Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

DIAS GORDOS - CARNAVAL DE OUTRORA

PROPUESTA-1-carnaval1.jpg

Diz-se dos dias principais da quadra carnavalesca: Sábado Gordo, Domingo Gordo e Terça-Feira Gorda – denominação que ficou dos antigos Domingos Gordos que decorriam entre o Dia de Reis e o Carnaval, assim chamados devido ao excessivo consumo de carnes gordas verificado nestes dias em repastos rituais.

Se a Páscoa ocorre cedo, em meados de Março, uma vez que o Carnaval depende da data da Páscoa (como todas as festas móveis do calendário), os chamados «dias gordos», mais propriamente a Terça-Feira Gorda, último dia de Carnaval (que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, primeiro dia da Quaresma), poderão oscilar entre o dia 3 de Fevereiro e o dia 9 de Março, nunca depois desta data. Os «dias magros» são o sábado e o domingo anteriores aos dias «gordos».

É neste universo, onde os procedimentos orais e gestuais – por conseguinte sociais – se invertem, que vamos encontrar diversas práticas específicas do ciclo do Carnaval, algumas mais do passado do que do presente, embora muitas delas continuem a verificar-se, particularmente entre a comunidade rural.

Se o Carnaval actual se transformou numa sombra do Carnaval de outros tempos, talvez não venha a despropósito lembrar algumas das brincadeiras e folguedos que vigoravam outrora, suprimidos que foram uns, ao longo dos anos (proibidos pelas autoridades), outros caídos em desuso e outros ainda por motivo de substituição das praxes, de acordo com a evolução e a mudança de hábitos e conceitos operados no seio da sociedade.

De civilizado o Carnaval não tinha, efectivamente, nada. Quer o Carnaval rural, quer o urbano (particularmente o setecentista e o oitocentista), projectava-se de forma anárquica, suja, irresponsável e até violenta, onde nada nem ninguém escapava ou era respeitado, mesmo que não fosse folião – ou precisamente por isso. De tal modo, que alguns editais publicados em 1817 «proibiam os folguedos de Carnaval» – ressuscitados, entretanto, a partir dos anos do liberalismo. 

Por essas épocas vivia-se intensamente o «arremesso» (com força e pontaria certeira), e tudo servia para arremessar ao próximo, fosse um companheiro de folia ou um pacato cidadão avesso a folguedos: tomates, laranjas e ovos goros (podres), farinha, tremoços, cinza, pó-de-sapatos (pó preto), pó de talco, cal, lixo, excrementos, vísceras, ratos, sapos, rãs, lagartos (vivos ou mortos), água, dejectos, etc. (além de pedras e de toda a espécie de objectos velhos ou deteriorados).

As «cacadas», «caqueiradas» ou «paneladas» (recipientes com pedras, pedaços de madeira e toda a espécie de lixo) eram também atiradas para dentro das casas, à força ou à menor distracção, pelas portas e janelas.  Ainda hoje, no Nordeste Transmontano, se usa o termo «deixar cacadas», que corresponde ao acto, mantido ali (sempre a cargo dos mais novos), de deitar, à noite, para dentro das casas que se descuidam com as janelas ou portas abertas, sacos ou mãos cheias de bolhacas que vão apanhar dos carvalhos.

As «pimentoadas» faziam-lhes companhia, arremessadas do mesmo jeito, a originar dentro das casas um cheiro nauseabundo e sufocante, que provocava tosse, obrigando os moradores a saírem para a rua, devido aos trapos velhos a arder dentro de um caco, misturados com malaguetas e estrume dos animais.

Passar por baixo de uma janela, constituía perigo para qualquer um, pois podia-se levar com o despejo de um balde de água ou de outra coisa menos limpa. Por isso, os precavidos, vestiam nos dias de Carnaval os fatos mais usados, munindo-se ainda de chapéus-de-chuva, para evitar males maiores.

Colavam-se rabos de papel (os «rabos leva») com legendas irreverentes a quem passava ao alcance da mão (costume ainda hoje mantido pelas crianças) e amarravam-se utensílios velhos (tampas, panelas, caçarolas ou latas) aos rabos dos gatos e dos cães, que corriam tresloucados por ruas e travessas, causando o pânico, o riso e um barulho insuportável.

Em muitas casas os vidros chegavam a ser retirados das janelas. Quando assim não acontecia, vidros, pedras e outros objectos cortantes ou contundentes constituíam as armas utilizadas (mesmo navalhas de ponta e mola) em desacatos e pancadaria, que culminavam, por vezes, com ferimentos nos intervenientes e até em mortes, nalguns casos. 

Tudo isto, além de uma lista infindável de tropelias divertidas e inofensivas (algumas ainda hoje mantidas), em que quase todos participavam, uns como causadores directos, outros como suas «vítimas»: a dentada numa apetitosa «azevia» recheada com estopa ou algodão ou tremendamente picante; a aranha gigante que se descobria entre as dobras do lençol ao abrir a cama; a «osga» colada numa parede ou a carteira ou moeda coladas ao chão, que o transeunte tentava apanhar sem dar nas vistas – motivo para gargalhadas ante o embaraço dos mais desprevenidos.

Figuras populares do Carnaval de rua eram também os «Entrudos», homens mascarados apresentando ventres descomunais e munidos de bengalas, que se dirigiam a quem passava para lhes aplicar as tradicionais «pançadas», a causar um certo receio aos importunados.

No meio rural os divertimentos eram idênticos, apenas lhe acrescentavam as «roncas do Entrudo», sempre durante a noite, para que o incómodo fosse maior.  As «roncas» eram (e são) feitas com a bexiga do porco, cozida no bocal de um cântaro de barro ou num cortiço de abelhas vazio, com um buraco no meio por onde sai um cordel que, ao ser puxado, emite um som barulhento, monótono e desagradável.

No Nordeste Transmontano, onde o costume se mantém, dão-lhe o nome de «pandorreiras», feitas igualmente com um cântaro de barro, mas com uma palha introduzida no buraco, a causar, ao ser puxada, o mesmo som incomodativo.

Estas musicatas percorrem as aldeias e os seus arredores, indo por vezes à entrada das aldeias vizinhas, num acto de provocação, produzindo o maior barulho possível, munidos, ainda, com buzinas, bombos, tambores, cornetas e latas, estas zurzidas por paus, fazendo assim a festa até noite avançada, a incomodar meio mundo, pois essa era (e é), fundamentalmente, a intenção dos «músicos».

Todavia, aos poucos, o Carnaval truculento e desordeiro substituiu os «arremessos» abrutalhados e sujos, pelos papelinhos e serpentinas multicores e pelos saquinhos de pano cheios com arroz, alpista ou serradura – ou também com feijão ou grão, a torná-los, talvez para matar saudades, um pouco mais pesados. Os baldes de água reduziram-se à dimensão das bisnagas, por vezes cheias com água perfumada ou mesmo só com perfume, e o barulho provocado pelos cães e gatos, ao dos «estalinhos», «bichas-de-rabear» e «bombinhas», que permanecem até aos nossos dias.      

Em Lisboa, na noite de Carnaval, realiza-se o primeiro baile de máscaras no Real Teatro de São Carlos (1809) e organiza-se pela primeira vez (1887) um Cortejo de Flores, com carros enfeitados e a respectiva «batalha», evento considerado na época um autêntico êxito e uma verdadeira inovação. 

Iniciava-se uma nova era do Carnaval português.

     

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.II

Ed. Círculo de Leitores  

publicado por sarrabal às 17:58
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

. CALENDÁRIO - MARÇO

. CARNAVAL - A MÁSCARA

. TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

. BOLO-REI - ORIGENS

. A VIAGEM DOS TRÊS REIS MA...

. FELIZ NATAL E BOM NOVO AN...

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO