Quarta-feira, 14 de Maio de 2014

LADAINHAS DA ASCENSÃO (excerto)

 

Do grego Litaneia, a ladainha «litania)– sucessão de orações – indicava, antigamente, as procissões, passando depois a designar uma forma popular de oração litúrgica, constituída por uma longa série de invocações ou pedidos formulados utilizando as mesmas palavras, enquanto vão variando os títulos ou expressões de elogio atribuídos a Deus ou à Virgem – destinatários da oração. Noutros casos, são invocados os nomes dos santos, aos quais se dirige também esta forma de oração.

 

A origem e articulação das ladainhas aparece associada aos primórdios do Cristianismo, embora as suas longínquas proveniências pareçam remontar aos usos hebraicos e mesmo aos do mundo pagão. Em grande número (nem sequer se sabe quantas existem), as mais populares são as Ladainhas dos Santos (chamadas Ladainhas Lauretanas, reformadas pelo Concílio Vaticano II, que lhe conferiu maior sentido bíblico), supostamente fixadas à volta do século XII.

 

Nas «ladainhas de rogação» a Igreja «ora ao Senhor pelas diversas necessidades dos homens, especialmente pelos frutos e pelo trabalho humano dirigindo-Lhe, publicamente, acções de graças». Oração formada por uma longa série de curtas invocações, cantadas em honra de Deus e dos santos, a começar sempre pelo nome da Virgem Maria, as ladainhas eram (e são) celebradas, sobretudo, nos três dias que antecedem o Dia da Ascensão.

 

Com intenção de prece e de apelo em benefício da terra e de boas colheitas, o «cortejo da ladainha» realizava-se também em tempos de calamidade: pragas de vermes ou insectos ou secas e chuvas intensas. Ainda hoje no meio rural as ladainhas são a forma de invocar os Céus quando a seca é prolongada ou quando o Sol faz falta e o temporal e as chuvas torrenciais fustigam as terras.

 

Outrora, era frequente o povo reunir-se e percorrer em cortejo um trajecto determinado, saindo de uma capela ou igreja em direcção a outro lugar de culto, percorrendo por vezes vários quilómetros, caminhando o padre na frente, seguido pela população. Noutras ocasiões o cortejo dirigia-se a uma capela ou ermida erguida em louvor do orago dessa localidade ou, simplesmente, efectuava-se a ladainha em campo aberto, apelando ao Sol ou à chuva, consoante as situações.

 

«Ir ver passar a ladainha» era a frase proferida por aqueles que nela não participavam, constituindo o facto de vê-la uma obrigação de fé solidária e propiciatória. No Furadoro (freguesia de Condeixa-a-Nova, Beira Litoral) conta-se que certa vez o pároco, em penitência, foi descalço à frente do cortejo, subindo a íngreme ladeira, de difícil acesso, até à ermida do orago desse lugar.

 

Em Alverca do Ribatejo, outrora, quando a chuva não vinha, certo lavrador, acompanhado por outros lavradores amigos, tinham por costume ir até à Igreja de São Pedro para fazer oscilar a imagem do senhor dos Passos – crentes de que o seu gesto resolvia a situação. Após isto, o grupo, com a sagrada imagem sobre os ombros, dava algumas voltas no interior do templo, solicitando, nas suas preces, a bênção das chuvas tão necessária ao cultivo das terras e às pastagens. Segundo dizem, mal os lavradores saíam a porta da igreja, apareciam as primeiras nuvens no céu, sinal de que a chuva não tardava a chegar. O lavrador ajoelhava então sobre a terra que beijava e agradecia a Deus a graça concedida.

 

A imagem, património da paróquia de São Pedro de Alverca do Ribatejo, foi oferecida por D. João V à Igreja do Mártir São Sebastião, templo que o rei mandou edificar na mesma localidade, do qual resta a Capela do Senhor dos Passos, localizada no antigo e desactivado cemitério de São Sebastião. Na frente da imagem viam-se antigamente duas lanternas de prata com azeite e pavios acesos pelos devotos a arder noite e dia.

 

Quanto às ladainhas, o povo chegava a juntar-se (e ainda hoje o faz) em pleno campo para as entoar, embora estas possam também ser rezadas na igreja, antes ou depois da missa.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V

Ed. Círculo de Leitores

Foto: Jorge Barros

 

 

publicado por sarrabal às 21:39
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