Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

COISAS DA VELHA DO ARCO - «ACABOU-SE O AMENDOIM!»

  

Acontecia de vez em quando. Acontecia quanto menos se esperava. Até que começou a esperar-se que acontecesse.

 
Inesperadamente, do lado de fora da sala de aula, o rosto do garoto aparecia emoldurado pelo aro da janela. Os alunos ficavam desassossegados, desatentos às palavras da professora. Olhos fitos na janela aguardavam o início das momices, dos esgares, das caretas, das «palhaçadas» que costumavam presenciar, quais espectadores sentados numa plateia diante de um palco onde um único actor, por mímica, era o ponto central de toda uma encenação que os fascinava pela ousadia. Pelo desafio. Pela «arte» de os fazer rir.
 
Ora escondia o rosto, baixando-se, para logo reaparecer em «cena». Ora entortava os olhos ou fazia súplicas com as mãos olhando o céu. Sempre sem uma palavra. Conforme aparecia, assim desaparecia do recorte da janela.
 
Mais de uma vez a professora saiu, interrompendo a aula, dirigindo-se ao recreio para onde davam as janelas da sala. Mas nem por uma vez conseguiu apanhar o garoto. Vê-lo, sequer. Ao aperceber-se de que a professora ia no seu encalço, ei-lo a desaparecer como o fumo.
 
Quem era? Conheciam-no? Era colega? Viam-no no recreio? Pertenceria a outra escola? Que não, que não sabiam. Não o conheciam. No recreio também não o viam. Talvez fosse de outra escola, sim.
 
Num desses dias de «espectáculo», um dos alunos, sentado mais perto da janela, gritou-lhe: «Macaco!» O outro riu. Fez mais umas momices e, tal como apareceu, desapareceu, lesto na manha, na perspicácia e no atrevimento, como se o chão o tivesse engolido.
 
A professora fez algumas diligências no sentido de saber quem era o garoto. De nada resultou.
 
Habituados já à presença do «actor», os alunos, para arrelia da professora, começaram por olhar, de vez em quando, a janela à espera de verem o rosto conhecido. Pouco atentos. Na expectativa. Na esperança de se divertirem. De terem o ansiado momento de pausa sempre apetecida. Mas nem sempre acontecia. Quem sabe se o «actor» não teria agendadas outras actuações?
 
Aconteceu certa manhã. A janela estava aberta quando o rosto do garoto assomou, repentinamente, por ela. Instalou-se o silêncio entre os alunos. O rosto que viam não era o mesmo. Onde a liberdade do riso? Das momices? Da traquinice?
 
Desta vez, do lado de fora da janela, o garoto olhou as outras crianças e falou. Pela primeira vez falou. Voz soluçada, molhada de lágrimas na alma e no rosto: «Que querem vocês, hein?! Acabou-se o amendoim, ouviram? Acabou-se o amendoim!»
 
A turma não riu. Surpresos, olhavam o garoto com fama de engraçado. As coisas tinham mudado. Havia infelicidade naquele rosto e naquelas palavras. A professora levantou-se. Correu para a porta. Tentou chamar a criança. Mas aqueles olhos, brilhantes de lágrimas mal contidas, rápidos, tal como haviam surgido, assim desapareceram do recorte da janela. A professora não conseguiu localizá-los.
 
Desde esse dia, o «actor» desconhecido não voltou a interromper a aula. Anos volvidos, alguns dos ex-alunos continuam a guardar na memória dos olhos as suas momices e as lágrimas com que se despediu.
 
Soledade Martinho Costa
 
                                                  
 
publicado por sarrabal às 01:16
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8 comentários:
De Manuel Maria Ferreira Pacheco a 7 de Janeiro de 2010 às 18:43
Coisas da vida:
Manhã de sete de Outubro de mil novecentos e cinquenta e seis. Saí de casa acompanhado pela minha mãe para dar início ao meu primeiro dia escolar. Para mim é novidade para minha mãe não. Dois anos antes tinha feito o mesmo com a minha irmã mais velha Amélia.
Depois da chamada ali fiquei com mais trinta e tal crianças todos do sexo masculino - naquela altura havia as escolas masculinas e femininas, era proibido juntar meninos e meninas - a partir daquele dia ficamos a ser companheiros, a maioria deles, pela vida fora.
O Sr. Professor Valente, já na casa dos sessenta anos, mas ainda bem conservado e uma disciplina rígida, era um mestre-escola. Quando por algum motivo não podia dar aulas, era substituído pela sua esposa «também professora» mas na sala era a anarquia total. Era de uma bondade extrema e para se segurar numa turma como a minha era difícil, só pessoas do género do professor Valente, ou como mais tarde na quarta classe – andei até à terceira classe com o professor Valente - vim a encontrar a Sr.ª professora Adelina.
Passei a ter aulas no período de tarde. Todos os dias de manhã deslocava-me à cantina escolar para ir tomar o leite em pó. Naquela altura os mais necessitados socorriam-se destas dávidas para matar a fome. Morava a cerca de um km da cantina e a minha mãe esfarelava um bocado de broa velha e punha um bocado de açúcar numa malga para ir tomar o dito leite em pó.
Como morava um pouco distante a fome e a lambarice eram mais fortes quando chegava à cantina já tinha devorado tudo, depois só bebia o leite. Ao meio dia lá aparecia para comer o caldo e que bom que era, com um feijão vermelho grande, era uma delícia. Nos dias do óleo de fígado de bacalhau bem me apetecia não ir, mas a fome… fechava os olhos e tapava o nariz, era assim que o tomava.
Quando vinha para o recreio tinha colegas, poucos, com mais posses, desembrulhavam uns pequenos embrulhos e de lá tiravam o lanche e não ofereciam a ninguém. Não podiam oferecer senão não comiam nada. Eram mais os que não tinham nada para lanchar.
Entre esses ditos abastados havia um que todos os dias me pedia para copiar os meus deveres o que eu deixava. Como não me oferecia do seu lanche a partir de um certo dia pus-lhe como condição ou me dava um pão com manteiga – era o que ele lanchava – ou ia bater a outra porta. Depois desta proposta todos os dias ansiava pela hora do recreio.
A partir da terceira classe veio uma ordem em que os alunos eram obrigados quando entrassem na sala de aula a vestir uma casaca da mocidade Portuguesa, e a cantar o lá vamos cantando e rindo.
Recordar é viver.




De sarrabal a 21 de Janeiro de 2010 às 20:30
Manuel Pacheco:

Num outro «comentário» referiu que «continuaria a contar as suas histórias se, para tanto, eu lhe desse oportunidade e espaço». Eu dar, dava. O problema está em que o meu caro Pacheco não comenta: publica posts.

Com toda a simpatia que sinto por si e considerando o interesse das suas recordações («recordar é viver», como diz), dou-lhe uma sugestão, que já lhe foi dada noutro blog: porque não abre o seu próprio blog? Não paga nada por isso e ficaria com espaço suficiente para publicar todos os seus textos. Que me diz?

Não leve a mal a minha sugestão, mas parece-me bastante lógica. Este espaço fez-se para comentar os posts publicados pelo respectivo bloguista - coisa que o meu caro Amigo se esquece de fazer.

Fico à espera de visitar em breve um novo blog na blogosfera: o seu!

Abraço

Soledade Martinho Costa


De Ibel a 7 de Janeiro de 2010 às 23:22
Uma história que acaba de forma triste, tal como se acabou o amendoim. As momices substituídas pelas lágrimas.Por onde andará o menino?


De sarrabal a 21 de Janeiro de 2010 às 19:53
Ibel, resposta difícil...

A minha filha foi uma das ex-alunas.

Beijinho

Sol


De Ibel a 8 de Janeiro de 2010 às 14:47
Manuel Maria

A sua história é emocionante e é saudável ver que não tem vergonha de falar da sua pobreza passada.
Deixe-me dar-lhe um abraço.


De Manuel Pacheco a 8 de Janeiro de 2010 às 18:33
Ibel:
Se fosse só a minha pobreza Portugal nesse tempo era um oásis. A maioria dos portugueses era gente pobre, veja a emigração tanto para a Europa, América do Sul e África.
No texto falo que quando vínhamos para o recreio a maioria de nós não tínhamos nada para lanchar. Não era só eu que me socorria da Cantina Escolar, era um sem número de crianças.
Não tenho vergonha nenhuma em assumir a minha pobreza, vergonha era dos governantes da altura e seus servidores. Gosto de lembrar esses tempos à juventude para eles ter uma ideia do que era a vida.
No dia de Reis, num programa da SIC, a Simone de Oliveira a dar resposta a coisas passadas, disse, não nos devemos envergonhar e relatar as nossas origens. Concordo plenamente e no que me for possível hei-de o fazer.
Se tiver oportunidade e a Soledade me der um pouco de espaço, hei-de voltar com outros textos que enviei para outros blogues.
Também lhe envio um abraço.


De garatujando a 9 de Janeiro de 2010 às 11:56
Os escritos do SARRABAL, sejam poesia, literatura infantil, crítica social, contos ou descrição etnográfica, primam, invariavelmente, pelo estilo escorreito e pela clareza de exposição.

Acerca do post em apreço, não vou entrar em considerandos de ordem filosófica relativos ao passado social do país – vertente abordada já pelos outros comentadores.

Direi apenas que o conto, tal como está escrito, transforma o leitor em espectador duma cena “real”, como se estivesse a assistir, no local, aos factos narrados.

Com efeito,

- o garoto que aparece do lado de fora da janela fazendo “momices” e “esgares”;

- os alunos, que se distraíam com aquelas “palhaçadas”, como “espectadores sentados numa plateia diante de um palco onde um único actor, por mímica, era o ponto central de toda uma encenação que os fascinava pela ousadia. Pelo desafio. Pela «arte» de os fazer rir.”;

- o ambiente dentro da sala provocado pelo rosto, ”baixando-se, para logo reaparecer em «cena».”

- a professora que, inquieta com a distracção dos alunos, procurava, sem êxito, identificá-lo

- o aluno, “sentado mais perto da janela”, que gritou «Macaco!»”

tudo é relatado duma forma simples, concisa, linear, no invulgar estilo a que a SOLEDADE habituou os seus leitores.

O final da estória, em que o «Que querem vocês, hein?! Acabou-se o amendoim, ouviram? Acabou-se o amendoim!» tem o seu quê de contida dramaticidade, é o exemplo acabado da capacidade da autora de tocar a sensibilidade dos seus leitores.

Aqueles que pela primeira vez visitam o SARRABAL, ao lerem este conto, ficam, seguramente, com vontade de voltar.

Abraço de parabéns, como sempre

Carlos Ferreira









De sarrabal a 21 de Janeiro de 2010 às 20:01
Carlos, como sempre, um comentário bem articulado, a mostrar um leitor atento aos pormenores do texto. Obrigada!

Abraço.

Sol


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