Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

VERSOS DIVERSOS - A FLOR E A NUVEM (ou o ciclo da água)

 

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Pobre de mim

Morro de sede

Chora a flor no seu canteiro

Como tarda

Como tarda o jardineiro!

 

A nuvem

Lá no céu

Ouviu a flor chorar

E prometeu:

 

Espera um pouco Flor

Que aí vou eu

Para te ajudar!

 

E chamou:

 

Vento, vento

Vem depressa

Que não tenho tempo

A Flor está a murchar!

 

E o vento

Que é o ar em movimento

E andava pelo espaço

A passear

Veio logo

Prontamente

A assobiar.

 

Aqueceu o sopro

Que não se vê

Mas que se sente

E num abraço

Rodeou a nuvem

Que esperava impaciente.

 

Depois

Foi só descer

Descer rapidamente.

 

Obrigada, Chuva

Obrigada por vires em meu auxílio

Agradece a flor

Agora, sim

Estou bem

Matei a sede!

 

Então

Fico feliz

Diz-lhe a gotinha de água.

 

E acrescenta:

 

Qualquer dia

Hei-de voltar

Voltar lá para cima.

 

Sabes, Flor

Nunca sei bem

Se é lá

Ou cá o meu lugar.

 

Passo a vida

De cá para lá

A viajar

Num vai e vem…

 

E a cintilar

Sobre as pétalas da flor

A gotinha de chuva repetiu:

 

Sim, hei-de voltar

Levada pelo Sol

Para tornar a ser

Outra vez nuvem

Além, no céu azul!

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 17:26
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Sábado, 29 de Setembro de 2018

VARINAS

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Ainda dorme o Sol

E elas já se apressam

Mal sonhadas

Na madrugada do dia

Que amanhece.

 

Braços ao alto

Cansados de cuidados

Seguram as canastras

Num gesto repetido

Repartido

Entre o pousar dos dedos

Sobre as ancas.

 

Rostos lavados

As palavras francas

Seios arfantes

Avançam na manhã.

 

Tudo nelas me espanta

Me seduz

Mas os seus braços

Na cadência apressada do seu passo

Tão cheios de um vigor pleno de graça

Só os comparo no jeito

A duas asas

No corpo de uma pomba que esvoaça.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “A Palavra Nua”

Ed. Vela Branca

 

Tela: Eduardo Malta

publicado por sarrabal às 20:29
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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

D DE DROGA EM 4 ACTOS

 

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Aos que tentaram e conseguiram
Aos que tentam e vão conseguir
Aos que já não podem conseguir
 
(Iº Acto)
 
Decisão
Dose
Dependência
Declínio
Desgaste
Decadência
Degradação
Desinteresse
Desmotivação
Desbrio
Desleixo
Desmazelo
Despersonalização
Desapego
Desafecto
Desamor.
 
(2º Acto)
 
Dissimulação
Dispêndio
Dissipação
Discórdia
Desavença
Desunião
Desassossego
Desconfiança
Desagregação
Descalabro
Dissabor
Desonra
Desprezo
Discriminação.
 
(3º Acto)
 
Desencanto
Desalento
Desânimo
Desventura
Desgosto
Dor
Desespero
Derrota
Derrocada
Desastre
Desgraça
Drama.
 
(4º Acto)
 
Desnorte
Dívidas
Desemprego
Divórcio
Desnutrição
Debilidade
Desequilíbrio
Descontrolo
Depressão
Delírio
Demência
Doença
Destruição.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
publicado por sarrabal às 00:39
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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2018

FIGUEIRA DA FOZ

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Recordo muito a Figueira
Minha Figueira da Foz
Suas gentes
O Mondego
A saída das traineiras
Nas tardes
Ao pôr-do-sol.

 

A serra
A bailar no vento
O grito dos pescadores
O cais, o sal
O farol.

 

Recordo muito a Figueira
Da saudade
Da distância
Do mar a acenar para nós.

 

Minha Figueira da Foz
Dos contos da minha infância
E Berço dos meus Avós.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «Reduto»

 

publicado por sarrabal às 00:17
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Quinta-feira, 12 de Julho de 2018

TROCAR AS VOLTAS À SOLIDÃO

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Uma casa «cheia», que certo dia, quase sem darmos por isso, se torna silenciosa, vazia e a respirar solidão, para mim, significa um drama bem difícil de vencer. Vazio feito da falta de pequenos nadas, que não pareciam importantes na altura e eram, afinal, o preenchimento, o sol a inundar de sentido a nossa vida. A partir daí, para nossa própria defesa, quase sem darmos por isso, esse começar a viver do passado, muito mais do que do presente, optando por uma mentira que nos conforte, que nos roube a tristeza, que responda à nossa voz no vazio da casa – mesmo sabendo que não é essa a realidade. Basta admitir que aqueles que abriram as asas e foram fazer outro ninho, longe de nós, estão a dois passos, sempre disponíveis para receberem o nosso carinho e os nossos beijos e para os retribuírem. Ou, então, que as nossas crianças não cresceram: filhos e netos. Que não as deixámos crescer. Basta admitir também que aqueles que já não se encontram junto de nós, familiares e amigos, continuam vivos, a fazer a sua vida de todos os dias. Basta admitir, por fim, que permanecemos jovens, cheios de força, de projectos, e a receber aquele mimo e amor que também repartíamos por todos. Acho que só assim, conseguiremos sobreviver à saudade e à solidão, com um pouco de paz, e na ilusão de não estarmos sós, mas a ter por companhia todos aqueles que amamos, que amámos – e continuaremos a amar enquanto nos for permitido. Não são apenas as crianças que brincam ao «faz-de-conta»!

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 20:01
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PERGUNTA

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Cinzento e impotente
O horizonte
Clama um minuto de silêncio.

 

Quem pergunta por nós?
Quem nos afaga as mãos?
Quem nos franqueia a porta?
Quem nos refresca o rosto?
Quem descobre a faca que reparte o pão?

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua»

publicado por sarrabal às 19:49
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PARA LÁ DA PORTA

 

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O rosto carcomido
A saia preta
O lenço atado à nuca
O ar cansado
A mão que se moldou
Afeita à luta
Que lhe travou o cabo da enxada.

 

A manta onde se enrola
Feita de trapo
A arca onde guarda o pão do tempo
O chão feito de terra
Aonde acende
O fogo que lhe queima o pensamento.

 

A bilha negra de barro
Que às vezes mata
A sede que vem da alma nas tardes quentes
Quem sabe que se estilhaça nas noites frias?

 

E a teima dos sonhos mortos que lhe renascem
Nos campos onde a fadiga cria raízes
Quem sabe que os amortalha todos os dias?

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «A Palavra Nua»
Foto: Paulo Augusto Patoleia

publicado por sarrabal às 19:42
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Domingo, 10 de Junho de 2018

CAMÕES

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Tão mágica clareza
Tão misterioso encanto
Só aos Grandes
Aos Imortais Poetas
O dom de assim escreverem
Lhes concede
O segredo que faz cantar as fontes.

 

Por isso
Tão-somente
O copiar o jeito do teu punho
Ao segurar a caneta com que escrevo
Me tolhe o gesto
Me ruboriza a face
Ao atentar na grandeza do teu canto
E na pobreza dos versos que te faço.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua»

publicado por sarrabal às 11:22
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Domingo, 13 de Maio de 2018

ROSAS DE LONJURA

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Enfeitei com flores
O meu cabelo
Entrelacei de sonhos
Os meus dedos
E assim fiquei
Perdida pelos dias
Com estrelas
Nas meninas dos meus olhos.

E a desfolhar
Ausências e demoras
Como se fossem 
Rosas de lonjura
Inventei mil enredos
Mil razões
Palavras que não sei
Aonde moram.

E sem que tu soubesses
O segredo
Sonhei a limpidez
Das águas
Sobre as pedras
E o cântico das aves
Nas alturas.

Mas, ai, pobre de mim
Amanheci
Neste deserto sem sol
E sem regresso
Acorrentada ao chão
Da minha espera
Onde a semente é grão
Que não se colhe
No desencontro que aceito
Em cada hora.

Soledade Martinho Costa

Do livro «A Palavra Nua»

 

publicado por sarrabal às 17:52
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Domingo, 8 de Abril de 2018

AS PALAVRAS DOS POEMAS

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Quando escrevo um poema
A mim ofereço todas as palavras
Só depois o liberto pelas folhas
Ou as páginas do livro.

Cada palavra no seu espaço
Cada palavra em sua hora.

Os meus versos
Não os ofereço 
Como se oferece uma orquídia
Um bouquett de rosas
A renda que o mar tece sobre a onda
Essas, são palavras demasiado belas
Para vestirem um poema.

Prefiro oferecer cada palavra
Como se oferece
Um copo com água a quem tem sede
Um raio de sol a quem tem frio
O levedar do pão a quem tem fome.

Respirar cada palavra
Decorar-lhe a forma 
Sentir-lhe a força
A beleza, a energia
A música, a cadência

Mas também 
Fazer de cada palavra
A verdade que se oculta
A denúncia que se encobre.

Palavras escritas
Pintadas, cinzeladas
Cantadas, musicadas
Fotografadas, ditas.

Fazer com elas uma arma
Ou uma pomba
Um lamento como eco num poço
A tranquilidade de um aceno
Uma lágrima que se retrai
Um sorriso que se esconde.

Com o corpo das palavras
Enaltecer a honestidade com que se veste o íntegro
Ou o despudor 
Com que se despe o falso, o impostor
Os apadrinhados
Dos meandros do crime
Sem algemas, sem grades
Cobertos e protegidos
Com a sua própria sombra.

E a pergunta espreita
No verso do poema
Continua a sua caminhada
Palavra após palavra
Em cada linha escrita, projectada.

Quem castiga aquele
Que a obra de Deus reduz a cinza
E o outro que vendeu a neve 
Que matou o desgraçado
E mais o outro que violou a virgem sem pecado
Quem aponta o dedo ao ladrão
Que ostenta com orgulho o que é roubado
Quem desmascara o fingido que se vende
E se assume como honrado.

Ah! palavras despidas, desnudadas
Arrancá-las à mentira que as sufoca
E gritá-las uma a uma
Boca em boca
Descobertas, nuas 
Em toda a sua extensão de liberdade.

Gritá-las uma a uma
Boca em boca
Com dignidade, coragem, destemor
Em corpo inteiro
Sem lembranças de vozes com amarras
A sufocar a razão e a verdade.

Gritá-las uma a uma
Boca em boca
Com a esperança de travar a máquina
Que nos reduz a pobres seres sem voz
Impotentes, inermes, manipulados.

Mas a escrever como nos dita a consciência
Palavras limpas de delitos e pecados.

 

Soledade Martinho Costa

 

Tela: Duy Huynh

publicado por sarrabal às 21:01
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