Como o Inverno vai mal
Lá vem a cheia a subir
E há sombras que vão vincando
O rosto do maioral.
Cada ruga
Cada Inverno
Nem há tempo para dormir
Que o sono
É mau companheiro
Nas noites de temporal.
A jaqueta pendurada
No prego perto da porta
A sela arrumada ao canto
Gente firme
Que suporta
Uma tristeza sem espanto.
Como o Inverno vai mal
Como se alargou o Tejo.
De manhã
Olhando os campos
A lezíria é um lençol
Não há cavalos nem toiros
Só mar escondido do Sol.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua

Na cor do teu corpo vejo
milenária
a estrada violada
negada
palmo a palmo
interdita,
No brilho dos teus olhos
reflectida, a imagem
que amordaça as veias
na fronteira dos dias.
Na força das tuas mãos
o amor por desvendar
acolhido.
Embora ressalte
urgente
na escuridão
que se projecta
para além da tua pele
latente
o milagre sitiado.
A ameaça
constante, permanece
e o absurdo perpassa
a razão se repete
se repele
se rejeita
ausente.
Eu vejo.
Soledade Martinho Costa
Do livro A Palavra Nua
Nasceu na Arménia por volta do século III. Médico de profissão, a sua fama de santo espalhou-se, rapidamente, entre a comunidade cristã de Sebaste, da qual foi pastor por morte do antigo bispo. Por sua decisão, não aceitou o palácio episcopal, continuando a habitar a gruta que lhe servia de casa, no monte Argeu. Num trabalho constante em favor dos pobres e dos enfermos, apenas descia à cidade quando as obrigações humanas e o zelo pastoral o reclamavam.
Na altura da perseguição aos cristãos em 323, São Brás, conhecido pela sua extrema bondade, santidade e milagres, é preso pelo anticristão Agrícola, que governava a Capadócia e a Arménia, e obrigado a adorar os deuses pagãos. Negou-se São Brás. Foi açoitado, posto no acúleo (cavalete de tortura), submetido aos «garfos» com puas de ferro e lançado a um lago de água gelada, sendo, por fim, degolado.
O corpo, recolhido pelos cristãos, terá sido colocado numa pequena igreja em Sebaste. Mais tarde, as suas relíquias foram trasladadas para a actual basílica, cuja localização recebeu o nome de Monte São Brás. É considerado o protector contra as doenças de garganta porque, segundo as actas da sua vida, salvou da morte um menino em cuja garganta se alojara uma espinha.
Até ao século XI São Brás não entra no calendário litúrgico romano. A partir daí, começa a ter lugar nele pela grande devoção que passou a ser-lhe dedicada em Roma, onde lhe erigiram trinta e cinco igrejas. As actas da sua vida e martírio datam do século IX. Por muitos se contam também os milagres que operou nos animais. Os cardadores invocam-no como seu patrono, devido a ter sido martirizado com os «pentes» de ferro, objectos que utilizam na sua profissão. Figura entre os catorze santos auxiliadores.
As práticas associadas ao dia de São Brás, além das cerimónias litúrgicas e dos festejos, assentam, principalmente, no cumprimento de promessas e na bênção dos animais, levados às muitas igrejas e capelas erigidas ao santo, um pouco por todo o lado, em cidades, vilas e aldeias portuguesas. Assim acontece, entre outras localidades, em Gomide, Santa Cruz do Bispo, São Jorge de Selho, Montes de São Brás, Serpins, Évora, Arco da Calheta e Campanário (Madeira).
À semelhança do dia de S. Sebastião (20 de Janeiro) e dia de São Vicente (22 de Janeiro ), o dia de São Brás representa, ainda, em certos locais, a proximidade da quadra carnavalesca. Casos de Lousada (Porto ), com o «atirar dos brilhantes» (papelinhos de Carnaval) e da Nazaré, com a tradicional romaria anual à capela do santo, no monte de São Brás, em ranchos de «ensaiados» (designação que se dá ali aos mascarados). De referir ainda a subida ao monte de São Brás, em Resende (Viseu), onde se fazem as tradicionais «falachas» em louvor do santo, bolos feitos com castanhas.
Já na aldeia de Mourilhe (Montalegre), a manter a antiga praxe, o pároco procede à bênção do pão e da água, o primeiro levado pelos devotos, a segunda oferecida na igreja, mas a ser transportada depois pelos fiéis para casa, juntamente com o pão, para servirem a fins profilácticos.
Manda o preceito que após a bênção os devotos comam um pedacinho de pão e bebam um pouco de água, terminando o ritual com o pároco a colocar duas velas bentas apagadas, postas em cruz sobre as gargantas dos devotos, enquanto é feita uma oração de invocação ao santo.
Cada crente leva também no regresso a casa, uma vela benta para ser acesa quando há tempestades ou alguém está doente. Neste caso, toca-se a pessoa apenas com a vela, costume que se aplica, igualmente, aos animais. Esta prática, assenta na tradição popular de que «a mãe da criança a quem o santo salvou a vida, lhe terá levado velas, quando São Brás esteve encarcerado».
Regista-se ainda em Mourilhe o uso de «beijar as relíquias de São Brás» – uma antiga cruz de prata com pequeninos relicários embutidos na base.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores

Representa a cerimónia litúrgica celebrada no dia 2 de Fevereiro (também chamada Festa de Nossa Senhora das Candeias, de Nossa Senhora da Piedade, de Nossa Senhora da Luz ou Festa da Fevereirinha), em que a Igreja comemora a Purificação de Nossa Senhora, quarenta dias após o nascimento de seu Divino Filho, quando se apresentou no templo do Senhor, cumprindo uma das duas leis – em obediência à lei moisaica (de Moisés) – que Deus impôs no Antigo Testamento.
A primeira lei obrigava a mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino a ficar privada de entrar no Templo durante quarenta dias a seguir ao parto. No caso de se tratar de uma menina, seriam oitenta os dias necessários à purificação da mãe.
Passado esse tempo, em que esteve recolhida e impura, deveria a mulher apresentar-se no Templo e oferecer, simbolicamente, um cordeiro e duas rolas (ou dois pombinhos) ao sacerdote, pedindo-lhe para rezar em seu favor. Após este ritual, a mulher voltava a ser aceite na comunhão dos fiéis, da qual havia sido excluída devido ao parto.
A segunda lei impunha que todos os pais da tribo de Levi dedicassem o filho primogénito ao serviço de Deus, enquanto os pais das crianças que não pertenciam a essa tribo ficavam obrigados ao pagamento de um tributo. (Levi foi o terceiro filho do patriarca hebreu Jacob e de Lia, cujos doze filhos fundaram as doze tribos de Israel).
A Virgem sujeitou-se com humildade à lei, conquanto a sua maternidade fosse, sob todos os aspectos, diferente da maternidade das outras mulheres, facto que, legalmente, não a obrigava ao seu cumprimento. Todavia, ela apresenta-se no Templo, sendo ainda de origem nobre, como directa descendente de David, rei de todo o povo Judeu, que fundou Jerusalém no século X a. C. (sagrado por Samuel, juiz de Israel, sucedendo a seu sogro Saul, primeiro rei dos Israelitas, deposto por ter desobedecido às leis de Jeová – nome de Deus na língua hebraica).
A Virgem apresenta-se no Templo de Jerusalém levando consigo dois pombinhos e seu filho (transportado pelo velho Simeão, judeu que, segundo São Lucas, entoou no Templo, em louvor do Messias, o cântico Nunc dimittis), e sujeita-O à lei da circuncisão
Em memória e veneração deste acto da Mãe de Deus, em obediência às leis do seu povo, reservava a Igreja católica, outrora, uma bênção especial às parturientes que se apresentavam neste dia nos templos acompanhadas dos filhos.
Era também na Festa da Candelária que, antigamente, nas igrejas, antes da celebração da missa, se procedia à «bênção das candeias», levadas depois em procissão.
Em comemoração do sagrado acontecimento, continuam a ser organizadas nesta data, um pouco por todo o mundo cristão, procissões solenes em que são levadas velas acesas, simbolizando Jesus Cristo «como a Verdadeira Luz, que veio para iluminar os povos» – conforme as palavras de Simeão.
A Candelarum (Festa das Candeias) terá começado no Oriente, primeiramente celebrada em Constantinopla e depois em Jerusalém e Antioquia, embora este género de procissão de velas fosse comum às restantes festividades litúrgicas (vigílias e procissões nocturnas em honra de Nossa Senhora).
Posteriormente adoptada em Roma, instituída pelo papa Gelásio I no ano 492, a Candelária, em louvor da Purificação da Virgem, impõe aos Romanos, para que pudessem beneficiar das importantes indulgências pontifícias, que se constituíssem numa longa procissão, levando candeias, mais tarde substituídas por velas.
No final da cerimónia, as extremidades das velas não consumidas eram preciosamente guardadas pelos devotos, visto, de acordo com a crença popular, possuírem poderes para «preservar a casa do infortúnio e proporcionar boa saúde e prosperidade material até ao ano imediato».
Supostamente, Gelásio I terá instituído esta festa da Igreja para substituir as Lupercais, efectuadas pelos pagãos nos primeiros dias de Fevereiro, dedicadas a Luperco, deus protector dos rebanhos contra os lobos, festas suprimidas por completo no século V pelo mesmo papa.
Já na antiga Roma tinham lugar, nos primeiros doze dias de Fevereiro, várias cerimónias fúnebres, em que os Romanos, em memória dos familiares falecidos, acendiam fogos e velas ao redor das sepulturas.
Durante esses dias o dia 1 de Fevereiro era particularmente comemorado pelos Romanos com a Festa da Purificação, associada ao final do Inverno, embora de igual modo, dedicada aos mortos.
Também os Celtas, nas Festas do Imbloc (realizadas na chamada «estação fria») celebravam no dia 1 de Fevereiro a Festa da Purificação do Inverno, que relacionavam com o nascimento e lactação do gado lanígero, cerimonial substituído depois (já na era cristã) pela Festa de Santa Brígida, à qual se seguiu, entretanto, a Festa da Senhora das Candeias.
Os Celtas constituíam um povo de raça indo-germânica, espalhado em grandes migrações nos tempos pré-históricos, particularmente na Europa-Central, depois na Gália, na Península Ibérica e nas ilhas Britânicas. Anexados pelos Romanos, conservam-se deles, ainda hoje, os costumes e a velha linguagem (na Bretanha, País de Gales e Irlanda), sendo muitos os sinais célticos que nos indicam a presença das suas reminiscências culturais em Portugal.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II
Ed. Círculo de Leitores
Tela: Philippe Champaigne

Nasceu em Narbona (Itália), recebendo o cognome de «Defensor da Igreja» pelos feitos e milagres que realizou em defesa da fé. Advogado da peste, da fome e da guerra, humilde, afável, generoso, conhece os favores do imperador Diocleciano, que o nomeia capitão da primeira companhia das guardas. Devido à imunidade que lhe dava esse posto, pode Sebastião proteger e socorrer muitos cristãos, principalmente os que se encontravam encarcerados. Muitos foram também aqueles a quem converteu, contando-se entre eles o primeiro-escrivão do tribunal, o carcereiro e o próprio Cromácio, governador de Roma.
A perseguição aumenta, e muitos dos seus amigos são sacrificados. Fabiano, sucessor de Cromácio, ao descobrir que Sebastião protege e converte os pagãos, não se atrevendo a prendê-lo, informa o imperador. É então que Sebastião tenta converter Diocleciano, dizendo-lhe que só devia adorar e servir «o único e verdadeiro Deus».
Furioso, o imperador romano manda que Sebastião seja amarrado a um poste e atravessado com flechas pelos próprios soldados da sua guarda. A ordem é cruelmente cumprida, mas na manhã seguinte, Sebastião ainda está vivo. Socorrido por uma boa mulher, em poucos dias sara as feridas. Pouco depois, dirige-se ao palácio e volta a falar com o imperador, que se mostra surpreendido ao vê-lo vivo. Sebastião tenta de novo converter Diocleciano do seu erro, mas o imperador manda de imediato executá-lo, desta vez com varas, no meio do maior suplício. Corria o ano 288, tendo o seu corpo sido arrojado a um lugar imundo.
Após a sua morte, diz-se que apareceu a uma cristã de nome Luciana, pedindo-lhe que fosse buscar o seu corpo e o enterrasse no Cemitério de Calisto, em Roma.
Soledade Martinho Costa
Do livro Festas e Tradições Portuguesas, Vol.I
Ed. Círculo de Leitores
São Sebastião, escultura portuguesa do século XVIII

A data para esta celebração, fixada no ano de 1164, a 6 de Janeiro, pretende assinalar a viagem dos Três Reis Magos, vindos, segundo o Evangelho, dos seus longínquos países do Oriente, até Belém, guiados por uma estrela, para render homenagem e oferecer os seus presentes a Cristo recém-nascido.
De seus nomes Gaspar (de olhos amendoados e barba fina), Baltasar (negro e imponente) e Melchior (o mais velho dos três, de longa barba branca), os Reis Magos pagãos simbolizam a riqueza, o poder, a ciência e a homenagem de todos os povos da Terra a Cristo Redentor.
Paramentados com as suas preciosas vestes e trazendo os seus tesouros, assim se apresentaram perante o Menino – até aí adorado apenas por pastores –, a quem ofereceram, além dos presentes, um deles três libras de oiro (para o Rei), o outro três libras de incenso (para o Deus) e o outro ainda três libras de mirra (para os restos mortais do Homem).
Segundo a tradição, no século VI, os preciosos restos mortais dos Três Reis Magos repousavam, na igreja de Santo Eustórgio, em Roma. Mas porque em meados do século XII o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico Barba-Ruiva (1152-1190) tivesse invadido esta cidade, apoderando-se das sagradas relíquias, estas foram trasladadas em 1164 para a primitiva catedral gótica de Colónia, na Alemanha, por decisão do seu arcebispo Rainald Von Dassel.
As veneráveis relíquias foram então colocadas num sumptuoso relicário ou urna de ouro e pedras preciosas, ostentando na parte frontal a cena da Adoração dos três Reis Magos.
Em 1248 edificou-se a actual Catedral, considerada a mais bela e alta catedral do Mundo, que se tornou no maior centro de peregrinação da Idade Média. A sua construção foi dada por terminada apenas em 1880, acrescida da edificação das suas grandiosas e rendilhadas torres, durante o reinado de Guilherme I da Prússia.
São também os Reis que baptizam o manjar cerimonial da doçaria alimentar desta data: o «Bolo-Rei», espécie de pão doce recheado e enfeitado com frutos secos e cristalizados, cuja tradição se espalhou por quase toda a Europa e alguns países da América (particularmente da América Latina).
Supostamente, a resultar do bolo janual, que os Romanos ofereciam e trocavam entre si nas festas do primeiro dia do Ano Novo. Ao bolo juntavam um ramo de verdura colhido num bosque dedicado à deusa Strénia ou Strena.
Do nome da deusa resultará o vocábulo francês étrenne (que significa “presente de Ano Novo”) e a palavra ”estreias”, termo que, em certas localidades do nosso país, continua a utilizar-se para definir o acto de oferecer presentes de “boas festas” (“dar as estreias”).
Ao bolo janual e ao ramo de verdura acrescentavam os Romanos pequenas lembranças (tâmaras, figos, mel), com votos de bom ano, paz e felicidade. Este costume tornou-se, entretanto, mais exigente, acabando o oiro e a prata por substituir os singelos presentes.
Em diversos países foi hábito durante muito tempo introduzir no bolo uma pequena cruz de porcelana (que se juntava à fava), substituída depois por minúsculas figurinhas humanas. Tradição que se manteve entre nós (agora raramente) introduzindo no bolo um qualquer objecto minúsculo apropriado para esse efeito.
Outra versão para a proveniência do «bolo-rei» assenta na seguinte lenda: «Quando os três Reis Magos, vindos dos seus longínquos países, chegaram junto da humilde manjedoura de Belém, não sabiam qual deles deveria ser o primeiro a oferecer os seus presentes a Cristo recém-nascido. Um padeiro de Jerusalém, lembrou-se então de fazer um bolo, onde introduziu uma fava (símbolo dos segredos da vida e do destino do Homem), que repartiu pelos três. Aquele a quem coube a fava, foi aquele que primeiro ofereceu os seus presentes ao Menino Deus.»
É ainda no Dia de Reis que se desmontam os presépios e as árvores de Natal. Manda também o preceito que este dia constitua a data limite para desejar-se ou retribuir-se os votos de Boas Festas e proceder-se à oferta ou retribuição de presentes.
Soledade Martinho Costa
Tela: Jacques-Joseph Tissot
Hei-de voltar
Um dia ao Alentejo
Que de saudades
Eu não posso mais.
Para sentir no rosto
O beijo aceso
Do vento
Quando volta dos trigais.
Hei-de voltar
Um dia ao Alentejo
Ao canto das cigarras
Pelo Verão.
Ao vulto dos pastores
Que se demoram
À procura da sombra
Pelo chão.
Hei-de voltar
Um dia
Eu sei que volto.
Para rever os meus
E a minha casa
A minha terra amiga
Como brasa
Onde a espiga
Se transforma em pão.
Alentejo
Da urze e das estevas
Das ceifas
Dos rebanhos
Dos montados
Dos tarros
Dos safões
Dos medronheiros
Do silêncio e do Sol
Na cal pousados.
Meu Alentejo
Meu país de sede
De cânticos dolentes
Ancestrais.
Meu Alentejo
Meu país sem medo
Que de saudades
Eu não posso mais
Soledade Martinho Costa
(Do CD «Contra a Corrente», cantado por Jorge Goes, com música de Zé Cid)
Foto: José Pinheiro

Uiva a fome do lobo
Ao rés da alcateia.
A terra
Embala ao seio
O sono das sementes
Há cheiros
E rumores
De nozes e avelãs.
Janeiro
Acorda o canto
Das bicas do azeite
Percorrem os Reis Magos
A coroa das romãs.
Soledade Martinho Costa
Foto: Carmen Maria Movilha

A TODOS OS LEITORES E SEGUIDORES DO SARRABAL DESEJO UM FELIZ NOVO ANO 2026
Soledade Martinho Costa

Festividade mais pagã do que litúrgica, apesar do nome, a Festa do Menino Jesus em Vila Chã de Braciosa, «ninguém sabe explicar como começou». Os idosos lembram-se dela «desde sempre», como se lembravam os seus pais e os seus avós. De geração em geração, ei-la que chega, pontualmente, no dia 1 de Janeiro à pequena aldeia de Miranda do Douro, Bragança (Trás-os-Montes e Alto-Douro).
A primeira fase do festejo, a cargo dos «mordomos», por preceito um rapaz e duas raparigas, todos solteiros, tem início no dia de Natal, quando convidam outros jovens para irem cortar a lenha destinada à grande fogueira que será acesa no dia 1 de Janeiro ao início da tarde. Para trazer a carrada de lenha até à aldeia levam um carro de bois, sem os animais, que depois de carregado é puxado à força de braços pelo grupo, a cumprir a praxe, utilizando para isso cordas grossas com pedaços de madeira nas pontas, para facilitar a tarefa.
Durante os dias que se seguem procede-se ao ensaio dos figurantes, três rapazes: a Velha, o Bailador e a Bailadeira, que vão representar, no dia de Ano Novo, as personagens principais da festa.
Pelas seis horas da manhã, tem lugar a alvorada, com foguetes e gaiteiros a darem a volta à aldeia. Pelas nove horas forma-se o grupo: gaiteiros, «mordomos», Velha, Bailador e Bailadeira. É chegada a hora de começar o peditório. As três personagens dançam, então, à porta da igreja e de cada casa a «moda da bicha». Segundo os naturais de Vila Chã, a dança «vem do tempo antes dos celtas quando esses povos faziam sacrifícios em altares de pedra, havendo ainda altares desses por aqui perto».
Há quem ofereça dinheiro, chouriças, partes do porco e vinho. Para o recolher o «mordomo» transporta consigo o «cântaro», que comporta de quinze a vinte litros. As «mordomas» levam sacas ou cestos destinados a recolher outras dádivas. O grupo aceita tudo o que lhe dão, embora a Velha tenha por costume «pedir a chouriça».
Esta personagem veste saia e casaco de pardo com rendas feitas à mão, leva uma «caiata» (bordão de madeira encurvado no cimo), onde estão presas algumas bexigas de porco cheias de ar (que pressiona para que as pessoas façam a oferta), uma cruz de cortiça queimada pendurada ao peito, enfiada num colar de bogalhos (para enfarruscar aqueles que não contribuem com a «chouriça») e um chapéu enfeitado com uma espécie de palmitos. Às costas transporta a «bota» com vinho, feita de cabedal, a lembrar um fole, com um buraco fino por onde esguicha o vinho sob pressão dos dedos, que dá a beber a quem oferece a «esmola» ou a quem lho pede: «dá-me lá uma pinga da tua “bota”!»
Pardo é o nome do tecido, praticamente em desuso, mas utilizado nos trajos dos ranchos folclóricos, feito de lã de ovelha e «batido constantemente nos moinhos de água», dos quais «existe apenas um, numa aldeia próxima, que faz ainda esse trabalho».
O Bailador vai vestido tradicionalmente de pauliteiro: saia feita de lenços dobrados, de várias cores (os «lenços chineses», como lhes chamam), blusa, xaile e chapéu com fita e palmitos. A Bailadeira veste saia preta de pardo, blusa (antigamente muito bordada à mão) e na cabeça um lenço «chinês» e um chapéu também com fita e palmitos. Travestido de mulher, enche os seios com farinha ou farelos.
Sendo uso em Vila Chã de Braciosa, durante a celebração das missas, as mulheres assistirem ao culto ocupando metade do templo a partir da porta, enquanto a parte da frente é reservada aos homens, no dia de missa de festa, a Bailadeira, de acordo com o preceito, vai juntar-se ao grupo das mulheres.
O peditório dura até à hora da missa (treze horas), celebrada na igreja matriz, onde o padre dá então a beijar aos fiéis a imagem do Menino, como acontece na missa dos dias de Natal e de Reis. No final da celebração litúrgica realiza-se o «leilão das chouriças».
Segue-se o almoço feito pelas «mordomas e destinado apenas ao grupo, idêntico ao de todos os habitantes de Vila Chã: o tradicional prato de «feijão com cascas», a ementa cerimonial festiva deste dia. Trata-se de uma sopa confeccionada com feijão seco com casca, isto é, metido nas vagens (semeado principalmente para esta data), cortado em bocados, batatas, cenouras, carnes e orelha de porco e «bocha» ou «bocheira», uma variedade de chouriço onde entram as miudezas do porco: bofe, coração, fígado e algumas gorduras. Depois de pronta junta-se à sopa o «butelo», chamado ainda «bulho», «butilho» ou «butelho», o afamado «chouriço de ossos», cortado aos pedaços, feito com o espinhaço, pontas das costelas e, por vezes, com o rabo do porco «tudo cortado miudinho».
Segue-se o arraial, com o acender da grande fogueira no largo da igreja, que chega a arder dois ou três dias, conforme a lenha, e o bailarico pela noite dentro, enquanto os figurantes continuam a pedir a «esmola» a quem aparece na Festa do Menino.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. I
Ed. Círculo de Leitores
Foto: Jorge Barros (do livro: a «Velha», a «Bailadeira» e o «Bailador»)
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