Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E A SOLIDÃO

 
  
No final das férias do último Verão, a família juntou-se, depois do jantar, num serão na sala da casa do Algarve. A Soli, que nas férias goza do privilégio de deitar-se mais tarde, estava presente. Brincava com os puzzles que gosta de trazer para a sala. A tranquilidade era absoluta e a conversa decorria, amena, a fazer passar o tempo, sempre agradável quando a família se reúne.
 
A dada altura, a Soli, sem que ninguém o houvesse sugerido (como acontece muitas vezes), começa na sua arrumação: peças dos puzzles dentro das  caixas, sinal de que o entretenimento tinha chegado ao fim. Reparei, mas mantive-me calada. Logo depois, a Soli anuncia:
- Vó, vou ter com a mamã.
- Porquê, Soli? – Perguntei.
- A mamã está sozinha. – Foi a resposta.
- Porque a mamã, naturalmente, quis estar sozinha. Por isso, não nos fez companhia… – Argumentei.
- Pois, Vó. Mas a mamã «deve estar com muita solidão».
- Pode não estar. A mamã, se calhar, preferiu ir ver televisão, ler um livro…Não me parece que «esteja em solidão»…
E a Soli a insistir:
- Mas tenho mesmo de ir, Vó. Tu tens companhia, mas a mamã não tem.
E eu a insistir também:
- Repara, Soli, a mamã pode querer estar sozinha. Às vezes os adultos precisam de silêncio, de sossego, de ficar um pouco a sós com eles próprios, entendes, querida?
- Entendo. – Repondeu. E acrescentou:
- Eu estava a brincar e a pensar na mamã.
- Queres contar?
- Sim, Vó. Sabes, estava a pensar que a solidão é uma coisa muito, muito triste.
- Tens razão. Mas não é o caso da tua mamã. – Contrariei.
De nada me valeu. A Soli meteu as caixas dos puzzles debaixo do braço e levantou a carinha à espera dos beijos. Achei que não devia contrariá-la. Despediu-se de todos com mais beijinhos de boa-noite e lá foi, fazer companhia à mãe (no apartamento da porta ao lado).
 
E dei comigo a pensar: «como é que uma menina com seis anos tem consciência de que «a solidão é uma coisa muito, muito triste»?! Eu sei que as crianças escutam muitas vezes as conversas dos adultos, e nós nem damos por isso. Que vêem reportagens na televisão, que não deviam (ou deviam?) ver, sobre o abandono, a solidão dos mais idosos –  embora haja solidão em qualquer idade. Na escola o assunto «solidão» é capaz de ser abordado. Os próprios desenhos animados, por muito mal que se fale deles, têm pontos positivos. Por vezes, a chamar a atenção dos mais pequenos para algumas situações da vida. Quem sabe se já não abordaram o tema da solidão? Sei o que digo porque sou «obrigada» a ver muitas das séries infantis. Os meus netos sabem, sem margem para erro, os horários a que vão para o ar.
 
Quero dizer que as crianças, hoje, estão a par do muito que devem saber e do muito que deviam ignorar. Não sei, francamente, se poderá chamar-se «prevenção» a muitas das coisas que não deviam ver nem saber. Também é verdade que não os podemos preparar para a vida dentro de uma redoma. Por mais que tentemos protegê-los, o mundo que os cerca  encarrega-se de os elucidar. Quantas vezes da maneira menos conveniente, ou cedo demais – pensamos nós.
 
A Soli foi fazer companhia à mamã. Pareceu compreender o que quer dizer a palavra solidão. Não era o caso, mas ela assim o entendeu e vale pela preocupação que demonstrou. Pensou que a sua companhia iria atenuar ou fazer desaparecer «a solidão da mãe».
 
Acabei por ficar feliz com esse cuidado e apreensão evidenciados pela Soli. É bom sinal. Assim ela se mantenha atenta e preocupada com a eventual solidão familiar – ou alheia. Neste caso, os receios eram infundados. Um dia, podem não ser. Já Amália Rodrigues cantava «Solidão», com versos de sua autoria: «Por mim ninguém/Já se detém/Na estrada.» Daí, a esperança, a confiança que deposito no comportamento humano e cívico das crianças que vão ser os homens e as mulheres de amanhã.
 
Que a Soli nunca deixe a mãe «em solidão» – como tantos e tantos filhos que não aprenderam ainda o significado dessa palavra. Filhos que talvez um dia venham a saber o seu sentido. Quando a solidão, a cada minuto, a cada segundo que a vida lhes der para viver, lhes pesar na alma e no coração.
 
Soledade Martinho Costa
                                         
                                                              
 
publicado por sarrabal às 00:14
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7 comentários:
De Ibel a 7 de Fevereiro de 2010 às 02:10
A Soli lembrou-me a Belinha, que era eu, quando tinha a idade dela e para quem a minha mãe era o sol de cada dia.Aliás foi sempre. O nosso amor era tão intenso que não consigo aceitar a parte física dela que da minha se apartou. Pronunciar o seu nome é a minha mais pura oração. Sempre que a minha mãe se isolava eu temia que ela estivesse em solidão, embora esse nome fosse ainda uma intuição instintiva e não uma interiorização consciente. Por isso a acompanhei a vida inteira e a coloquei na ara da minha adoração.
Quando teve o enfarte aos 93 anos, (até aí era uma mulher activa, cheia de vitalidade), entrou em depressão e mergulhou numa solidão que era talvez mais tristeza de morrer e de me deixar. Cobria-a de beijos e partiu para a longa viagem com esses beijos mais as minhas lágrimas, mesmo depois de entrar em coma.Cantei-lhe o nana , nana, meu bébé e disse-lhe "parta para a luz. Está lá Quem sempre amou".
É bom a Soli ter essa intuição do que a solidão significa, porque isso já indicia as pegadas do caminho que ela percorrerá de mãos dadas com quem a sonhou e fez florir no ventreberço.

P-S - Soledade, percebo pouco ou nada de net.Não sei que mais informações lhe dar sobre o meu blog. Escreva no google "frutosdemimemar" e penso que chegará lá.
Gostaria de llhe perguntar se posso publicar algum dos seus textos no blog da minha escola, que eu criei. Já publiquei textos do Daniel.
Beijinho


De Ibel a 7 de Fevereiro de 2010 às 02:16
Deixo o meu endereço electrónico para o caso de não conseguir entrar no meu blog, pois depois envio-lhe o linK. Segue também o neme do blog da escola

recreiodasletras.wordpress.com

mariaisabelfidalgo@gmail.com


De sarrabal a 7 de Fevereiro de 2010 às 23:57
É claro que pode publicar os meus textos no blog da sua escola, Ibel. Só tenho que ficar-lhe grata por isso. Consegui chegar lá pelo Google. Pareceu-me não estar actualizado, enganei-me?

Também consegui ir, pelo mesmo meio, ao seu blog. Deixei um comentário, mas não o vi publicado.

Não sei se já reparou, mas coloquei o seu «Frutos de Mim e Mar» nos meus links. Não tenho muitos. O seu é um bom blog, como fazia adivinhar pelos seus comentários feitos aqui. Parabéns pelos poemas. A prosa ainda não deu tempo para ler, mas lá irei.

Vou enviar-lhe um e-mail. Será a maneira de ficar a conhecer o meu.

Beijinho

Sol


De Lena a 9 de Fevereiro de 2010 às 10:13
Olá Sol!
A sua neta Soli deve ser uma menina muito especial e com um amor muito grande para dar a mãe e a todos. De certo, ela nunca vai saber o que é a solidão,pois com um sorriso consegue atrair boas ondas e mover céus e montanhas para todos juntar ao pé de si. É assim que eu a imagino depois de ler o seu texto.
Também gostava de puzzles quando era pequena e arrumava tudo direitinho.
Um beijo grande para si e para a Soli.

Lena

P.S: o seu texto sai dia 24 :) e a blogagem começa amanha, poderá sempre que quiser visitar a Aldeia e ler os textos dos outros participantes.


De sarrabal a 10 de Fevereiro de 2010 às 18:23
Lena, agradeço o beijinho para mim e para a Soli. Sim, a Soli é uma menina muito acutilante e muito sensível. Nem parece ter apenas sete anitos - feitos a 31 de Outubro. Quando se passou o episódio que descrevo tinha seis.

Já fui ao seu blog e li os dois textos sobre o Carnaval. Vou esperar pelos outros para me pronunciar. Sobre os «Caretos de Podence», devo dizer que retirei um extracto do texto que escrevi para a colecção «Festas e Tradições Portuguesas», editada pelo Círculo de Leitores. Encontra-se no segundo volume (dedicado ao mês de Fevereiro) e conta com 16 páginas, incluindo várias fotografias inéditas.

Beijinho

Sol


De garatujando a 12 de Fevereiro de 2010 às 12:07
O que aqui se lê não é apenas um pequeno episódio do quotidiano, em que são intervenientes uma pequerrucha adorável e a sua Avó que a ... adora.
É uma exemplar estória contada ao jeito claro e preciso que caracteriza as narrativas da Soledade, estória essa que gira à volta do conceito de "Solidão"
Ressalta do texto a sensibilidade demonstrada perante um caso concreto, por uma criança que certamente tem já em si a maneira de pensar e de sentir que, pedagogicamente a Avó Soledade lhe vai incutindo.
É uma lição. E é um exemplo.

Parabéns, Soledade.
O abraço de sempre.
Carlos Ferreira


De sarrabal a 12 de Fevereiro de 2010 às 23:57
Sim, a avó Soledade vai incutindo nos netos alguns valores. Neste caso, a lição foi dada pela Soli. Um exemplo, será: assim o seguissem aqueles a quem pouco importa a solidão dos que lhe são chegados - ou não...

Abraço, Carlos.

Sol


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