o comportamento desta geração. Mas não podem repetir a conhecida frase. Porque nada têm para assinalar. Nada para comparar. Sem cultura, sem interesse por coisa alguma, vulgares, todos iguais nos gostos e nas opções, que não os levam a qualquer parte. Faz falta uma disciplina que se imponha, em casa e na escola. O accionamento de regras que tenham de ser cumpridas, ditadas pelos pais e pelos professores. Não pudemos desistir desta juventude, quando ela desistiu de se elevar. Sentir a força dos adultos, a sua autoridade, alguma severidade e disciplina, nunca fez mal a ninguém. Tenho pena de tudo quanto perdem de maravilhoso, sem eles próprios darem por isso. A «intoxicação» das novas técnologias destruiu os nossos jovens. Acredito que nem sonhar sabem. A não ser com um novo modelo, o último grito de um telemóvel, ou com novas funcionalidades do whatsApp. A grande «máquina» está a roubar-nos os nossos filhos, os nossos netos, a nossa juventude. Agora já é assim. Como será depois?! Ainda bem que já cá não estarei para ver o resultado.

 

Soledade Martinho Costa

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REINÍCIO

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Tocar os teus cabelos

Os teus ombros

E deslizar

Tão lesta

E sabiamente

Por entre os dias todos

Que perfazem

Dos anos o avesso

No meu gesto

Que o tempo

Ao saber-te

Tão amado

Avance no passado

E o presente

Em vez de caminhar

Rumo ao futuro

Seja o trilho

De novo palmilhado

Agora do limite

Ao recomeço.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

Tela: Christian Schloe

 

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Domingo, 29 de Agosto de 2021

SEM TÍTULO

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De que servem os versos

Perante a força bruta?

De que servem os poemas

Quando o Inferno

Decidiu abrir as suas portas?

 

Voltou para trás o calendário

E o Futuro fugiu para parte incerta.

 

Não passou de um sonho cúmplice

O tempo percorrido.

 

Entre sombras e leis enlouquecidas

Os corações deixaram de bater

Mas continuam vivos

À flor da sorte.

 

O pesadelo

Apenas se encontrava adormecido.

 

Extinguiu-se a luz que abraça os corpos

Somente as orações insistem

Murmuradas sob os mantos

A regeitar a religião do mal

Os dogmas do senhor das trevas

A violação dos direitos humanos

O luto, a dor e a morte.

 

Há mães escondidas do olhar dos filhos

E filhos que julgam ter perdido as mães

E aquelas que por temor ao inimigo

Os entregam em mão alheia

Na esperança que advém do perigo.

 

Os céus adensam a penumbra

E cada vez é maior a escuridão

A impotência de calar a dor

Neste reino governado pelo terror

Onde as mulheres teimam em viver

Embora enterradas num caixão.

 

O mundo

Não tem armas contra o medo.

 

Correm sem destino os gritos

Que não acordam os ouvidos mudos

Pelas praças, ruas e vielas

Como o canto de pássaros aflitos

Em busca da liberdade proibida

 

Enquanto o resto do mundo

parece não escutar o pranto

que vem

da dignidade perdida e ofendida

refém

atrás dos vidros opacos que vestem as janelas.

 

Soledade Martinho Costa

(29/8/2021)

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Terça-feira, 10 de Agosto de 2021

DÁDIVA

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Foi como se dois lagos
Inundassem os teus olhos 
Num romper de descobertas
A revelar-se sem palavras
Que mal ainda entendes
Mas que o teu coração
Se reservou o direito de sentir.


Que transformaste depois em lava
A deslizar pela seda da tua face.


Estendi os braços
E apaguei-a com as minhas mãos 
Cada vez mais vazias de sorrisos e de afectos 
E mais cheias de ausências e cansaços
Num eterno desacerto
Das horas que nos devoram
Desde as águas do primeiro instante
Onde o sonho principia.


Onde a ilusão 
Num enredo de segredos 
É apenas a construção inicial
Do que nunca se dá por concluído.


Mistério que nos envolve
Que nos alimenta como seiva
Mas que não nos deixa criar raízes.


Antes nos aproxima
Em prazo estabelecido
Do último poema
No verso final.


Hoje um anjo ofereceu-me uma flor
O seu olhar
E as suas lágrimas.


Soledade Martinho Costa


Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 00:26
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Domingo, 8 de Agosto de 2021

CAENDÁRIO - AGOSTO

 

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Quer na praia, quer no monte

quer beba água da fonte

ou passeie à beira-mar

Cá por mim, chego esperançado

à espera do tempo bom:

o que quero é descansar.

 

De resto, pouco mais faço

e tudo o mais que fizer

hei-de fazê-lo por gosto

ou eu não me chame Agosto.

 

E porque gosto do povo

e da sua tradição

enfio o meu fato novo

e com adufe e farnel

subo às capelas dos santos

em peregrina oração.

 

A transbordar de alegria

vou à feira, à romaria

compro gado, cumpro votos

canto, danço, bebo, como

sou romeiro e sou devoto.

 

Mas a quebrar o lazer

destes dias prazenteiros

apanho amêndoas e nozes

espreito a lida nas colmeias

limpo o resto das searas

ponho na sombra os craveiros.

 

E continua o descanso

sem parar dias inteiros.

 

Meto os pés dentro dos rios

pesco trutas, salmonetes

passo tardes no pinhal

entre filas de formigas

a ouvir pelo transístor

o futebol e as cantigas.

 

Apanho pó, vento e Sol

e as bichas longas paradas

nas serpentinas das estradas

e as picadas dos mosquitos

e das melgas venenosas.

 

Subo ao alto das colinas

desço às grutas misteriosas.

 

Frente às pedras e ruínas

dos templos e fortalezas

fico atento e pensativo

a pensar como a beleza

se oferece no tempo ido.

 

E vou, sem fazer ruído

pelas salas dos castelos

a ouvir na voz dos guias

os feitos, as profecias

os milagres e os amores

dos reis e mais das rainhas.

 

Jogo ténis, vou à lota

nas tascas como sardinhas

caldeiradas, peixe frito

dou mergulhos nas piscinas

de água azul e poluída.

 

Levo os meninos à praia

ao baloiço e ao escorrega

e fico na esplanada

sentado, sem fazer nada.

Mas a morrer de desejos

ao ver a cor das santolas

no prato dos estrangeiros

enquanto eu como pevides

tremoços e caranguejos.

 

Ponho a saudade na voz

e nos olhos dos velhotes

a mirar à sua volta

mini saias e decotes.

 

Besunto a cara e o corpo

com o creme protector

fico a ver a maré-cheia

depois deito-me no turco

da toalha colorida

na sujidade da areia.

 

E já farto do ripanço

que nunca me deu descanso

volto estafado para casa.

 

Mas no dia da chegada

lá começo sem demora

a carregar trouxas e cestos

sacos, malas e malotes

escada acima, escada abaixo

quase de língua de fora.

 

No meio da barafunda

quase nem dou por Setembro

que ao ver-me nestes apuros

de bagagens e stress

me diz num tom de voz manso:

 

Ai, mano, que grande estafa

tu precisas é de férias

dou-te um ano de descanso!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Agosto – os 12 Irmãos»

 

Capa do pintor António Pimentel

( Assim viam os Antigos, figurativamente, o mês de Agosto)

 

DATAS

 

CALENDÁRIO RELIGIOSO – 15 - «Dormição de Nossa Senhora».

A morte da Virgem Maria terá ocorrido, supostamente, antes da dispersão dos apóstolos, situando a tradição antiga, quer escrita, quer arqueológica, o seu falecimento no monte Sião, na mesma casa em que Jesus celebrou os Mistérios da Eucaristia e onde se deu a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. O sofrimento da Virgem desde a morte de seu Amado Filho, deixara-lhe marcas profundíssimas. Teria cinquenta anos quando Cristo subiu aos Céus e pouco mais de sessenta quando ocorreu a sua morte (a que se dá o nome de Dormição). Desde tempos remotíssimos que a fé universal da Igreja afirma que a Virgem ressuscitou como seu Filho e como ele não permaneceu na Terra, erguida aos Céus à semelhança da graça e privilégio que lhe foram concedidos «antes do parto, no parto e depois do parto», como Mãe de Deus.

A definição dogmática da Assunção Corpórea de Maria ao Céu foi proclamada em 1950.

 

CALENDÁRIO DA NOSSA HISTÓRIA – 14 (1385) D. João I de Portugal e o Condestável D. Nuno Álvares Pereira ganham a Batalha de Aljubarrota, travada com o rei D. João I de Castela. A batalha tem lugar no campo de São Jorge, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre as localidades de Leiria e Alcobaça. Como agradecimento pela vitória, o rei vai a pé, em romagem, dar graças a Nossa Senhora da Oliveira, santa da sua devoção, à sua capela em Guimarães, depositando sobre o altar as armas e o loudel (veste militar usada durante as batalhas). Para celebrar o triunfo, manda o monarca erigir um sumptuoso mosteiro à Virgem, dando-lhe o nome de Nossa Senhora da Vitória (vulgarmente conhecido por Mosteiro da Batalha). Dele costumava sair uma procissão, com banda de música, que ia colocar no Padrão de Nossa Senhora da Vitória a lança e o pelote do rei. A procissão depois de percorrer as ruas voltava ao mesmo local e ali (onde se tinha levantado um altar) era celebrada uma missa de acção de graças, regressando em seguida ao Mosteiro. A função terminava com um responso pela alma de D. João I de Portugal e por todos quantos pereceram na Batalha. A construção do mosteiro começou em 1387, tendo sido nessa altura convidados alguns arquitectos estrangeiros. A obra acaba, todavia, por ser entregue ao arquitecto português Afonso Domingues. Consta que foi mandado erigir como cumprimento de promessa feita por D. João I à Virgem antes do confrontamento.

 

CALENDÁRIO DA HISTÓRIA UNIVERSAL – 6 (1945) Os Americanos lançam a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, no Japão, destruindo a cidade. Hiroshima, cidade industrial e importante porto militar e de armazenagem de abastecimentos, situada em Honshu, a principal ilha do Japão, encontrava-se em plena actividade. É considerado um dos episódios mais horrível e pungente da II Guerra Mundial.

 

EFEMÉRIDES – 2 (1929) Nasce em Aveiro Zeca Afonso, cantor e compositor, para sempre associado à música de intervenção. «Grândola Vila Morena», com música e letra de sua autoria, é considerado o Hino do 25 de Abril.

 

publicado por sarrabal às 21:08
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Quinta-feira, 5 de Agosto de 2021

REALIDADE

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Olho em redor

Mal desperta

O dia acordou mais cedo do que eu.

 

Pela cortina entreaberta da janela

Vejo o céu

Onde as nuvens galopam

Sem dimensão nem tempo.

 

Navego os olhos

Pelo branco das paredes

E paro a imaginar-me

Estrela-do-mar ou búzio

Quando os meus olhos se perdem

Nas imagens

Por detrás dos vidros

Onde alguém pintou esse prodígio.

 

E logo os pensamentos

Num tropel

Invadem o meu espaço

O meu refúgio

Como se fosse um mar em tempestade

A inundar de pranto o areal.

 

Visto-me então da força que resiste

Faço o retorno dos sonhos que são idos

E assim fico sem bússola, sem norte

Sem farol que me oriente os passos

A suster com o coração o temporal.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde»

 

Edições Sarrabal

publicado por sarrabal às 19:58
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2021

POEMA EM TAMANHO NATURAL

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Hoje
Vi um poema em tamanho natural
Numa rua da cidade.

Desta cidade
Que teima em ser jardim
E se corrói
Cansada de ruído
Entre ondas de tédio e desamor.

Estava estendido de bruços na calçada
Coração batendo contra as pedras
Dormia
Aconchegado ao frio de Dezembro
Às quatro horas da tarde poluída.

Era um poema pequeno
Um quase nada
Aí para os cinco anos de idade
A dar, por certo
Pelo nome de Luís ou de João.

Criança-flor
Murchando no vazio
De um quarto fechado
Sem janelas.

Criança-flor-poema
Composto em carne viva
Com hora marcada no destino
Desta cidade de Sol e de colinas.

Poema genial
Grito nas trevas
A acolher-se o pobre
Por inteiro
À vigilância triste dos poetas
Ante o olhar desatento e citadino.

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua» 

publicado por sarrabal às 23:53
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Sábado, 31 de Julho de 2021

TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

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Ninguém sabe onde te escondes

Ou aonde te demoras

Todos os lugares são teus

Dás nome a todas as coisas.

 

És o rumo dos caminhos

Entre o destino e a poeira

Mas sempre o ponto de encontro

Que busco à minha maneira.

 

Aqui estou à tua espera

Do lado de cá do muro

Sem passado, sem presente

À mercê do meu futuro.

 

Só tu levas o meu sono

Feito de gelo e fogueira

Quisera estalar os dedos

E esquecer-te sem que eu queira.

 

Dar a mão a outra mão

Mesmo que desconhecida

Dividir o que não tenho

Ser a parte de outra vida.

 

Penhorar o mar e a Terra

Vestir o olhar de Sol

Procurar nas madrugadas

Um poema, uma canção.

 

Encontrar uma razão

Feita de esperas e sonhos

E depois dizer que não

Ao desencontro das horas.

 

Voltar sem pressa outra vez

A percorrer o relógio

E ver-te todas as vezes

Nos quatro cantos do mundo.

 

Quando achar novas de ti

Quem tu és e porque tardas

Visto um hábito de monge

Ato o cordão à cintura

E solto as palavras todas

Caladas, à tua espera

Neste meu poço sem fundo.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um Piano ao Fim da Tarde» 



Tela: Christian Schloe 

 

publicado por sarrabal às 19:13
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Terça-feira, 27 de Julho de 2021

A ARTE DE SER AVÓ

118523734_3254976897923520_4152422778151441935_n.jEstes dois bonequinhos têm uma história. Quando os olho, vejo dois bebés que me vão acompanhar por toda a minha vida. Duas crianças que não cresceram porque não deixei. Representam os meus dois primeiros netos (hoje tenho seis). São os bonecos que lhes ofereci mal abriram os olhos para o mundo. O bonequinho para o Rafael, a bonequinha para a irmã, Maria Teresa, nascida dois anos depois. Ao vê-los, vejo duas crianças que continuam a dar-me a mão. A refugiarem-se no meu colo quando têm sono. A pedirem-me água quando têm sede. A ouvirem as minhas histórias. A apanharem, comigo, as conchinhas na areia da praia. Duas crianças que me enchem de perguntas, porque querem saber a razão das coisas. Que me oferecem desenhos com casinhas, árvores, andorinhas e o sol. A quem limpo as lágrimas quando dão um tombo ou fazem um arranhão. Que me chamam avó e correm para mim. Duas crianças que me dão pequeninas flores e beijos e abraços. Que não deixei que crescessem para continuarem assim, pequeninas, puras, ternas, a aprender, dia a dia, o significado das palavras: família, dedicação, respeito, amor. Vivem os dois dentro de uma caixa e dão-se muito bem. O bonequinho tem agora 22 anos, a bonequinha tem 20. De vez em quando vou visitá-los. Tiro a tampa da caixa e fico a vê-los. Não aos bonecos propriamente ditos. Mas às crianças que os dois representam e cujas mãozinhas os tocaram. Tão ao de leve, tão inconscientemente ainda, tão sem conhecimento, mas já com o movimento ousado de quem deseja alcançar o futuro – ou o brilho de todas as estrelas.


Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 00:53
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