Segunda-feira, 26 de Setembro de 2022

A TODAS AS MULHERES IRANIANAS

 
 

308127986_5448835221870999_8899364652451145718_n.j

POR DETRÁS DA JANELA
 
De que servem os versos
Perante a força bruta?
De que servem os poemas
Quando o Inferno
Decidiu abrir as suas portas?
 
Voltou para trás o calendário
E o Futuro fugiu para parte incerta.
 
Não passou de um sonho cúmplice
O tempo percorrido.
 
Entre sombras e leis enlouquecidas
Os corações deixaram de bater
Mas continuam vivos
À flor da sorte.
 
O pesadelo
Apenas se encontrava adormecido.
 
Extinguiu-se a luz que abraça os corpos
Somente as orações resistem
Murmuradas sob os mantos
A rejeitar a religião do mal
Os dogmas do Senhor das Trevas
A violação dos direitos humanos
O luto, a dor e a morte.
 
Há mães que escondem
O corpo e o rosto do olhar dos filhos
E filhos com saudade do olhar das mães.
 
Há mães que por temor ao inimigo
Entregam os filhos noutras mãos
Perante a esperança que advém do perigo.
 
Os céus adensam a penumbra
E cada vez é maior a escuridão
A impotência de impedir a dor
Neste reino governado pelo terror
Onde é negado à mulher o acto de existir.
 
O mundo
Não tem armas contra o medo.
 
Em busca da liberdade proibida
Como o canto de pássaros aflitos.
Correm sem destino os gritos
Pelas praças, ruas e vielas
 
Enquanto o resto do mundo
Parece não escutar o pranto
Da dignidade perdida e ofendida
Que vem
Da silhueta feminina
Refém
Atrás dos vidros opacos das janelas.
 
Soledade Martinho Costa
 
(De um livro a publicar)
publicado por sarrabal às 01:40
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2022

DIA MUNDIAL DA PAZ - ÀS PORTAS DE BEIRUTE (escrito em 2006)

 

307326982_5443567359064452_2226201040893164505_n.j

Sob um céu sem cor onde o azul

Se perde a procurar-se entre o assombro
E a terra chora o pão que aborta em sangue
Na boca onde resistem orações
As crianças adormecem de mãos dadas.
 
Sem o sono sereno dos infantes
Mas sim o dos horrores que as acalentam
Pelas noites de gritos e destroços
Das cidades fantasmas e dementes.
 
As crianças que juntas desconhecem
Os brinquedos e as histórias de encantar
Mas que trocam entre si a descoberta
Do fel que veste os corpos combatentes.
 
As crianças proibidas de sonhar
O longínquo retiro das estrelas
Não o das balas que os corpos arrefecem
E colocam nos seus olhos as respostas
Às perguntas que não sabem soletrar.
 
As crianças que respiram os segundos
No choro sufocado do seu medo
Como se a dor infligida resgatasse
Das horas o pavor do fumo espesso.
 
As crianças que juntas aguardam
Não a dança do vento nos trigais
Nem o perfume que oferecem os lilases
Mas apenas a certeza de acordarem
A madrugada que não sabem se amanhece.
 
As crianças que nascem e decoram
As partículas do lume e a silhueta
Das aves de aço que silvam nos espaços
Sobre os seus ninhos de mortos e de escombros.
 
As crianças condenadas que contestam
Braços pendentes e lágrimas no rosto
Que se fale de paz e que no Mundo
Sob o peso deposto nos seus ombros
O Homem se recuse a ser poeta
Quando todas as crianças são poemas.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
Edições Sarrabal
publicado por sarrabal às 03:10
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 20 de Setembro de 2022

HISTORINHA - A JOANINHA E A CIGARRA (para os mais pequenos na despedida do Verão)

 

13428434_1043370712417494_7335984621941643792_n.jp

CIGARRA I.jpg

Vestido vermelho, de pintinhas pretas, dona joaninha apronta-se para o seu passeio.

Vou até à aldeia. – diz para a cigarra, que anda por perto.

E faz muito bem. – responde-lhe esta, interrompendo a cegarrega do seu canto. – Não há nada melhor do que um belo passeio e uma boa cantoria!

Modos de ver, dona Cigarra, modos de ver…

Não me diga que também me critica porque passo a vida a cantar!?

E a joaninha, pouco à-vontade:

Criticar, não critico. Apenas reparo que nem só passear e cantar é importante. Há outras coisas a fazer. Outras tarefas a cumprir. Enfim, quero eu dizer…

A cigarra atalha, a pôr fim ao embaraço da vizinha:

Ora, ora, dona Joaninha. O meu trabalho é cantar. É o que mais gosto de fazer. E depois, não acredito que não alegre os vizinhos com o meu canto!

Lá isso, alegra, que gosto bem de a ouvir! – confessa a joaninha. – O que me preocupa é ouvi-la cantar sem cuidar da sua despensa…

Tem razão. Realmente, sou bastante descuidada. Ponho-me na minha cantoria e pronto, esqueço-me de tudo. Mas nasci para cantar, sabe? E melhor ou pior, cá me vou governando. O que me vale é que tenho uma boa amiga que não me deixa desamparada no Inverno…

Ah, sim? – interessa-se a joaninha, atenta à confissão.

Sim, sim. É a dona Formiga, com a qual andei zangada noutros tempos.

Grande novidade! – comenta num pasmo a joaninha.

Pois é. Fizemos as pazes. Eu alegro os seus dias de trabalho com o meu canto, e ela, em troca, divide comigo o que junta, lá no seu celeiro bem provido...

Muito me alegro, dona Cigarra, muito me alegro. Na verdade, já era tempo de acabarem com essas inimizades! – exclama a joaninha. E acrescenta: - Bom, agora despeço-me. Vou ao meu passeio. A tarde está uma beleza e o dia ainda vai a meio. Até logo, dona Cigarra!

E parte, asinhas abertas, na direcção da aldeia.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro "Histórias que o Verão me Contou"

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 01:39
link | comentar | favorito
Sábado, 17 de Setembro de 2022

HISTORINHA - A ARANHA E O OURIÇO-CACHEIRO

 

spider-5572855_960_720.jpg

ouriço-2 (2).jpg

Se não me engano, é a raposa que lá vem, mais os seus raposecos. Caminha à surrelfa, a manhosa, por entre o matagal! – diz a aranha, de atalaia, no alto da teia onde vive.

Nesse caso, o melhor é esconder-me! – comenta, precavido, o ouriço-cacheiro, olhar míope, na distância do mato.

Nem os espinhos lhe valem, compadre Ouriço? – zomba a aranha, agora presa no fiozinho da teia.

Valerem, sempre valem, ora essa! Mas com a Raposa, nunca fiando…

A mim, não me apoquenta ela. – torna a aranha.

E de que valia à Raposa apoquentá-la?! Não lhe servia nem para a cova de um dente!

À falta de melhor, quem sabe? – replica a aranha, sem se dar por vencida.

A mim, sim. A mim ferrava ela o dente, se pudesse. Eu é que lhe troco as voltas...

A esconder-se, não? – troça a aranha sob a teia, em equilíbrios de trapezista.

E logo o outro, a mostrar ofensa:

A senhora Aranha sabe muito bem que não sou medroso. Sou asseado, trabalhador, e não gosto de zaragata. Medroso, não! Quanto muito, sou prudente...

Tem razão, senhor Ouriço-Cacheiro, tem razão. Pronto, não se zangue, eu só estava a brincar...

Pois, mas há coisas com as quais não se brinca. O que tenho é motivos para me esconder da Raposa, só isso.

E a aranha, curiosa, suspensa da teia:

Motivos? Que motivos? Ora conte, senhor Ouriço-Cacheiro, conte lá que sou toda ouvidos!

E o ouriço, que destrói os ratos e os insectos, e à noitinha trabalha nas hortas, a limpá-las das lesmas e dos caracóis, não se faz rogado e põe-se a contar:

É assim: quando a Raposa quer apanhar um Ouriço, e ele se enrola numa bola de espinhos, para defender-se, tem o feio costume de lhe fazer chichi em cima. Enojado, o Ouriço desenrola-se, e ela ferra-lhe o dente aqui, na parte inferior do corpo, onde os Ouriços não têm picos. – e mostra a zona do corpito, desprovida de cerdas.

E era uma vez um Ouriço, calculo! – exclama a aranha, arrepiada, na pontinha da teia.

Nem mais. – remata o ouriço-cacheiro.

Então, é melhor esconder-se e depressa, ó senhor Ouriço. Olhe que a Raposa não tarda aí!

Como estamos no final do Verão, segue com os filhotes a caminho das searas. Antes ou depois da ceifa, no restolho, não lhe vão faltar ratos, arganazes e passarada com fartura. Por isso, muda de covil, a espertalhona…

E o ouriço-cacheiro, numa pressa, enrola-se, bolinha de picos, bem escondido dos olhos da raposa matreira. A aranha, essa, lá fica, oito patitas a tecer a teia, sem motivo para alarme.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Histórias que o Verão me Contou

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 01:16
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Setembro de 2022

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - CHUVA DE VERÂO AO SUL

 

484fb9eae6fdd4ad1c1561e95d1b30e7.jpg

os_ninhos_de_andorinhas_estao_protegidos_23764_600

primeta_polet_lastochki.webp

O mais certo, é vir por aí forte trovoada. No Verão, é sempre assim. Chuva e trovoada quanto menos se espera – resmunga a toupeira, olhinhos piscos, cabeça fora do buraco, a remover detritos e entulho, num asseio. 

As nuvens parecem galopar sobre o dorso de cavalos invisíveis. Aos poucos, juntam-se e colocam uma cortina cinzenta sobre o vestido azul que a manhã vestiu. Quem disse que a toupeira se engana? Ela, que mora debaixo da terra, sabe muito bem o que se passa no céu!

As cerejas, que se mostram nos ramos desde Maio, lembram brincos de princesa numa história de fadas. A oferecerem-se nos ramos, baloiçam, pezinhos juntos, por entre a folhagem, ao sabor do vento, que de repente se levantou. Esperam a chuva que vai restituir à sua polpa de rubi o brilho acetinado que a poeira lhe roubou. Caem os primeiros pingos sobre as folhas da figueira. Está tão carregada de figos lampos, que a passarada lhe passa ao largo, farta da doçura do seu mel. Os vindimos, só vão aparecer nos ramos no início do Outono.

Mas a chuva não é boa para os figos, que secam na esteira, à quentura do Sol. Nem para as alfarrobas já colhidas. Corpinho castanho-escuro, a esconderem no bojo o chocalhar das sementes, companheiras do oiro das moiras encantadas.

Há que recolher ambos sem demora. E enquanto as mãos abrigam os frutos, as andorinhas, sabendo dos insectos que voam baixo, quando a trovoada se aproxima, lançam-se em sua perseguição.

Voo picado a rasar a terra, num rebuliço de asas, aproveitando a fartura de que se alimentam: «Que grande caçada!», gritam umas para as outras, numa algazarra feita de chilreios.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Histórias que o Verão me Contou

Ed. Publicações Europa-América

publicado por sarrabal às 02:33
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 8 de Setembro de 2022

HISTORINHA - A RAPOSA E O PORCO-ESPINHO

 

312.jpg

562637_313735418700774_100001929554413_741253_1506

porco-espinho (2).jpg

A raposa põe o nariz fora da toca. Fareja o ar. Arrebita as orelhas. Cautelosa, avança. Coloca uma das patas dianteiras sobre as folhas secas que ocultam a entrada da sua casa. Logo a seguir, a outra. Já com o corpo fora do buraco, olha à sua roda, focinho levantado.

Que rico tempo! – exclama, a bocejar, saindo para a mornez da tarde.

Espreguiça-se. Dá meia volta. Não. Não há sinal de perigo. Volta a meter a cabeça na toca e chama:

Vamos, meus raposinhos, são horas. O dia está no fim. Vamos, toca a levantar!

Entra de novo no covil. Com o focinho põe-se a empurrar o corpo felpudo dos raposinhos, ainda enroscados no torpor do sono. E logo torna:

Vamos, vamos, preguiçosos, não ouviram chamar? São horas, raposinhos. Não há tempo a perder!

Uma raposinha e dois raposinhos levantam-se de um salto.

Preparem-se para viajar. – Anuncia a dona raposa.

Viajar?! – repetem, num espanto, a raposinha e os raposinhos.

Sim, vamos mudar de casa. – explica a mãe. – Estamos no Verão, vamos passar algum tempo mais perto das searas.

Quando os filhos nasceram, na Primavera, a mãe raposa teve um trabalhão para os alimentar. E também para os ensinar a serem prudentes. Agora, com três meses feitos, espigadotes, estão capazes de enfrentar a vida e os seus perigos. Pois se até já aprenderam a caçar! Mas a raposa sabe que os raposinhos só irão abandoná-la lá pela chegada do Outono. Nessa altura, voltará a casa o seu marido, o senhor raposão.

Mãe e filhos saem de casa numa restolhada. Ao porco-espinho não escapam os preparativos da partida.

Outra vez de abalada, comadre Raposa? – pergunta, curioso, à entrada da toca.

É verdade, senhor Porco-Espinho. Chegou a hora de descansar um pouco, que a minha vida, nos últimos meses, não tem sido um regalo!

Diz bem, comadre diz bem! - responde o outro numa aprovação. – Alimentar e cuidar desses diabretes não é tarefa fácil, não senhor. E para onde é a ida? Para o sítio do costume, não?

Claro! Nesta altura do ano, com o trigo, o milho, a cevada e o centeio que há por aí, não vai faltar passarada nem roedores. Isto, sem falar nos cordeiros… Os meus raposinhos vão encher a barriguinha à vontade, e eu vou poder descansar desta lufa-lufa que me traz derreada!

Só então o porco-espinho repara na magreza da comadre raposa. Coitada, está a pele e o osso. Por isso, recomenda:

E veja se engorda um pouco lá por essas bandas, que bem precisa.

A raposa lança sobre si um olhar atento.

Estou magrita, estou. – e acrescenta, os olhos agora embevecidos pousados nos filhotes: - Também, não admira. Além de os amamentar, fartei-me de andar por aí, esfalfada, em busca do melhor para matar a fome aos meus raposecos!

E logo, bisbilhoteiro, o senhor porco-espinho:

Muitas visitas às capoeiras, naturalmente…

E a raposa, atrevida, num desafio feito de queixas:

Pois, então. E que havia eu de fazer? Deixá-los morrer de fome, aos meus raposinhos?!

O porco-espinho, bicho nocturno como ela, concorda, num aceno.

E de novo a raposa, toda espevitada:

Bem faz o compadre, que se empanturra antes de chegar o Inverno.

Ora, comadre, bem sabe que sou obrigado a hibernar! – atalha, a justificar-se, o porco-espinho. – Por isso alimento-me o mais que posso de raízes, de tubérculos e de cascas macias de ramos.

Tem sorte, é o que é. Come daquilo que gosta. Enquanto eu, no Inverno, ando sempre de olho em tudo que me encha a barriga. Não posso ser esquisita no que respeita ao alimento.

Quanta verdade nas palavras da raposa. Com efeito, no Inverno e no início da Primavera, a pobre vê-se aflita para arranjar sustento. A caça é pouca, muitos animais hibernam ou fogem ao frio, agasalhados nos seus esconderijos. E a raposa, ou se afoita a assaltar alguma capoeira, ou, então, não tem outro remédio senão alimentar-se do que encontra: ovos, frutos, répteis, insectos…Ainda que, no Verão, não rejeite uma saltada à vinha para comer um bom cacho de uva moscatel. Ou ao meloal, em busca de melão ou de alguma abóbora madura.

E logo, cheia de pressa, a raposa prepara-se para a partida.

E agora, adeus, senhor Porco-Espinho. Até à vista. Passe bem. Vou aproveitar o Verão enquanto dura! – regouga ela.

Boa viajem, comadre Raposa. Saudinha é o que eu lhe desejo! – responde o porco-espinho, a pensar que são horas de ir em busca da ceia.


Soledade Martinho Costa


Do livro «Histórias que o Verão me Contou»

Ed. Publicações Europa-América



publicado por sarrabal às 22:24
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2022

ONDE OS POEMAS

 

536167_354980217923217_23434580_n.jpg

Que caminhos busquei
Que mos negaram
Que muros tacteei
Que mos ergueram
Que mundos descobri
Que mos calaram
Que algemas me impuseram
Que as vesti.
 
Em que espelhos
Revi a minha fronte
Em que sonos dormi
O meu cansaço
Em que chão
De escravos e de donos
Coloquei os poemas
Com que dantes
Meu punho virgem
Vestia de miragens.
 
Em que céus
De fábulas e contos
Em que sonhos
Crenças e vontades
Respiro ainda o milagre
Com que faço
Resplender
Com a luz dos diamantes
A escuridão
Dos dias calcinados.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro Um Piano ao Fim da Tarde
 
Edições Sarrabal
 
 
publicado por sarrabal às 01:32
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 29 de Agosto de 2022

O COBERTOR DO ESQUILO

 

Esquilos-apresentam-diferentes-personalidades-que-

castor__1280x852.jpg

Comer-Nozes-Pernas-Marrom-esquilo-Cauda-Olhos-Negr

Que graça que tem
o esquilo ladino
no cimo dos ramos
sempre empoleirado.

A descer aqui
a trepar além
a comer as nozes
que parte tão bem.

O esquilo ladino
que graça que tem!

É vê-lo no Verão
quando o Sol abrasa
a brincar contente
à porta de casa.

Mas se o frio aperta
e o Inverno chega
esquilo inteligente
mete-se na toca:

Procura o calor.

E logo apressado
do rabo felpudo
faz um cobertor!

Soledade Martinho Costa

Do livro «Um-Dó-Li-Tá»
Ed. Figueirinhas 

publicado por sarrabal às 21:50
link | comentar | favorito
Domingo, 28 de Agosto de 2022

VERSOS DIVERSOS - MESTRE CASTOR

 

Animal-Castor-2 (1).jpg

castor__1280x852.jpg

castor.jpg

Mestre castor

Quer construir a sua toca.

 

Pé ante pé

Aproximou-se da beira-rio.

 

Sentou-se um pouco, pôs-se a pensar.

 

Pensou, pensou e decidiu:

- Vou construir a minha toca junto do rio.

É bom lugar: tem água fresca

Folhas de choupo e ricos peixes para pescar!

 

E sem demoras

Como se fosse um arquitecto

Vá de traçar uma planta

Dos alicerces até ao tecto.

 

Depois, com jeito

Igual à arte dos carpinteiros

Ei-lo a serrar e a cortar troncos inteiros.

 

Serra que serra

Corta que corta

Coloca aqui

Retira além

Mestre castor

Lá vai, lá vai

Devagarinho

Sem usar pregos

Nem o martelo

Fazendo o ninho

Que até possui

Porta secreta

Como um castelo!

 

Obra acabada

Mestre castor

Pé ante pé

Aproximou-se da beira-rio.

 

Sentou-se um pouco, pôs-se a pensar.

 

Pensou, pensou, olhou a margem e decidiu:

- Vou construir uma barragem!

 

Mestre castor aqui lhe rendo minha homenagem:

Não vi ainda trabalhador com mais coragem!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Um-Dó-Li-Tá»

Edições Vela Branca

 

publicado por sarrabal às 00:49
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2022

OS BEIJOS DE ALÍCE

 

92ddef41cc0cb79741f27205f694ac1c.jpg

Mais do que uma vez a minha amiga se me havia queixado da empregada doméstica. O serviço andava atrasado, a hora do almoço (há uma) escorregava sempre para mais tarde, as pratas não tinham sido limpas, a roupa por engomar continuava a mostrar algumas peças deixadas para outro dia.

 ― Não sei o que se passa com a Elvira, mas as coisas não andam bem. – repetira-me, durante uma das minhas visitas. – Calcula que dá agora em levantar-se mais tarde. Sinceramente, não compreendo.

A empregada, fixa, há mais de um ano que trabalhava em casa da minha amiga e não havia, até então, razão de queixa. Pelo contrário. Era cuidadosa, trabalhadora, mantinha a casa em ordem, a comida era bem feita. Nova, vinte e seis anos, simpática, bonitinha, até.

A minha amiga ocupava apenas uma parte da casa, no Bairro Azul. Passava o tempo, quando não saía – e saía muitíssimo – entre o seu quarto, a sala de visitas e a salinha de trabalho. Almoçava na marquise, cheia de luz e de plantas, e mal punha os pés na sala de jantar, no quarto de visitas ou na biblioteca. À cozinha ia de vez em quando. Mas este problema com a Elvira, para ela, pessoa organizada, senhora do seu feitio, começava a originar uma situação incómoda, a pôr em risco (pensei eu) o emprego da rapariga, que adorava a casa e a patroa, apesar do seu carácter impetuoso.

Habituada a receber bem, a sua casa fora lugar de tertúlias, onde escritores e políticos faziam ponto de encontro. Mais tarde, com o marido e o filho no Brasil as coisas mudaram. Ela é que não. Tratava-me por tu, eu tratava-a pelo nome: Alice. A diferença de idades era grande. Eu tinha, exactamente, a idade do filho, na altura vice-reitor da Universidade de São Paulo, no Brasil.

Alice não beijava ninguém. Detestava beijos. Lembro-me de a minha filha ter tentado cumprimentá-la com dois beijinhos. Logo o braço se estendeu a impossibilitar a tentativa, coisa que magoou e hostilizou a garota até bem tarde. Algumas pessoas ficavam escandalizadas. Só quem conhecia a sua aversão aos beijos levava a bom porto a negação ao cumprimento.

Sem vaidade, era eu a única pessoa que usufruía de tal privilégio. Quando nos encontrávamos eu recebia dela dois beijos e ela outros dois dados por mim. Dizia: «Em muitas coisas, vejo em ti a minha continuidade.» E acrescentava: «Depois, sabes, és da idade do meu filho. Só tu é que levas beijos meus. E dás!» E a conversa seguia o seu rumo.

Dinâmica, costumava acordar-me com um telefonema: «Então, preguiçosa, ainda estás deitada? Vê bem o que eu já fiz hoje:» E aí vinha o rol de tarefas cumpridas a menos da manhã chegar a meio.

À noite, invariavelmente, repetiam-se os telefonemas: «Já estás deitada ou ainda não? Eu já estou na cama, mas apetece-me conversar um bocadinho…». E foi assim ao longo dos anos. Para não falar das minhas constantes visitas, e as muitas que me fez, as tardes de compras e os muitos eventos a que fomos juntas.

Familiares seus e alguns amigos surpreendiam-se por me dar optimamente com uma pessoa apontada como difícil no que respeitava ao relacionamento com os outros. Na verdade, sempre me dei bem com pessoas consideradas de índole difícil. Talvez uma táctica que utilizo e dá resultado. Saber ouvir é o primeiro passo. Não contradizer demasiado, mas fazer respeitar a minha opinião, o segundo. Os passos seguintes vêm por acréscimo. Costumo chegar à conclusão de que há nestas pessoas qualidades escondidas que superam os defeitos visíveis à superfície.

Só uma coisa me metia medo. Os convites da minha amiga para almoçar, jantar ou tomar chá. No tempo da Elvira, um mar de rosas. No tempo pós- Elvira, um calafrio. Os ingredientes, as misturas, os condimentos assustavam qualquer um. A minha amiga não era dotada para a cozinha. Mas insistia. Não havia tacho ou panela que resistisse muito tempo em bom estado. A chama dos bicos do gás, sempre altíssima, acabava-lhes rapidamente com as respectivas asas. A comida, a maior parte das vezes, também ficava agarrada ao fundo. Felizmente, nunca me senti indisposta. A indisposição vinha sempre antes da refeição.

Com os chás acontecia o mesmo medo. Era uma tentação para ela experimentá-los, misturá-los, utilizando uma série de chás que tanto podiam vir da Índia, como da China, de Londres (vá lá!) ou do Brasil. Tomar chá em casa da minha amiga, para mim, constituía um risco. Bebia a medo um gole ou dois e ao convite: «Bebes mais?», respondia invariavelmente: «Não, obrigada.» E a Alice, a rir: «Tens medo, é?» À cautela, o meu chá ficava-se pelas torradas e as bolachinhas…

Mulher corajosa, extremamente frontal, inteligente, trabalhadora incansável em prol da Criança e das jovens desprotegidas, esteve presa por antifascista na cadeia do Aljube, em Lisboa, juntamente com o marido, durante dois anos. Costumava dizer-me: «Desse tempo, resta-me a consolação de termos feito o meu filho, o João Paulo.»

Impedidos de exercer a carreira de professores liceais em escolas do Estado, contava-me que tinha sido por intermédio (paradoxal) da poetisa Fernanda de Castro, mulher de António Ferro (ministro de Salazar), que haviam conseguido colocação no Ensino Privado. Até então, limitavam-se ambos a dar explicações em casa. «Tempos difíceis esses, muito difíceis.» Recordava. Mais tarde o divórcio e a ida do filho para o Brasil, para se juntar ao pai. Ficou sozinha. José Régio, padrinho do filho, propôs-lhe casamento, mas Alice rejeitou. Por fim, a doença do irmão mais novo, que foi buscar em fase terminal para lhe morrer em casa, rodeado de carinho e de cuidados.

Esta última provação marcou-a profundamente. Mudou-lhe ideias e ideais. De tal forma, que acabou por sofrer as inevitáveis consequências das suas duas opostas opções políticas. A primeira, levou à sua detenção e à suspensão do exercício da sua profissão A segunda, de que foi vítima, acompanhou-a pela vida fora. Um espinho aqui, outro acolá, o seu nome constava de uma «lista negra» que não lhe dava tréguas. Mas batalhou até ao fim. Comentava muitas vezes que tinha sido marginalizada «antes e depois do 25 de Abril».

É dela uma «carta aberta» que me dirigiu, publicada no extinto Jornal da Educação, do nosso comum e saudoso amigo Afonso Praça. Sim, porque eu própria fiz da caneta (teclado?) lança e andei por aí a lutar, não contra moinhos de vento, mas contra os ventos que sopravam em desfavor da Literatura Portuguesa para a Infância e de muitos autores consagrados. Tão marginalizados quanto o era a minha amiga Alice – acrescidos outros motivos.

Nesses anos encabeçava eu um movimento que fez história. Abaixo-assinado (três dezenas de escritores, menos os que não puderam assinar por razões politico-partidárias, embora por carta, telefone ou pessoalmente se mostrassem solidários com o grupo), reunião com o ministro da Educação da altura. Artigos, muitos, assinados por mim. A começar no “Expresso” e a acabar no extinto “Diário Popular”. Recordo-me de um deles, a duas páginas centrais, no Expresso (ainda no formato grande), com a minha assinatura e o título «Ditadura Cultural Exercida sobre as Crianças» – título da responsabilidade da redacção, exemplarmente escolhido.

Quando a doença chegou, inesperada, brutal, sem nada que a pudesse pressagiar, a minha amiga deixou de me querer ver. Que não, não fosse lá a casa, preferia assim. Fiz-lhe a vontade. A enfermeira permanente à sua cabeceira fazia a ligação. Por fim, pedia ao filho, regressado do Brasil devido ao estado da mãe, para me ligar. A partir de um certo dia o telefone emudeceu. Ficou a recordação. Até hoje. Vítima de doença prolongada, nem sequer o foi. Bastaram-lhe três a quatro meses. Voltei a sua casa para lhe levar dois ramos de flores. Certa vez, vaticinou: «Quando morrer, se calhar, nem vais ao cemitério pôr-me uma florinha!» Protestei. Mas ela acertou. Por mim, tudo em vida, depois…Daí, fazer de conta que estas linhas representam a flor que não lhe levei e prometi.

Num dia em que a visitei, arrastou-me para a salinha de trabalho e num alvoroço segredou-me:

Já sei o que se passa com a Elvira. Já descobri!

Então o que é? – perguntei.

Livros, filha, livros!

Livros?! Não percebo.

Já vais perceber. A Elvira vai à biblioteca e é um livro atrás do outro. Por isso é que atrasa o trabalho. É que adormece tarde e acorda tarde de manhã!

Mas como é que sabe, Alice?

Porque fui dar com ela sentada na cozinha a ler um livro. Quando me viu escondeu o livro atrás do peitilho do avental. Depois, contou-me. Fiz-lhe perguntas. Sabes que mais? Já estou arrependida de a ter mandado aprender a ler! – rematou.

Ao ouvir estas palavras nem quis acreditar. Vindas de uma escritora e pedagoga, não era caso para menos. Fiquei decepcionada, confesso. Mas logo a luzinha brilhou ao fundo do túnel.

Bom, como a rapariga descobriu o gosto pelos livros, agora só tenho é de arranjar-lhe um horário compatível para a leitura, não achas? – piscou-me um olho e sorriu.

Lá tinha eu, de volta, a amiga a quem admirava e que muitos conheciam tão mal. Ou não quiseram conhecer.

 

A minha amiga era a escritora Alice Gomes. O marido, o poeta Adolfo Casais Monteiro e o irmão mais novo o escritor Joaquim Soeiro Pereira Gomes.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro Uma Estátua no Meu Coração

Ed. Vela Branca

Tela: «Anjos do Beijo» de William Bouguereau

publicado por sarrabal às 21:13
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2022

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16

18
19
21
23
24

25
27
28
29
30


.posts recentes

. A TODAS AS MULHERES IRANI...

. DIA MUNDIAL DA PAZ - ÀS P...

. HISTORINHA - A JOANINHA E...

. HISTORINHA - A ARANHA E O...

. UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM...

. HISTORINHA - A RAPOSA E O...

. ONDE OS POEMAS

. O COBERTOR DO ESQUILO

. VERSOS DIVERSOS - MESTRE ...

. OS BEIJOS DE ALÍCE

. RETROSPECTIVA

. UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM...

. O MOINHO

. INCENDIÁRIOS, FOGOS E FUM...

. HISTORINHA - A NOITE

. 6 DE AGOSTO DE 1945

. O GATO, O MOCHO E A LUA

. LEMBRAR ZECA AFONSO NO DI...

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. E LÁ BOLTAMOS À MEMA - TI...

.arquivos

. Setembro 2022

. Agosto 2022

. Julho 2022

. Junho 2022

. Maio 2022

. Abril 2022

. Fevereiro 2022

. Janeiro 2022

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Setembro 2021

. Agosto 2021

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Março 2020

. Novembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Dezembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

blogs SAPO
Em destaque no SAPO Blogs
pub