Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

NATAL - AS FOGUEIRAS DO MENINO

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Um dos rituais que perdura até aos nossos dias, principalmente em Trás-os-Montes, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, mas também no Nordeste Transmontano, sendo menor ou mesmo nula a sua tradição a Sul, diz respeito às «Fogueiras do Menino», «Fogueiras da Consoada» ou «Fogueiras do Galo».

 

Sob a influência da Igreja, a fogueira profana de adoração solar dos Romanos, passou a ser cristianizada e a servir de ritual cristão ao culto divino, testemunhado na quadra natalícia a Jesus Cristo – considerado o «verdadeiro símbolo do Sol que vai nascer, para iluminar todo o homem que vem ao Mundo».

 

Costume que se processa quase sempre durante a noite, cabe ainda hoje às raparigas enfeitar as igrejas para a Missa do Galo, enquanto aos rapazes corresponde a tarefa do roubo ritual do «madeiro», do «cepo» ou do «canhoto» – noutros tempos com os interessados em colaborar a serem chamados por essas aldeias com o auxílio de um búzio e a envolverem as rodas dos carros de bois com «baraços» de palha de modo a evitar o barulho, para que tudo se processasse no maior silêncio.   O transporte, conforme a tradição, continua a ser feito, por vezes, em carro roubado ou utilizado sem autorização dos respectivos donos, puxado por animais, ou empurrado pelos próprios rapazes, num específico rito sagrado, embora, actualmente, seja mais vulgar a utilização dos tractores com o respectivo reboque.  Noutros casos, a lenha é roubada dias antes do Natal, ou ao longo do ano, leiloada ou oferecida em promessa. Há mesmo quem a deposite à porta de casa, na intenção de que seja «roubada» pelo grupo que chama a si essa tarefa.

 

Nas fogueiras acesas em casa durante estes dias, verifica-se, na maioria dos casos, idêntico preceito: o de utilizar-se apenas lenha roubada, segundo a crença «para que a lenha assim ardida proteja o lar e a família».

 

Ateadas ao entardecer da véspera de Natal, as fogueiras ardem, geralmente, até ao dia de Reis, no adro das igrejas, segundo o povo «para aquecer o Menino», ficando todos os habitantes do lugar encarregues de manter o lume sempre aceso.

 

Em muitas aldeias e lugares do nosso País, as populações continuam a juntar-se ao redor das «Fogueiras do Menino» para cantar, dançar e comer filhoses, aproveitando o lume do braseiro para assar as febras do porco e saborear as batatas tostadas (cozidas primeiro em potes de barro), como se fazia (ou faz ainda) no Sabugal (Beira Alta).

 

O rito das fogueiras de Natal encontra-se espalhado em muitos países da Europa, casos da França, da Itália e da Inglaterra, entre outros.  Na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas, tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respectiva diminuição gradual do sistema diurno, até culminar no dia menor do ano – o dia de Natal.

 

Resquícios de festas solsticiais gentílicas, muitas delas acabaram por conservar-se na tradição dos povos, a par das celebrações da liturgia cristã, ocupando um espaço importante que nos foi legado pelas religiões e civilizações antigas, cabendo-nos defendê-lo e preservá-lo, não apenas no que respeita às fogueiras de Natal, mas ainda a outros ritos e festas de carácter etnográfico cíclico, onde se misturam e confundem rituais cristãos e práticas de raiz politeísta e pagã.

 

Por outro lado, segundo alguns autores, sendo o galo considerado um animal solar, é natural que se dê o nome de «Fogueiras do Galo» às fogueiras do Natal e a designação de Missa do Galo à primeira missa da noite de 24 para 25 de Dezembro. Ainda assim, e numa forma mais simplicista, se diz também que muitas pessoas se deslocavam de lugares distantes para assistirem à Missa do Galo. De modo a evitar que voltassem a fazer a caminhada de regresso sem grande repouso e porque não tivessem onde pernoitar, acendia-se para elas o «madeiro». Aconchegadas ao seu calor passavam então o resto da noite, quase sempre muito fria, petiscavam, bebiam, cantavam ao Menino Deus e, mal a manhã rompia, voltavam a suas casas.  

 

Simbolicamente, o «madeiro» poderá representar ainda o próprio Inverno, na intenção de aquecer o Menino Jesus; o «madeiro da Cruz de Cristo» ou «o fogo que desceu dos Céus», referente à iluminação dos Apóstolos pelo Espírito Santo, sob a forma de línguas de fogo, depois da elevação de Jesus Cristo aos Céus.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII

Ed. Círculo de Leitores

Foto:  Pomares, Arganil

publicado por sarrabal às 02:03
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